A delimitação prévia do mercado relevante é de fundamental importância, pois mercados mal especificados resultam em estimativas viesadas com relação às evidências de poder de mercado (SEXTON, 2000). Nesse sentido, o mercado relevante deve ser definido tanto na dimensão produto como geográfica. A dimensão produto é o conjunto de produtos no mercado, enquanto a geográfica corresponde a área coberta pelo mercado.
O conceito de mercado antitruste é a definição de mercado estabelecida pela legislação brasileira na análise de condutas anti-competitivas, assim como nos Estados
Unidos15, e nos países membros da União Europeia16. A delimitação baseia-se no teste do monopolista hipotético, que segundo as Secretarias de Acompanhamento Econômico e de Direito Econômico – SEAE/SDE, “consiste no menor grupo de produtos e a menor área geográfica necessários para que um suposto monopolista esteja em condições de impor um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços.” (BRASIL, 2001, p.9)
Embora seja a definição mais difundida e conceitualmente, bastante precisa, o teste do monopolista hipotético enfrenta algumas dificuldades de operacionalização. Segundo Farina et al. (2008), o teste é de natureza hipotética e prospectiva. Faz-se uma conjectura sobre o comportamento dos demais agentes, supondo-se que o agente sob análise adote determinada conduta, como na definição citada, tipicamente uma elevação significativa e não transitória dos preços. Além disso, Possas (2002) destaca o problema complexo da existência e do exercício do poder de mercado, reduzido ao poder de um monopolista hipotético e a grande dificuldade de tratamento da configuração de um mercado mais realista, como o oligopólio, por exemplo.
Nesse sentido, Church e Ware (2000) destacam que na prática, existem duas abordagens utilizadas para definição de mercado. A abordagem direta, baseada na estimação das elasticidades da demanda para os mercados candidatos e, alternativamente, a abordagem estrutural, que se baseia em evidências indiretas para definição do mercado. Decorrente das dificuldades encontradas na operacionalização do teste do monopolista hipotético, a abordagem estrutural ganhou espaço na literatura empírica. A ausência de dados que permitissem economistas estimar as elasticidades de demanda fez surgir um número de abordagens indiretas para delimitação de mercados. Entre as principais estão: (i) correlações de preço e elasticidades-preço cruzadas, (ii) fluxos de transporte; e (iii) outras evidencias quantitativas, como por exemplo, análises de estacionariedade, causalidade e co-integração.
Haldrup (2003) apresenta uma detalhada revisão das técnicas econométricas utilizadas para determinação de mercados relevantes. As técnicas empregadas utilizam dados de preços, de diferentes tipos, para tentar operacionalizar o teste do monopolista hipotético.
A lógica dos testes de comportamento de preços, também chamados de abordagem de co-movimento de preços é que produtos e/ou regiões diferentes deveriam ser agrupadas em um único mercado quando os preços se movessem conjuntamente, em algum sentido bem definido. A ideia básica na definição de um mercado geográfico, por exemplo,
15HorizontalMergerGuidelines
(1997)
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é que em um mercado caracterizado por um produto homogêneo, a arbitragem evitaria que os preços de alguns produtos se movessem independentemente de outros (FORNI, 2004). Esse conceito, parte do teste proposto por Stigler e Sherwin (1985) para definição de mercados. Segundo os autores, os preços dentro de um único mercado deveriam convergir17, sendo que alguma variabilidade seria permitida decorrente dos custos de transporte.
Tendo essa ideia em mente, pode-se definir a primeira condição necessária (porém não suficiente) para determinação de um mercado relevante. A definição parte de um princípio estatístico de que duas séries só podem apresentar movimentos covariantes, se ambas forem estacionárias, ou não, simultaneamente, ou seja, as duas séries só podem apresentar uma tendência comum, se forem integradas de mesma ordem. Nesse sentido, por exemplo, duas regiões só podem pertencer ao mesmo mercado relevante, se o nível de preço de cada região, for integrado de mesma ordem.
Nesse contexto, a delimitação do mercado relevante parte, primeiramente, da identificação das características físico-químicas do produto analisado. Uma vez que o leite constitui um produto perecível, é provável que sua perecibilidade seja um importante limitador da abrangência geográfica do mercado. A partir de então, são realizados testes econométricos para determinar a abrangência (extensão) do mercado. O primeiro teste a ser realizado, como sugere o método proposto por Haldrup (2003), é o teste de estacionariedade das séries para identificação da ordem de integração. Como destacado anteriormente, duas ou mais regiões, só podem pertencer ao mesmo mercado relevante se suas séries de preços forem integradas de mesma ordem.
Os testes de estacionariedade empregados foram os tradicionais testes de Dickey- Fuller aumentado (ADF) e KPSS. O teste ADF é um teste de raiz unitária, em séries temporais, cuja hipótese nula é a existência de raiz unitária na série. Dessa forma, caso a hipótese nula não seja rejeitada, pode-se inferir que a série possui raiz unitária e, portanto, é não-estacionária, caso contrário, rejeita-se a hipótese de raiz unitária em favor da estacionariedade da série. O teste KPSS, entretanto, fornece um teste de hipótese contrário ao teste ADF, pois sua hipótese nula é de estacionariedade, assim, sua rejeição dá indícios de não-estacionariedade da série. No teste ADF, o primeiro passo consiste em determinar o
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A ideia de convergência explicita aqui, entretanto, merece destaque, uma vez que remete ao conceito de convergência absoluta e relativa. Existe convergência absoluta, quando a média da diferença de preços é zero, e de forma contrária, quando a média da diferença dos preços é diferente de zero, tem-se o que é chamado de convergência relativa. A média diferente de zero, nesse caso, não refuta a hipótese de convergência, ela pode existir, porém a diferença entre as séries não é completamente preenchida e essa diferença pode decorrer de diversos fatores, entre eles, custos de transportes, ou alguns tipos de barreiras. Neste sentido, o requerimento dos testes de movimento de preços não é a existência de convergência absoluta, mas sim, convergência relativa
número de defasagens através do critério de informação de Schwartz e para realização do teste de hipótese, foi adotado o procedimento sugerido por Doldado et al. (1990) citado por Enders (1995). No teste KPSS foi testado apenas o modelo com constante e tendência.
Determinada a ordem de integração das séries, o passo seguinte consiste na
comparação, em pares, das séries de preços através do coeficiente de correlação simples. Se as séries de preços possuem alguma tendência comum ao longo da amostra, é de se esperar que o coeficiente de correlação entre elas seja alto. Uma dificuldade dessa técnica, entretanto, consiste em determinar um valor crítico do coeficiente de correlação para que duas regiões sejam consideradas pertencentes ao mesmo mercado relevante. Haldrup (2003) sugere que um valor crítico pode ser obtido comparando os coeficientes de correlação entre mercados em que exista convicção de que eles sejam integrados, como por exemplo, duas regiões vizinhas. Outro problema com o teste de correlação simples refere- se ao caso em que as séries são I(1). Quando as séries em questão são não estacionárias, o cálculo dos coeficientes resultará em valores elevados, provavelmente, devido a existência de relação espúrias.
Nesse sentido, com intuito de contornar problemas com eventuais séries que não sejam estacionárias em nível, adota-se um terceiro método baseado no conceito de co- integração. Dois testes são propostos na literatura. O primeiro, proposto por Forni (2004), consiste num método simples e direto para testar a hipótese de co-integração entre pares de séries. Seguindo a intuição já descrita aqui, o autor argumenta que uma condição necessária para dois produtos ou regiões pertencerem ao mesmo mercado relevante é que o logaritmo natural da razão dos preços seja estacionário. O procedimento proposto é o cálculo da seguinte expressão ln
(
pit p2t)
e, logo após, aplicar testes de estacionariedade na nova série. Se os testes indicarem não-estacionariedade, concluí-se a favor da existência de mercados distintos. Do contrário, se a hipótese de estacionariedade não puder ser rejeitada, novamente, essa seria uma condição necessária, porém não suficiente para a existência de um único mercado. Segundo o autor, isto é consequência do argumento feito anteriormente sobre arbitragem, o qual é inerentemente assimétrico: enquanto não- estacionariedade implica mercados diferentes, estacionariedade também poderia ser observada, até mesmo, se os mercados fossem distintos (um exemplo claro é quando as duas séries de preços são estacionárias em nível, e consequentemente, o logaritmo da razão entre elas também é estacionário). Entretanto, se os preços são não-estacionários em nível e sabe-se que eles foram afetados por diversas fontes de variação, a conclusão de estacionariedade, pode ser interpretada como uma indicação favorável de um mercado único. (HALDRUP, 2003).Esse teste, embora tenha aplicação simples e direta, assim como o teste de correlação simples, encontra uma série de críticas na literatura, principalmente, pela sua natureza de comparação apenas em pares de mercados. Haldrup (2003) discute que os testes empregados até aqui, assumem a comparação apenas de duas séries simultaneamente, e que em muitos casos, existe interesse de comparação simultânea de mais do que duas séries. Nesse sentido, o autor propõe uma segunda abordagem, baseada num teste de co-integração de múltiplas séries de preços simultaneamente. A intuição do teste de co-integração é que dado que existam q series de preços p1t, p2t, ..., pqt, sendo que
todas são I(1), se quando observadas conjuntamente, for encontrado alguma tendência comum entre as elas, pode-se dizer que as séries são co-integradas. A rigor, duas ou mais séries estão co-integradas quando as mesmas se movem conjuntamente no tempo e suas diferenças são estáveis (estacionárias), mesmo quando cada série em particular tenha uma tendência estocástica e seja, portanto, não estacionária. A co-integração reflete a presença de uma força de atração (um equilíbrio de longo prazo) que “amarra” as séries conjuntamente (para o qual as séries convergem no longo-prazo) (HALDRUP, 2003). Portanto, dadas q séries de preços, se existirem r combinações lineares (denotado pelo rank de co-integração) estacionárias, existem q – r tendências estocásticas comuns dirigindo as séries. Como exemplo, considere q – r = 1, no caso onde q = 3 e r = 2, significa que existe uma tendência estocástica comum, influenciando os três preços conjuntamente. Em termos de delimitação de mercado, isso significa que a tendência que liga os preços em cada mercado é a mesma por que as commodities pertencem a um mercado comum. Outro exemplo seria o caso onde q = 4 e r = 2. Neste caso, existem duas relações de atração e duas tendências estocásticas comuns (q – r = 2) influenciando as quatro séries de preços. Uma maneira natural de interpretar essa possibilidade é que os quatro preços pertençam a dois mercados separados, cada qual dirigido pela sua própria tendência nos preços.
A expectativa é de que como o procedimento iniciará de um mercado mais restrito, passando, posteriormente, para um mercado mais abrangente, os testes permitam delimitar o mercado relevante de forma precisa. O procedimento utilizado para testar a estacionariedade do logaritmo natural da razão dos preços, proposto por Forni (2004), serão os mesmos testes utilizados na determinação da ordem de integração das séries, ou seja, os testes ADF e KPSS. Para o teste de co-integração de múltiplas séries de preços simultaneamente será utilizado o teste de co-integração proposto por Johansen (1991).