Em seu trabalho, Winnicott não dá muita ênfase ao papel do pai na constituição do psiquismo ou na estruturação do sujeito. Essa particularidade já levou muitos a afirmarem que o que ele fazia não era psicanálise, ou que ele menosprezava essa dimensão da constituição psíquica.
Muitos se levantaram em defesa de Winnicott ao longo dos anos, e não me parece necessário retomar a discussão tout court; suponhamos que Winnicott se deteve em outro aspecto do desenvolvimento subjetivo e que essa ênfase teve papel decisivo em seu desenvolvimento teórico e em seu estilo clínico. Não sendo relativistas ou superficiais, podemos compreender que esse estilo e essa ênfase têm consequências para a estruturação do pensamento do autor, sem com isso considerar necessário julgá-lo “membro” ou não da psicanálise, devendo, ao mesmo tempo, estarmos atentos para as implicações da problemática abordada por Winnicott em relação ao campo da psicanálise como um todo. Considerando o papel do pai para a teorização da influência e da autorização a partir dos trabalhos de Bloom e Britton, é possível supor que a singularidade da abordagem de Winnicott pode sugerir nuances e ângulos diferentes para a abordagem do problema.
Clancier e Kalmanovitch ([1984] 1987) afirmam:
Preocupado principalmente com pacientes psicóticos ou crianças muito novas, sua atenção foi atraída para os estágios pré-genitais; isso não impediu que enfatizasse o papel do pai desde o princípio ou que declarasse que se a mãe não tivesse um marido que a apoiasse, ou mesmo se não catexizasse o pai da criança, o desenvolvimento psíquico dessa criança seria prejudicado (p. 95, tradução minha).
afirmam que Winnicott não enfatizou o papel do pai em seus trabalhos por estar preocupado com subjetividades que chamavam a atenção para a dimensão pré-genital, implicitamente sugerindo que o papel do pai conforme é “cobrado” de Winnicott diz respeito ao desenvolvimento da sexualidade genital; ao final, afirmam que ele enfatiza, sim, o papel do pai, mas em relação a outra dimensão do papel paterno. No primeiro movimento, consideram que o papel do pai que os autores procuram e não encontram só vai surgir com os estágios genitais do desenvolvimento, e que, por preocupar-se com estágios mais precoces de desenvolvimento, Winnicott não se debruça sobre a questão; no movimento seguinte, afirmam que ele aborda, sim, o papel do pai – mas outro, não aquele esperado.
Outeiral e Celeri18 admitem basicamente duas “funções paternas” no desenvolvimento inicial do bebê conforme abordado por Winnicott: a primeira delas diz respeito à garantia das condições para a preocupação materna primária ou o “emolduramento” da unidade mãe-bebê, que é seguida – temporal e teoricamente – pela função paterna de ser a primeira pessoa inteiramente externa ao bebê com quem ele trava contato não-traumático (quando tudo vai bem), participando como “coadjuvante privilegiado” no processo de desilusionamento do bebê. Quanto ao primeiro aspecto, afirmam: “O pai torna-se o agente protetor que libera a mãe para que esta se dedique ao bebê. Assim, ela é poupada da necessidade de voltar-se para fora para lidar com o mundo que a cerca no momento em que tanto deseja voltar-se para dentro” (OUTEIRAL; CELERI, 2002, p. 763, 771-773).
A função paterna delineada por Winnicott poderia ser considerada “menor”, “desprivilegiada”, se fosse entendida simplesmente como “pôr o pão na mesa”; qualquer um que tenha acompanhado a etapa final de uma gestação e os primeiros momentos de um bebê na relação com sua mãe sabe, no entanto, que a “provisão ambiental” em causa aqui é muito mais complexa que isso. E a mãe que imerge nessa relação com o bebê precisa estar amparada psicológica e materialmente, posto que passará com o bebê por um processo que, desguarnecido, é um processo “patológico” – a mãe não consegue garantir sua sobrevivência ou a do bebê sozinha, em função de sua devoção ao processo pelo qual
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Embora hoje esteja claro para mim que Winnicott tem uma teorização consistente no que diz respeito ao papel do pai, esse ponto é pouco enfatizado e brevemente abordado na maior parte de sua obra. De fato, não sei se eu teria conseguido abordar o tema se não fosse pela sistematização oferecida pelos autores citados.
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ambos passam.
Há ainda outra dimensão da função paterna própria à teorização winnicottiana apontado por Outeiral e Celeri, que é o papel do pai como “primeira pessoa completamente não-eu”, e esse papel é bastante marcado no próprio processo por que passa o bebê, porque mesmo que “a relação com a mãe assuma uma nova dimensão quando acaba a fusão, para o bebê e para a criança pequena a mãe ainda retém uma característica subjetiva, pois é parte de sua função estar disponível para uma volta ao estado de fusão sempre que o bebê precisar” (OUTEIRAL; CELERI, 2002, p. 772).
Na medida em que abandonamos o momento da dependência absoluta e da indistinção entre eu e não-eu, passamos a lidar com as complexidades e os paradoxos da relação de objeto conforme elaborada a partir de Winnicott. Ele propõe uma mudança no conceito psicanalítico de “princípio de realidade” quando afirma que a realidade é construída pelo sujeito, e que a possibilidade de que a realidade atue como frustração ou como parâmetro ou como imposição ao sujeito depende de sua construção subjetiva – por isso, afirmo que, se o pai aparece nesse momento como “primeiro objeto não-eu”, isso não é necessariamente tranquilo, e certamente está associado aos processos de construção subjetiva atravessados pelo bebê. E o bebê que percebe seu pai como um não-eu, usando-o na constituição da realidade, está passando pela
coisa mais difícil, talvez, do desenvolvimento humano; ou a mais incômoda de todas as falhas iniciais que devem ser cuidadas, [...] a localização por parte do sujeito do objeto fora da área de controle onipotente; ou seja, a percepção pelo sujeito do objeto como um fenômeno externo (WINNICOTT, [1968] 2010, p. 120, tradução minha).
Se de fato é disso que se trata, então esse papel do pai diz respeito à passagem, genialmente elaborada por Winnicott, da relação de objeto ao uso de objeto. Para ele, a psicanálise havia se dedicado bastante à questão das relações de objeto e tinha muito a dizer sobre o processo, mas havia muito pouco material disponível no que dizia respeito ao uso de objetos (WINNICOTT, [1968] 2010, p. 115). Essa, na verdade, parece ter sido a pedra de tropeço de Winnicott: incrustar no pensamento psicanalítico, e no sujeito psicanalítico, e na relação do sujeito com o ambiente, a presença do ambiente e do favorecimento ambiental (“o que está no sujeito já esteve fora, e o que está fora já esteve lá, e o que é dentro também é fora”, e o paradoxo deve ser aceito e não resolvido).
das pessoas, e que os demais “saberes” procuravam compreender as pessoas a partir do “espaço externo”, ele afirma: “estou tentando chegar ao espaço entre esses extremos” (WINNICOTT, [1968] 2010, p. 141).
Há um espaço potencial entre o espaço psíquico que chamamos de subjetividade e o que chamamos de objetividade, que é o que situamos fora de nós mesmos. Se esse é o convite de Winnicott, talvez encontremos suas maiores contribuições à questão da autoria e da influência em outro lugar que não em sua problematização sobre a função paterna. Talvez sua maior contribuição esteja – se isso é possível – na reversão do dilema do autor em um paradoxo e na proposta posterior de aceitação do paradoxo.
Com isso, o dilema de estabelecer-se à sombra ou procurar um lugar ao sol passa a ser um paradoxo: o autor constrói seu lugar à sombra de seu predecessor, encontrando lá a porção de sol de que precisa, a partir do uso que faz de seu predecessor. O “tantinho de trabalho” que Freud tinha à sua frente está presente em todos os trabalhos de todos os outros psicanalistas, que se situam em sua prática à sombra fornecida por Freud, à luz das descobertas de Freud. O predecessor frustra o “autor ansioso” com sua existência independente-do-autor; o autor irado afirma “eu o destruí”, e o predecessor está lá para receber a comunicação.
“A partir daí o sujeito diz ‘olá, objeto!, eu o destruí. Eu te amo. Você tem valor para mim por ter sobrevivido à minha destruição de você. Enquanto eu estou te amando eu estou todo o tempo te destruindo em minha fantasia (inconsciente)’” (WINNICOTT, [1968] 2010, 120-121).
Talvez a contribuição mais incisiva de Winnicott ao campo da influência e da autorização seja esta: sugerindo que todos os processos superados continuam em desenvolvimento conforme o sujeito segue sua vida, e afirmando que as linguagens específicas não são apropriadas, mas devem ser levadas em consideração, Winnicott imbrica a tradição na criação, e a criação na tradição, desmobilizando o sistema de autoassassínio que, ademais, estaria em operação nos jogos de influência. Talvez Clancier e Kalmanovitch estejam certas quando afirmam, como o fizeram no trecho citado, que Winnicott não enfatizou o papel do pai por ocupar-se de psicóticos e recém-nascidos; mais do que isso, no entanto, ele não enfatiza o papel do pai conforme seria esperado de um psicanalista comportado, porque ele subverte a primazia do princípio de realidade e da frustração.
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depende de conquistas anteriores: a possibilidade de existir, a possibilidade de existir no tempo, a possibilidade de separar o mundo “lá fora” do mundo “interior”. Para ele, essas conquistas são construídas na relação inicial do bebê com a mãe, ao longo da qual não se pode falar em sujeito nem em objetos internos, e em meio à qual o mundo é primeiro onipotentemente criado, e depois destruído para, só então, passar a existir como objeto. Winnicott embute uma dimensão de constituição entre o nascimento do bebê e o surgimento do aparelho psíquico conforme abordado por Freud e por Klein; essa problemática trabalhada por ele poderia ser considerada um “especialismo”, a “psicanálise para recém-nascidos”, se ela não operasse retroativamente sobre o pensamento psicanalítico estabelecido – o que não é o caso. O papel do pai como castrador, como frustrador, como iniciador do sujeito na “mediocridade cotidiana” que seria a vida, tudo isso é certamente posto sob suspeita por Winnicott.
Já sugeri antes que o modus operandi de Winnicott pode ser considerado como uma forma refinada de não-violência. Nesse caso, sugiro que a não-violência dele tem como reivindicação um lugar no sujeito para a criatividade não-ressentida, assentada sobre uma relação de criação, co-criação e destruição do predecessor; o pai (e, a partir dele, o ambiente), em Winnicott, muda definitivamente a problematização da influência. Dizem que Winnicott decidiu se tornar médico quando quebrou a clavícula, para que “nunca mais dependesse de um médico” (RODMAN, 2003; KAHR, 1996); podemos sugerir parodicamente que ele decidiu se tornar psicanalista para nunca mais depender de um pai (pai frustrador e castrador, que esteja claro).
Constantemente frisa-se que, para Winnicott, não existe originalidade se não a partir da tradição; o ponto curioso é que a própria tradição é criada: o criador cria o que existe, e só depois cria a partir do que existe. Como diz Brett Kahr: “As teorias de Winnicott anunciam sua própria originalidade; elas parecem exigir do leitor que busque as origens desse pensamento não na tradição, mas sim em um criador – D. W. Winnicott” (KAHR, 1996, p. xxiv, tradução minha). Winnicott se assenta na tradição, mas é ele quem inventa a tradição que segue – talvez não seja à toa que ele seja considerado representante eminente da Tradição Independente na psicanálise britânica. A paralaxe que Winnicott impõe à problemática da influência diz respeito à mudança na destinação da angústia: da angústia de autorização à angústia de autenticidade.