As múltiplas inseminações durante o estro é um procedimento padrão utilizado na maioria das granjas, devido a duração relativamente longa do cio, com horários de ovulação muito variáveis do ponto de vista individual e de rebanho. De acordo com Crabo e Dial (1992) uma dupla inseminação aumenta a taxa de parto de 8 a 12% e o tamanho da leitegada em 0,2 leitões, e ainda, uma terceira inseminação pode oferecer uma leve vantagem nos índices reprodutivos (Tilton e Cole, 1982). Na maioria das fêmeas, quando se utilizam duas inseminações, a intervalos de 24 horas durante o estro, uma delas poderá ocorrer suficientemente próxima do momento da ovulação, de forma a garantir o sucesso da fertilização e, conseqüentemente, do desempenho reprodutivo.
Entretanto, Dewey et al. (1995) não encontrou nenhuma associação entre o número de coberturas e o tamanho de leitegada. Além disso, LaPierre (1994), citado por Rozeboom et al. (1997) sugerem que três inseminações, realizadas à intervalos de 24 horas durante o estro, podem ser prejudiciais à fertilidade e aumentar a incidência de descarga vaginal.
Sabe-se que o excesso de sêmen e produtos inflamatórios necessitam ser eliminados do útero para garantir um ambiente uterino adequado antes da descida dos embriões (Pope et al., 1990). Ainda, de acordo com Bower et al. (1974), a contratilidade uterina sofre uma redução drástica ao final do estro, o que dificulta a limpeza ou “clearance” uterino.
Segundo Rozeboom et al. (1997), têm sido observada uma redução da fertilidade e do tamanho da leitegada quando a última de múltiplas inseminações é realizada durante o final do estro ou no metaestro. Apesar de existirem relatos de que uma terceira inseminação melhora a performance reprodutiva, os autores mencionados anteriormente demonstraram que uma inseminação ao final do estro, pode de fato, prejudicar a eficiência das inseminações anteriores. Nesse trabalho, leitoas e porcas foram inseminadas a intervalos de 24 horas, imediatamente após a detecção do estro, enquanto as fêmeas do grupo controle foram inseminadas apenas uma vez no primeiro dia do estro, quando não apresentavam cio no segundo dia, ou em ambos os dias, se ainda estivessem em cio no segundo dia. As fêmeas do grupo testado foram inseminadas da mesma maneira que as do grupo controle, e então, novamente inseminadas 24 horas após a última IA, independentemente de estarem ou não em estro. A última IA causou uma redução da taxa de parto das fêmeas de ordem de parto 1 e 2 (23 e 22%, respectivamente), bem
como no tamanho da leitegada em 1,1 leitões por leitegada, independentemente da ordem de parto. Além disso, não foram observadas diferenças no tamanho de leitegada e taxa de parto nas fêmeas em estro inseminadas tardiamente, quando comparadas às que estavam em metaestro, no momento da última IA. Os autores relatam, ainda, que os resultados não indicam que três inseminações ou inseminações à intervalos de 24 horas deveriam ser evitadas, mas sim, que a última inseminação não deveria ser realizada durante o final do estro ou metaestro.
Em outro estudo, De Winter et al. (1992) demonstraram que fêmeas suínas inoculadas com bactérias durante o final do estro e metaestro foram mais susceptíveis à infecção uterina que as inoculadas durante o início e meio do estro. Os autores concluíram que a endometrite, presença de corrimento vaginal e menor fertilidade são mais comuns em granjas nas quais as fêmeas são inseminadas tardiamente durante o estro, devido à falhas na sua detecção.
Bortolozzo et al. (2005b) inseminaram leitoas, utilizando doses com 4 x 109 de espermatozóides, 12 horas após o início, sendo as inseminações repetidas a cada 12 horas (duas vezes ao dia) ou 24 horas (uma vez ao dia) durante o estro. Os autores não encontraram diferenças entre leitoas inseminadas uma ou duas vezes ao dia para taxa de retorno ao estro e taxa de parto ajustada. Entretanto, leitoas inseminadas apenas uma vez ao dia apresentaram uma redução de 1,2 leitões, quando comparadas com às inseminadas duas vezes.
Com o objetivo de investigar o efeito da freqüência de cobrições sobre a fertilidade e tamanho da leitegada de fêmeas suínas, Xue et al. (1998a) realizaram um estudo retrospectivo envolvendo os dados de registro reprodutivo de 20 granjas, durante
um período de sete anos. Foram utilizados, para este fim, 153.936 eventos de cobrição, onde a monta natural foi utilizada. Fêmeas cobertas uma, duas ou três vezes durante o estro foram incluídas no estudo. Os resultados demonstraram que leitoas cobertas apenas uma vez durante o estro, apresentaram as menores taxas de concepção, de parto e de parto ajustada, se comparadas às leitoas cobertas duas vezes. Do mesmo modo, porcas cobertas apenas uma vez, tiveram uma redução nas taxas de concepção, parto e parto ajustada quando comparadas às cobertas duas vezes. Entretanto, não observou-se qualquer diferença nas taxas de fertilidade entre fêmeas cobertas duas ou três vezes durante o estro. O tamanho da leitegada só foi influenciado pela freqüência de cobrições em leitoas. As leitoas cobertas uma vez apresentaram menor número de leitões nascidos totais e nascidos vivos em relação às cobertas duas ou três vezes. Por outro lado, não houve diferença entre as cobertas duas ou três vezes, em relação as características de leitegada. Assim, concluiu-se que duplas cobrições, utilizando-se a monta natural, melhoram as taxas de fertilidade, e o tamanho da leitegada em leitoas. Além disso, cobrições triplas durante o estro, não melhoraram as taxas de fertilidade nem o tamanho da leitegada, quando comparadas com as duplas cobrições.
Em outro estudo semelhante, Xue et al. (1998b) avaliaram o efeito da freqüência de cobrições sobre a performance reprodutiva de 256 leitoas e 766 porcas, cobertas através de monta natural, uma, duas ou três vezes durante o estro. Os autores demonstraram que leitoas e porcas cobertas três vezes não apresentaram superioridade quanto à taxa de parto e tamanho da leitegada, quando comparadas aos resultados obtidos com cobrições simples ou duplas durante o estro. Para as porcas, não houve diferença nas taxas de parto e tamanho da leitegada, quando cobertas uma
ou duas vezes por estro. Entretanto, leitoas cobertas duas vezes durante o estro apresentaram maior tamanho de leitegada que as submetidas a uma única cobrição (9.7 vs 8.6 leitões, respectivamente).
Recentemente, Braga et al. (2009a) inseminaram 70 fêmeas primíparas e multíparas, as quais foram monitoradas quando do início do cio três vezes ao dia, a partir do dia do desmame. As fêmeas em cio na manhã eram inseminadas na noite do mesmo dia, enquanto as apresentando cio à tarde ou à noite eram inseminadas na manhã do próximo dia. O intervalo entre inseminações, da primeira à terceira IA, foi de 12 horas, sendo que as fêmeas só foram
inseminadas pela quarta vez quanto permaneciam em cio por mais que 24 horas após a terceira inseminação. De acordo com os autores, fêmeas submetidas a quatro inseminações artificiais responderam com menor taxa de prenhês, havendo uma redução de 16,45% quando utilizou-se quatro inseminações por estro, como demonstrado na tabela 6. Os autores concluíram que dentro do estabelecido pela literatura, de que as ovulações ocorrem quando transcorridos cerca de 70% da duração do estro, pode ser que muitas inseminações, notadamente a quarta tenha ocorrido em momento inoportuno, do ponto de vista endócrino e conseqüentemente de defesa uterina.
Tabela 6. Efeito do número de inseminações sobre a taxa de prenhes, nascidos totais e vivos de fêmeas suínas
Número de inseminações
Prenhes % Nascidos Totais Nascidos Vivos
3 Ias 94,59 (35/37)a 13,78 ± 3,67 12,69 ± 3,27
4 Ias 78,13 (25/32)b 11,65 ± 3,86 10,43 ± 3,35
Total 86,96 (60/69) - -
a,b Médias na mesma coluna, seguidas por letras diferentes, diferem (p<0,05).
Atualmente existe uma grande variedade de protocolos envolvendo o momento ideal para realizarem-se inseminações em fêmeas suínas, o que resulta em diferentes médias, no que se refere ao número de inseminações/fêmea coberta.