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De acordo com Gohn (1999, p.21) o conceito de “cultura política” é um “derivativo” do de cultura,104 representando um “recorte no mundo dos fenômenos políticos”. Almond e Powell J.105 apresentam uma definição de cultura política, bastante popularizada, que a entende como “[...] o padrão de atitudes e orientações individuais com relação à política, compartilhadas por membros de um sistema político.”106

Aprofundando seu esclarecimento poder-se-ia acrescentar que a cultura política incluiria conhecimentos, crenças, sentimentos e compromisso com

104 “A cultura” é entendida aqui “[...] como ordem simbólica por cujo intermédio homens determinados exprimem de maneira determinada suas relações com a natureza, entre si e com o poder, bem como a maneira pela qual interpretam essas relações [...]”. ( CHAUI, 1982, p.45, grifo nosso).

valores políticos e com a realidade política. “O seu conteúdo é resultado da socialização na infância, da educação, da exposição aos meios de comunicação, de experiências adultas com o governo, com a sociedade e com o desempenho econômico do país”. (RENNÓ, 1998, p.71). Quer dizer que conforma, no mínimo, ligações de identidade em um coletivo de agentes sociais, graças ao conjunto de valores e representações simbólicas sobre a realidade social, que articula e orienta suas ações políticas.

Há ainda, a definição mais cuidadosa elaborada por Bobbio, Mateucci & Pasquino, lembrada por Gohn (1999, p.59, grifo nosso), que diz referir- se a cultura política ao

[...] conjunto de atitudes, normas e crenças mais ou menos partilhadas pelos membros de uma determinada unidade social e que não deve ser vista como algo homogêneo; [já que] ela é composta por um conjunto de subculturas presentes nas atitudes, normas, valores etc.

Com base nos estudos sobre cultura política é possível concluir, por exemplo,

[...] que em nenhuma sociedade há uma cultura política homogênea. As principais diferenças existentes ocorrem entre cultura política das elites e das massas. Outra diz respeito ao embate entre valores modernos e tradicionais. O choque entre as diferentes subculturas não está descartada. (RENNÓ, 1998, p.81).

Supõe-se aqui que a experiência histórica de vivência dos indivíduos, num dado território, submetido a determinado regime político, é um dado relevante na consideração das variáveis que colaboram na composição do conteúdo da cultura política de um povo. Trata-se de considerar a “cultura política como espaço de fusão entre a tradição e a inovação”. Não se trata de ver o fenômeno da cultura política

[...] como legado histórico, mas como prática viva e atuante. A interação permanente entre valores antigos (que persistem por meio das tradições) e valores novos (que são agregados ao repertório das pessoas). [...] faz com que a cultura política seja resultado de um 106 Sínteses do debate em torno da teoria da cultura política podem ser encontradas em RENNÓ (1998) e CRIPPA (1979), inclusive com anotações sobre as lacunas e limites dessa teoria.

processo que a constrói cotidianamente, por meio de um jogo de reciprocidade. (GOHN, 1999, p.52-57).

O fato de se poder falar ou observar a presença de um padrão cultural geral no interior de uma nação não impossibilita a convivência de subculturas nesse ambiente. Nessa interpretação, cada nação seria formada por um conjunto de culturas. As culturas políticas são, de fato, culturas mistas. Podemos observar, então, variações na cultura política conforme os contextos espaciais, por exemplo, nos quais o locus residencial aparece como uma variável influente na definição da subcultura presente.

Os contextos sócio-históricos com suas respectivas estruturas políticas dominantes, garantem, a despeito da presença de um padrão geral da cultura política de uma nação, certa variação interna, quebrando qualquer possibilidade de uma imagem homogênea de tal cultura política. Seus aspectos comuns, ligados ao padrão geral, garantem a adaptação instável ao status quo e suas variações em subculturas políticas explicam o caráter precário dessa adaptação e os percalços aos quais a “ordem política dada” está sujeita permanentemente. Por isso, dentro de cada nação pode-se observar uma mistura de diferentes culturas políticas.

De acordo com Dulci (1984, p.12), é possível se falar, então, em “subculturas políticas”, quando um conjunto particular de orientações políticas distingue-se de outros no sistema cultural geral. Crê-se, portanto, haver certas especificidades de comportamento político de grupos locais, com particularidades em suas orientações e em sua postura política, sugerindo a possibilidade da existência de subculturas políticas locais.

A importância de buscar a compreensão do fenômeno da subcultura política se refere ao fato de que a subcultura cumpre um papel marcante no funcionamento de estruturas políticas autoritárias, como é o caso em pauta. Conforme Evers (1984, p.15), “[...] são os milhões de pequenos atos quotidianos de obediência irrefletida à ordem existente que criam, reproduzem e reforçam as estruturas sociais”. No caso da reprodução das estruturas políticas em específico, não é diferente. Ele continua, explicando que

[...] esta prática diária é pré-representada nos indivíduos através dos modos de percepção, crenças, valores e orientações, a maior parte

deles operando inconscientemente. Nenhuma estrutura de dominação social poderia resistir se não existisse essa representação nos planos sócio-cultural e psíquico-social. (EVERS, 1984, p.15).

Por certo que o exercício efetivo do poder que se dá, por exemplo, através do Estado e de suas instituições é, também, vivenciado através das representações que cercam esse poder e da noção de autoridade que o acompanha.

Na compreensão de processos políticos são vários os elementos que devem ser considerados. Por exemplo: as características da estrutura política subjacente (a estrutura organizativa, a legislação e as normas); a influência de “elites relevantes”; variáveis estruturais como condições sócio-econômicas dos sujeitos envolvidos etc. E, não com menor importância, é preciso dar atenção à variável relativa às orientações subjetivas da ação política dos indivíduos deste processo, ou seja, o tratamento da cultura política, da subcultura política e da ideologia que colaboram na organização de tal processo.

Se, por um lado, a estrutura política promove aspectos da cultura política, por outro,

[...] a feição e a plasticidade atribuídas à estrutura política refletem necessariamente a cultura política, isto é, as disputas políticas, as concepções com que os atores participam delas, e os padrões de comportamento que, herdados do passado ou transformados no presente, ajudam a moldá-las; [portanto] o mais apropriado seria falar [...], de uma ‘influência recíproca entre ação e crenças políticas’, para explicar os processos que influem na mudança dos regimes políticos, ou ainda, na permanência de regimes políticos. (MOISÉS, 1995, p.96-7).

Um pressuposto presente na observação anterior é o de que há “padrões de comportamento político, concepções políticas e formas de disputa política”, que ajudam a moldar a “feição e a plasticidade” das estruturas políticas atuais.

A hipótese dada é a de que há uma forte relação de influência entre estrutura política e cultura política, entre estrutura política e práticas políticas. Por exemplo, estruturas políticas fechadas, excludentes, com pouco espaço à representação dos variados interesses dos grupos que ela regula, vai por inércia e, algumas vezes, por deliberação, estimular comportamentos políticos que aceitam

tais características acomodando-se a ela, a partir da incorporação de concepções políticas que a justificam, que a explicam: no caso, concepções marcadas por forte conformismo e apatia. Esta aceitação pode levar a comportamentos que procuram caminhos de ação política que escapem da total submissão aos limites impostos pela estrutura excludente, mas que também não a contestem diretamente, implicando numa fraca influência de modificação: é o caso de alternativas de comportamento ancoradas no “compadrio”, no “favor”, no personalismo, no “bairrismo” etc.

Não é impossível também, que a mesma estrutura, pela exclusão que impõe a certos indivíduos/grupos, acabe por estimular sua reação contestatória a esta estrutura. Neste caso, as alternativas de ação política envidadas orientam-se para o confronto com a estrutura dada, objetivando sua transformação: pelo desnudamento do seu caráter de elite (sua apropriação por poucos), pela reivindicação da institucionalização de novos espaços e canais de representação de interesses, etc.

Embora a relação entre estrutura política e comportamento político seja de determinação recíproca, é possível admitir que a tendência do movimento seja favorável ao prevalecimento da influência da cultura política advinda das orientações e indicações fornecidas pela estrutura dada (normas e regras de funcionamento da organização política, legislação geral, etc), já que esta será, em última instância, expressão das forças dominantes em jogo. Dessa maneira, nos aspectos gerais, a cultura política consoante a esta tendência terá como parte principal de seu conteúdo a ideologia política das classes dominantes.

Por último, resta o alerta feito por Chaui (1982, p.46), quanto aos riscos de uma “atitude romântica” em relação à análise da cultura e em especial à “cultura do povo”, que muitas vezes “[...] não só esquece o problema da alienação e da reprodução da ideologia dominante pelos dominados, como também esquece de indagar se, sob o discurso “alienado”, submisso à crença nas virtudes de um poder paternalista, não se esconderia algo que ouvidos românticos não são capazes de ouvir”.

2.2 Possibilidades de uma Subcultura Política do Clientelismo: Práticas,

Benzer Belgeler