O mito de Hefesto retrata o processo de uma exclusão cruel sofrida por ele e maquinada por seus próprios pais que não aceitavam gerar um filho com deficiência física, como também a exclusão através dos insultos depreciativos pelos quais os outros deuses lhe chamavam. Por outro lado, vemos uma forma de compensação de sua deficiência ao tornar-se o único senhor do ferro e das forjas, o excelente ferreiro, habilidade esta que o faz voltar para o Olimpo e forjar tanto joias preciosas para adornar as deusas do Panteão, quanto as muitas armas que venceram grandes batalhas.
O retorno ao Olimpo se dá quando Hefesto para vingar-se de sua mãe, faz para ela um trono de ouro e o envia de presente. Só que quando Hera se senta nele, aplaudida por todo o restante dos deuses, fica presa por mãos e fios invisíveis. Liz e Burker (2001) afirmam que muitos deuses tentaram soltá-la, mas somente Hefesto o poderia fazer. Para tanto, Ares tentou arrasta-lo à força, mas este lhe atirou tições em brasa. Depois foi a vez de Dionísio que conseguiu embriaga-lo e leva-lo ao Olimpo. Diante das várias tentativas frustradas para soltá- la, o próprio Zeus pede que Hefesto liberte sua mãe e ele estabelece uma condição para que isso aconteça: voltar ao Olimpo e casar-se com a deusa Afrodite, o que foi de pronto atendido. Casado com Afrodite, esta posteriormente o trai com Ares, o deus da guerra, em seu próprio leito matrimonial. Hefesto desconfiado prepara uma armadilha para o casal que ao deitar fica preso numa rede invisível de fios finos e fortes dos quais ninguém escaparia. Nus e enrolados nos braços um do outro, são elevados para o alto onde ficam se debatendo para que todos os outros deuses fiquem sabendo e constatem o ocorrido. Os deuses do sexo masculino caíram na gargalhada e posteriormente pedem a Hefesto que soltem os dois amantes, o que é atendido por ele que esperava receber uma indenização pela injúria sofrida. Se sentindo humilhado, Hefesto coloca na própria deficiência o motivo da traição e culpa os pais por haver nascido imperfeito.
Por coxo a Dial Vênus me desonra, Amando ao sevo Marte, que é perfeito: Se esta lesão me afeia, é toda a culpa De meus pais, que gerar-me não deviam. (Canto VIII da “Odisséia”, de Homero).
Silva, N. (2010) analisa que o mito de Hefesto demonstra, primeiro, o drama íntimo da não-aceitação e a atitude subserviente decorrente de uma baixa estima pessoal, fazendo dele o mais prestativo e humilde entre os deuses do Olimpo. Mas também por outro lado, mostra a sua competência em organizar um flagrante incontestável ao expor e prender Ares, o mais veloz dos deuses e Afrodite, a mais bela de todas as deusas. Homero (idem, p.90) diz que os próprios deuses valorizaram as habilidades de Hefesto ao fazerem este comentário: “O manco ao mais veloz prendeu com arte”.
O mito de Hefesto, além de ser emblemático, por demonstrar como as pessoas com deficiência procuram e podem compensar suas dificuldades relacionais e ambientais, permite a análise da possibilidade da superação da deficiência, visualizada no aprendizado técnico que lhe confere o domínio da profissão (no caso, de ferreiro) e também na postura não apenas reativa, mas proativa, descrita na arquitetura da teia com que prende e expõe a mulher adúltera e seu amante à sociedade do Olimpo. (SILVA, N., p. 103, 2010)
Hefesto exercia com exímia perfeição sua profissão. Silva (2009) cita alguns de seus trabalhos a exemplo dos raios utilizados por Zeus, o tridente de Poseidon (Netuno), a couraça de Héracles (Hércules), as flechas de Apolo e as fulgurantes armas de Aquiles na Guerra de Tróia.
Já na sua versão Romana enquanto Vulcano, Madjarof (2011) diz que ele construiu cadeiras que se dirigiam sozinhas à assembleia dos deuses, o palácio do Sol, as armas de Aquiles, as de Enéias, o cetro de Agamemnom, o colar de Hermione, a coroa de Ariana, a rede invisível em que prendeu Marte e Vênus, além de fabricar a primeira mulher, Pandora. A autora ainda continua descrevendo as artes de Vulcano:
É o divino obreiro do Olimpo, e os deuses lhe deviam quase tudo o de que se utilizavam. A égide e o cetro de Júpiter, o trono do Sono, a coroa de Ariadne, o colar da Harmonia, os touros de bronze que guardavam o velocino de ouro, as armas de Aquiles, eram trabalhos de Vulcano. Era ele, ademais, autor do carro do Sol, e fizera para Apolo uma admirável flecha que, após atingir o alvo, voltava por si à mão que a havia lançado. (MADJAROF, 2011)
Hefesto tinha como seus ajudantes os ciclopes1 que os ajudavam na forja dos raios de Zeus. Por que será que Hefesto os escolheu para serem seus ajudantes? Será que o fato de serem disformes, tidos como monstros em sua aparência física, não fez com que Hefesto os ensinassem uma profissão assim como as nereidas fizeram com ele? Ou talvez não ocorresse o contrário, isto é, os ciclopes foram em busca de Hefesto para trabalhar com ele temendo atitudes preconceituosas? Isto a narrativa mítica não explica, ficando ao encargo do imaginário de quem lê tentar decifrar.
Hefesto também tinha duas estátuas de bronze devidamente articuladas, fabricadas por ele para serem suas ajudantes as quais ele deu a forma de “duas lindas jovens, que se movimentavam e falavam, e que ficavam ao seu dispor para tornar mais cômodos todos os seus movimentos” (SILVA, 2009 )
Assim, esse mito mostra a dualidade existente entre beleza e feiura, fragilidade e força, deficiência e normalidade, e de como tudo isso pode ser superado na superação da deficiência e do preconceito que está arraigado a ela. Dessa forma, vemos também que as situações de exclusão/inclusão sempre estiveram presentes na vida deste deus, pois tanto ele teve que se confrontar com seus próprios limites e imperfeições, quanto ele teve que arrumar formas de conviver com eles e supera-los.
Segundo SILVA, (idem)
Apesar de no início provocar as eventuais gargalhadas irônicas dos demais deuses do Olimpo devido a suas pernas e ao seu claudicar, conquistou o respeito que
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Os ciclopes eram gigantes de um só olho situado no meio da testa que moravam em cavernas na ilha dos Ciclopes. Eram ajudantes de Hefesto na confecção de raios.
merecia pela seriedade de seus relacionamentos e pela extrema qualidade de seus trabalhos e de seus serviços, e nada mais. Acabou sendo muito bem aceito por todos os demais deuses do Olimpo.
Silva e Del'Acqua (2010) trazem a informação que uma das primeiras imagens de cadeira de rodas foi grafada num vaso grego do século IV AC, onde Hefesto aparece sentado numa cadeira de rodas anfíbia autopropulsionada, com aros e acionada por dois cisnes. Este deus era considerado um inventor competente capaz das melhores invenções da metalurgia.
No caso de Hefesto,
O deus era representado de forma ambígua, como um velho franzino ou pela figura de um operário forte, envolto numa túnica curta e segurando nas mãos um martelo e, embora fosse ‘coxo’, os artistas ‘disfarçavam’ ou suprimiam esse aspecto, ora representando- o de pé, sem nenhuma deformidade aparente (negação), ora ocultando-a por detrás de algum objeto (velando, camuflando); por vezes aparecia sentado, mas sempre em posições ambíguas, podendo sua deformidade passar despercebida (dissimulando).
Estas formas de representação podem ser constatadas, entre outras, nas obras de Vincenzo de Rossi (escultura de Vulcano) e Velásquez (A Oficina de Vulcano), reproduzidas por Amaral (1991). (ROSA, 2007, p.16)
Figura 4 Hefesto em sua cadeira de rodas anfíbia. Fonte: Silva e Del'Acqua
Assim, ao disfarçar a deficiência, os artistas demonstravam o preconceito de crer que um deus não poderia ter um defeito, uma deficiência, talvez por expressar uma fragilidade, até porque na Grécia Antiga nascer com deficiência era sinônimo de exclusão, abandono e extermínio.