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BULGULAR VE YORUM

3) Öğrenci görüşleri, öğretmenlerin öğrencilere karşı

A protagonista do romance, a mulher do médico, identificada por ser a esposa de um médico oftalmologista, durante a grave epidemia que é o tema central do romance, é a única pessoa a manter-se “lúcida” no novo mundo de cegos. Assim, sua identidade está relacionada ao ofício do marido, apesar de, como já vimos, ela ter uma espécie de independência refletida em suas falas e comportamentos em boa parte do romance. Esta é a heroína de Ensaio sobre a

cegueira: uma mulher que, em princípio, vive à sombra do marido, mas que, através de sua autoconsciência, se firma e se autoafirma nas grandes decisões e passagens do enredo.

Após a súbita cegueira do marido, a mulher do médico finge estar cega para ser levada junto com ele para a quarentena num sanatório, medida de internação tomada pelo Ministério da Saúde para isolar os infectados das pessoas sãs. Essa atitude demonstra, na narrativa, uma compaixão pelo marido, sentimento que irá se manifestar também durante o romance em relação ao próximo, ou seja, às demais personagens cegas.

A protagonista é, dessa forma, condicionada a ver a degradação humana, uma vez que, atirados ao manicômio, sem ajuda ou intervenção exterior, os contagiados pela “cegueira branca” passam a não mais contar com o auxílio das autoridades, sendo, portanto, obrigados a conviver num ambiente cujo acúmulo de sujeira e lixo causa repugnância, um lugar totalmente à mercê da falta de higiene e de organização.

Nessa perspectiva, podemos dizer que é ela quem mais sofre por ter que viver, mas principalmente, por ser obrigada a ver (prerrogativa que é só dela), a situação sub-humana na qual ela e os cegos se encontram. Como guia do grupo, a mulher do médico entrega-se incansavelmente à tentativa de ajudar os cegos. E é através da sua autoconsciência que ela se dispõe a ajudar o outro, sentindo-se responsável por cada um, já que é a única dotada do sentido da visão.

Mesmo assim, durante a narrativa, ela se desespera, em alguns momentos, com sua impotência diante da gravidade da situação, do caos instalado em todo país. Sabe, porém,– tem plena (auto)consciência – do seu papel ali, da importância do seu equilíbrio, o que faz com que ela reganhe a força necessária para dar continuidade à sua missão de guia e protetora dos cegos do seu entorno.

Por isso (por esse papel privilegiado na narrativa), acreditamos que a mulher do médico se torna a transmissora privilegiada do pensamento autoral. Logo, “[...] a autoconsciência da personagem está inserida num quadro sólido – que lhe é interiormente inacessível – da consciência do autor, que a determina e a representa, e é apresentada no fundo sólido do mundo exterior” (BAKHTIN, 2005, p. 51). A autoconsciência da protagonista é dominante em toda a

narrativa. Ela se torna também, merecidamente, independente e parece existir paralelamente ao modo de se comunicar do autor. O plano do autor é torná-la independente, mesmo sendo ele o seu criador de fato. “A personagem é o material de sua autoconsciência” (BAKHTIN, 2005, p. 51).

Na condição de guia dos cegos, a mulher do médico, como dissemos, passa a ser a protetora de seu marido e de alguns pacientes que vivem no mesmo ambiente (na mesma camarata) em que ela está alojada. Cada vez mais, a convivência dentro do prédio de internação dos contagiados torna-se insustentável. Mesmo assim, ela age com serenidade, embora, em alguns momentos, como vimos, ela se desespere e se puna por isso.

A protagonista mantém sua capacidade de enxergar até o final do romance. Isso leva o leitor a indagar-se sobre os motivos que levaram o autor (sujeito-comunicante) a designar características tão fortes para uma personagem que se mostra, por vezes, também frágil, remetendo, nesse sentido, a um imaginário típico do universo feminino. O texto nos proporciona, então, a chance de refletir sobre a “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” (SARAMAGO, 1995).

Acreditamos que é a partir da fala (e das atitudes discursivamente mostradas) da heroína que o autor busca inserir tanto os valores sociais que quer condenar, como a crueldade, o egoísmo, a indiferença, o consumismo e a competição, que fazem com os cegos fiquem "sempre em guerra" (SARAMAGO, 1995, p. 189), quanto os valores que pretende fazer prevalecer. como o respeito ao próximo, a dignidade, a coragem, a solidariedade e a capacidade de convivência. São essas construções identitárias que nos levam a crer que a protagonista é a única “lúcida” da trama. Se, por um lado, Saramago dá a entender que a racionalidade capitalista das sociedades modernas, centrada no individualismo egoísta, pode levar ao caos, com a degradação da convivência humana e do meio ambiente, a união do grupo, proposta pela mulher do médico, pode fazer prevalecer, entre os humanos, os vínculos afetivos e os valores éticos. O texto passa por diversas FDs para construir a imagem da heroína: a moral, a religiosa, a ética, a étnica (da desigualdade entre os gêneros sociais) etc.

Voltando ao questionamento anteriormente apontado, se nos perguntarmos sobre o porquê da escolha da mulher do médico como a única

pessoa que mantém a visão durante toda a obra, não obteremos uma resposta precisa. Será que, de fato, haveria um porquê? Uma hipótese possível é a de que ela foi escolhida pelo autor principalmente para que, por meio de seus olhos, nós, leitores, possamos apreender as diferenças entre os humanos e resgatar seus (do autor) diferentes pontos de vista, sobretudo aquele que reflete criticamente sobre a condição feminina.

Alguns aspectos podem nos ajudar na aferição dessa hipótese. A mulher do médico não exercia uma profissão remunerada (realidade de praticamente todas as demais personagens femininas do livro): ela cuidava do lar e se dedicava ao marido numa relação de amor e de entrega. Além disso, não tinha filhos. Assim, ela é simplesmente “a” mulher. Com isso, Saramago pode estar ironizando a história de Maria, o símbolo máximo da maternidade, fazendo com que essa mulher comum e sem grandes predicados se torne, com sua visão, não a mãe de Jesus, mas a mãe de todos os cegos.16

De qualquer forma, os pontos de vista que circulam no livro mostram que a construção da imagem da heroína esteia-se, primordialmente, na sua autoconsciência; é esta que a define e que a coloca no centro da narrativa.