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A Estrada do Colono foi utilizada como via de ligação entre os municípios de Capanema e Medianeira, circulando por ela, inclusive, linhas regulares de ônibus que vinham do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, até o ano de 1986. Apesar de cortar uma unidade de conservação federal e o primeiro plano de manejo do Parque Nacional do Iguaçu, publicado em 1981, recomendar o seu fechamento, não havia uma ameaça concreta de impedimento de seu uso ou qualquer tipo de controle do tráfego no segmento que atravessava a reserva. Nesse plano de manejo, o trecho é apresentado no item “Usos conflitantes”, com a seguinte redação:

O trecho da estrada BR-163 Medianeira – Capanema cortando o Parque numa extensão de 18 km e correspondendo a uma faixa desmatada de 12,5 m de largura, representa uma ameaça constante à integridade do Parque e ao equilíbrio das populações animais da região. Deve ser encontrada uma solução política e técnica para que, uma vez interditado este trecho, a economia e as populações dos municípios interessados não sejam prejudicados134.

Na década de 1980, atendendo a reivindicações das administrações municipais de Medianeira e Capanema, o poder executivo estadual135 iniciou as obras de pavimentação da rodovia BR-163 que tinha parte de seu trecho cortando o Parque Nacional do Iguaçu. Estava incluído no projeto original asfaltar também a porção que adentrava ao parque, até a margem direita do Rio Iguaçu, divisa com o município de Capanema.

Na época, a autarquia estadual responsável pela pavimentação, o DER-PR, diante das primeiras manifestações contrárias, elaborou um projeto que contemplava algumas obras específicas a serem implantadas no trecho interno do parque, com a intenção de diminuir o impacto ambiental dentro da reserva. Constava nesse plano a construção de cercas laterais ao longo da via,

134 IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza. Plano de Manejo – Parque Nacional do Iguaçu. Brasília, 1981. p. 46. O citado documento é considerado um dos primeiros planos de manejo elaborados para unidades de conservação no Brasil, amparado no Decreto 84.017, de setembro de 1979, voltado à regulamentação dos parques nacionais brasileiros.

135 José Richa era o governador entre 15.3.1983 a 9.5.1986, quando se afastou para ocupar uma vaga no Senado Federal.

com a instalação de sonorizadores e passadouros subterrâneos para animais. Após sofrer diversas críticas, a proposta foi abandonada.

O avanço das obras de pavimentação da BR-163 em direção ao limite do Parque Nacional do Iguaçu, na sua porção que atualmente faz parte do município de Serranópolis do Iguaçu136, despertou o descontentamento de

ambientalistas que avaliavam a obra como prejudicial à integridade físico- ambiental do parque.

O presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente de Foz do Iguaçu (ADEAFI), Arnóbio da Silva, também membro do PTB de Foz do Iguaçu, foi quem desencadeou, oficialmente, a disputa judicial que envolve a Estrada do Colono, ao apresentar, em junho de 1986, uma “Notícia Criminis” contra o projeto de asfaltamento no interior do parque.

Também constatamos a participação de ONGs ambientalistas com sede em Curitiba nesse processo, como é o caso da Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA), presidida por muitos anos pelo professor João José Bigarella, que teve papel relevante na resistência à iniciativa do governo estadual de manter as obras no parque. A ADEA, inclusive, subsidiava o Ministério Público com argumentos técnicos contra a estrada, como se constata pelas passagens a seguir:

O Governo do Paraná vai novamente a Brasília propor ao Governo Federal a mutilação do Parque Nacional do Iguaçu. Solicita autorização para implantação de rodovia asfaltada cortando o Parque e, dessa forma, descaracterizar o grande e complexo ecossistema que se quer preservar, por sinal único em seu gênero no Brasil.

[...]

Por sinal, a ADEA já ingressou no Ministério Público com farta documentação junto à Promotoria da Justiça, baseada na Lei de Garantias aos Direitos Difusos (Lei nº 7.347/85), a fim de sustar as intenções governamentais.137

136 Emancipado do município de Medianeira em 7 de dezembro de 1995.

137 BIGARELLA, João José. Parques Nacionais em grave perigo. In: ____. Lutas e frustrações ecológicas – um desafio. Curitiba: ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental, 1986. p. 78- 79. (Artigo publicado originalmente no Jornal Gazeta do Povo, em 28.6.86).

Por se tratar de Ação Civil Pública138, o processo foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que solicitou o fechamento imediato do trecho rodoviário que cortava o Parque Nacional do Iguaçu, arrolando o IBDF (atual IBAMA) como réu na ação judicial. Em 10 de setembro de 1986, o Juiz Milton Luiz Pereira (1ª Vara da Justiça Federal) deferiu o pedido e concedeu liminar contra o IBDF, decidindo não só impedir a execução das obras de pavimentação no trecho, mas determinando o seu fechamento até que o caso fosse julgado de forma definitiva. A base técnica para a adoção de tal decisão foi o plano de manejo do parque, realizado pelo então IBDF, em 1981, o qual indicava a área da Estrada do Colono como sendo zona de uso especial139.

Dois dias após a concessão da referida liminar, a estrada foi interditada pela Polícia Federal.

Várias manifestações populares contra a interdição aconteceram na entrada do parque, porém, sem êxito. Por determinação da Justiça, máquinas destruíram o leito da estrada que, com o passar do tempo, foi ocupada pela vegetação nativa.

Quando foi fechada, em 1986, a estrada era utilizada por diversos ônibus que tinham linhas regulares pelo local, provenientes do RS e SC além de municípios próximos ao parque, assim como por muitos veículos de passeio e carga que utilizavam o caminho para dirigir-se do Oeste ao Sudoeste do Paraná e vice-versa.

Logo após a obstrução da via, o prefeito de Medianeira decretou “estado de emergência”, para demonstrar o descontentamento com o fechamento e o impacto econômico negativo dessa medida para o município. Nesse momento do primeiro conflito envolvendo a problemática da Estrada do Colono, o Estado do Paraná estava sob a administração do governador João Elísio Ferraz de Campos140, que governou o Estado entre 9 de maio de 1986

138 Ação Civil Pública: meio postulacional dado a pessoas jurídicas de direito público e a particulares, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, objetivando fixar responsabilidade pelos danos a eles causados. (SIDOU, 2001, p. 8)

139 Esta zona “É aquela que contém as áreas necessárias à administração, manutenção e serviços do Parque Nacional, abrangendo habitações, oficinas e outros. Estas áreas serão escolhidas e controladas de forma a não conflitarem com seu caráter natural e devem localizar-se, sempre que possível, na periferia do Parque Nacional.” IBDF. Plano de Manejo – Parque Nacional do Iguaçu. Brasília, 1981. Deve-se lembrar que, no momento de elaboração do plano, a Estrada encontrava-se normalmente aberta ao tráfego.

140 Ocupava o cargo de vice-governador e assumiu o governo quando José Richa optou pelo Senado Federal.

até 15 de março de 1987. Como contrapartida às pressões feitas pelas lideranças políticas do Oeste e Sudoeste, o governador orientou o procurador geral do Estado do Paraná a solicitar, em 16 de setembro de 1986, a revogação da liminar que interditava a estrada, junto ao Tribunal Regional Federal de Recursos. No entanto, o tribunal confirmou a decisão tomada pela primeira instância.

Desde então, o caso encontra-se imerso num complexo emaranhado de ações judiciais envolvendo diversos autores e beneficiando uma ou outra parte, relacionadas à questão, em diferentes momentos. Ideriha (2002, p.68) informa que o referido processo de Ação Civil Pública era formado por aproximadamente 3.000 folhas até o ano de 2002. Ao longo desse capítulo discorreremos sobre algumas dessas decisões judiciais, atendo-nos àquelas que consideramos mais relevantes141.

Juntamente com a prefeitura de Medianeira, a Associação Comercial e Industrial de Medianeira (ACIME), entrou como postulante na Justiça, em processo que questionava o pedido de fechamento da Estrada do Colono. No entanto, a 1ª Vara da Justiça Federal considerou a ACIME sem legitimidade para participar como litisconsorte ativa ou passiva na relação processual, utilizando-se de argumentos elaborados pelo Ministério Público Federal:

Desde logo, verifica-se que a Associação Comercial e Industrial de Medianeira não tem legitimidade para integrar o feito, pois as entidades a que se refere o art. 5º, § 2º, são aquelas que atendam aos requisitos cumulativos dos incisos I e II do mesmo artigo, isto é, associações que estejam constituídas há pelo menos um ano, nos termos da lei civil e que incluam, entre suas finalidades institucionais, a proteção ao meio ambiente, ao consumidor, ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. O próprio Estatuto (fls. 226) da referida Associação Comercial e Industrial deixa claro que seus fins não se incluem entre aqueles exigidos pela lei (art. 4º)142. (grifo do autor)

141 Para obter uma apreensão mais detalhada quanto aos aspectos do processo jurídico envolvendo esse tema, sugerimos a leitura do Anexo 26 do Plano de Manejo do PNI – 1999, no qual constam diversas passagens ligadas à peça processual. Também é interessante a consulta ao estudo de Ideriha (2002). 142 BRASIL. Juizado Federal da 1ª Vara, da Seção Judiciária do Estado do Paraná. Ação Ordinária sob o

Benzer Belgeler