A abordagem geográfica, sem esquecer-se da condição simbólica do espaço público, dedica-se, particularmente à sua expressão material. Em se tratando de um tema, eminentemente urbano, o trato do espaço público impõe-se como um contínuo desafio às ciências sociais e, mormente à geografia. Isso porque, enquanto uma construção social, os fenômenos e processos que o instituem, encontram-se em permanente transformação.
87Texto original: “Les qualités expressives, visibles et créatives des affects sont alors au coeur de l’articulation
entre la forme, le processos et l’évènement. Attachée à la forme, la dimension affective du milieu rendrait alors possible l’expression et l’affirmation des opinions dans un espace collectif. La notion de milieu affectif articule en ce sens la dimension matérielle de la forme, condition de son existence et de sa durabilité, et celle de l’évènement
public, qu’il rend possible, par la dimension affective de l’expérience qui le nourrit et s’en nourrit.” (DAMERY, 2008, p. 283).
Empreender uma leitura do espaço público em ambiente urbano exige, em um primeiro momento, a compreensão das teias socioespaciais que constituem as múltiplas espacialidades e territorialidades da cidade. Isto implica entender as formas de relação que se estabelecem entre a sociedade civil e o poder público na luta pelo direito de acesso à cidade e ao urbano, a fim de tornar inteligível este processo. Neste contexto, a discussão entre urbanismo e urbanidade é condição primeira para a entrada nesta temática, pois evidencia as contradições e possibilidades incorporadas nas relações socioespaciais na cidade contemporânea.
O geógrafo Jérôme Monnet (1999a) defende que para se entender a cidade e o urbano em sua plena complexidade e dinâmica, é fundamental compreender o espaço como um meio relacional. Inspirando-se nas reflexões que Augustin Berque (1995) realiza sobre o ordenamento e função das paisagens (ver capítulo II), Monnet, elabora sua concepção de espaço assim definindo-o:
O espaço é a matéria das relações. Ele constitui a matéria da relação do sujeito ao objeto, de si para o outro, de nós a eles, do interior ao exterior, da consciência ao mundo. Que o espaço seja concebido em uma perspectiva objetiva, subjetiva ou trajetiva, ele aparece sempre como condição da relação. Que se trate de consciência, de conhecimento ou de comunicação: é necessário que aí tenha diferenciação e distância88. (MONNET, 1999a, p. 126, tradução nossa).
Como o próprio autor destaca, a cidade e seus espaços se constroem a partir de relações que orientam todo procedimento de ordenamento espacial urbano. A partir deste entendimento Monnet (1999a) constrói sua concepção de “interpretação-ordenamento” do espaço (essência do urbanismo), em contraposição à ideia de “representação-ação” do espaço (fundamentalmente urbanista).
O ordenamento do espaço é, antes de tudo, a expressão da interpretação89 que os sujeitos individuais ou coletivos fazem do seu meio (BERQUE, 1995). Guiando-se por esta compreensão, Monnet (1999a), entende que na relação sujeito-mundo, o sujeito é uma realidade que transforma efetiva e materialmente o mundo, na mesma medida em que, o mundo também representa uma realidade só que visto a partir do próprio sujeito. Por essa razão classifica como
88 Texto original: “L’espace est la matière des relations. Il constitue la matière de la relation du sujet à l’objet, de
soi à autri, de nous à eux, de l’interieur à l’exterieur, de la conscience au monde. Que l’espace soi concu dans une
perspective objective, subjective ou trajective, Il apparaît toujoour s comme la condition de la rlation. Qui s’agisse
de conscience, de connaissance ou de communication: Il faut qu’il y ait différenciation et distance.” (MONNET, 1999a, p. 126)
89 Segundo Monnet (1999a), o termo interpretação neste contexto assume dois sentidos que dão conta tanto do
ordenamento do espaço quanto da representação do mundo. Trata-se da interpretação passiva referente às realidades as quais o(s) sujeito(s) tem algo a interpretar, ou seja, compreender e (re)tratar dos ordenamentos e representações que lhes são pré-existentes. E a interpretação ativa na qual o(s) sujeito(s), agindo segundo suas próprias interpretações do mundo, formam suas interpretações pessoais e do mundo.
ordenamento espacial toda ação, qualquer que seja a escala (individual ou coletiva) que organiza a “matéria” no espaço.
Partindo da sua teoria “interpretação-ação” Monnet constrói dois modelos de explicação da cidade: “a cidade tal qual ela deveria ser” e “a cidade tal qual como se encontra.” (MONNET, 1999a). O primeiro corresponde à cidade na escala da “humanidade”, que se realiza no momento presente, na efervescência dos diferentes sujeitos e atores no poder, ou seja, é a cidade comandada ou controlada. É a cidade capturada e proclamada nas plataformas políticas governamentais, exposta midiaticamente ao consumo e à comercialização por meio do
marketing publicitário e jornalístico a serviço do mercado imobiliário, do turismo e assim por diante (MONNET, 1999a; SANCHEZ, 2003, 2009; SOUZA, 2008; COSTA, 2003).
Neste modelo, a cidade é fragmentada e revela toda a exclusão socioespacial que lhe é característica. É a cidade encenada pela mídia e os gestores urbanos tal como querem que ela seja. Neste contexto, a cidade e a sua realidade são apresentadas parcialmente, sem profundidade. No campo do patrimônio, conforme visto no capítulo anterior, este modelo é bem aplicado. Reforma-se e dá-se visibilidade àqueles patrimônios que se encaixam na rota do turismo e negligenciam-se os que estão fora deste circuito.
O caso dos sítios lacustres, não é diferente. Enquanto o poder público se mantém inerte, a mídia, foca principalmente, nos aspectos negativos e nos problemas enfrentados nestes lugares, como a violência urbana e a poluição ambiental. Entretanto, não aprofunda o mérito daquilo que de fato acontece no cotidiano das comunidades que os envolvem e na esfera da gestão pública. O discurso é tão forte que a cidade não-midiática é capaz de deixar as pessoas inertes, na medida em que, reproduzem e aceitam a cidade midiática como verdade absoluta. Assim, perdem a sua própria referência, não reconhecendo seu lugar de sujeito social, igualmente participante da construção social da cidade.
Em contraposição, a “cidade tal qual como se encontra” é o produto coletivo que resulta de uma incapacidade que os sujeitos, cada um por si, têm para “apreender seu meio
cotidiano como um ‘mundo’ unificado por sua consciência geográfica90.” (MONNET, 1999a,
p. 121, tradução nossa). É a cidade que Besse (2006b), considera explodida ou expandida abrigando uma pluralidade de realidades, fenômenos e processos que “a cidade tal como deveria ser” tende a simplificar.
Tais características são marcas das metrópoles que se apresentam aos olhos dos indivíduos, sejam habitantes ou os que a ela afluem por diversas motivações, como alguma
90 Texto original: “[...] apprehender leur milieu quotidian comme un “monde” unifié par leur conscience
coisa desproporcional fora de padrão, dificultando sua apreensão (MONNET, 1999a). Dois aspectos são relevantes nesta análise. O primeiro modelo corresponde à cidade na escala humana, projetada pela mídia e pelos entes institucionais perseguindo um padrão que segue uma racionalidade. O segundo modelo diz respeito à cidade da escala inumana e é resultado dessa manipulação político-midiática (MONNET 1999a).
Não se trata de modelos opositores. Eles são resultado de relações conflituosas por excelência, mas também combinadas que se desenrolam no urbano. Oliveira (2001) coloca em evidência esse perverso jogo urbano que ao mesmo tempo seduz e chama à ilusão. Para o autor, as cidades contemporâneas, mais pontualmente, as metrópoles, agregam um “complexo cosmopolita de desafios e tensões. [...] não há modelo melhor de inferno, pois ele contém os mais acessíveis caminhos do céu.” (OLIVEIRA, 2001, p. 157).
No coração deste contexto de conflitos/acordos, exclusão/inclusão, planejamento/gestão, visibilidade/invisibilidade, venda/consumo da cidade, participação/passividade popular, acesso/negação do espaço público, patrimonialização/patrimonialidade, dentre outras tramas, encontra-se uma questão fundamental da geografia urbana, qual seja: a discussão sobre a relação entre a postura e o saber técnico dos agentes sociais institucionais e o senso comum dos citadinos. Esta relação é apresentada nas análises eruditas, geralmente, numa condição de desigualdade que prejudica o alcance do bem comum e, consequentemente, “melhores condições de vida, sob o ângulo da justiça social urbana.” (SOUZA, 2003, p. 15).
Habermas (2003) fornece uma análise bastante elucidativa que ultrapassa a apreciação do espaço público e pode perfeitamente ser aplicada ao exame das demandas socioespaciais urbanas como um todo. O autor convoca a uma reflexão sobre o caráter e a função da racionalidade instrumental frente à racionalidade e a ação comunicativa. Porém antes de avançar nesta temática, é preciso elucidar o significado destes termos. Besse (2010, p. 264, tradução nossa) é quem explica:
a racionalidade instrumental que se encarna nas modelizações científicas, assim como nos dispositivos de saberes técnico; a racionalidade moral, que designa os valores coletivos e os horizontes éticos e políticos no seio dos quais a ação humana comporta sentidos; a racionalidade estética, que apoia a diversidade das formas possíveis no encontro dos corpos e das sensibilidades com o mundo; a racionalidade dialógica ou comunicacional, que instala os quadros simbólicos onde se constroem as orientações e os princípios da vida comum91.
91Texto original: “[...] la rationalité instrumentale qui s’incarne dans des modélisations scientifiques, ainsi que
dans des dispositifs et des savoirs techniques ; la rationalité morale, qui désigne les valeurs collectives et les horizons éthiques et politiques au sein desquels l’action humaine se donne un sens ; la rationalité esthétique, qui prend en charge la diversité des formes possibles de la rencontre des corps et des sensibilités avec le monde ; la
Para Besse (2010), é preciso rearticular a razão que a modernidade dissociou. Desse modo seria possível amenizar os efeitos nefastos de uma das consequências: a supressão da possibilidade de uma abordagem global das questões socioespaciais.
Retornando à perspectiva de Habermas (2003), sobre a racionalidade, verifica-se que o autor se interessou, mais pontualmente, pela análise das racionalidades instrumental e comunicativa. Porém, em sua obra fica claro que a racionalidade estética se integra à instrumental, enquanto a racionalidade ética associa-se à comunicativa.
Para Habermas (2003), a racionalidade instrumental orienta o que ele denomina de “ação estratégica” posta a serviço do ajustamento dos meios para alcançar fins ou objetivos previamente estabelecidos. Em nome de uma pretensa eficiência, uma vez predeterminados os objetivos da estratégia, não há margem para o estabelecimento de questionamentos sobre os mesmos. Na ação estratégica, a comunicação é usada com o objetivo de dominação e manipulação pela imposição92.
Diferentemente, a racionalidade comunicativa, serve à ação comunicativa. Neste tipo de ação, conforme explanado anteriormente, o objetivo é a troca dialógica argumentativa. Os meios e os fins das ações são amplamente questionados prevalecendo o melhor argumento. A tônica é a troca de conhecimentos e opiniões no jogo de sustentação ou reprovação de argumentos em nome do fechamento de acordos, neste caso, por meio da cooperação e do convencimento. Desta maneira, razão e ética se unem pela comunicação (HABERMAS, 2003).
Besse (2010) inspirando-se em Habermas, para pensar a paisagem e espaço público comenta que a palavra do especialista, em se tratando da realidade urbana, não deveria ser tomada como verdade absoluta e, portanto, não deveria ser a última. Conforme mencionado anteriormente, o autor insiste na necessidade de se dar igual atenção à linguagem ordinária, ou comum, aquela falada e compreendida por todos os cidadãos. Isso implica, segundo o autor, no reconhecimento de que
[...] o habitante é possuidor de uma ‘verdade’, uma ‘verdade’, ou como se quer, uma voz necessária de se compreender e ser tomada em conta na elaboração do projeto da
decisão política. O espaço público é a ‘arena’ onde se exprimem as vozes e as
verdades, e a estrutura organizadora mais ou menos formalizada e durável destas expressões [...]93. (BESSE, 2010, p. 276, tradução nossa).
rationalité dialogique ou communicationnelle, qui installe les cadres symboliques où se construisent les orientations et les principes de la vie commune.” (BESSE, 2010, p. 264).
92 Arendt (2002c) estabelece a diferença entre a “arte da persuasão” (falar político) e a “arte dialética” (falar filosófico). “A principal distinção entre persuasão e dialética é que a primeira dirige-se sempre a uma multidão. Ao passo que a dialética só é possível em um diálogo entre dois.” (ARENDT, 2002c, p. 96).
93Texto original: “[...] l’habitant est porteur d’une “vérité”, une “vérité” ou si l’on veut une voix qu’il est nécessaire d’entendre et de prendre em compte dans l’élaboration du projet et de la décision politique. L’espace public est
Monnet (1999a), em sua análise da “interpretação-ação” ilustra o modo pelo qual a racionalidade instrumental se materializa no planejamento urbano sufocando a racionalidade comunicacional. Para o autor, o quadro de especialistas que compõem a gestão pública atuando de forma tecnocrática prendem-se ao que ele denomina “tentação demiúrgica ou da responsabilidade total” e “tentação da irresponsabilidade.” Ambos estão claramente presentes na espacialidade das cidades contemporâneas.
Na tentação demiúrgica impera o poder autoritário das ações (interventoras conduzidas por arquitetos, engenheiros e técnicos do planejamento urbano, por exemplo) e das leis (instituídas por especialistas do direito, gestores públicos e legisladores). Estes experts
imprimem a marca de suas ações na cidade de maneira concreta (ambientes edificados a partir de seus ideais, como os projetos de urbanização das lagoas urbanas), mas também de forma imaterial (como no caso das legislações elaboradas sem a participação popular e aplicadas a todos os sujeitos sociais, ainda que, neste ponto, haja controvérsias). Confunde-se a escala do escritório e o espaço público impondo-se à cidade as visões de um só, ou de um pequeno grupo.
A força simbólica e concreta da “tentação demiúrgica” intimida a tomada de posicionamento dos habitantes não especialistas da cidade. Conforme se observa cotidianamente na cidade, nem mesmo são criados ou exigidos espaços para promoção desta participação (e isso de ambas as partes).
Apesar dos inúmeros fatores que concorrem para este “conformismo generalizado” (CASTORIADIS, 2006), a educação tem especial participação nesta situação. Oliveira (2009a) demonstra como o sistema educacional permanece preso a tradições positivistas e racionalistas circunscrevendo-se a reproduzir (tanto na formação básica quanto acadêmica) o contexto de dominação da razão cientificista e tecnicista. Neste sentido, de acordo com o autor, o sistema educacional formal mostra-se inábil para ler o código educativo da sociedade e dar conta de sua pluralidade, e, principalmente suas necessidades frente às transformações atuais. Suas reflexões possuem nítida relevância para elucidar as dificuldades de superação do modelo de imposição do planejamento urbano e qualquer outro processo social.
Assim, mesmo em tempos de contestação da racionalidade puramente instrumental cientificista, segue o acirramento da distância entre o saber técnico e o saber tradicional da formação informal. No campo do constructo patrimonial, assim como em qualquer outro
“l’arène” où s’expriment les voix et les vérités, et la structure organisatrice plus ou moins formalisée et durable de ces expressions […].” (BESSÉ, 2010, p. 276).
segmento da produção do conhecimento social e das relações socioespaciais é fundamental aproximar estas duas linguagens.
Por sua vez, a tentação da irresponsabilidade caracteriza-se pelo excesso e absoluta confiança no conhecimento técnico e, por isso mesmo, nas proposições defendidas pelos especialistas do ordenamento urbano, vistos como únicos detentores da capacidade criativa, capazes de intervir com sucesso no espaço da cidade, o que seria inacessível àqueles sujeitos sociais sem qualificações técnicas.
Do mesmo modo que a tentação da responsabilidade total, está também faz calar a voz da população comum e, igualmente os impele para fora dos circuitos de tomada de decisão. Está é uma atitude muito comum e pode ser facilmente identificada em certas audiências públicas em que os projetos já vêm elaborados e se percebe claramente a tentativa de convencimento (manipulação) dos cidadãos chamados, também por força de lei, a legitimar tais processos. Um verdadeiro atentado à autonomia94 social e individual, por conseguinte, à democracia, narraria Castoriadis (2006), ou ainda, à liberdade de exercer a racionalidade dialógica no espaço público e decidir sobre as transformações no seu espaço de vida, no seu lugar (HABERMAS, 2003; BESSE, 2010; DI MÉO e BULÉON, 2007).
Assim, a conclusão a que chega Monnet é a de que, em todo caso, quer se trate da tentação demiúrgica ou da irresponsabilidade “[...] está-se numa lógica de competência exclusiva, cujo campo pode ser estreito ou amplo95.” (MONNET, 1999a, p. 101, tradução nossa). Frente a estas colocações, só é possível vislumbrar processos de planejamento e gestão urbanos alternativos, numa realidade que coloque em diálogo os interesses e conhecimentos técnicos e banais. Neste contexto se inscrevem, as contribuições vindas do debate sobre o espaço público e sobre o patrimônio socialmente apropriado, (tema a ser aprofundado no item subsequente).
Nessa mesma linha de pensamento, Moscovici (2007), fala da hieroestrutura e da heterarquia. Para o autor, a raiz das relações de distanciamento e de espoliação em todas as formas de sociedade está na hieroestrutura que encarna o princípio instrumental e organiza o desencantamento do mundo. Funciona por meio de imposições que levam quase sempre à dominação e influência de maneira unilateral o conjunto social.
94 Que segundo Castoriadis (2006) é exercida na igualdade do direito de participação nos processos de tomada de
decisões sendo igualmente condição imprescindível para sua execução.
95 Texto original: “[...] on est dans une logique de competence exclusive, don’t le champ peut être retreint ou
A heterarquia, por sua vez, defende Moscovici, está presente na organização social onde existem trocas de saberes e pensamentos. A capacidade criadora de cada sujeito é reconhecida e aceita, do mesmo modo em que, a liberdade de expressão. Aqui, o princípio fundamental é o dialógico comunicacional.
De forma mais clara:
uma sociedade de hieroestrutura privilegia as capacidades de controle de uma parte sobre o conjunto e tem como ideal a superorganização. Ela nos é familiar. Ao contrário, uma sociedade heterárquica favorece o conjunto mais do que a parte, tolera um certo grau de desordem – debates, movimentos sociais, etc. – e visa a suborganizar. Nós temos ainda muita dificuldade de pensá-la e ainda mais dificuldade em vivê-la. (MOSCOVICI, 2007, p. 147).
A temática tratada até agora solicita uma abertura ainda maior nesta reflexão. Deste modo, pensar sobre a experiência do espaço público na cidade, indubitavelmente, requer um destaque especial à diferenciação entre urbanismo e urbanidade.
O primeiro termo, de acordo com Souza (2008, p. 56) “pertence de fato e de direito, essencialmente, à tradição do saber arquitetônico”. Refere-se, portanto, às intervenções materiais no espaço urbano de caráter estético ou funcional, tais como: os traçados e a formas das vias de circulação e demais logradouros públicos; equipamentos urbanos: praças, jardins, parques e calçadões que margeiam alguns sítios lacustres dentre outros. Tais intervenções, na percepção de Monnet (1999a), podem ser conduzidas por qualquer sujeito social desde o arquiteto-urbanista, os entes públicos e a população em geral.
O urbanismo integra o planejamento da cidade como um de seus subconjuntos. Enquanto este último preocupa-se com o disciplinamento da ocupação do espaço da cidade e seus respectivos usos, o primeiro preocupa-se em colocar em prática o próprio planejamento modelando formalmente o espaço urbano por meio da ação construtiva (SOUZA, 2008).
O exemplo das lagoas urbanas é capital, neste sentido. Predomina o estímulo ao urbanismo e não há urbanidade. Os equipamentos de urbanização destes ambientes, com raras exceções, é indiscutivelmente, um dos fatores que desfavorecem o encontro, a permanência e convivência social nestes espaços. Isso se manifesta na fala de todos os sujeitos ouvidos durante a pesquisa empírica. Eles reclamam da ausência de espaços e equipamentos adequados para uma convivência mais efetiva aonde, por exemplo, se possa estar com a família, os amigos ou mesmo sozinhos usufruindo destes locais por um maior período de tempo.
Todavia, não se pode olvidar que o espaço urbano, também é edificado de maneira informal. Assim, deve-se fazer justiça à complexidade das ações socioespaciais que constroem
a cidade. Os agentes construtores do espaço urbano o modelam segundo seus interesses e significações onde jogam subjetividade e objetividade por meio de uma constante trajecção96.
Diferentemente do urbanismo, a urbanidade tem origem no termo latino urbs e significa polidez em alusão à polis grega. Mais precisamente, urbanidade em sua raiz etnológica diz respeito às qualidades daquele que vive da cidade, que em oposição ao que vive no campo comporta-se com polidez e afabilidade (LE GOFF, 1998).
De acordo com Le Goff (1998, p. 124) é “a sociabilidade, o prazer de estar com o outro, que estabelece em definitivo a diferença urbana, a urbanidade.” Esta concepção refere- se, portanto, a uma atitude social, ou seja, um modo de “ser na cidade” (MONNET, 1999a). A urbanidade pressupõe uma relação, não apenas entre os sujeitos sociais, mas, sobretudo uma relação destes com os seus lugares ou com a paisagem enquanto “espaço sensível”97. (BESSE, 2010) o que acarreta a construção de múltiplas identidades coletivas e territoriais, ou seja, múltiplas urbanidades.
Desta forma, a urbanidade implica “uma espacialidade do próximo, do contato e da participação com o ambiente exterior [...] complexo [...] composto de diversas dimensões sensoriais (sonoras, tátil, olfativo, visuais, etc.) que interagem em realidade e no qual o corpo é mergulhado98.” (BESSE, 2010, p. 267, tradução nossa).
Contundentemente, Monnet se alinha às proposições de Besse ao defender que,
A noção de urbanidade pode ser útil [...], porque ela conduz à ideia de que “ser na
cidade” corresponde indissociavelmente a uma sociabilidade (a arte de viver em sociedade, as “boas” maneiras, a polidez, a polícia e a política) e a uma espacialidade