Durante minha atuação como professora, tanto na rede estadual como na privada, tenho acompanhado as dificuldades que muitos professores encontram no desenvolvimento da sua função. No caso dos professores de Química, a principal dificuldade está no desenvolvimento dos conteúdos químicos específicos de maneira contextualizada sem reproduzir o conhecimento e nem priorizar a memorização. Para Schnetzler (2000), aprender Ciências não é uma questão de simplesmente ampliar os conhecimentos dos alunos sobre os fenômenos, mas sim introduzi-los em uma forma diferente de pensar sobre o mundo natural e de explicá-lo.
Schnetzler (2004) afirma ainda que os alunos precisam ser iniciados nos construtos teóricos da Ciência, porém o professor de Química, como representante dessa área do saber, precisa mediar tal conhecimento para os alunos por meio de uma linguagem. Essa linguagem se refere ao nível teórico-conceitual da Química que, com seus vários modelos e teorias, permite a elaboração de interpretações e previsões sobre fenômenos que “[...] nos rodeiam e/ou dos quais depende a nossa sobrevivência” (p. 2).
Invocamos átomos, íons, moléculas, partículas que interagem e que estão em movimento, contrariando o modo estático e contínuo dos alunos conceberem os materiais e suas transformações. Este modo de “ver” contraintuitivo que caracteriza o pensamento químico torna-se, então, uma tarefa crucial do professor de Química. Para que possa concretizá-la adequadamente, algumas decisões pedagógicas precisam ser tomadas, tais como: ao invés de procurar “dar conta” de todos os conteúdos usualmente presentes em livros didáticos tradicionais, abordando uma enorme quantidade de informações químicas a serem memorizadas pelos alunos, o professor necessita, então, selecionar e organizar o conteúdo do seu ensino enfatizando o tratamento de temas e de conceitos centrais desta Ciência para expressar o seu objeto de estudo e de investigação. Em outras palavras, ensine bem poucos conteúdos, mas que sejam fundamentais para abordar a identidade e a importância da Química (SCHNETZLER, 2004, p. 4).
Nesse sentido, a escola carece ser vista como um espaço privilegiado para a socialização da cultura, o que não pode significar a supervalorização da função de transmitir conhecimento. Também não se pode confundir conhecimento com informação, uma vez que o conhecimento é construído durante o processo de desenvolvimento das pessoas, tornando-o significativo e importante para as suas vidas. Já a informação é cumulativa, e segundo Larrosa (2002),
[...] o sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça (p. 22).
Assim, ao ver a escola como um lugar privilegiado para a socialização de conhecimentos, torna-se importante ver o ensino de Química como um caminho para que os alunos consigam fazer uma leitura mais elaborada e crítica do mundo e das inter-relações entre o senso comum e o conhecimento científico sistematizado. E ainda, pensar e fazer com que os professores de Química aproveitem essa Ciência para fazer Educação.
Outro fato relacionado às dificuldades de atuação do professor de Química da Educação Básica e que pode ser destacado é o descontentamento do mesmo em não ter seus objetivos educacionais alcançados. De acordo com Lourencini (2008), os professores se queixam do desinteresse dos alunos, das incessantes contestações sobre a postura e a atuação do professor; mostram-se preocupados em trabalhar de acordo com as exigências legais; e embora a maioria dos professores seja preocupada em formar discentes autônomos, muitos ainda são resistentes em aceitar este aluno, em dialogar e fazer com que ele reflita sobre as suas ações, da mesma maneira que o professor também precisa refletir sobre suas próprias ações e práticas educativas.
Justificar a escolha do tema de pesquisa é o mesmo que mostrar os propósitos que se constituíram nos catalisadores da realização deste trabalho. O primeiro pode ser caracterizado como o permanente desafio de estudar algo enraizado na (minha) prática docente, levando a encontros com situações e dilemas vividos por mim e tantos outros professores de Química atuantes na Educação Básica. Como destaca Chassot (2004), dificilmente se pode desenvolver com entusiasmo e prazer uma investigação se ela não se mostra densamente associada as nossas autênticas preocupações. “[...] Acredito muito pouco nos trabalhos feitos meramente
para atender a requisitos ou cumprir rituais que permitem a obtenção de credenciais ou títulos” (p. 18).
Nesta tarefa, deparei-me com algumas dimensões para os meus estudos, como analisar o perfil dos professores de Química atuantes nas escolas públicas estaduais pertencentes a Diretoria de Ensino de Votorantim (SP), ou seja, conhecer a formação inicial destes profissionais e suas concepções sobre o ensino e aprendizagem de Química, bem como suas necessidades formativas e perspectivas de formação continuada a partir dos seus discursos. Para isso, houve a necessidade de olhar para a história da disciplina Química no sentido de procurar entender como o seu ensino se consolidou no nosso país, como se deu a trajetória que possibilitou o surgimento dos cursos de Licenciatura em Química e da Educação Química Brasileira. Tais questões suscitaram a necessidade de compreender como se dá a constituição desse profissional, bem como seus saberes docentes, além de, principalmente, investigar a formação inicial e continuada dos professores de Química para a Educação Básica e os saberes docentes necessários a tal prática.
O segundo propósito foi (e é) o constante desejo de apresentar alguma contribuição significativa para o problema estudado. É importante destacar a responsabilidade de quem fez do magistério sua atividade profissional exclusiva e por isso mesmo torna-se imprescindível defender mudanças e melhorias. Quando sugiro modificações, estou antecipando o meu descrédito com o ensino de Química que temos no nosso país e do qual participo.
É preciso reconhecer as inúmeras fragilidades em relação ao ensino e à aprendizagem de Química na Educação Básica e também à formação inicial dos professores, principalmente daqueles que tiveram sua formação constituída no modelo da racionalidade técnica. É importante também entender o significado do conhecimento químico para os alunos, uma vez que estes necessitam compreender seu mundo – seu espaço, seu contexto, as transformações e se verem como atores – a fim de poder ressignificá-lo. E ainda, não se pode deixar de ressaltar a importância da escola na reconstrução dos saberes produzidos em seu contexto, e por isso mesmo, é essencial que as práticas pedagógicas docentes sejam delineadas no sentido da produção de conhecimentos significativos.
Esses catalisadores são a justificativa para a realização deste trabalho, porque são partes de uma caminhada maior. “[...] Acredito que houve/há uma sonhada migração de alguma utopia para realidade. Mesmo que essa migração tenha sido pequena, valeu, vale, valerá a pena” (CHASSOT, 2004, p. 21). Tenho consciência de que o momento exige uma atuação docente (em todas as disciplinas) que consiga contribuir de maneira efetiva para o estabelecimento de uma Educação de qualidade em todo o país, porém o ensino de Química
permanece com a mesma essência de priorizar informações desconexas a respeito da realidade vivida pelos alunos e professores, ou seja, estes indivíduos ainda interagem com um conhecimento fundamentalmente acadêmico, principalmente através da transmissão de informações, supondo que o aluno, memorizando-as, irá apropriar-se dele.
Contudo, entendo a Química não somente como um fragmento do conhecimento humano, mas como uma conexão com toda a aprendizagem que um cidadão pode construir em sua vida. Penso, também, que o ideal seja que todo o ensino fosse trabalhado sob essa perspectiva, pois as contribuições individuais têm sua importância reconhecida, então acredito ser válida esta tentativa.