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ÎLÂYI DÜŞÜREN VE HÜKMÜNÜ İPTAL EDEN ŞEYLER

Pinheiro Machado dedicou praticamente cinco décadas de seus sessenta e quatro anos e quatro meses de existência à vida pública. Desenvolveu-a como soldado,

Proclamação, absorvendo alguns quadros conservadores e tendo por oponentes a maioria dos liberais gaúchos.

99 Com 15 anos, em 1866, José Gomes Pinheiro Machado foi voluntário na Guerra do Paraguai, iniciando

uma vida pública que incluiu 25 anos de mandatos sucessivos no Senado a partir de 1890 - com uma passagem anterior pela Câmara de Vereadores de São Luiz Gonzaga - interrompidos por seu assassinato em 1915.

100 Alceu de Amoroso Lima defende essa interpretação histórica em “À margem da História do Brasil”,

obra lançada em 1923 sob coordenação de Vicente Licínio Cardoso e reeditada em 1981 pela Câmara dos Deputados. Lima assina seu texto no livro em referência com o pseudônimo “Tristão de Athayde”.

militante estudantil, conselheiro municipal, senador e presidente do Partido Republicano Conservador. Exercia essas duas últimas funções ao ser apunhalado por Francisco Manço de Paiva Coimbra no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, às 16h40 de 8 de setembro de 1915, uma quarta-feira. Na perspectiva apresentada por Molotch e Lester (1993) para o processo de comunicação, a trajetória acima resumida fez do senador uma referência à imprensa da época. Ele foi o que os autores definem como promotor de notícias (news promoters) – ou, numa expressão mais próxima do atual jornalismo, uma fonte para notícias.

Com maior ou menor grau, pode-se dizer que a imprensa legitimou essa condição em Pinheiro Machado desde que, em 1876, como estudante da Faculdade de Direito de São Paulo e ainda durante o Império, foi um dos fundadores do Clube Republicano Acadêmico, engajando-se no lançamento do boletim de propaganda inspirado nos ideais farroupilhas, e, posteriormente, no jornal A República.

De volta ao Rio Grande do Sul, com o diploma de advogado, instalou-se em São Luiz Gonzaga101

, elegeu-se conselheiro municipal e foi um dos presentes ao 1º Congresso Republicano, em 1883, em Porto Alegre, quando se decidiu implantar a partir do ano seguinte, uma publicação oficial do Partido Republicano Riograndense – exatamente A Federação, que iniciaria atividades a 1º de janeiro de 1884.

Naturalmente, a proclamação da República e a posterior eleição para o Senado alçaram Pinheiro Machado a um novo patamar como fonte de informação para a imprensa. Já no Rio de Janeiro, como senador pelo Rio Grande do Sul, exerceu o congresso constituinte, integrando a cena política nacional ao lado de personagens como o novo presidente da República, o Marechal Deodoro da Fonseca, o seu vice, o também Marechal Floriano Peixoto, o ministro Ruy Barbosa e o presidente do Estado do Rio de Janeiro, Quintino Bocayuva – além de conterrâneos ilustres como Júlio de Castilhos, Joaquim Francisco de Assis Brasil e Antonio Augusto Borges de Medeiros.

As instabilidades políticas de um regime em implantação fizeram Pinheiro Machado interromper o mandato de senador para engajar-se nas forças que, entre 1893 e 1895, defenderam a República contra os rebelados – em movimento iniciado exatamente no Rio Grande do Sul. Ao retornar, vitorioso, ao Rio de Janeiro, recebeu entusiasmada saudação em artigo de Bocauyva – então, dublê de político e jornalista.

101 À época, chamada São Luiz das Missões.

Enquanto no primeiro período revolucionário a imprensa em geral só salientava o nome de Gumercindo Saraiva como guerreiro senador Pinheiro Machado passava desapercebido e órgãos de opinião houve que lhe assacaram as acusações mais degradantes, atribuindo-lhes rapinagens de que se envergonhariam os mais reles bandidos dos pampas. Os que conheciam, porém, a enfibratura moral do valente cidadão, a sua honradez inquebrantável, a sua dedicação incondicional à República, pela qual sacrificou posição, bem-estar e fortuna, viam nele o mais esforçado dos legionários que defendiam o território rio- grandense, a honra da Pátria flagelada pela ambição de caudilhos, cujo impudor se media pela caveira dos mais lúgubres celerados (...) (SILVA, 1982, p. 38).

O PRR tinha, além d’A Federação, outros órgãos de imprensa, entre os quais o

Diário Popular, de Pelotas – hoje ainda existente como o mais antigo diário gaúcho em funcionamento e, desde 1937, desvinculado de partidos políticos. Em setembro de 1895, Pinheiro Machado reclamou contra ameaça feita pelo comandante do 6º Distrito Militar a jornalistas da publicação pelotense, lendo, da tribuna do Senado, o telegrama que havia recebido dos correligionários:

Levamos a conhecimento de V. Exa. o seguinte fato: hoje, à uma hora da tarde, veio à redação do Diário Popular o Alferes Sales Guerra, ajudante de ordem do General Galvão, que, em nome deste, nos avisou de que aquele general mandaria chibatear os redatores desta folha se ela o atacasse em sua família. Tópico incriminado pelo General Galvão é o seguinte: “hoje, a inconsciência, posta a serviço da conspiração anti- republicana, dedica-lhes valsas, improvisa-lhes batalhas, flores e passeatas ridículas, como se por essa maneira pudesse abafar a indignação pública”. À vista desta ameaça, pedimos providências a V. Exa; por julgarmo-nos ameaçados em nossas vidas. Redação Diário Popular (SIMON, 2004, p.60-61).

Em 1896, a Gazeta de Notícias publicou notícia que um certo General Teles pedia ao Ajudante Geral do Exército licença para responder a discurso de Pinheiro Machado no Senado, denunciando violências e arbitrariedades cometidas pelo general em Bagé. Pinheiro Machado ocupou a tribuna do Senado anunciando que abria mão das imunidades parlamentares para que o General lhe processasse, se assim o quisesse.

Já em 14 de agosto de 1901, o Correio da Manhã atacou o presidente da

República, Campos Salles: “O governo do Sr. Campos Salles tem sido um governo de dilapidação e de crueldade”. Parte da base de sustentação do governo, o próprio

Pinheiro Machado passou a ser alvo da publicação, a ponto de, em 1906, o senador

desafiar o diretor Edmundo Bittencourt para um duelo, por entender que “as injúrias”

o tiro de Bittencourt sendo desperdiçado e o do senador atingindo o adversário numa das coxas.

Um dos biógrafos de Pinheiro Machado observa:

A campanha que vinha sendo movida contra Pinheiro Machado por certa imprensa da capital prosseguia violenta e agressiva, procurando ferir a dignidade pessoal do benemérito cidadão. À medida que se elevava o prestígio do senador gaúcho, aumentava em virulência a campanha difamatória, sobressaindo-se o Correio da Manhã nos ataques à sua honra e ao seu patriotismo (SILVA, 1982, p. 84).

O crescente prestígio a que se refere o autor acima se refletia em circunstâncias políticas como os processos sucessórios à Presidência da República. Em especial entre 1909 e 1910, em que Pinheiro Machado alinhou-se ao ministro da Guerra, o Marechal Hermes da Fonseca, na disputa contra o seu amigo e também senador, Ruy Barbosa, vencida pelo primeiro – segundo o Correio da Manhã, graças às fraudes eleitorais. Mais uma vez, a tribuna do Senado foi o instrumento da reação do político gaúcho:

É imposível andar catando essas falsidades para rebatê-las. Não teríamos mais outra preocupação senão esta, e todo o tempo seria pouco para respigar, para contraditar – não direi calúnias, mas invenções levadas à conta da nossa responsabilidade (SIMON, 2004, p.180).

O mesmo canal foi usado pelo senador para reclamar contra uma publicação então raramente crítica ao governo e aos seus representantes, o Jornal do Commercio,

do Rio, “inegavelmente uma folha de grande e incontestável autoridade e redigida por

homens que até agora têm merecido a minha deferência” (SIMON, 2004, p.197) – que o havia relacionado à manipulação do câmbio.

Ainda em 1910, o Correio da Manhã retomou ao ataque contra o senador. A fundação do Partido Republicano Conservador, poucos dias depois da posse de Hermes da Fonseca na Presidência da República, foi duramente criticada pelo jornal de Bittencourt – assim como por outros órgãos da imprensa de então. Na sua edição de 13 de dezembro, o jornal publicou o que Pinheiro Machado imediatamente acusou como

“notícia falsa”, sobre diálogo entre ele e o senador Francisco Glicério. Ainda em

dezembro do mesmo ano, outro jornal carioca, o Diário de Notícias, publicou matéria

sob os títulos “Enorme escândalo no Rio Grande do Sul. Contrabando de charque. A

imprensa rio-grandense ataca o senador Pinheiro Machado como protetor e talvez sócio

mais uma vez da tribuna, o senador lembrou: o próprio Correio da Manhã, que também vinha se ocupando do assunto, já havia publicado um esclarecimento isentando-o.

O antagonismo do Correio da Manhã a Pinheiro Machado acentuou-se no quadriênio 1910/1914, período de governo do Marechal Hermes e de maior influência do senador. Esse poder credenciava o parlamentar gaúcho como provável candidato à sucessão. Em 1913, O Imparcial publicou entrevista com o senador Ruy Barbosa,

reagindo a essa possibilidade: “Como aquele que apoiou o presidente Hermes sentia-se

no direito de autonomear-se um nome da regeneração? Nem sou a Nação, nem me tenho por autoridade, para lhe ditar escolhas” – disse o baiano ao repórter que o indagou sobre quem deveria ser o escolhido – apontando três mineiros: Sabino Barroso, Francisco Salles e Wenceslau Braz102

.

Pinheiro Machado desmentiu, da tribuna do Senado, as notícias que o relacionavam à sucessão presidencial:

(...) após ter lido no Correio da Manhã e n’O Imparcial a narração de suposta conferência que se dera em nossa residência com o Sr. Bernardo Monteiro e outros políticos de Minas, sendo-me então atribuídas frases e conceitos deprimentes ao ilustre Sr. Deputado Junqueira, que agoa diverge de nossa orientação, mas que merece o nosso respeito, portanto, tal fato é inverídico (BORGES, 2004, p.183).

No mesmo ano, presidindo a sessão a 10 de setembro, Pinheiro Machado deixou de estender o tempo de pronunciamento de Ruy Barbosa, o que lhe fez ser criticado pela imprensa. Dias depois, refutou, da tribuna, a versão veiculada:

Alguns jornais desta capital, fazendo referências ao incidente, o desnaturaram ao sabor de suas paixões. A verdade é que a Mesa usou para com S. Exa. da maior cortesia – o que era seu dever – e, ao terminar a sessão, tendo eu próprio ido à portaria indagar do funcionário incumbido da fisclização do edifício por que razão a tribuna dos srs. diplomatas tinha sido ocupada por pessoas estranhas, encontrei naquele momento, eu, só, isolado, o pessoal que tinha sido atraído pela palavra de S. Exa. e S. Exa. mesmo, que se retirava acompanhado de vários amigos. E devo, em honra da verdade, declarar que não foi proferido um insulto, nenhum gesto que pudesse amesquinhar o vice-presidente do Senado. S. Exa. é disso testemunha (BORGES, 2004, p.186).

Em outro discurso a 29 de dezembro de 1913, Pinheiro Machado reagiu às notícias que insinuavam sua traição ao presidente Hermes da Fonseca:

102

Braz, que era vice de Hermes, acabaria sendo eleito no ano seguinte, mas em nova disputa com o próprio Ruy Barbosa.

(Hermes da Fonseca) tem sido de uma dedicação a toda prova às praxes republicanas. É possível que o governo de S. Exa. tenha atos menos felizes e que ainda os tenha até o final do seu governo (...) mas estou certo de que, sejam quais forem as situações que ele tenha de atravessar, há de ter a seu lado, quando empalidecer o sol de sua administração, amigos fiéis, dedicados e zelosos com seu bom nome, capaz de o defender com denodo e impavidez próprios dos homens de convicção (BORGES 2004, p.187).

Torpedeado pela disputa política que reverberava em parte da imprensa da então capital federal, o senador do PRR escreveu, no início de 1914, o seu testamento político

– em sequência à declaração pública que havia feito anteriormente, sobre eventual atentado à sua vida. O documento, “para ser aberto por minha mulher se porventura eu for vítima dos meus e dos inimigos da República” (ALVIM, 1985, p. 84), permaneceu

inédito até setembro do ano seguinte – quando sua morte reverteu-o de interesse e deu- lhe destaque nos jornais, com interpretações diferenciadas, conforme a reverência ou a oposição que lhe faziam as publicações.

O Imparcial publicou, em maio de 1914, matéria sobre obras públicas federais, informando que Pinheiro Machado colocaria à venda sua fazenda em Campos dos Goytacazes (RJ) – que estaria valorizada por sua influência nos governos – ao empresário norte-americano Percival Farquhar, dono de inúmeros investimentos no Brasil, onde passava boa parte de seu tempo. Da tribuna, o senador discursou desmentindo a notícia (BORGES, 2004).

Em novembro de 1914, com Wenceslau Braz já eleito, estudantes promoveram o enterro simbólico do Marechal Hermes e se dirigiram à sede do jornal O Paiz, por vinculá-lo ao PRC. Os manifestantes depredaram a entrada do jornal e foram rechaçados a tiros.

O momento é de angustia. Naturalmente, o Sr. Dr. Wenceslau Braz accudirá ao reclamo geral do povo, dando-lhe um governo à altura da vontade da Nação, capaz de emendar os erros e crimes, que há quatro annos destroem as forças vivas do Brasil.

O povo esperançoso no novo governo, desejando vel-o organizado com elementos estranhos ao feroz caudilhismo, viu-se ludibriado e protestou. Era o protesto que vive latente na alma nacional contra o feroz caudilhismo que suffoca as aspirações liberais do nosso povo (A RUA, 17/11/1914, p. 1).

A posse de Braz, a 15 de novembro de 1914, teve uma cobertura de imprensa majoritariamente marcada pela valorização de sua independência em relação ao

presidente anterior – do que, vale repetir, era vice-presidente – e a Pinheiro Machado. Porém, ao perceber, com o tempo, que seu ministério continha vários aliados do senador gaúcho, alguns jornais começaram a criticar o novo presidente da República.

Já em 1915, uma derrota de Pinheiro Machado na tentativa de influenciar a eleição para o governo do estado do Rio foi ironizada pela revista Careta, com uma

ilustração em que um crocodilo “engolia” o senador – numa alusão a Nilo Peçança,

vitorioso na disputa regional, contra a vontade do gaúcho. Acompanhavam a imagem os

seguintes versos: “Ei-lo altivo e soberano/Assu. Quero-quero eterno,/manda chuva todo

o ano,/da crise o avô paterno./ Poderoso, obedecido,/ quis beber de um trago o Nilo/

mas foi seguro e tolhido/ nas fauces de um crocodilo” (CARETA, 13/12/1915, p.1 –

escrita original).

Careta também publicou versos de um diálogo imaginário entre Wenceslau Braz e a República – reproduzido a seguir conforme o texto original:

Wenceslau/Eu não receio o Gaucho/nem o ronco que ele tem, o besouro também ronca,/vai-se ver, não é ninguém./ Pintô que pintou Pinheiro,/ pintô que pintou Teffé,/ quando foi pintá Dudu,/ cadê pincé?

A República/ O demonio do Pinheiro/ já não posso supportar,/ já tenho vinte e seis annos/ e quero me emancipar./ Se o pobre do Dudu pudesse/ tornar-se mais comilão,/ certamente, certamente,/engoliria a Nação (...) O Dudu vai ser este anno coroado rei do carnaval. Já há dias que os cordões clamam por todos os angulos da cidade (CARETA, 13/02/1915, p. 1).

O papel dos partidos políticos foi tema de ampla entrevista de Pinheiro Machado ao Jornal do Commercio, do Rio, em maio de 1915, época em que Braz tentava se mostrar independente à antiga liderança do senador, com sinais percebidos – e estimulados – pelos jornais contrários a ele, que aproveitam para criticá-lo.

(...) a desenfreada demagogia dos gazeteiros e dos politiqueiros contra a máscula individualidade de Pinheiro era assistida impassivelmente pelo governo da República, sem que qualquer medida fosse tomada para coibir certos excessos. Proclama-se nos meetings dos arruaceiros pagos às barbas da política, que o general Pinheiro Machado havia de tombar assassinado (SILVA, 1982, p. 110).

No Correio da Manhã de 4 de julho de 1915, uma nota da seção “O dia no

Senado” alvejava:

O Sr. Pinheiro Machado passava por detrás da mesa, cochichava ao ouvido do Sr. Pedro Borges e havia desapprecido por encanto. E os seus

homens incondicionais, um a um, foram seguindo sorrateiramente o chefe do PRC. Foram todos trancar-se no gabinete destinado ao vice- presidente da Casa onde o Sr. Pinheiro os entreteve em rápida, porém definitiva conferencia, resolvendo não dar númmero – sobre as eleições em Pernambuco (CORREIO DA MANHÃ, 04/07/1915, p.4).

No dia seguinte, o mesmo jornal ampliava a cobertura da véspera:

E quando houver guerra, ou mesmo simples ameaça, é olhar onde está o Sr. Pinheiro e affirmar que ali também está a vitória, ou são por Ella todas as probabilidades. Confiando demais na brandura, no espírito conciliador do Sr. Wenceslau Braz, acostumado ás suas condescendências, ele esperava no caso pernambucano, vencer, impor sua vontade, dar uma mostra de sua força sem mais conseqüências. Suspeitou que desta vez não seria assim. Sentiu que o Sr. Wenceslau Braz estava duro (CORREIO DA MANHÃ, 05/07/1915, p. 1).

Na mesma edição, o jornal argumentava: “É evidente que o Sr. Wenceslau não

deve nem pode manter na presidência da República a mesma passividade do marechal

Hermes da Fonseca” (CORREIO DA MANHÃ, 05/07/1915, p. 1). E continuava: “Se o

Sr. Pinheiro não quer paz, tão almejada pelo presidente da República, então que tenha a

guerra franca e declarada” (CORREIO DA MANHÃ, 05/07/1915, p. 1). Para o jornal, esta seria melhor, “porque terá como consequência o aniquillamento politico desse

caudilho desabusado que pretende dispor eternamente dos governos como das suas

eguas na Fazenda Boa Vista”( CORREIO DA MANHÃ, 05/07/1915, p. 1).

O diário carioca dessa mesma data continuava a criticar o senador também em suas páginas internas:

Appezar de todos esses pezares, à reunião marcada para o Morro da Graça, para as 9 horas da manhã, não devia faltar nenhum político do partido pinheirista. Principalmente os senadores que obedecem incondicionalmente ao vce-presidente do Senado, cairiam no índex do velho caudilho se ao ato do Morro da Graça deixassem de dar o amém partidário á voz do chefão, ainda que chovendo (CORREIO DA MANHÃ, 05/07/1915, p. 3).

No clima político de então, falava-se abertamente na eliminação física de Pinheiro Machado – inclusive na simulação de um projeto de lei a ser “apresentado”

pelo deputado Gonçalves Maia (MG), reunindo dois parágrafos: “1º. Elimine-se

Pinheiro Machado. 2º. Revoguem-se as disposições em contrário”. Da tribuna, Pinheiro Machado reagiu:

É possível que durante a convulsão que nessa hora sacode a Republica em seus fundamentos, possamos submergir. É possível. É possível

mesmo que o braço assassino, impelido pela eloqüência das ruas, nos possa atingir. Afirmamos, porém, aos nossos correligionários que, se esse momento chegar, saberemos ser dignos da vossa confiança. Tombaremos na arena, fitando a grandeza da nossa Pátria, serenamente, sem maldição nem deprezo, sentido tão-somente compaixão para com aquele que assim avilta a nobreza inata do brasileiro. Não ocultaremos, como César, a face com a toga e, de frente, olharemos fito a treda e ignóbil figura do bandido, do sicário (SILVA, 1982, p. 113).

Por essa época, Pinheiro Machado foi protagonista de uma articulação para substituir um dos senadores pelo Rio Grande do Sul, buscando abrir vaga para o ex- presidente Hermes da Fonseca. Governava o Rio Grande do Sul, então, um dos irmãos do senador gaúcho – o general Salvador Ayres Pinheiro Machado -, no exercício em razão da licença médica do titular, Borges de Medeiros. O acerto, do qual o presidente estadual licenciado também participou, envolveu a renúncia de Joaquim Assumpção e a realização de uma nova eleição, tendo o ex-presidente como candidato pelo PRR. Vale lembrar que inexistia então a justiça eleitoral, com suas funções absorvidas pelo próprio Senado, através da Comissão de Verificação, a quem cabia absorver ou corrigir os resultados das urnas.

Sob a liderança do Correio da Manhã, parte da imprensa do Rio de Janeiro deflagrou de imediato intensa campanha contrária à candidatura do marechal, nacionalizando, por consequência, o debate sobre um pleito regional. O jornal de Bittencourt acusou Pinheiro Machado de ignorar a vontade popular. Após a eleição, em agosto de 1915, a campanha jornalística tomou outro rumo – o de defender a não- confirmação da escolha, pelo Senado.

Então um dos mais importantes repórteres, João do Rio103

foi incumbido pela Gazeta de Notícias de entrevistar Pinheiro Machado sobre as turbulências em torno de

sua liderança. “Morro na luta, menino. Eles matam-me, mas pelas costas; são uns

pernas finas104

. Pena é que não seja no Senado, como César. Há de ser na rua. Morro em

defesa da República” (SILVA, 1982, p. 114).

A 4 de setembro de 1915, o Correio da Manhã veiculou informações sobre

“rumores de revolução no Sul”, o que fez Pinheiro Machado dizer as repórteres que o

103 Pseudônimo de Paulo Barreto (1881-1921), apontado por Medina (1988) como o introdutor do gênero

reportagem no jornalismo brasileiro. Também foi teatrólogo e escritor – membro da Academia Brasileira de Letras.

Benzer Belgeler