4. ZEKÂ İLE İLGİLİ KURAMLAR
5.2. ÇOKLU ZEKÂ KURAMI VE EĞİTİM
O Pirahy, que aparece na parte superior esquerda do mapa com a grafia “Pirai”, era uma região de ocupação antiga, teve suas paisagens marcadas por plantações de cana e engenhos de açúcar, e mais tarde, ao longo da segunda metade do século XIX, pelos pés de café. Aliás, foi o local em que a rubiácia melhor se adaptou no município. Em 1876, um jornalista ituano afirmava que “ha bem annos, planta-se café em Ytu, e cada anno se aumenta
a sua cultura. Para os lados do Pirahy alem, colhe-se de 20 a 30 mil arrobas”146. Entre as
fazendas que se localizavam naquele bairro rural, pode-se destacar a Fazenda Floresta (15), Piraí (11), Concórdia (14), da Ponte (9) e Cana Verde (12)147.
Na região de Anhambau, produtora de cana e mantimentos, ficava a fazenda Vassoral (7), do Rosário (1) e Jurumirim (8). Na de Itaim Mirim, poder-se-ia encontrar roças para mantimentos e gado, onde estavam as Fazendas Conceição (3) e São Carlos (21). Na parte norte de Apotribu, que se destacava tanto pela cana como pela criação de gado, ficava a fazenda Pau d´Alho (20).148
Os 2.531 escravos e escravas rurais apontados pelo recenseamento de 1874149,
residiriam nos sítios e fazendas localizados nos bairros destacados pelo mapa acima. Cenas de escravos circulando entre diferentes propriedades e em direção à área urbana do município devem ter sido comuns, pelo que se pode supor nas leituras de alguns processos criminais, como, por exemplo, o que envolve o caso de tentativa de assassinato de um senhor por meio de “feitiçaria”. Os escravos envolvidos na empreitada se deslocaram várias vezes da Fazenda Pau d´Alho (que pode muito bem ser a indicada no mapa acima sob o número 20) à casa de um forro no centro da cidade para dar andamento ao plano, que envolvia a transformação de um pedaço de pau em cascavel e da visita de um saci ao senhor. Pelo que afirma Antonio Joaquim Rodrigues, a fazenda era em sociedade com sua cunhada. 150
A região de Pirahy ganha destaque novamente nas páginas da Imprensa Ytuana, só que agora em um texto que denuncia a ocorrência de disturbios de “varios escravos de fasendas próximas, [que ficavam] reunidos no chafariz da entrada da cidade, do lado de Pirahy”151. Essa era uma região, que devido a produção de açúcar e café, concentrava grande
quantidade de escravos, o que justifica a preocupação presente no texto e a atitude do delegado suplente que telegrafou “ao Exm. Dr. chefe de polícia, pedindo força para auxiliar o destacamento desprestigiado, e pôr cabo aos excessos e irregularidades mencionadas,
146 Imprensa Ytuana, Ano I, n° 18, 11/06/1876, p.03.
147ZEQUINI, Anicleide. Notas sobre a Fazenda Floresta de Itu-SP.
http://www.itu.com.br/colunistas/artigo.asp?cod_conteudo=37606. Capturada em 15/04/2013, às 21h30.
148BASTO, Maria Antonieta de Toledo. A cidade de Itu: Berço da República. Um estudo de geografia
urbana até a I República (1930). 1997. Tese, FFLCH-USP, São Paulo, p. 281.
149O Ytuano, Ano II, 22/02/1874, p.03.
150Autos Crimes (Autor – Antonio Joaquim Rodrigues; Réu – Joaquim, Mina, preto forro). Pasta 68, 1856:
Arquivo/Museu Republicano de Itu/USP.
pertubadoras da ordem e tranquilidade publica”.152
As preocupações com as reuniões de escravos e suas possíveis consequências esteve nas pautas da classe senhorial não só de Itu. Por todo o território colonial e imperial brasileiro sempre houve insurgências dos cativos e apreensão dos senhores e autoridades, a qual ganhou contornos maiores no final do século XVIII e início do XIX, quando uma revolta negra, liderada por um ex-escravo, deu fim ao domínio colonial francês, aboliu a escravidão e criou o primeiro estado negro independente no continente americano. O medo de que tal fenômeno pudesse se repetir onde houvesse escravidão fez com que a classe senhorial entrasse em alerta, sendo qualquer indício interpretado como sinal de revolta. A isso chamou- se de estado de haitianismo, o que, segundo alguns historiadores, foi um elemento de união entre as elites brasileiras, que era fundamental para a repressão e combate de qualquer tentativa escrava de liberdade. O caso mais expressivo no Brasil foi a revolta dos Malês, que ocorreu em Salvador em 1835.153
Alguns anos após a revolução haitiana, as autoridades ituanas entraram em estado de atenção aos levantes de escravos. No dia 12 de março de 1809, o capitão-mor de Itu, comunicou ao governador da capitania de S. Paulo,
que os escravos de Itu, Sorocaba, S. Carlos (Campinas), Porto Feliz e itapetininga, insubordinaram-se, fugindo de seus senhores, e, em quilombos e quadrilhas, armados de flexas e de outras armas atacavam os vendantes, as fazendas, matando e praticando outros insultos dentro da vila, e até mesmo formaram sedição para a noite de Natal.154
Os receios de revoltas escravas voltou a gerar preocupações entre as autoridades ituanas no início da década de 1830.155 Tanto é que Câmara de Itu, em sessão de 19 de junho
de 1831, pediu que se formasse um corpo de polícia de 10 homens para rodar a vila à noite e apartar, durante o dia, os ajuntamentos de escravos e tirar-lhes as armas proibidas. E na sessão do dia seguinte, os vereadores votaram uma disposição no Código de Posturas
152Imprensa Ytuana, Ano I, n° 29, 03/09/1876, p. 04.
153GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1991; REIS, João José. Rebelião escrava
no Brasil: a história do levante dos malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986.
154NARDY FILHO, Francisco. Receio infundado. In: NARDY FILHO, Francisco. A cidade de Itu. V.3, Itu:
Editora Ottoni, v. 3, 2.000, p. 259.
155Período que foi marcado por profundas instabilidades e transformações políticas, especialmente por conta da
determinando que era proibido aos taberneiros ou pessoas que vendiam bebidas admitir em seus estabelecimentos mais de três escravos juntos.156
As ações dos vereadores ituanos nas duas sessões da câmara teriam, segundo Francisco Nardy, sido motivadas, em especial, pela superioridade numérica da população de negros sobre a branca, justificando sua argumentação com um recenseamento que o capitão- mor Bento Paes de Barros realizou em julho de 1820, o qual apontou que a vila de Itu contava com 2.395 brancos e 5.750 negros (4.653 escravos e 1.155 pretos e mulatos livres e libertos).157
As noites de sono perdidas pelos senhores por conta dos receios de sedições escravas não seriam apenas fruto da imaginação, possuíam fundamentos no que vivenciavam. A inauguração do patíbulo na então vila de Itu se deu em abril de 1834, com o enforcamento do escravo Estevam que, com a ajuda de outros companheiros de senzala, assassinara seu senhor em janeiro daquele mesmo ano. A condenação do escravo e, em especial, a sua execução dever ter sido uma tentativa da classe senhorial forjar um “espetáculo” pedagógico e persuasivo para convencer a população escrava de que atitudes radicais contra seus senhores poderiam não ser uma boa ideia.158 E pelo que vimos, o espetáculo não pareceu
suficientemente convincente, pois, nas décadas que se seguiram ao enforcamento de Estevam, não faltam histórias de escravos atentando contra a vida de feitores, senhores ou de seus familiares, ao menos é o que faz supor o texto publicado, em 1879, pela Imprensa Ytuana:
A cidade de Ytú, conhecida por sua índole pacifica e ordeira, acaba de sentir uma commoção extraordinária! O bárbaro assassinato de cinco pessoas em uma família respeitável, por um escravo sem a menor rasão de queixa de seu senhor, colocou a sociedade ytuana em extasis incalculável.
O escravo depois da execução de seu nefando crime, apresentou-se a autoridade sem a menor perturbação de espírito.
Mais tarde, outro escravo no Engenho Destado assassinou o feitor e veio também apresentar-se.
(...) Os ytuanos revoltados á noite em numero superior a duzentas pessoas foi a cadeia e procurarão arromba-la. Repellidos pela força abandonaram o intento, porem, em pleno dia, levaram a effeito seu designo! E de facto, as 2 horas da tarde do dia 11, abrião as portas do carcere, tirarão o criminoso, matarão -no a pedradas e arrastarão o cadáver pelas ruas mais publicas da cidade.159
156NARDY FILHO, Francisco. A Vila de Itu teme um levante de escravos. In: NARDY FILHO, Francisco. A
cidade de Itu.V.2, Itu: Editora Ottoni, 2.000, p. 150 e 151.
157Ibid., p. 150 e 151.
158Id., O primeiro júri na comarca de Itu. In: NARDY FILHO, Francisco. A cidade de Itu.V.2, Itu: Editora
Ottoni, 2.000, p. 153 e 154.
O escravo que foi linchado se chamava Nazário e sua atitude repercutiu além dos limites da cidade de Itu. O deputado Leite Moraes, na sessão de 12 de fevereiro do mesmo ano, na capital da província fez menção ao que ocorrera em Itu e lembrou também outros dois crimes semelhantes ocorridos um pouco antes, uma contra um feitor de Indaiatuba e outra contra mais um senhor em Itu.160 As palavras do deputado foram as seguintes:
É preciso que tais cenas não se reproduzam! É preciso que um outro homem, que uma outra família não seja vitima do horroroso atentado que praticou-se com o ilustrado Dr. João Dias Ferraz da Luz excessivamente filantrópico e caritativo, que tratava seus escravos, por assim dizer, de igual para igual. Quando ele foi vitima de um fato como aquele, quando suas filhas participaram de sua sorte, quando semelhante barbaridade se deu em uma cidade como a de Itu, notável pela excelência de seus bons costumes, pela boa índole de seus habitantes, pela sua prudência, pelo amor à paz, à ordem, à religião, o que devemos esperar de outras localidades?161
Pelo que se pode entender da fala de Moraes, o atentado contra a vida de membros da classe senhorial era um risco latente na província de São Paulo, o fato de ocorrer na cidade de Itu, fortemente elogiada por ele e destacada por repousar em seus habitantes a fama de possuidora de boa índole, seria um motivo maior para que o assunto merecesse atenção das autoridades.162
O deputado Leite Moraes, segundo a historiadora Célia Marinho Azevedo, entendia os fatos sob a prerrogativa de que aumento da violência que vinha sendo praticada pelos escravos contra seus senhores, nas últimas décadas da escravidão, estaria relacionado ao tráfico interprovincial, e o seu discurso na assembleia provincial faria parte dos discursos e debates que buscavam caminhos para se coibir esse tráfico, que culminaria com uma Lei em
160Apud: AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra medo branco. O negro no imaginário das elites: