Mas onde moravam os ferroviários? Em que áreas da cidade se fixaram? Estavam espalhados na malha urbana da cidade ou concentraram-se em alguns bairros? Em quais bairros e em quais ruas sua presença era mais efetiva? Como interferiram no ambiente em que moravam? Como eram suas casas? Como ocorria a aquisição da casa própria pelos ferroviários? Quais órgãos financiavam?
Antes de buscar respostas, observemos a análise de José Sérgio Leite Lopes sobre as vilas operárias como dispositivo de controle da classe trabalhadora:
[...] mais do que simplesmente funcionais à produção, são instrumentos estratégicos de formação, educação, domesticação e transformação da classe trabalhadora real, com suas tradições e disposições culturais, no modelo que a burguesia se faz da classe trabalhadora. E aí o meio físico, a disposição da cidade e das casas, as instituições criadas pela companhia, são elementos para moldar ou pretender moldar uma nova classe operária segundo a crença no determinismo “físico e moral”.154
A pretensão de moldar torna-se real em algumas situações, a exemplo da vila operária da fábrica Brasil Industrial, estabelecida em 1870, em Paracambi, no Rio de Janeiro, junto à estação Ribeirão dos Macacos, da Estrada de Ferro D. Pedro II. Guardas faziam o controle de crianças que se banhavam nos rios, comunicando aos pais e estendendo sua ação durante toda a noite “por toda a vila até o portão que separava a vila do comércio”. Além disso, cabia aos guardas, porque conheciam todos os moradores, observar se havia algum estranho no último trem a chegar. Além disso, depois das 22 horas, os operários não podiam ficar com as casas abertas, andar na rua ou namorar.155
Nem sempre é assim, porém. Carpintéro demonstra que, em 1917, em São Paulo, o direito à moradia faz parte das reivindicações dos trabalhadores. “Os operários reivindicavam um espaço de moradia na cidade, enquanto os técnicos e políticos defendiam a construção de habitações econômicas como forma de intervir nos hábitos e nos valores da população trabalhadora”, diz a autora, ao acrescentar que “as diferentes camadas da sociedade tomaram posição relativa à questão da moradia em discursos técnicos, políticos e empresariais ou operários”.156
Dentro dessa concepção, as vilas ferroviárias vão surgindo, nos mais diferentes bairros, espaço de convivência social por excelência para o qual Richard Hoggart apresenta um conceito clássico: “A casa pode ser o domínio privado da família, mas a porta principal abre para a rua, e aquele que desce
154 LOPES, José Sérgio Leite. Anotações em torno do tema “condições de vida” na literatura
sobre a classe operária. In MACHADO DA SILVA, Luís Antonio. Condições de vida das camadas populares (org.). Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 28.
155 KELLER, Paulo Fernandes. Fábrica & vila operária: a vida cotidiana dos operários têxteis
em Paracambi/RJ. Engenheiro Paulo de Frontin: Solon Ribeiro, 1997, p. 50.
156 CARPINTÉRO, Marisa Varanda Teixeira. A construção de um sonho: os engenheiros e a
um degrau, ou nele se senta a gozar o fresco nas noites bonitas, passa a tomar parte na vida do bairro”. De sua experiência com grupos de operários dos bairros de Leeds, com casas “muito juntas e invadidas pelo fumo das fábricas”, o autor tirou algumas lições. Uma delas, a de que “na cidade, vive-se por ruas”; a outra é a de que, “a menos que lhe seja atribuída uma casa de renda econômica, o homem do proletariado habita toda a sua vida no mesmo bairro, talvez na mesma casa para onde foi morar quando se casou”.157
Já Pierre Mayol define o bairro como “um domínio do ambiente social, pois ele constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano na qual, positiva ou negativamente, ele se sente reconhecido”. Na perspectiva do pesquisador francês, o bairro “atesta uma origem” e “se inscreve na história do sujeito como a marca de uma pertença indelével na medida em que é a configuração primeira, o arquétipo de todo processo de apropriação do espaço como lugar da vida cotidiana pública”.158
Em Aspectos sociais da vida de Fortaleza, Stênio Lopes argumenta, nos idos de 1947, sobre o “afastamento bastante sensível” entre ricos e pobres, na discriminação dos bairros da cidade. Benfica, Otávio Bonfim, Soares Moreno e Outeiro são citados como de classe média; Aldeota, parte do Jacarecanga, 13 de Maio, certas zonas da praia, como de classe rica; e Monte Castelo, Pirambu, Carlito Pamplona, “nitidamente destacados os bairros proletários”.159
A ferrovia e “a intensificação das relações da cidade com o espaço regional” resultante do trem provoca mudanças significativas, a começar pela fixação da mão-de-obra empregada na Oficina do Urubu, que começa a construir suas residências nos arredores. A proximidade dos trilhos e a presença da mão-de-obra atraem indústrias ligadas direta ou indiretamente à produção e comercialização do algodão.160
Isso possibilita, efetivamente, o surgimento do bairro operário, alargando os limites da cidade e constituindo um espaço de tensão com o restante do tecido urbano. De outro modo, amplia a agenda de reivindicações dos
157 HOGGART, Richard. As utilizações... Op. cit., p. 71 e p. 75-78.
158 MAYOL, Pierre. Morar. In CERTEAU, Michel; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do
cotidiano: 2. morar, cozinhar, 3. ed. Petrópolis: Vozes, Ephraim F. Alves e Lúcia Endlich Orth (trads.), 2000, p. 40 e p. 44.
159 LOPES, José Stênio. Aspectos sociais da vida de Fortaleza. Clã Revista de Cultura, n. 16 –
Ano VII. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1957, p. 89.
operários voltada à criação de uma rede de equipamentos (clubes, escolas e praça, por exemplo), enquanto a reduzida Fortaleza das elites e dos setores médios tende a levantar uma barreira invisível como se o “gueto” dos trabalhadores fosse um mundo à parte, como se as relações sociais fossem evitáveis e as tensões não existissem. Antes do boom imobiliário do final da década de 1980, quando Fortaleza ainda não se expandira a leste, era comum, pelo menos em determinados círculos de percepção social redutora, que a cidade só “existia” do trilho para a Aldeota.
Na perspectiva de Pierre Mayol, a necessidade de “coerção espácio- temporal”, forçando a “percorrer o máximo de distância no menor tempo possível”, marca, em geral, a relação moradia-lugar de trabalho no espaço urbano, expressa na linguagem cotidiana por termos como “pular da cama”, “engolir o café”, “pegar o trem”, “mergulhar no metrô”, “chegar em cima da hora”.161
Aliada ao desejo da casa própria, essa necessidade torna-se crucial, por exemplo, para o torneiro mecânico José Elias Gonzaga, o “Catita”. Depois de conseguir aprovação no disputado concurso da Escola Ferroviária, que funcionava na Praça Castro Carreira, ele estuda quatro anos e conquista uma vaga de aprendiz. Muito habilidoso, ele ganha posteriormente lugar definitivo e, aos poucos, torna-se influente dirigente sindical. Falta a casa própria e, de preferência, próximo da Oficina do Urubu. Ele consegue a de número 436, na Vila Demósthenes Rockert, conhecida como Vila Ferroviária, cujo lançamento da pedra fundamental ocorre com bênção (figura 19), na presença de homens, mulheres e crianças esperançosos de verem o sonho realizado. “Eram aproximadamente cem casas, tinham sala, dois quartos, cozinha e puxadinha” (figura 20), lembra José Elias Gonzaga.162
161 MAYOL, Pierre. Morar… Op. cit., p. 44. 162 Entrevista concedida ao autor, em 21/11/2007.
Figura 19 – Lançamento da pedra fundamental das casas da Vila Ferroviária Demósthenes Rockert, em frente à Oficina do Urubu, na Avenida Francisco Sá, bairro Álvaro Weyne, em Fortaleza (CE).
Arquivo RVC/RFFSA e Arquivo Nirez.
Figura 20 – Casa da antiga Vila Demósthenes Rockert, com a numeração atual. Líderes ferroviários como José Elias Gonzaga e José Maria de Oliveira moravam em casas como essa.
Maria Luciene Oliveira da Silva, 53 anos, mora na casa n.º 4780 da Avenida Francisco Sá, na antiga Vila Ferroviária, para onde se mudou quando tinha nove anos. Seu pai, o ferroviário fundidor José Eugênio de Oliveira, tinha catorze filhos e ganhou o direito de ocupá-la no sorteio cujo critério privilegiava quem tivesse maior número de filhos. Com dona Luciene vivem mais oito pessoas – mãe, irmã, cunhado, filhos e netos -, acomodados na casa de sala (com teto de lambris), três quartos, banheiro, cozinha e despensa. A área da entrada recebeu grade e o quintal ganhou puxada. Segundo ela, o piso dos quartos era de taco e o do restante da casa, de mosaico.
O financiamento de casas aos ferroviários fazia parte das ações parlamentares de Paulo Sarasate, que “se dava muito bem com os ferroviários”.163 “Nos conhecia muito bem”, reconhece Afonso Bento Bezerra.164 Mas ser agraciado com uma das unidades constituía, efetivamente, um privilégio ao qual poucos tinham acesso, seja pela renda, seja pela sorte grande nos sorteios. Quem as tinha temia perdê-las, como é possível observar no INFORME, com o carimbo de reservado:
Um de nossos auxiliares, viajando num dos ônibus que faz a linha do bairro Floresta, quarta-feira última às 22,00 hs., notou a presença na Secção competente desta D.O.P.S. José Maria de Oliveira e José Elias Gonzaga, os quais conversavam sobre Juscelino K. de Oliveira e as casas em que residem. Procurando-se inteirar do que de real se passava com as casas da Vila da RVC, veio a saber que eles têm prazo marcado para desocupar as mesmas, pois vão ser vendidas a funcionários da RFFSA e eles não têm direito à compra das citadas casas. Foi só o que soube o Auxiliar. Fortaleza, 22 de janeiro de 1965. Aluísio Figueiredo Gomes – Comissário da D.O.P.S.165
Os alcaguetes estavam por todos os lugares, atentos, disfarçados, traiçoeiros. E, de fato, José Elias Gonzaga, vice-presidente da União dos Ferroviários, teve de sair da casa em que morava com dona Leda, logo depois do golpe de 1964. O mesmo drama viveu a família de José Maria de Oliveira.
De privilégio garantido gozavam alguns engenheiros, como se pode depreender das memórias do ex-superintendente da RVC, Aury Sampaio. Ele
163 Entrevista de José Elias Gonzaga concedida ao autor, em 21/11/2007.
164 Entrevista concedida a Rogério de Aguiar Moraes. Original datilografado em 5 folhas. 165O Informe da DOPS se baseia no manuscrito assinado pelo auxiliar Fausto Ribeiro Chaves.
Está escrito a caneta de tinta azul, em uma folha. Encontra-se na Pasta Informes s.n.º, na qual constam mais 16 documentos do Fundo DOPS, sob guarda do Arquivo Público do Estado do Ceará.
lembra que existia um grupo de casas da RVC/RFFSA ocupadas em sua maioria por engenheiros. Era um conjunto de oito casas, em estilo bangalô, que ficava na esquina das Rua Castro e Silva com Rua 24 de Maio. Quando, a convite do então ministro de Viação e Obras Públicas, Virgílio Távora, assume a superintendência da Rede, em 1961, no auge do movimento “Fora Humberto Moura”, Aury e sua família passam a ocupar a casa da esquina da Praça, destinada ao superintendente.166
Em 1991, os bangalôs são adquiridos pela Prefeitura na administração do prefeito Juraci Magalhães e demolidos para permitir o alargamento da Rua Castro e Silva e desafogar o fluxo de ônibus para o lado norte. Um traço característico da metropolização sem planejamento, do tráfego nervoso e intensivo, sobrepondo-se à memória de Fortaleza, castigada pela ausência de políticas patrimoniais, “cuja consequência é a vulgarização dos espaços da cidade e a perda da memória urbana”.167
Muito antes da década de 1960, porém, Getúlio Vargas percebe o significado de “progresso material” que representa a casa própria. No fundo, uma moeda de troca atraente. A questão da moradia assume, assim, lugar de destaque na nova ordem e passa a ser analisada como “símbolo da valorização do trabalhador”, numa tentativa de comprovar resultados da política governamental. Na década de 1930, afinal, poucos operários e trabalhadores de baixa renda possuem moradia, num contexto em que até mesmo grande parte da classe média vive em casas alugadas.168
Tornar-se proprietário de imóvel naqueles difíceis anos que antecedem uma grave crise na habitação atiça os interesses dos especuladores e ocupa os anúncios da época. Uma evidência do crescimento da cidade naquela direção, de uma faixa própria de possível consumo, parece ser o alvo da especulação, como se depreende da linguagem de sua publicidade, vendendo lotes de 25 palmos como sonho de propriedade:
166 SAMPAIO, Aury. A estrada que trilhei. Rio de Janeiro: Novas Direções, 2008, p. 174.
167 INSTITUTO dos Arquitetos do Brasil-Seção CE; ASSOCIAÇÃO dos Docentes da
Universidade Federal do Ceará-ADUFC. Carta de Fortaleza: uma cidade em questão. Fortaleza, 1992.
168 BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do
Já se pode ser proprietário. Parece uma mentira! Mas é verdade. Na Vila Moderna, bairro da Jacarecanga, entre a Avenida Rockert (Urubu) e Rua S. Paulo, dois quarteirões depois da Praça Fernandes Vieira, vendem-se terrenos em lotes de 25 palmos, pagáveis em prestações no decorrer de 12 meses, pela insignificante quantia de Rs. 625$00 ou seja a prestação de Rs. 50$00 ao mês.169
O jornal também anuncia, por vários dias, “terreno próprio para Vila Operária” (figura 21):
VENDE-SE um terreno de esquina próprio para Vila Operaria, dividido em 123 lotes anexos, com 25 palmos de frente cada um, no bairro Santos Dumont, sito à Rua Guajirus, distante 2 quarteirões da 1.ª secção do bonde. A tratar com o proprietário-Dr. Faustino Nascimento, em seu escritório à Rua Barão do Rio Branco, n.º 184.170
Figura 21- Anúncio de venda de terreno para vila operária.
O Povo, ano III, n.º 701, 29/08/1930. Fortaleza, p. 8.
Acervo Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel/Setor de Periódicos/Núcleo de Microfilmagem.
169 O Povo, ano III, n.º 768, 06/09/1930. Fortaleza, p. 2. A titulo de esclarecimento, convém
explicar que, nas citações de textos antigos, adotei a grafia atualizada.
O quadro de dificuldade para assalariados comprarem bem com valor acima de seus rendimentos se agrava com a inexistência de linhas de financiamento que lhes possibilitem construir casas na periferia dos núcleos urbanos. Mas sem moradia, a ordem macropolítica está ameaçada, daí porque a habitação operária passa a ser vista como bem sem o qual o trabalhador não sobrevive, além de transformá-lo em proprietário, incorporando os “padrões de comportamento moral e cultural da burguesia.171
Assim, em 1938, em pleno Estado Novo, surgem o Decreto-Lei 58, regulamentando a venda de lotes a prestação, e as Carteiras Prediais dos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs). Cabe observar que os IAPS sucedem as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPs), que surgem com a primeira regulamentação da previdência social no Brasil, iniciada em 1923, com a aprovação da Lei Elói Chaves. As CAPs são criadas em consequência das reivindicações dos ferroviários, estendendo-se três anos depois para marítimos e portuários.
Em Fortaleza, em 26 de dezembro de 1938, é lançada a pedra fundamental das casas para empregados da RVC em Otávio Bonfim, na Rua Justiniano de Serpa; e na Aldeota, na atual Rua Alfredo Prudente, paralela à João Cordeiro, com entrada pela Tenente Benévolo. As casas financiadas pela Caixa de Aposentadorias e Pensões têm como construtor Pedro Arruda Campos. Os dois atos são prestigiados pelo diretor interino da Rede, engenheiro Humberto Monte, pelo interventor federal, Meneses Pimentel, e pelo engenheiro José Abreu Paleta, presidente da Caixa. Em nome dos funcionários, fala o ferroviário Cornélio Diógenes (figura 22).
Figura 22 – Imprensa destaca lançamento da pedra fundamental das vilas ferroviárias nos bairros Aldeota e Otávio Bonfim.
O Povo, ano XI, n.º 1975, 27/12/1938. Fortaleza, p. 4.
Acervo Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel/Setor de Periódicos/Núcleo de Microfilmagem.
Na Aldeota as casas são construídas em terreno comprado à imobiliária José Gentil por 80$000. Eram duas casas tipos I e seis tipo VI, no valor de 18:000$000; duas tipo V, no valor de 22:000$000; e uma tipo VIII, no valor de 21:000$000.172 Tinham quatro quedas d’água, imitando telhados europeus.
Nos dias atuais, resta apenas uma que ainda mantém características originais, pelo menos na fachada. Em uma das unidades, morou Francisco de Assis Ferreira, primeiro assistente jurídico da ferrovia cearense, que também exerceu os cargos de chefe do Departamento de Pessoal e Assistente Administrativo da
Superintendência173 e integrou a comissão de processo sumário que investigou, depois do golpe de 1964, os “crimes contra o Estado” praticados pelos ferroviários.
Em Otávio Bonfim, no terreno adquirido a Mário Braga por 80$000, foram edificadas três casas tipo VI, na Rua Justiniano de Serpa, e dez tipo I, na atual Rua Joaquim Barbosa dos Santos, no valor de 18.000$000 cada.174 Ao todo, a Vila tinha 16 casas, e algumas ainda guardam traços e elementos do desenho arquitetônico original (figura 22).
Dona Íris Stela Maria Barbosa Serra, 73 anos, filha do ferroviário Francisco Barbosa de Paula Serra, lembra que, em 1939, “quando eu tinha cinco anos, viemos morar aqui, na Vila Ferroviária do Otávio Bonfim. Meu pai morava na Rua Liberato Barroso, foi sorteado e ficou pagando.” Nas suas lembranças, recorda que as crianças brincavam de roda, as pessoas conversavam na calçada e íamos dormir cedo”. Ainda vivendo na mesma casa número 3 da antiga Vila Ferroviária, localizada entre as ruas Joaquim Barbosa, Bela Cruz (antiga Quintino Bocaiúva), Dom Jerônimo e Justiniano de Serpa, dona Íris resume: “Era uma morada boa”. A casa, descreve ela, tinha varanda, sala conjugada a um quarto, uma saleta também conjugada ao segundo quarto, sala de jantar com entrada para o terceiro quarto, cozinha, despensa, um banheiro e quintal. As portas são de cedro, “senão o cupim já tinha acabado”, e o piso era assoalho, “mas a mamãe mudou para mosaico”.175
173RVC-Notícias, ano I, n.º 2, 04/1969. Fortaleza, s. p. 174O Povo, ano XI, n.º 1.975, 27/12/1938. Fortaleza, p. 4. 175 Entrevista concedida ao autor, em 23/4/2008.
Figura 23 – Casas na antiga Vila Ferroviária de Otávio Bonfim, em Fortaleza (CE), ainda mantêm alguns traços originais.
Foto do autor (2007)/Acervo do autor.
Ao relacionar moradores do Otávio Bonfim, por rua, nas décadas de 1950-60, Moraes refere-se à vila ferroviária como “uma Vila de gente importante”. Cita Valdizar Brasil, “alto funcionário da RVC”, sua esposa, Francisca Maria Gurgel Brasil, e os onze filhos: Antônio, José Alfredo, Francisco, Valda, Luiz, Henrique, Edmar, Edmundo, Humberto, Maria das Graças e Maria de Fátima. Na Justiniano de Serpa (antiga Estrada do Gado), moravam Júlio Falcão e José Moreira Falcão; na Dom Jerônimo, onde ficavam o Cine Familiar e o Matadouro Modelo, Jonas Barros, outro “alto funcionário da RVC”, com sua família bastante numerosa e de “participação ativa” no bairro; na Agapito dos Santos, o casal Ubiratan e Valda; e na Rua do Trilho ou Linha Nova, a família do Aguiar, que trabalhava na Caixa Ferroviária (IAPFESP), distribuindo fichas aos associados.176
Hoje denominado oficialmente de Farias Brito, o bairro continua conhecido popularmente como Otávio Bonfim, o engenheiro da antiga RVC responsável pela realização de obras da Rede naquele perímetro. Por esse
176 MORAES, Vicente. Anos dourados em Otávio Bonfim: à memória de Frei Teodoro.
motivo, sua memória está ligada àquela área da cidade, inclusive dando nome à primeira estação na direção norte-sul.177
No auge da crise da habitação, em 19 de abril de 1941, quando Getúlio Vargas aniversaria, ocorre, no Teatro José de Alencar, o anúncio da inauguração da Vila Operária Valdemar Falcão, com 60 casas destinadas aos operários da RVC e o edifício da escola pública.178
É a primeira etapa da vila operária construída com recursos da Caixa de Assistência e Previdência dos Ferroviários, em terreno doado pela União. A festa de inauguração acontece somente em 28 de abril de 1941. Lá estão o diretor da Rede, Hugo Rocha, o interventor Federal, Meneses Pimentel, o presidente da Caixa de Aposentadoria dos Ferroviários da RVC, Francisco Carlos de Oliveira, e grande número de autoridades. As bandas de música do 23 B.C. e da Força Policial abrilhantam a festa oficial.179