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2.2. ÇOKKÜLTÜRLÜ EĞĠTĠM

2.2.5. Çokkültürlü Eğitimde Temel Ġlkeler

Segundo Capurro (2003), a teoria crítica e, mais particularmente, a hermenêutica vão proporcionar um novo marco epistemológico para o paradigma social da CI, sobretudo porque, nessa perspectiva, as diferentes “comunidades de interpretação” desenvolvem diferentes critérios de seleção e relevância para as informações. Na verdade, são essas comunidades,

como “sujeitos cognoscentes sociais”, que vão dizer, segundo seus próprios critérios, o que é ou deixa de ser informação, num processo sociohistórico que determinará, em grande medida, aquilo que tem ou deixa de ter sentido em diferentes contextos. Assim, Capurro (2003), referindo-se ao paradigma social na CI, diz que

a primeira conseqüência prática desse paradigma é o de abandonar a busca de uma linguagem ideal para representar o conhecimento ou de um algoritmo ideal para modelar a recuperação da informação, como aspiram o paradigma físico e o cognitivo (p.9).

De fato, as noções de “epistemologia ou cognição social” e, posteriormente, de “comunidades de interpretação”, que implicam a existência do “sujeito cognoscente social”, afirmam que o conhecimento é socialmente construído. Com essas descobertas, o conceito de informação na CI ficará relativizado e uma nova discussão será aberta. Trata-se de um momento rico, no qual se intensificam os debates em torno do objeto da CI. Se, por um lado, há um aumento da complexidade e das dificuldades para os estudiosos e pesquisadores, por outro configuram-se novos desafios e possibilidades, pois há necessidade de buscar elementos nas ciências sociais para melhor entender e abordar o fenômeno e as questões informacionais. Essa possível abertura às ciências sociais pode significar um aprofundamento teórico- metodológico e um significativo amadurecimento para a área.

Se, no novo paradigma social, um determinado conhecimento é considerado tanto mais informativo quando mais significar um avanço para um determinado grupo ou comunidade em relação a pressupostos anteriormente compartilhados, ou seja, se não for pura e simples redundância, o que é ou deixa de ser informação depende de condições sociohistóricas e do repertório cultural de um sujeito que está inserido nesse contexto.

Vai se falar, então, em “informação como conhecimento em ação” e em “conhecimento como informação potencial” (Capurro, 2003). Mais do que numa teoria da informação, Capurro (2003) fala, então, de uma “teoria das mensagens” ou de “oferta de sentido”, na qual o usuário ou uma comunidade de usuários vai exercer um papel ativo, selecionando as informações a partir de um processo de compreensão e interpretação, numa atividade que “procede não só de sua consciência ou de seus modelos mentais”, mas de “seus conhecimentos e interesses prévios” que “estão entrelaçados na rede social e pragmática que lhes dá sustentação” (p.17).

É nesse contexto que surge, por exemplo, a “análise de domínio”, propondo a idéia de que diferentes objetos são informativos em relação à divisão social do trabalho, ou seja, tendo em vista diferentes domínios do conhecimento relativamente independentes (ou comunidades de interpretação). Nessa perspectiva, a informação é um conceito subjetivo, mas não no sentido unicamente individual do termo, pois inclui os processos socioculturais que integram os critérios de seleção daquilo que é ou não é informativo. Em termos da RI, as noções de “seleção” e “relevância” se tornarão muito próximas do conceito hermenêutico de “pré- compreensão” (vorverständnis).

A argumentação e a problematização epistemológica de Capurro (2003) fornecem, ainda, um conjunto de indicações para melhor entender os fenômenos informacionais numa perspectiva filosófica. Capurro e Hjorland (2003) observam que os usos que se fazem modernamente do termo informação encontram-se num período inconcluso, de transição, do sentido clássico de “moldar a substância”, “dar forma” e, portanto, “representar”, para um sentido mais próximo à idéia de “interpretação”, ou seja, um entendimento da informação como produto de uma atitude interpretativa sobre o mundo, onde o papel do sujeito sociohistórico é decisivo na produção de sentidos.

Capurro e Hjorland (2003) consideram que “diferentes conceitos de informação dentro da CI refletem tensões entre uma abordagem subjetiva e [outra] objetiva” (p.345) e que o conceito de interpretação (ou seleção) seria uma ponte entre esses dois pólos. Isso significa que a abordagem objetiva, ao considerar a informação apenas como coisa ou como um objeto fora do sujeito, assenta-se na suposição de que uma noção de sentido não é importante na CI e, por isso, dispensa o sujeito e a subjetividade como integrantes do fenômeno informacional. Ficam esquecidos os mecanismos subjetivos que respondem pela seleção, discriminação ou interpretação da informação. Não se pergunta, assim, sobre os mecanismos de processamento ou liberação da informação, ou seja, os selecionadores ou intérpretes.

A informação, portanto, deve ser considerada como um fenômeno estudado em diferentes disciplinas, segundo diferentes conceitos, que assume formas variadas e que é processado (interpretado) de diversas maneiras: a biologia, por exemplo, estuda a informação processada pelos mais variados organismos vivos; a genética, como mecanismo de transmissão de características hereditárias; a computação, como fenômeno eletro-eletrônico; a comunicação como fenômeno noticioso, etc. Nos seres humanos a informação demanda uma

determinada forma de linguagem (complexa, pois implica escolha de sentidos), socialmente desenvolvida e o uso de diferentes tecnologias.

Assim, Capurro e Hjorland (2003) sugerem que o uso do termo informação em CI deve levar em conta a cultura, as pessoas e a subjetividade. O que pode ser considerado informativo “depende das necessidades interpretativas e habilidades do indivíduo”, lembrando que essas são “freqüentemente compartilhadas com membros de uma comunidade de discussão” (p.350).

Para Capurro (2003), não só as correntes filosóficas que consideram o caráter fundamentalmente interpretativo do conhecimento, entre elas a hermenêutica, repercutiram na CI, mas também o desenvolvimento da ciência da computação (CC) e as descobertas da neurociência. Em conjunto, elas “revolucionaram a idéia clássica de conhecimento, baseada na idéia de representação, ou seja, de duplicação de uma realidade externa na mente do observador” (p.4). Essa mudança foi iniciada a partir da “teoria da informação” (Shannon e Weaver) e da “cibernética” (Wiener), na medida em que estimularam a chamada “cibernética de segunda ordem” (Foerster, Maturana e Luhmann) que, juntamente com a “semiótica” (Pierce), influenciaram a discussão epistemológica da CI.

Ao enfocar a necessidade de entender a questão da informação como conhecimento em ação e como oferta de sentido em determinados contextos sociais, nos quais o papel das comunidades de interpretação é decisivo, ganham relevo os aspectos humanos e antropológicos da informação, sua utilização no cotidiano pelas comunidades nas mais diversas situações, tanto no domínio da ciência e da técnica como no domínio do senso comum.

Pode-se dizer que, com Capurro e Hjorland, as propostas iniciais de Shera e Egan no sentido de uma epistemologia ou cognição social vão ganhando corpo. Encontram-se nesses autores elementos que permitem fazer caminhar a CI como uma ciência social. Assim, têm o mérito de trazer a análise social para o interior da CI, embora de uma maneira ainda muito influenciada pelo funcionalismo, sobretudo porque não chegam a aprofundar as questões de natureza sociohistóricas.

No entanto, esse esforço de reflexão epistemológica é importante, pois busca a re- humanização do conceito de informação, ao inseri-lo num contexto sociocultural. É também oportuno, pois acontece num momento de amadurecimento da área, do qual já se falou, em que crescem os debates e os questionamentos sobre os fundamentos dos chamados paradigmas

físicos e cognitivistas. Alarga-se e, ao mesmo tempo, complexifica-se o campo da CI, tanto em termos da pesquisa quanto da atuação profissional, isto é, abrem-se possibilidades que trazem novas responsabilidades e, por isso mesmo, em novos estudos em busca de referenciais teóricos e metodológicos.

Na verdade, esta revisão bibliográfica conduz ao entendimento de que práticas informacionais são um trabalho permanente de contextualização do conhecimento diante de situações concretas, ou seja, o valor de uma informação não se define a priori, mas a partir de uma demanda situacional, de um determinado grupo, num determinado contexto ou situação sociohistórica. Tudo depende, em boa medida, de como e de onde as situações têm sido abordadas e problematizadas.

Faz-se necessário, então, introduzir a idéia de “práticas informacionais”, as quais implicam um trabalho de interpretação que é feito de diferentes perspectivas: tanto por parte de produtores, como de mediadores e de usuários ou receptores das informações e em diferentes domínios da cultura. É necessário dizer, no entanto, que esse processo não se realiza de uma maneira linear, harmoniosa e/ou consensual, pois traz em seu bojo conflitos e disputas que têm lugar no campo do simbólico. Falta portanto, politizar um pouco mais a discussão, trazendo à tona as idéias de conflito social e de disputa simbólica.