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BÖLÜM 1: KAVRAMSAL ÇERÇEVE

1.1. Küresel Zihniyetin KavramsallaĢtırılması

1.1.3. Çok Boyutlu Perspektif

Pude observar que a psicanálise, em Londrina, ainda está muito atrelada à linha ortodoxa:

Aqui em Londrina, Lacan tem um território bastante restrito, comparado com outras vertentes teóricas, e, nessa questão, millerianos e não millerianos estão meio empatados, porque são poucos. Agora eu acho que está melhorando, a universidade começa a circular o discurso de Lacan, tanto na UEL quanto na Unifil. Helena foi a primeira professora a ter um discurso lacaniano ali na universidade [Unifil], depois veio a Tânia, e parece que agora tem uma outra professora, e isso está se ampliando. Tem pessoas que estão se envolvendo, que foram alunos, mas isso é recente, tem uns oito anos. Na UEL, só fui conhecer Lacan no quinto ano, e isso foi em 95. Mas eu diria que a circulação ainda é pequena, porque prevalece outros discursos. Aqui em Londrina tem o pessoal da IPA, que é bastante forte, se você compara com Curitiba, por exemplo, que tem muito mais lacaniano. (Beatriz)

Presenciei essa configuração do “cenário psi” londrinense nos seminários de psicanálise que participei, em maio de 2008. Um, organizado pelo grupo de estudo da clínica, foi ministrado por Angela Valore. Todos estavam orgulhosos, considerando uma vitória trazer Angela para um seminário e ter a sala cheia — o auditório estava bastante movimentado, repleto de estudantes. O outro, organizado pelo NPNP, ocorreu, coincidentemente, no dia seguinte, e trazia de São Paulo o psicanalista winnicottiano Orestes Forlenza Neto. Nesse seminário, o espaço, bem menor, não estava cheio, quase não havia estudantes — predominavam profissionais mais velhos, e a grande maioria era de psiquiatras que atendiam pela designação de doutor.

      

O seminário do NPNP foi divulgado por mala-direta; só tive conhecimento dele porque minha irmã, que é psicanalista, recebeu o informativo, ou seja, o público parece ter sido selecionado. Já o evento de Angela teve cartazes e folders espalhados em universidades, e, inclusive, o grupo de estudo da clínica solicitou minha contribuição para a divulgação. O estilo dos seminários também foi diferente: Angela proferia mais didática e descontraidamente; no seminário da NPNP a linguagem utilizada era mais formal e permeada por conceitos específicos. Além disso, o preço para participação era discrepante: o de Angela custava 25 reais para estudantes e quarenta reais para profissionais, o de Orestes custava sessenta reais se pago antecipadamente e oitenta reais para pagamento na hora, sem diferenciar estudantes de profissionais. Os seminários ocorreram como se em Londrina houvesse dois blocos psicanalíticos, cada um influenciado por um polo centralizador: os lacanianos, mais preocupados com a transmissão da psicanálise, procurando “aliciar” novos profissionais seguidores; e os ortodoxos, grupo mais elitizado e restrito, sem se preocupar em transmitir amplamente sua prática.

Os lacanianos são mais jovens, ainda não constituem número representativo na cidade, mas já atraem a atenção dos estudantes — o que se pode atribuir à visão rebelde vinculada a Lacan devido à sua expulsão da IPA por recusar certas normas burocráticas, como expressou Ana: “Tem muita diferença quando você fala que trabalha com Lacan, os lacanianos são

vistos como rebeldes”. Os ortodoxos, por sua vez, são representados por profissionais

reconhecidos, mais velhos, e seus grupos de estudo parecem castas fechadas, sem abertura a “amadores”. Ana explicou que o conflito entre as abordagens ortodoxa e lacaniana se deve ao fato de Lacan ter buscado entender o funcionamento humano a partir das variáveis que agem no sujeito interferindo e moldando a formação da pessoa; e que ele repensou a psicanálise, adequando-a a mecanismos teóricos mais contemporâneos.

Roudinesco (2008a) afirma que a figura forte e intempestiva de Lacan, a abertura para o diálogo com outros campos do saber e a relativa jovialidade dos adeptos de sua linha atraíram, cada vez mais, jovens psicanalistas; quanto aos ortodoxos, estes falharam ao fechar a psicanálise em rígidas instituições e ao manter padrões morais tradicionais e conservadores de uma medicina já ultrapassada, resistindo em se atualizar.

Para Lacan, o tipo de diploma que se possui não tem importância, e o efeito disso não é a democratização do acesso ao título de psicanalista; ao contrário, para frear a massificação da psicanálise lacaniana e a consequente desvalorização do título de psicanalista, seu método

é bastante rigoroso. O acesso à teoria lacaniana e o seu entendimento exigem um tipo de erudição que não depende apenas do grau de escolaridade; também dependem do conhecimento de literatura, arte, filosofia, antropologia, linguística, matemática — enfim, um nível intelectual bastante elevado. A obra lacaniana pressupõe certo distanciamento do senso comum e estabelece separação radical entre os que a entendem (ou seja, os lacanianos) e os que não a entendem. Os lacanianos afirmam que para falar de psicanálise não se deve usar a linguagem da razão, da ciência; deve-se fazer uso do inconsciente, já que este é estruturado como linguagem. Em seus textos, Lacan fazia uso de figuras de linguagem, metáforas, metonímias, trocadilhos, jogos de palavras e rimas — o que, posteriormente, tornou-se marca registrada de todo lacaniano. Há, claramente, desprezo pelo didatismo, já que as formas institucionais de ensino e aprendizagem da psicanálise são recusadas. Lacan propõe o modelo de escola, que seriam associações não preocupadas com a formação (conforme a IPA preconizava), e sim com a transmissão da psicanálise, estabelecendo uma oposição entre formação versus transmissão (RUSSO, 1993).

Se os lacanianos afirmam não haver “formação” institucional de analista, isso significa que o almejante a psicanalista deve permanecer em aprendizado constante, comprometendo-se com o estudo e a transmissão dos conhecimentos psicanalíticos. Por conta disso, a prática de grupos de estudo e os seminários são atividades recorrentes no meio psicanalítico lacaniano. É o espaço reservado para as discussões de textos relacionados à teoria e/ou a uma problemática clínica específica: “É um trabalho que a gente chama de

necessário, um trabalho que a gente tem dentro da formação psicanalítica, que é de transmitir a psicanálise, então, sempre tem grupos de estudos” (Helena). Aliás, a cada

encontro do grupo de estudo que observei, havia muitas reclamações quanto à dificuldade de entendimento dos textos de Lacan. Segundo uma das integrantes do grupo, “Ler Lacan não é

problema, o difícil é compreendê-lo sozinho, sem orientação; ler os textos do Lacan é meio mobilizador, por conta da dificuldade. Por isso é necessária a leitura nos grupos”. O caráter

hermético de sua escrita foi exemplificado por outra: “Lacan, para falar de banana, utiliza o

nome científico da banana. Nem no dicionário você encontra o que a palavra quer dizer”.

Tenho a impressão de que o desenho do campo psicanalítico em Londrina não difere muito do que ocorre, ou ocorreu, em outros lugares. Além da rebeldia, o capital intelectual exigido para se tornar um lacaniano não deixa de agregar um status que diferencia a escolha por essa abordagem. Lacan era figura excêntrica, sua psicanálise se pretendia subversiva, reformulada, e a abertura promovida a outras áreas das ciências humanas, apesar de restringir

pela erudição requerida, parece atrair a atenção dos jovens. Mas, como salienta Russo (1993, p.103), “A própria idéia de um ‘retorno a Freud’ contém um apelo à fidelidade: retornar a Freud é abandonar os intérpretes que desvirtuaram seus ensinamentos, isto é, que não lhe foram fiéis. A exigência de fidelidade e ortodoxia atinge a própria obra de Lacan”.

Carvalho (1995) assinala que as transformações no campo psicanalítico se apresentam como o desenvolvimento constante da teoria freudiana, e são a representação que os próprios psicanalistas têm de sua disciplina. Mas são as instituições psicanalíticas, sejam as de predomínio burocrático (caso das associações vinculadas à IPA), sejam as escolas e os grupos baseados na relação mestre-discípulo, de Lacan, que asseguram a legitimidade da teoria e da prática psicanalíticas, e definem quem é ou não “realmente” psicanalista, além de desenvolver estratégias de difusão e controle da transmissão do saber psicanalítico. A teoria freudiana e o movimento iniciado por Freud nunca são colocados em questão, o que legitima a manutenção da paternidade do conhecimento psicanalítico.