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De acordo com GUARINELLO (2003), destas experiências, extraímos a idéia da cidadania enquanto democrática, participativa, onde os cidadãos decidiam os destinos da comunidade, de soberania popular e de liberdade individual, que, entretanto, é uma idéia falsa.

Na Grécia Antiga, a cidadania era exercida por uma minoria da população. A democracia ateniense era exercida somente por homens atenienses, com mais de 21 anos de idade, filhos de pais atenienses.

Semelhante à Grécia, em Roma, a cidadania também era exercida por poucos, porém o critério era outro. Apenas os grandes proprietários de terra possuíam o direito de voto, ou seja, o voto era censitário (FUNARI, 2003). Mais tarde foi concedida a cidadania romana a pessoas de diferentes partes do Império: os povos conquistados.

31 No caso romano, cidadania, cidade e Estado constituem um único conceito. Conforme FUNARI (2003), cidadania é uma abstração derivada da junção de cidadãos e, só é possível existir o coletivo, caso exista antes os cidadãos.

Tanto na Grécia como em Roma, a cidadania era exercida diretamente: o cidadão propunha e aprovava leis, diferentes de hoje, já que nós somente escolhemos nossos representantes.

Mas, em primeiro lugar, é importante frisar que tais experiências, como a das Cidades-Estado, apesar de sua importância histórica, eram localizadas. No caso em questão, situavam-se às margens do Mediterrâneo e, assim, estavam circunscritas geograficamente a determinado território.

Portanto, estes processos não ocorreram em todas as civilizações da Antigüidade, e sua relevância refletiu-se essencialmente na Europa e no novo mundo, resultado do processo de colonização européia, que foi onde, posteriormente, se desenvolveu o conceito moderno de cidadania.

Em segundo lugar, conforme exposição anterior, vimos que esta cidadania não era para todos os residentes das Cidades-Estado, mas apenas para uma parcela da população.

Na Grécia antiga, o solo pobre que levava à baixa produtividade das lavouras de trigo e outros cereais. Esse fato aliado a facilidade de navegação, gerada pelo litoral extremamente recortado e pela proximidade das ilhas, impulsionou os gregos à conquista de outros territórios.

Em sua expansão, levaram consigo uma forma peculiar de organização: as Cidades- Estado. Suas experiências difundiram-se através de suas colônias, que foram o meio utilizado por este povo para disseminar sua religião e seus hábitos por toda a extensão do Mediterrâneo.

Sua fundação não se devia à ação do Estado, mas sim à de um grupo, liderado por um chefe que era o encarregado de levar o fogo sagrado e que, então, saía da cidade à procura de um local onde pudesse se estabelecer e construir cidades independentes, ligadas à cidade de origem apenas pela religião. Esse tipo de colônia se denomina apoequia.

Os gregos constituíram colônias na região da Sicília, no sul da Itália, na Turquia, na Índia, em Portugal e no Sudão. Nestes territórios desenvolviam principalmente a

32 agricultura, mas também outras atividades como o comércio, que em alguns deles atraíram grande número de estrangeiros elevando em muito o número de escravos.

Assim, as classes que tiveram sua participação política negada, aumentaram em número, agrupando-se na cidade propriamente dita. Esse agrupamento levou a uma conscientização da força que possuíam e que ignoravam, pois até então, viviam em dispersão na atividade agrícola.

Neste período, surge também a moeda, o que permite a constituição de riquezas móveis, levando a um contexto de revoltas das classes sociais desfavorecidas. Teve início uma sucessão de lutas políticas até que se promulgaram leis para regulamentarem as relações de classe. Os luxos excessivos foram o alvo das preocupações dos legisladores, que responderam com leis restritivas, relativas ao uso de jóias femininas e cortejos fúnebres.

Define-se cidade-estado como: “(...) um território agrícola composto por uma ou mais planícies de variada extensão, ocupado e explorado por populações essencialmente camponesas (...)” (GUARINELLO,2003: 32).

Nelas, a terra que era dividida em lotes, pertencia a algumas famílias, que extraiam dela os víveres necessários para sua sobrevivência, essencialmente trigo, vinho e azeite. As grandes propriedades eram criadas a partir da apropriação individual de pequenos lotes pelos membros da comunidade.

A origem desta organização social está no fechamento de determinados territórios agrícolas para proteção das terras cultivadas contra invasões. Esse processo ocorreu ao longo de séculos, através da organização coletiva da população local.

A estrutura comunitária era aplicada também para a superação das tensões, que eram tratadas através de mecanismos públicos, garantida a participação dos cidadãos que o quisessem.

A Grécia Antiga era composta por mais de cem cidades-estado, de forma que não é possível aqui investigarmos a evolução da cidadania em todas elas, nem tampouco, é o objetivo deste capítulo. Portanto, irei me ater apenas às duas cidades maiores e mais importantes: Atenas e Esparta.

Em Esparta, uma cidade agrícola, formada por: espartanos, grandes proprietários de terras; periecos, trabalhadores livres e por hilotas, que estavam sujeitos às condições, a cidadania era restrita. Apenas os espartanos poderiam ser considerados cidadãos

33 plenos, já que eram os únicos que compunham os órgãos políticos, e os periecos não possuíam direitos políticos.

Esparta mantinha uma legislação severa, vinculada à características bélicas. A noção de cidadania que apresentavam era distinta de Atenas, pois apenas os espartanos adultos tinham direito de participar da Assembléia Popular, a Ápela. Existia um conselho aristocrático, a Gerúsia, além da Diarquia, um governo de dois reis. Essa forma política cristalizou-se e não sofreu alterações.

Em Atenas encontramos uma evolução histórica distinta: monarquia, oligarquia, tirania e, finalmente, a democracia. Neste último estágio de evolução, em Atenas fixou- se o conceito de cidadão. Apenas esses podiam participar da vida política votando e criando leis. Porém, eram considerados cidadãos apenas homens adultos atenienses, ficando excluídos crianças, mulheres, escravos e estrangeiros.

A sociedade ateniense era formada por eupátridas, os proprietários das maiores e melhores terras; os geogórgos, que eram os pequenos proprietários; os thetas, que não possuíam terras; os demiurgos, que eram responsáveis pelo comércio local, e, os escravos.

No século X a.C., os atenienses iniciam um outro processo de colonização, esse sim orientado pelo Estado: trata-se das olerúquias. Seus imigrantes conservavam os direitos de cidadania, mesmo indo viver fora dos domínios da cidade de origem.

As constantes lutas entre as classes, a instabilidade e o crescimento da Pólis motivaram o surgimento de reformas. Em 621 a.C. foram criadas as leis escritas, em 594 a.C. a sociedade foi dividida censitariamente, criaram-se órgãos e instituiu-se a Democracia.

Para GUARINELLO (2003), Atenas é o principal exemplo de cidade que desenvolveu progressivamente formas mais abertas de poder participativo: a democracia. Conforme este autor, conhecer este processo é fundamental pois, a democracia ateniense possui grande relevância no imaginário político até os dias atuais, e: “O caso mais exemplar foi o de Atenas, modelo para muitas cidades-Estado, onde a participação estendeu-se ao conjunto da população masculina cidadã e a democracia se manteve por quase dois séculos.” (GUARINELLO,2003: 40)

As profundas desigualdades que existiam no seio das sociedades das antigas cidades-estado geraram as divisões internas que levaram ao processo de decadência da Grécia Antiga. (GUARINELLO, 2003)

34 O envolvimento em guerras para buscar ampliar suas influências levará Atenas e Esparta à Guerra do Peloponeso, com a derrota da primeira para a segunda. O constante desentendimento bélico entre as cidades gregas termina por levar a Grécia à fragilidade e assim, possibilita a Felipe II, da Macedônia, sua conquista.

Roma, que também era uma cidade-estado, unifica todas as demais cidades- estado do Mediterrâneo, transformando-se no poderoso Império Romano.

GUARINELLO (2003) chama a atenção para o fato de que Roma, onde a cidadania era mais aberta do que regra geral, conseguiu unificar a Itália sob sua égide. Mas, de acordo com este autor, Roma deixa de ser uma cidade-estado quando incorpora as demais.

O alargamento da população submetida ao Império Romano, não permitia a permanência de estruturas políticas comunitárias próprias ao pequeno mundo de uma cidade-estado. Para este autor: “As estruturas políticas da antiga cidade-estado de Roma, com suas velhas instituições (magistraturas, assembléias, Senado) e seu caráter oligárquico não conseguiam mais dar conta do jogo de pressões e de interesses conflitantes de um espaço tão vasto.” (GUARINELLO, 2003: 44).

É o fim da cidadania desenvolvida no mundo antigo, a cidadania da exclusão. As desigualdades que permearam a sociedade da cidade-estado geraram permanentes tensões entre as classes, tendo como conseqüência a fragilização das mesmas. E, só voltaremos a falar no surgimento do novo cidadão, com a entrada na Idade Moderna, muitos séculos depois.

Benzer Belgeler