O Método de Avaliação Contingente (MAC) estima o valor monetário de bens e serviços ambientais com base em preferências expressas por
consumidores potenciais, relativas à disponibilidade e aos acréscimos ou decréscimos na qualidade desses bens e serviços. Essa valoração é tomada com base em dois conceitos fundamentais, um baseado na “disposição a pagar” (DAP) e outro baseado na “disposição a aceitar”(DAA). Esses conceitos revelam a existência de duas definições básicas de benefício: por obter uma melhoria ambiental ou por evitar um dano ou prejuízo ambiental. PEARCE e TURNER (1990:128) resumem da seguinte forma a situação a que se aplicam os conceitos: § DAP para garantir um benefício;
§ DAA para privar-se de um benefício; § DAP para evitar um dano (ou perda); § DAA para tolerar um dano (ou perda).
A “disposição a pagar” e a “disposição a aceitar” são indicadores monetários de preferências. Embora as disposições a pagar (ou a aceitar) individuais possam diferir, a agregação dessas nos fornece a estimativa do que é socialmente desejável. Assim, a expressão monetária dos benefícios ou danos derivados da alteração da provisão (disponibilidade/qualidade) de um bem ambiental corresponde à medida monetária da mudança no nível de bem-estar social. Portanto, os conceitos de “disposição a pagar” e “disposição a aceitar” estão relacionados com medidas de bem-estar determinadas em modelos teóricos derivados da teoria neoclássica do consumidor.
O formato da questão de valoração contingencial colocada no plano da entrevista condicionará o tipo de medida de bem-estar que se pode obter do processo. Nos mercados, o comportamento dos indivíduos revela a curva de demanda ordinária (marshalliana), mas trata-se aqui de bens para os quais não existem mercados, e conseqüentemente não se pode observar o comportamento dos indivíduos. O MAC objetiva eliminar ou contornar esse problema perguntando diretamente aos indivíduos qual sua DAP ou DAA por uma alteração na provisão de um bem público. Assim, os indivíduos revelam a curva de demanda compensada e as medidas de bem-estar geradas pelo método são as medidas hicksianas .
Na década de 40, em uma série de artigos publicados no “Review of
Economic Studies”, Hicks sugeriu duas medidas de ganho ou perda que mantêm
a utilidade constante no nível inicial e duas medidas que mantêm a utilidade constante em algum nível alternativo específico (BELLUZZO, 1995).
Segundo FREEMAN (1979), as medidas hicksianas: variação equivalente, variação compensatória, excedente de equivalência e excedente de compensação, são “refinamentos teóricos” da medida marshalliana de excedente ordinário do consumidor.
Para MITCHELL e CARSON (1989), as medidas hicksianas podem ser concebidas como a medida marshalliana, calculadas a partir de curvas de demanda, em que a utilidade total é mantida constante a diferentes níveis específicos. Dependendo da posição do direito de propriedade do consumidor vis-à-vis com o bem em questão, cada uma das quatro medidas pode envolver pagamento ou compensação a fim de manter a utilidade no nível especificado. As medidas hicksianas são definidas a seguir.
A Variação Compensatória (VC), é definida como a mudança na renda monetária que, ao novo nível de preços, mede a diferença entre as curvas de utilidade. Para o preço inferior, é a quantidade de dinheiro que pode ser retirada do consumidor de forma que ele fique tão bem como estava antes da alteração no preço (BACON, 1995). Conforme FREEMAN (1979), esta medida indica que pagamento compensatório ou equiparação da mudança na renda é necessária para fazer o indivíduo indiferente entre a situação original e o novo conjunto de preços. A medida VC é interpretada como a quantidade máxima que o indivíduo estaria disposto a pagar pela oportunidade de consumo ao novo conjunto de preços. Para um aumento no preço de X1, a medida VC seria o montante a ser
pago a esse indivíduo de maneira a torná-lo indiferente à mudança de preço. A Variação Equivalente (VE) é definida como a mudança na renda monetária que ao nível de preços iniciais mede a diferença entre as curvas de utilidade. Para o preço inferior é a quantidade de dinheiro que pode ser dada ao consumidor, de forma a levá-lo ao novo nível de utilidade (BACON, 1995). A medida EV tem sido descrita como o montante mínimo que o indivíduo aceita
receber para, voluntariamente, privar-se da oportunidade de comprar ao novo conjunto de preços. Mas, para um aumento de preço, a medida VE é a quantidade máxima que o indivíduo pode estar disposto a pagar para evitar a mudança nos preços.
Verifica-se que ambas as medidas, variação compensatória e variação equivalente, permitem ao indivíduo ajustar as quantidades consumidas de ambos os bens em resposta às mudanças nos preços relativos e no nível de renda. As medidas apresentadas a seguir são definidas para estabelecer restrições no ajustamento que o indivíduo faz em sua cesta de consumo.
O Excedente de Compensação (EC) apresenta qual o pagamento compensatório ou equiparação da mudança na renda pode fazer o indivíduo indiferente entre a situação original e a oportunidade de adquirir a nova quantidade do bem cujo preço foi alterado.
O Excedente de Equivalência (EE) indica qual mudança na renda é requerida, dados os preços originais e o nível de consumo do bem a fim de deixar o indivíduo tão bem como ele poderia estar com o novo conjunto de preços.
Conforme MITCHELL e CARSON (1989), as medidas hicksianas de variação devem ser usadas quando o consumidor tem toda liberdade para variar a quantidade do bem considerado, e as medidas hicksianas de excedente quando o consumidor está constrangido a comprar apenas quantidades fixas do bem particular. Para o caso especial de bens ambientais, as medidas de excedente seriam, segundo esses autores, conseqüentemente, as mais indicadas.
A escolha entre a formulação de uma questão de DAP ou DAA num levantamento de avaliação contingente é colocada em termos de direitos de propriedade (o agente tem o direito de vender o bem em questão ou, se ele deseja desfrutá-lo, tem de comprá-lo). Tratando-se de bens públicos, onde os direitos são mantidos coletivamente, esta questão freqüentemente não é fácil. O pesquisador tem de tomar uma decisão sobre o apropriado direito de propriedade para o bem, ou seja, o pesquisador é colocado frente à tarefa de decidir qual medida hicksiana de excedente do consumidor usar para uma dada mudança de bem-estar.