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A narração é a parte da carta que corresponde ao que comumente chamamos assunto ou temática. A ars dictaminis não a pormenoriza, em função da natureza eclética dos temas. O Anônimo de Bolonha, tratadista do assunto, classifica a narratio em simples ou complexa, conforme a existência de uma ou de várias matérias na epístola (in TIN, 2005, p. 99).

As cartas machadianas, em geral, não se restringem a um único assunto, a não ser alguns bilhetes cuja temática era meramente informativa, mostrando apenas uma espécie de recado, ou as cartas-prefácio que foram escritas com um propósito definido.

A apresentação da diversidade temática nas cartas de Machado de Assis é um dos objetivos do presente trabalho, através de uma catalogação que será discutida posteriormente no tópico 4.2 deste capítulo.

Antecipamos apenas o levantamento dos temas principais, a fim de demonstrar a riqueza temática das cartas do autor. Em primeiro lugar, estão as referências à velhice e

enfermidades. Mais de cem cartas mencionam o tema. Machado de Assis, naturalmente e

principalmente nas cartas dos anos 1900, faz constantes referências aos incômodos da idade e menciona recorrentemente doenças enfrentadas. Sobretudo a partir dos 56 anos, Machado torna-se meio paranóico com a velhice e as enfermidades. É apenas nesse sentido que as cartas parecem ganhar em pessoalidade. Muitas vezes, associada à questão da idade e das doenças, Machado refere-se à própria morte, apresentando um tom melancólico em certas passagens das epístolas.

Em segundo lugar, está o que aqui chamamos de espírito associativo, notadamente no que diz respeito à Academia Brasileira de Letras (temática, por sinal, muito visível e já

apresentada por vários outros autores), mas não restrita a ela, visto que outras agremiações são mencionadas, assim como reuniões e encontros, sobretudo, ao redor dos livreiros.

Machado nitidamente apostou na Academia, nos encontros na Revista Brasileira ou na

Livraria Garnier. As cartas mostram uma espécie de refúgio do autor em suas amizades

literárias. Participava do grupo da ―Panelinha‖, chegou a ser membro do Clube Beethoven e envolveu-se com a Sociedade Petalógica, dados fartamente mencionados pelos biógrafos.

A partir da fundação da Academia Brasileira de Letras, em 1897, esta constituirá um tema sempre presente nas cartas do escritor. A função de presidente lhe faz mostrar vários encaminhamentos via carta: convocação de reuniões, informes sobre eleições, preocupações com um lugar definitivo para a instituição etc.

Como uma espécie de subtema (mas nem por isso menos relevante), decorrente, de alguma forma, dos primeiros temas aqui indicados (velhice e enfermidades e espírito associativo), tem-se a temática da solidão, diretamente relacionada à morte de Carolina, mas, de certo modo, também associada ao refúgio em agremiações, configurando uma espécie de escape para alguém com pouquíssimas relações familiares. Alguns estudos, como, por exemplo, os de Magalhães Júnior (1981, V. 4) e Josué Montello (s/d) já identificaram a carta

como remédio. Machado escrevia e pedia para os destinatários (sobretudo, Mário de Alencar e

Magalhães de Azeredo) escreverem, de modo que as epístolas funcionassem como consolo mútuo, com conselhos e até receitas médicas.

Não menos freqüente é a temática associada às críticas literárias: pedidos tanto de Machado quanto de seus destinatários, bem como agradecimentos de resenhas elogiosas, formulando o que neste trabalho chamamos de roda de compadres, forjadores de imagens positivas dos livros que estavam sendo escritos por eles.

Nesse sentido, será muito comum a troca de gentilezas e elogios aos seus compadres literatos. É bastante reveladora a carta como canal de gratidão e de pedido em relação às críticas literárias feitas sobre os livros do autor. Machado estabelece um canal muito forte com o crítico José Veríssimo, que passa a ser um grande defensor e divulgador do escritor nos jornais. Em alguns casos, o autor de Esaú e Jacó cobra de seus amigos-críticos comentários sobre seus livros, como acontece em cartas a Salvador de Mendonça de 1876, a respeito do livro de poemas Americanas.

É perceptível nesses pedidos de crítica e nos agradecimentos às críticas já publicadas que Machado de Assis e seus companheiros construíram uma rede de literatos. Não é demais pensar que essas trocas de gentilezas também forjaram, a despeito de seu inquestionável valor, a imagem do grande escritor da prosa brasileira, capaz de superar as considerações opostas de

Sílvio Romero, nome respeitado da crítica brasileira de então. A vasta troca de correspondência com José Veríssimo, outro crítico renomado, acentua esta suposição.

Outro assunto bastante presente é a sobrecarga de trabalho, um dos poucos temas que percorre boa parte da vida do autor. As cartas revelam ainda um pouco da rotina de Machado de Assis. Após o dia de trabalho, o escritor costumava ir ao prédio da Revista Brasileira ou ao da Livraria Garnier. José Veríssimo é um dos destinatários mais presentes e os encontros entre os dois bastante mencionados ou marcados. Em algumas ocasiões, Machado lamenta não encontrar o amigo, no mais das vezes devido à sobrecarga de atribuições na Secretaria onde o autor de Quincas Borba trabalhava.

Constata-se um Machado burocrático e, por vezes, resmungão: funcionário de uma repartição pública, assoberbado de trabalho, bem como o homem escolhido para presidir a Academia Brasileira de Letras, com as implicações do cargo diretivo. A sua faceta de ―reclamão‖ se revela em mais de quarenta cartas, nas quais menciona esta sobrecarga de atividades.

Temas outros aparecem com menor frequência: dificuldades financeiras; teatro; a figura de Machado como intermediário, dada a sua posição de escritor ou de funcionário público; negócios.

Ao lado dos assuntos discutidos, extraímos também algumas práticas discursivas próprias do gênero ou do que chamamos estilo epistolar machadiano. Nesse sentido, destacamos a presença dos seguintes aspectos: a postura metalinguística, já antecipada por ocasião da captatio benevolentiae; a menção à troca de pertences, como livros (inclusive aqueles que serviriam para análise e comentário do crítico-destinatário), retratos, fragmentos de jornal, periódicos, cartões-postais ou algum objeto em especial; a referência a leituras e a livros, bem como a inserção de citações, configurando uma intertextualidade; a existência de escritos fáticos, ou seja, que apenas cumprem o papel de estabelecer um contato entre os interlocutores, sem maiores referências temáticas; e a indicação de cumprimentos aos familiares dos destinatários, que vão figurar nas cartas dos interlocutores mais recorrentes do autor. Os temas mais repetidos das cartas machadianas serão discutidos a posteriori.

Benzer Belgeler