O princípio da precaução se destaca dentre os vários princípios que norteiam o Direito Ambiental, especialmente em relação ao presente tema. Segundo Ana Flávia Barros Platiau, o referido princípio foi aprovado no direito internacional ambiental com o fim de dotar legisladores e líderes políticos de um instrumento de regulação internacional da inovação tecnológica e da atividade antrópica de uma maneira geral. Contudo, foi criado dentro de um
101 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito ambiental brasileiro. 12. ed. rev., atual. e ampl. São
contexto jurídico que evolui lentamente em comparação ao progresso da biotecnologia e da demanda social por certezas científicas sobre essas questões102.
O Princípio 15 da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, estabelece de forma clara o que vem a ser o princípio da precaução: com vistas a proteger o meio ambiente, o princípio em questão deve ser amplamente observado pelos Estados, nos limites de suas capacidades. Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para desprezar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental103.
Dessa forma, o referido princípio prevê que, antes de ser iniciada qualquer atividade exploratória do meio ambiente que possa vir a lhe causar sérios impactos, deve haver um estudo antecipado diante dos riscos ou perigos, privilegiando, assim, o comportamento da prevenção, por meio da abstenção de uma determinada atividade, quando houver incertezas científicas quanto aos seus impactos ambientais.
Para Belinda Pereira da Cunha, o princípio da precaução consiste no dever jurídico de evitar a consumação de danos ao meio ambiente, bem como de indicar o que fazer nos casos em que os efeitos de uma determinada atividade sobre o meio ambiente não sejam plenamente conhecidos cientificamente104.
Assim, tanto em casos de certeza, quanto no caso de dúvidas científicas do dano ambiental, este deve ser prevenido de acordo com o princípio da precaução, e não pode ser postergado, uma vez que o dano ambiental é evitado quando ocorre a cautela no tempo certo.
De acordo com a pesquisadora Cristiane Derani,
Precaução é cuidado (in dubio pro securitate). O princípio da precaução está ligado aos conceitos de afastamento de perigo e segurança das gerações futuras, como também de sustentabilidade ambiental das atividades humanas. Este princípio é a tradução da busca da proteção da existência humana, seja pela proteção de seu ambiente, seja pelo asseguramento da integridade da vida humana. A partir desta premissa, deve-se também considerar não só o risco iminente de determinada atividade, como também os riscos futuros decorrentes de empreendimentos humanos, os quais nossa compreensão e o atual estágio de desenvolvimento da ciência jamais conseguem captar em toda a densidade. O alcance deste princípio depende substancialmente da forma e da extensão da cautela econômica, correspondente a sua realização. Especificamente, naquilo concernente às
102 PLATIAU, apud SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009,
p.60
103 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 66. 104 CUNHA. Op. cit., p. 35.
disposições relativas ao grau de exigência para implementação de melhor tecnologia e ao tratamento corretivo da atividade inicialmente poluidora105.
Saliente-se que o referido princípio encontra guarida de aplicação no art. 2º da Lei nº 6.938/81, que estabelece a Política Nacional do Meio Ambiente, ao estabelecer como princípios a serem observados a “proteção dos ecossistemas, com a preservação das áreas representativas”, bem como a “proteção das áreas ameaçadas de degradação” 106.
Diante do exposto, uma vez que o princípio da precaução é aplicado pelo ramo do Direito Público, através do poder de polícia, é possível afirmar que cabe ao Estado a responsabilidade pela omissão da aplicação do princípio em tela. Assim, com base nos termos do art. 225, § 1º, V, da Constituição Federal de 1988107, compete ao Poder Público assegurar a efetividade do meio ambiente ecologicamente equilibrado, através do controle de atividades que comportem riscos para o mesmo.
Apesar de os aspectos de proteção ao meio ambiente não estarem previstos no novo marco regulatório, existe uma responsabilidade direta da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), caso algum aspecto fiscalizatório ou de prévio licenciamento venha a ser negligenciado.
Dessa forma, o principio da precaução deve servir de norte para as atividades que possam causar algum dano ao meio ambiente, de modo que, antes que sejam iniciadas realizem-se estudos e pesquisas de impacto e danos à natureza, e que, em caso de dúvidas ou de atividades que possam vir a ocasionar sérios perigos ao meio ambiente, seja analisado e ponderado se tal atividade realmente se faz necessária, bem como o seu objetivo à determinada sociedade; do contrário, seria mais interessante investir em outro projeto que causasse menos impacto ao meio ambiente, ainda que isso seja mais dispendioso, já que os prováveis danos, no futuro, se reverterão em gastos bem maiores.
Assim, apesar de ter previsão na Constituição Federal, em Tratado Internacional e na Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, na prática pouco se aplica o referido princípio, tendo em vista a prevalencia de interesses políticos e econômicos que envolvem boa parte das atividades que geram degradação ambiental.
105 DERANI, Op. cit., p. 152.
106 Cf. art. 2º da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981.
107 Art. 225. § 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
(...)
V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente.
Nesse sentido, a elaboração de políticas públicas, incluindo as normativas, assim como a efetivação de avaliações de impacto ambiental, devem ter em vista a conservação dos recursos naturais e a realização dos objetivos da República Federativa do Brasil (art.3º, da CF), bem como o estabelecido no art. 225, para conduzir à concretização de um desenvolvimento sustentável. O ser humano precisa ser orientado e se questionar sobre aquilo que realmente é necessário para a sua existência hoje e para as gerações futuras.
Desse modo é que deve ser estabalecida a questão sobre a exploração e produção do petróleo e gás natural da camada do pré-sal, tendo em vista que os riscos de danos ao meio ambiente são imensos, bem como as incertezas científicas que existem a respeito dessa exploração. Não só pela enorme quantidade de emissão de gases que causam o efeito estufa, que será lançado à atmosfera, acarretando no aquecimento global, mas também pelos possíveis acidentes causados com vazamento de óleo e demais danos ao oceano e ao meio ambiente como um todo, é que se deve ter muita cautela e trabalhar com o princípio da precaução nessa exploração. Saliente-se que, por ser uma atividade muito mais complexa do que a do petróleo do pós-sal, as contenções de vazamento serão muito mais difíceis.