Posso dizer, com relativa segurança, que a família foi o “lugar” onde Dora, Mafalda e Mara encontraram bases sólidas para delinear e cristalizar o modo de ser/fazer com dedicação, amor, cuidado, solidariedade, comprometimento com o cuidado emancipador, com a construção de um mundo melhor. Essa constatação pode ser confirmada nas falas, nas expressões faciais, entonação das vozes enquanto descreviam situações emblemáticas, nos exemplos, no modo apaixonado como se referem às pessoas e às situações vivenciadas na família.
Os exemplos, ou melhor, os bons exemplos e a admiração por pessoas e situação exemplares seguiram ao longo da vida nos mais diferentes lugares e situações, mas começaram em casa: com as mães, avós, pais, tios, professores, colegas de trabalhos, lideranças religiosas e/ou de movimentos sociais, ou simplesmente de pessoas com quem conviveram e a que atenderam ao longo da vida no trabalho.
Na história das três mulheres, todos esses exemplos aparecem. Mafalda: “Eu tive muita gente em quem espelhar na vida, minha família, professores, colegas de trabalho, militantes dos movimentos sociais. Sempre tive pessoas muito queridas na vida. Os amigos e minha turma sempre eram da militância” [...]. Dora, em seu dia a dia, relata que gosta de ouvir as histórias das pessoas a quem atende e faz disso uma forma de cuidar, de considerar as pessoas, seus dramas e alegrias. Segundo ela, aprendeu isso com a avó, mas não apenas: “acho que aprendi isso de ouvir histórias lidando com minha avó, minha mãe e meus pacientes”. Mara relata que muitos princípios políticos que tem e sua postura de retidão, de compromisso frente ao mundo aprendeu com o pai, a mãe e a avó.
As maiores influências, ou ao menos as primeiras, de Dora, Mafalda e Mara, estarem na família, não constitui surpresa, uma vez que é o primeiro ambiente social em que vivem as pessoas, ao menos para maioria. Braghirolli (2002) diz que a influência da família não se restringe a oferecer modelos de comportamento, mas também moral, sistema de crença, valores, habilidades sociais. A família tem claramente um papel positivo na aprendizagem dos filhos, ou seja, eles aprendem com a família valores que podem perdurar por toda vida. Por outro lado, não aprendem só coisas que são consideradas positivas para o convívio social, podem aprender, por exemplo, que no mundo é cada um por si, que se deve usar as outras pessoas para seus próprios interesses, que compromissos não são relevantes, que pobres sempre existirão. Seja em uma situação ou em outra, ainda é importante lembrar as discussões de Helman (2003) sobre cultura: a cultura familiar não é única influência a constituir o que as pessoas são ou vão se tornar. Há que considerar as múltiplas culturas em que se vive em diferentes
fases e idades, gênero, personalidade, religião, ensino formal, redes de apoio social, possibilidade de contato com o mundo.
Nenhuma das mulheres “floreiam” a relação familiar, até por isso o título emprestado da música, Família, dos Titãs, pois enfatiza o lado positivo e negativo da família. As falas e as situações descritas dão conta de famílias reais, com problemas tão reais quanto qualquer outra. Isso fica claro nos trechos em que Dora fala sobre o momento em que o pai perdeu o emprego e a família muda-se do Nordeste para o Sul do Brasil. Quando Mafalda fala da segunda família do pai, da falta de apoio dele quando decidiu fazer uma faculdade que não aprovava. Mara citar a falta de planejamento financeiro do pai e a influência disso no divórcio dos pais.
Embora a família tenha tido peso muito grande na vida dessas mulheres, pois foi onde encontraram exemplos de vida que as “orientou” o caminho a seguir, não quer dizer que isso acontece na vida de todas as pessoas. Tão pouco quer dizer que uma pessoa com a família desestruturada, ou que não encontre nela exemplos de comprometimento, solidariedade com o próximo, resulte em pessoas sem compromisso com a comunidade e vice- versa. No entanto, o fato de encontrar essa situação positiva em todas as três entrevistadas, não deixa de ser significativo. Isso ressalta a importância dos bons exemplos para formação de pessoas comprometidas com o cuidado emancipador e a construção de um mundo mais solidário.
Outra dimensão interessante de observar, tem a ver com a importância do aprender, muito mais do que o ensinar. Pode-se dizer que Dora, Mafalda e Mara aprenderam muito na família; mas o que pareceu fundamental na aprendizagem delas não foi exatamente o que foi ensinado, mas o que foi aprendido de modo espontâneo no convívio, ou seja, pode-se dizer que o exemplo espontâneo observado, foi mais importante do que o discurso, reforçando o que diz Bandão (2002): aprende-se o tempo todo.
Essa aprendizagem na família é carregada de emoção, talvez por isso tão forte e presente nas coisas que fazem hoje. É inegável que o trabalho de Dora, como médica, por exemplo, é diferente do trabalho de seu pai, agrônomo. No entanto, ela diz que o cotidiano do pai era mágico, que ia com ele às fazendas onde prestava assistência técnica e o via sentar no chão,
comer com as pessoas, deitar em rede. Essa simplicidade (mágica) no contato com o outro, Dora busca ainda hoje ao fazer visita domiciliar, como médica. Parece que as duas atividades são mais diferentes para quem olha, para quem não vivenciou, como ela, essa aprendizagem. Dora vê vários pontos de semelhança entre o fazer do pai e o seu, e, ao ver e apresentar isso, conseguimos ver também. Parece ser a forma de olhar o mundo, como fala Mara.
Mafalda fala do modo como a mãe parava tudo para dar atenção a quem precisava, do sentido comunitário como juntava a vizinhança, a família para tratar da vida coletiva. E Mara destaca, entre outras coisas, o sentido de retidão e compromisso social do pai com as pessoas mais humildes.
Por mais importante que tenha sido a aprendizagem na família, todas as três mulheres prosseguiram aprendendo ao longo da vida e relatam outros exemplos importantes que tiveram com professores, colegas de trabalho e pessoas a quem atenderam no seu fazer profissional. Brandão (2002) diz que o aprender não deve ser pensado como algo que se acumula, que se contabiliza, não se aprende para ganhar mais competência ou racionalidade, mas se aprende para continuar produzindo saberes com o outro e tornar-se um ser humano melhor. Devemos nos ver como cidadãos responsáveis por produzir nosso próprio conhecimento e aptos a partilhar com o outro. Parece que Dora, Mafalda e Mara aprenderam e têm essa relação com o saber que fala Brandão. Esses aspectos ficam evidentes em relação à aprendizagem espontânea, ao ensino formal e, ainda hoje, em relação ao fazer profissional no cotidiano.
É bastante evidente a importância dos grupos sociais na vida dessas mulheres. São, sobretudo, grupos de amizade, mas também grupos da escola, grêmio escolar, da igreja e do trabalho. Aparecem em diversos momentos das histórias. Foi junto a esses grupos que foram cristalizando os ensinamentos que trouxeram da família e introduzindo novos valores e, sobretudo, comprometendo-se com esses valores e com essas pessoas. É nesse sentido que serão tratados a seguir.