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No início do século XX, os missionários Arthur Beriah Deter 101 (1868-1945),

Salomão Luiz Ginsburg 102 (1867-1927) e William Buck Bagby resolveram criar a Convenção Batista Brasileira (CBB), com o propósito maior de promover não só o congraçamento de todos os batistas do Brasil, mas também a unidade espiritual das igrejas nacionais. Aqueles missionários formaram a Comissão Promotora daquele que foi chamado de “Primeiro Congresso Batista Brasileiro” (depois Convenção Batista Brasileira). Resolveram que o evento deveria ocorrer em 1907, na cidade de Salvador, BA, pois estavam certos de que os batistas brasileiros celebrariam naquele ano as suas “bodas de prata”. Isso fica patente nos termos usados no convite enviado por telegrama ao então presidente da República, Afonso Pena:

“A primeira Convenção Batista Brasileira, comemorando o 25º.

Aniversário da entrada dos primeiros evangelizadores no território nacional , felicita a nação em V. Ex., fazendo votos a Deus pela

prosperidade e grandeza do Brasil”. (aa) Bagby e Taylor. 103 [grifo meu].

Com esses dizeres, e de forma oficial, já que contataram a mais alta autoridade do Brasil, Bagby e Taylor deram início à tradição da posição “1882, Salvador, BA”. Eles desconsideraram, então, os primeiros esforços missionários de seus compatriotas, Bowen em 1860-1861 e Quillin, desde 1879. Bagby também não levou em conta o fato de que ele e sua esposa, Anne, haviam sido nomeados “missionários adicionais ” [grifo meu] e, portanto, não poderiam ter sido os primeiros evangelizadores no Brasil. Desconsideraram também as duas igrejas organizadas em Santa Bárbara, SP. Desse modo, o trabalho na Bahia foi considerado, por Bagby e Taylor, o pioneiro na evangelização do Brasil.

Em 1921, surgiu outro importante reforço para a tradição da posição “1882, Salvador, BA”: o missionário Salomão Luiz Ginsburg, um judeu polonês radicado no

101 Arthur B. Deter foi missionário nomeado pela Junta de Richmond e veio ao Brasil em 1901. Trabalhou à frente da Casa Publicadora e do O Jornal Batista. Foi o primeiro capelão militar batista do Brasil. PEREIRA, J. dos Reis. História dos batistas no Brasil (1882-1982). p. 103.

102 Salomão L. Ginsburg veio ao Brasil em 1890. Era da Igreja Congregacional, mas depois de conhecer o trabalho dos batistas, uniu-se a eles através do batismo. Foi nomeado como missionário no Brasil pela Junta de Richmond em 1892. PEREIRA, J. dos Reis. História dos batistas no Brasil

(1882-1982). p. 39-42.

Brasil, famoso por ter pregado o Evangelho ao cangaceiro Antonio Silvino, 104 também considerado o “pai da Convenção Batista Brasileira” 105 e o “pai do Cantor Cristão”, 106 escreveu em sua autobiografia o seguinte:

A história primitiva do trabalho batista na Bahia seria um dos mais interessantes capítulos do movimento missionário moderno. Foi na sua capital, Salvador, que a primeira igreja batista brasileira foi fundada,

no ano de 1882, o primeiro ministro batista nativo ganho, batizado e

depois ordenado ao ministério, e, curiosa coincidência, chamava-se João Batista. Foi ali também que houve a primeira tentativa de criar a Casa Publicadora Batista brasileira e o primeiro livro batista foi publicado na língua portuguesa, bem como a primeira propriedade adquirida para a Denominação Batista no Brasil, a velha prisão jesuíta, onde muitos homens de Deus sofreram por causa de questão de consciência. 107 [grifo meu].

Ginsburg foi mais claro que seus colegas Bagby e Taylor: a igreja batista organizada em 1882, na cidade de Salvador, BA, foi, para ele, a primeira do Brasil. E dentre as razões que encontrou para justificar sua posição, Ginsburg destacou o fato de aquela igreja ter consagrado “o primeiro ministro batista ganho”. Com isso, ele não levou em conta a história recente do ex-padre Antonio Teixeira de Albuquerque.

Anos mais tarde, provando a força da posição tomada pelos missionários citados, um historiador e teólogo muito reconhecido pelos batistas, o Dr. Antonio Neves de Mesquita, trabalhou na mesma linha de Ginsburg ao escrever, em 1940, a sua História dos Batistas:

O ano de 1907 abre um novo ciclo nas atividades batistas no Brasil. Os

primeiros vinte e cinco anos de atividades tinha [sic] consistido em

espalhar a boa semente, fundar campos missionários, desbravar a selva, para depois se organizar todo este trabalho em 1907.

[...] “As bodas de Prata” dos batistas seriam celebradas com o lançamento de um programa empolgante.

[...] O lugar da reunião não sofreu muito debate, porque logicamente a Bahia estava indicada para tal. Centro do trabalho batista no país, centro da vida clerical também, convinha levar ali a palavra viva dos crentes... 108 [grifos meus].

Mesquita considerou “os primeiros vinte e cinco anos de atividades” “batistas no Brasil” a partir da obra da Igreja de Salvador, em 1882. Além disso, considerou o

104 GINSBURG, Salomão L. Um judeu errante no Brasil: autobiografia. Trad. Manoel Avelino de Souza. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1970, p. 136-141.

105 PEREIRA, J. dos Reis. História dos batistas no Brasil (1882-1982). p. 83.

106 ICHTER, Bill. O que fazem os Ginsburg. Apud GONÇALVES, Almir S. In : GINSBURG, Salomão L. Op. cit. p. 10, 255. O Cantor Cristão (CC) era o Hinário usado pelos batistas até pouco tempo atrás, tendo sido substituído pelo Hinário para o Culto Cristão (HCC).

107 GINSBURG, Salomão L. Op. cit. p. 70-71. O texto foi redigido em inglês por Ginsburg em 1921. 108 MESQUITA, Antonio N. Op. cit. p. 17, 21-22.

Estado da Bahia como o “centro do trabalho batista no país”, vez que de lá partiram outras missões para evangelizar o país (o desprezado trabalho batista em Santa Bárbara, do qual partiram Bagby, Taylor e Albuquerque, fundadores da igreja de Salvador, estava em declínio já há algum tempo e foi encerrado em 1910). 109

Outra opinião importante para o estabelecimento da tradição da tese “1882, Salvador, BA” foi a do Dr. Asa Routh Crabtree. Além de missionário, Crabtree era teólogo, especialista em Hebraico e Antigo Testamento e também contribuiu na pesquisa da história dos batistas brasileiros. Escreveu, em 1953, Baptists in Brazil (Batistas no Brasil), onde afirmou:

Em 15 de Outubro de 1882, a primeira Igreja Batista do Brasil foi organizada na Cidade da Bahia (Cidade do Salvador), com cinco membros: W. B. Bagby, Senhora Anne Luther Bagby, Z. C. Taylor, Senhora Kate Crawford Taylor e Antonio Teixeira de Albuquerque. Apesar do fato de já existir uma igreja batista na Província de S. Paulo, a

igreja da Bahia, com apenas um membro nativo, é propriamente reconhecida como a primeira igreja Batista do Brasil, porque foi organizada com o propósito de pregar o Evangelho aos brasileiros em sua própria língua. 110 [grifo meu].

Crabtree colocou de forma clara a razão por que a Igreja de Salvador foi tomada como a primeira igreja batista do Brasil: o propósito de alcançar exclusivamente os brasileiros, evangelizando-os na própria língua nativa. Assim, para ele, a Igreja de Santa Bárbara não atendia a esse quesito. Esse foi o discurso de todos aqueles que defenderam a posição “1882, Salvador, BA” nos anos 1960-1980. Dentre eles, Reis Pereira era o mais conhecido e afirmava:

Essa Igreja de Santa Bárbara é a primeira igreja batista estabelecida em solo brasileiro. Era, entretanto, uma igreja de língua inglesa, fundada para servir aos colonos, e que nunca deixou de ser igreja de língua

inglesa. [...] os crentes de Santa Bárbara não se interessaram em

aprender o português, para pregar a mensagem evangélica aos brasileiros. Não era uma igreja missionária. 111[grifo meu].

Observa-se que o critério adotado por Crabtree e pelos demais líderes batistas para eleger a igreja organizada em Salvador, como a primeira igreja batista do Brasil, foi elaborado a partir de uma perspectiva ideológica de missão. 112 Assim, as duas igrejas batistas organizadas em Santa Bárbara, antes daquela em Salvador, não atenderiam a esse critério, porque, segundo eles, surgiram para assistir exclusivamente aos colonos norte-americanos. Mas, o que se observou depois foi o

109 FERREIRA, Damy. Op. cit. p. 25-26.

110 CRABTREE, A. R. Op. cit. p. 44-45. [Tradução do pesquisador].

111 PEREIRA, J. dos Reis. História dos batistas no Brasil (1882-1982). p. 11. 112 SANTOS, Marcelo. Op. cit. p. 112.

fato de que os cultos naquelas igrejas de Santa Bárbara não eram realizados apenas na língua inglesa. No curto espaço de tempo em que Bagby esteve entre os colonos em Santa Bárbara (algo entre Abril de 1881 a Agosto de 1882), houve várias oportunidades para esse missionário pregar o Evangelho na língua portuguesa para os vizinhos brasileiros, conforme atestam suas cartas 113 enviadas à Junta de Richmond. À luz desses dados, é difícil desconsiderar o pioneirismo do trabalho batista em Santa Bárbara entre brasileiros, como fizeram os líderes da Convenção Brasileira e não suspeitar que essa obra em solo paulista não seja o marco inicial dos batistas no Brasil.

De qualquer modo, a tradição da posição “1882, Salvador, BA” estava, portanto, estabelecida. Assim, ao considerar o peso da palavra de homens como William Buck Bagby, Zachary Clay Taylor, Salomão Luiz Ginsburg, Antonio Neves de Mesquita, Asa Routh Crabtree, o entendimento geral dos batistas só poderia ser o de considerar Salvador, BA, como o lugar do marco inicial do trabalho batista no Brasil. Afinal, aqueles homens eram líderes reconhecidos, pastores e missionários ungidos por Deus, ou seja, eram detentores do poder sagrado de produzir o saber religioso e de estabelecer as verdades. Tamanho foi esse poder que, de 1907, quando da realização da primeira assembléia da Convenção Brasileira em Salvador, até o ano de 1966, não houve qualquer questionamento sobre quando e onde teria se iniciado o trabalho batista no Brasil. Havia, portanto, uma concordância geral de que o trabalho de Salvador representava o marco oficial do início do trabalho batista no Brasil.

Depois dessa exposição dos antecedentes históricos da questão do marco inicial batista, faz-se necessário, antes de estudar as etapas do debate, conhecer quem foi o Pastor José dos Reis Pereira, o principal defensor da posição oficial durante os anos 1960-1980.

113 BAGBY, William Buck. Cartas para a Junta de Richmond. Apud OLIVEIRA, Betty Antunes de. Op. cit. p. 280-283.

5. O Principal Defensor da Posição Oficial “1882, Salvador, BA”: Pastor José

Benzer Belgeler