• Sonuç bulunamadı

“E quando outra vez introduz no mundo o Primogênito, diz: E todos os anjos o adorem” (Hebreus 1.6)

Acerca desta questão (a superioridade de Jesus sobre os anjos), apresentada logo no prólogo do livro de Hebreus, é necessário analisar dois momentos importantes, e duas perguntas terão de ser respondidas ao longo deste trecho. 1. Será que os anjos tinham papel tão importante na Liturgia Judaica, ao

ponto de o escritor ter de argumentar e explicar que Cristo lhes era superior? 2. Se os anjos eram tidos como figuras tão importantes, será que o escritor se aproveitou de alguma influência do momento para diminuir a posição que os anjos estavam ocupando no culto ?

Uma das características da nação de Israel após o período helênico, é que havia recebido muitas influências das outras religiões. Não apenas influências filosóficas, mas também influências nas formas de culto. Ainda o fato de estar geograficamente numa espécie de encruzilhada do mundo108, fez com que o

contato com o comércio e com a religião oriental fosse mais intenso. Assim, por época da transposição da liturgia judaica para a cristã, algumas das seitas em que se fragmentou o judaísmo faziam adoração aos anjos. Robert H. Gundry, em estudos na carta de Colossenses – carta escrita por volta da mesma época de Hebreus109, diz que havia uma heresia vigente proveniente do judaísmo, e que a adoração e o prestar culto aos anjos estavam contidos em “elementos próprios do judaísmo,(...)[os quais] incluía a adoração aos anjos, como intermediários, a fim de que o Deus altíssimo (puro Espírito) fosse conservado incontaminado do contato com o universo físico110.

Essa forma de pensar já não deixava de ser um resultado do contato com o mundo pagão. O próprio Gundry acrescenta que esta dita heresia era uma mescla do legalismo judaico com as especulações filosóficas dos gregos e do misticismo

108 DANIEL-ROPS, Henry. A Vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo, Vida No va, 1991. p 11-17. Este

autor vai descrever a desconexão existente entre a proporção de terras tão insignificante para um valor tão imensurável. O autor conclui que o fato de estar entre o Egito e o Líbano, a Síria e o mar, conter o rio Jordão, após um des erto denso, tudo isso acresce no valor geográfico da Nação de Israel.

109 Para um estudo com aprofundamento nas datas, pode ser consultado o comentário bíblico de Robert H.

Gundry. Panorama do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1987. CARSON, D. A. Loc. Cit. BROWN, Raymond E. The New Jerome Biblical Commentary. New Jersey, Prentice Hall, 1990. pp 920-22

oriental. Falando sobre a igreja reunida na cidade de Colossos especificamente, ele explica que “pela localização, na importante via comercial que ligava o Oriente ao Ocidente, contribuiu para o caráter misto da doutrina em pauta111”.

Strathmann também corrobora com as idéias expostas por Gundry ao dizer que a fé em anjos estava bem desenvolvida no judaísmo da época, mas não endossa a idéia de que o problema do culto aos anjos abordado em Hebreus fosse da mesma categoria do culto apresentado em Colossos . Strathmann entende que para os leitores de Hebreus foi importante a citação da posição angelical no estabelecimento da antiga aliança112.

Essa mesma dialética aparece para Thompson, quando ele expõe idéias contrárias entre Windisch e Käsemann113. Enquanto este entende que o escritor de Hebreus compara Jesus aos anjos apenas por uma questão de estabelecimento de papel, aquele entendeu que o autor cita Jesus acima dos anjos pelo fato de haver verdadeiramente uma adoração a eles, proveniente do contato com as religiões orientais.

Ocupando o mesmo método de G. Bokman114 para entender a passagem – contudo para responder questões distintas das que ele fez – pode-se concluir que as seções que precedem o trecho do capítulo 10 de Hebreus, acabam por mostrar que toda vez que Jesus vai ser comparado com algum outro símbolo litúrgico, esse ‘outro símbolo’ era um problema religioso em foco naquela época: o Templo, o Sacerdócio, o Sacrifício de Animais entre outros. Todos eles eram pontos

111 GUNDRY,R. H. Op. Cit.

112 STRATHMANN, Hermann. La Epístola a los Hebreos. Madrid: Ediciones Fax, 1971, p. 35-36. 113 THOMPSON, James W. Op. Cit., p. 128.

114 BOKMAN, G. Das Bekenntnis im Hebräerbrief, apud THOMPSON, James W. Op. Cit., p. 129. Bokman

simbólicos impossíveis de serem realizados pelos cristãos da mesma forma com que eram realizados pelos judeus e, portanto, demandava uma nova leitura.

Manson declara que a contraposição entre os anjos e Cristo foi uma forma de construir uma antítese justamente pela inclinação da comunidade para prestar culto aos anjos115. Une-se a esse argumento o fato de que havia a possibilidade em certos círculos judaicos e mesmo alguns círculos cristãos de cair no sincretismo religioso, que segundo Manson, se adequaria à vida da sociedade pagã e de alg umas facções do judaísmo, as quais criam que o mundo estava sob o governo dos anjos116.

Há uma série de sete citações do Antigo Testamento, feita nesta parte inicial de Hebreus, como explica Morgan, com isso, há que se considerar que o autor de Hebreus não se desfaz completamente dos anjos, ao ponto de coloca-los como uma ameaça religiosa, mas aceita as interpretações vétero-testamentárias como válidas, colocando Cristo acima deles117.

Apesar de os envolvimentos com a crença nos anjos ter sido mais aguçado devido ao contato com o mundo helênico, deve ser considerado o fato de que no primeiro século do cristianismo, já se podia contar mais de três séculos das tais influências recebidas118 e, segundo aponta Morgan, neste tempo a idéia dos anjos já estava começando a ser descartada dentro da religião judaica119.

Tendo isso em vista, já havia na comunidade judaica uma crença popular que ligava os anjos às estrelas, sem dizer que o judaísmo rabínico posteriormente

115 MANSON, Willian. The Epistle to the Hebrews. London: Hodder and Stoughton, 1953, p. 48-49. 116 MANSON, Willian.Loc Cit.

117 MORGAN, G. Campbell. God’s Last Word to Man. New York: FHRevel, Company, s/d. p 18-19. 118 JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas. São Paulo, Editora das Américas, p 176.

começou a se deixar envolver pelos cultos aos anjos de Roma, Egito e de outras nações120. Os saduceus, não acreditando nos anjos, formaram a primeira manifestação contra tal tipo de adoração, taxando-a como sendo uma crença do mesmo gênero dos contos de fada121.

Tudo isso abriria caminho para que o Cristianismo contestasse o tipo de adoração popular corrente no judaísmo. Pois uma vez que o caminho traçado pela religião na época, apontava para o código escrito, para a religião sistematizada, descartar a idéia de adorar aos anjos seria de vital importância. Sendo assim, o escritor de Hebreus, aponta para um culto racional, descartando a idéia transcendental do culto aos anjos.

Discutindo acerca desta passagem do rito simbólico para o código escrito, Schneider vai explicar que o autor de Hebreus, desde o primeiro capítulo, procede do conceito básico e fundamental para o novo culto a ser prestado: baseado na palavra escrita122. Contudo não tendo um “cânon” oficializado naquela época, a

nova religião se justificaria no sentido de que Jesus era a palavra em si mesmo. Como a palavra do passado (a Lei) havia sido dada – segundo a crença judaica123 – por intermédio de anjos, era de total necessidade argumentar que Jesus era superior a eles, e o espaço aberto por algumas ramificações vigentes – os saduceus por exemplo – auxiliou ao escritor de Hebreus em tal interpretação.

120 MANSON, Willian. Op. Cit., 50-51. 121 MORGAN, G. Campbell. Loc. Cit.

122 SCHNEIDER, Johannes. Michigan, The Epistle of Hebrews, Eerdman Publishing, 1957, p. 13. 123 No Judaísmo, os anjos foram os mediadores e guardiões da Lei de Deus. In: MANSON, Op. Cit. p. 50.

2.1.2. A Influência do Intelectualismo Secular na Superioridade de Jesus