Conforme afirmamos anteriormente, os instrumentos tributários de tutela do meio ambiente, aí inserida a tributação negativa, pela concessão de benefícios fiscais, bem como a tributação positiva, com a instituição de novos tributos ou majoração dos já existentes, devem ser utilizados como instrumentos complementares, atuando com vistas ao fim constitucionalmente previsto de proteção ao meio ambiente. Nesse escopo, o princípio do poluidor pagador avulta em importância, pois confere legitimidade à tributação ambiental.
Previsto expressamente no artigo 225, §3º, da Constituição Federal, o princípio do poluidor pagador possui dimensão econômica que orienta e dirige as políticas públicas de proteção do meio ambiente. Encontra lastro de legitimidade na solidariedade, estando intimamente ligado aos princípios da prevenção e da precaução36.
Observe-se, neste ponto, que a incidência do princípio não está restrita à reparação do dano já concretizado. Possui o princípio do poluidor pagador, também, atuação preventiva, constituindo importante ferramenta de políticas públicas que antecedem a ocorrência do fato danoso ambiental, opondo-se à concessão de benefícios e incentivos fiscais às atividades e empreendimentos poluidores.
Sobre a amplitude do princípio do poluidor pagador, afirma Ricardo Lobo Torres (2005) que o princípio aponta na direção de que os poluidores efetivos e potenciais devem arcar com a responsabilidade pelo pagamento dos custos vinculados com a precaução e prevenção dos riscos ambientais. Conforme Antônio Herman Benjamim (2007, p. 230), o princípio do poluidor pagador “apoia-se na teoria da compensação (paga que provoca uma ação governamental, na medida do custo desta) e na teoria do valor (paga que se beneficia com a poluição, na medida dos benefícios recebidos).”
O princípio do poluidor pagador tem origem no dever reconhecido ao Estado e a todo o cidadão de utilização adequada dos recursos ambientais e de manutenção do equilíbrio do meio ambiente. Parte do pressuposto segundo o qual o ônus da proteção ambiental deve ser repartido entre todos os agentes econômicos que direta ou indiretamente se beneficiam da utilização dos recursos ambientais.
Partindo do pressuposto segundo o qual à coletividade não pode ser imposto o ônus de arcar com os custos ambientais negativos da atividade produtiva, o princípio do poluidor pagador ordena a internalização de custos ambientais, pois nenhuma atividade ou empreendimento deve lucrar às custas dos ônus ambientais suportados por toda a coletividade. Para Ricardo Lobo Torres (2005), o empreendedor que se apropria do lucro decorrente da utilização dos recursos naturais e do exercício de atividade poluente não pode externalizar a poluição que produz, ligando-se o princípio do poluidor pagador à noção de internalização dos prejuízos ambientais, evitando que sejam repassados a terceiros a responsabilidade pelos riscos e danos produzidos ao meio ambiente37. 2007
36 Conforme Denise Hammerschmidt (2003), enquanto a prevenção objetiva tolher o risco de dano em potencial, referente a atividades reconhecidamente perigosas, o princípio da precaução, diferentemente, tem por escopo obstar o risco de dano potencial, o risco de dano abstratamente considerado.
37 O princípio do poluidor pagador, conforme Antonio Herman Benjamin (2007, p. 228), “impõe ao poluidor o dever de arcar com as despesas de prevenção, reparação e repressão da poluição. Ou seja, estabelece que o
Para Maria Alexandra de Sousa Aragão (1997), por força do princípio do poluidor pagador, o ônus da tributação deve recair sobre aquele que possui o controle das atividades que ensejam a poluição, podendo preveni-la ou tomar precauções para evitar que ocorram, cabendo-lhe integrar em seu processo decisório a variável econômica referente aos custos ambientais.
Por outro lado, conforme Túlio Rosembuj (1998), também por força do princípio do poluidor pagador, devem receber compensação justa os contribuintes que orientarem suas condutas no sentido de redução ou eliminação de degradação decorrente de seus processos produtivos, melhorando, com isso, a condição ambiental desfrutada por toda a coletividade, internalizando-se as externalidades ambientais positivas.
Pertinente a advertência realizada por Cristiane Derani (2008), no sentido de que o princípio do poluidor pagador não cria um direito de poluir a quem pode pagar, mas pretende reduzir a poluição garantindo o desenvolvimento sustentável. Uma vez que o custo ambiental não está vinculado unicamente à reparação do dano, mas também ao planejamento de uma atuação preventiva, o princípio em tela tem inclinação primeiramente preventiva e não repressiva38, estabelecendo que a atividade danosa ambiental é prejudicial ao poluidor, tornando a manutenção do meio ambiente sadio mais barata e atrativa que a poluição, induzindo o poluidor, dessa forma, a mudar sua atitude e restringir ou mesmo estancar a atividade ambientalmente lesiva.
O princípio do poluidor pagador, no que permite a internalização das externalidades ambientais negativas, infligindo os custos da poluição ao responsável por ela, bem como a internalização das externalidades ambientais positivas, assume destacada importância na condução das políticas públicas de proteção ambiental, fundamentando, assim, tanto a tributação ambiental positiva quanto a tributação ambiental negativa voltadas para o objetivo de redução da degradação decorrente de determinadas atividades, influenciando a conduta do contribuinte em direção à busca de modelos produtivos sustentáveis.
causador da poluição e da degradação dos recursos naturais deve ser o responsável principal pelas conseqüências de sua ação (ou omissão). Em síntese, numa acepção larga, é o princípio que visa imputar ao poluidor os custos sociais da poluição por ele causada, prevenindo, ressarcindo e reprimindo os danos ocorridos, não apenas a bens e pessoas, mas também a própria natureza”.
38 Sobre a função preventiva do princípio do poluidor pagador, afirma Paulo Henrique do Amaral (2007, p. 116): “sempre terá que se buscar imputar ao poluidor o custo suportado por toda a coletividade em razão das limitações advindas com a degradação ambiental gerada pelas suas atividades econômicas. Além, é claro, de atribuir ao poluidor todas as despesas inerentes ao desenvolvimento de novos e adequados sistemas de minimização ou neutralização da poluição. Até porque o custo social gerado pela poluição vai desde o esvaziamento do conteúdo econômico da propriedade privada, passando pelas limitações das liberdades individuais, chegando ao comprometimento da qualidade de vida de toda a coletividade.”