A doença de Crohn (CD) e a colite ulcerosa (UC) são duas principais doenças inflamatórias intestinais (Baumgart & Sandborn, 2012). O fenótipo em pacientes com CD caracteriza-se por lesões transmurais que podem ocorrer em qualquer local ao longo do trato gastrointestinal, enquanto os pacientes com UC são afetados por inflamação submucosa contínua restrita ao cólon (Kaakoush et al., 2015).
Apesar da extensa pesquisa, a etiologia das doenças inflamatórias intestinais ainda não foi esclarecida. No entanto, a hipótese de que um iniciador (microrganismo gastrointestinal), em associação com uma rutura do epitélio gastrointestinal, estimula e, posteriormente, desencadeia a resposta imune desregulada em indivíduos predispostos (Mitchell hmitchell, Ming Man, Kaakoush, & Mitchell, 2011).
O papel das espécies Campylobacter nas doenças inflamatórias intestinais tem sido investigado nas últimas três décadas e a espécie Campylobacter jejuni foi o foco inicial da pesquisa. Contudo, estudos recentes que investigam o papel de outras espécies emergentes de Campylobacter em doenças inflamatórias intestinais forneceram evidências sólidas que demonstram que a espécie Campylobacter concisus está fortemente relacionado com este tipo de doenças (Kaakoush et al., 2015).
3.2.2.2. Doenças Esofágicas
Doença de refluxo gastroesofágico (DRGE), esófago de Barrett (BE) e adenocarcinoma esofágico são consideradas doenças esofágicas.
A DRGE é definida como um dano mucoso produzido pelo refluxo anormal de conteúdo gástrico no esófago ou na cavidade oral (incluindo laringe) ou pulmonar. DRGE provoca algumas complicações como esofagite de refluxo ou BE, e este segundo predispõe os pacientes a adenocarcinoma esofágico (Badillo, 2014). BE é uma condição pré-maligna em que o epitélio escamoso estratificado normal do esófago distal é substituído por mucosa colunar com metaplasia intestinal especializada (Martinucci et al., 2016).
Estudos recentes demonstraram que as espécies de Campylobacter, mais especificamente Campylobacter concisus, estão entre as espécies dominantes presentes
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em pacientes com DRGE e BE. Por exemplo, num estudo, Macfarlane e colaboradores examinaram a presença de microrganismos aeróbicos e anaeróbicos em aspirados esofágicos e amostras de mucosas de pacientes com BE, e 57% dos pacientes foram colonizados por espécies de Campylobacter, a maioria dos quais foram Campylobacter concisus (Kaakoush et al., 2015).
3.2.2.3. Doenças Periodontais
A gengivite é uma condição clínica evitável e reversível que inclui eritema, edema, sangramento e aumento da sensibilidade. A periodontite é uma condição mais grave, caracterizada pela redução do nível ósseo e, finalmente, perda dentária. Essas condições inflamatórias orais são induzidas por biofilmes que se acumulam na margem gengival e são relatados como tendo início no tecido periodontal por várias espécies bacterianas, incluindo Campylobacter rectus (Man, 2011; P.J. Macuch, 2000).
Campylobacter rectus, Campylobacter gracilis, Campylobacter showae e Campylobacter concisus foram identificados como possíveis agentes patogénicos orais, enquanto outras espécies de Campylobacter, incluindo Campylobacter curvus, Campylobacter sputorum e Campylobacter ureolyticus, foram isoladas da cavidade oral. No entanto, ainda não está claro que estejam relacionados com as doenças periodontais (Kaakoush et al., 2015).
3.2.2.4. Colecistite
A colecistite refere-se à inflamação da vesícula biliar que ocorre pelo bloqueio do ducto cístico por cálculos biliares, levando à acumulação de bílis dentro da vesícula biliar. Campylobacter jejuni tem sido relacionado com o desenvolvimento da colecistite, no entanto, é um acontecimento raro, dado que apenas 15 casos foram descritos na literatura nos últimos 30 anos (Peter G Vaughan-Shaw, Jonathan Richard Rees, 2010).
Uma das razões possíveis para isso é que as condições utilizadas para o crescimento de bactérias a partir de amostras de bílis geralmente não favorecem o crescimento de espécies de Campylobacter. Alguns casos foram assim ignorados (Kaakoush et al., 2015).
Infeção por Campylobacter spp.
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3.2.3. Infeções Extra-Gastrointestinais
Os doentes com infeções por Campylobacter estão sujeitos a desenvolver complicações noutras partes do corpo, como uma infeção isolada local, uma manifestação sistémica após um episódio de enterite ou uma doença imunológica pós- infeciosa. A GBS, artrite reativa (ReA), bacteriemia e septicemia, meningite, abcessos extraorais ou mesmo complicações no sistema reprodutivo são algumas dessas complicações (Health, 2008; Kaakoush et al., 2015).
3.2.3.1. Síndrome de Guillain-Barré
A manifestação pós-infeciosa mais importante é a GBS. Esta é uma doença autoimune reativa desencadeada por uma infeção bacteriana ou viral anterior (Legast, G., Lascano, A., Gschwind, A., Nicastro, 2017).
Como referido anteriormente, Campylobacter jejuni é uma das principais causas de gastroenterite bacteriana em todo o mundo, e o microrganismo mais frequentemente associado às complicações pós-infeção neste tipo de síndrome. A GBS desenvolvida após infeção por Campylobacter jejuni é bastante mais severa do que a GBS causada por outro microrganismo que não tem qualquer ligação com esta bactéria. Porém, a severidade da infeção por Campylobacter jejuni não está diretamente relacionada com o desenvolvimento desta doença (Acheson & Allos, 2001; Hahn, 1998).
Esta síndrome é uma doença dismielinizante aguda que afeta os neurónios periféricos e é caracterizada por início agudo, progressão rápida, fraqueza muscular simétrica, ambulação instável e hipofonia. A fraqueza é geralmente distal, pelo menos no momento inicial da doença. GBS apresenta-se geralmente como paralisia ascendente. Com fraqueza nas pernas espalhando-se para os membros superiores e rosto, levando à perda completa de reflexos (Esposito & Longo, 2017; Health, 2008).
Pensa-se que a resposta imune direcionada a um determinado organismo infetante está envolvida na patogénese da GBS por reação cruzada com os tecidos neuronais. Campylobacter jejuni induz respostas humorais e celulares que, devido ao mimetismo molecular, reagem de forma cruzada com os glicolípidos do nervo periférico ou com as proteínas da mielina do neurónio (Acheson & Allos, 2001; Hahn, 1998).
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3.2.3.2. Artrite Reativa
A síndrome de Reiter ou ReA é um processo infecioso que afeta múltiplas articulações, associada ao fenótipo HLA-B27 (Orihuel et al., 2015). Esta síndrome foi classicamente definida como a tríade de artrite, uretrite e conjuntivite, e ocorre tipicamente após uma infeção gastrointestinal ou genitourinária por patogénicos bacterianos (Schmitt, 2017).
Infeções por Chlamydia, Campylobacter, Salmonella e Yersinia podem despoletar este tipo de síndrome. A ReA associada a Campylobacter está presente em cerca de 1 e 5% dos infetados, e a duração da doença varia consideravelmente com os diferentes estadios da infeção (Ajene, Fischer Walker, & Black, 2013; Schmitt, 2017).
3.2.3.3. Bacteriemia e Septicemia
A bacteriemia é uma das infestações extra-gastrointestinais mais comuns causadas pelas espécies de Campylobacter, e está predominantemente associada às infeções por Campylobacter jejuni, Campylobacter coli e Campylobacter fetus (Kaakoush et al., 2015).
Os casos de bacteriemia associados a Campylobacter são muitas vezes subestimados. A maioria dos casos ocorre em pacientes idosos ou imunocomprometidos com uma ou mais patologias concorrentes, incluindo cirrose hepática ou neoplasia. Entre esses pacientes, 10 a 15% morrem dentro de 30 dias após o diagnóstico de doença (Pigrau, C., Bartolome, R., Almirante, B., Planes, AM., Gavalda, J., Pahissa, 1997).
Algumas espécies de Campylobacter, incluindo Campylobacter jejuni, Campylobacter fetus e Campylobacter upsaliensis, também foram associadas à sepsis em crianças e adultos imunocomprometidos (Kaakoush et al., 2015).
3.2.3.4. Complicações do Sistema Reprodutivo
Campylobacter jejuni, Campylobacter coli, Campylobacter fetus e Campylobacter upsaliensis demonstraram causar aborto séptico e sepsis neonatal em seres humanos e animais (Kaakoush et al., 2015). Estas espécies são geralmente associadas ao aborto em mulheres grávidas após uma infeção intestinal agressiva que
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resulta em sepsis, com a infeção eventualmente transmitida ao feto (Simor, AE., Karmali, MA., Jadavji, T., 1986).
Outras espécies como Campylobacter rectus e Campylobacter curvus, foram associadas ao parto prematuro e ao baixo peso à nascença. Campylobacter rectus desloca-se da cavidade oral para o trato reprodutivo, provocando uma inflamação que resulta em parto prematuro (Gurgan & Diker, 1994).
3.2.3.5. Meningite
A meningite bacteriana é uma inflamação das meninges, em que os agentes patogénicos aproveitam as características específicas do sistema imunológico no sistema nervoso central (SNC), replicam e induzem inflamação (Hoffman & Weber, 2009).
Este tipo de infeção causada por este microrganismo é bastante rara, no entanto, Campylobacter jejuni e Campylobacter fetus são as espécies frequentemente associadas a esta patologia. Foram relatados apenas oito casos em adultos imunocomprometidos, entre 1983 e 1998, de meningite causada por Campylobacter fetus (Kaakoush et al., 2015).
3.2.3.6. Abcessos Extra-orais
As espécies orais de Campylobacter raramente são relatadas como causadoras de infeções extra-orais.
Segundo alguns casos estudados, Campylobacter rectus foi associado a um abscesso na mama, um abcesso vertebral e uma infeção na parede torácica. Campylobacter curvus foi associado a um abscesso brônquico em pacientes com cancro no pulmão. Campylobacter gracilis e Campylobacter concisus foram ambos implicados em abscessos cerebrais. A maioria dos abscessos são de natureza polimicrobiana, dificultando a avaliação da contribuição de uma espécie específica de Campylobacter para o desfecho clínico (Han, Tarrand, & Rice, 2005; Kaakoush et al., 2015).
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