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A União Popular de Mulheres da Zona Sul se caracteriza classicamente como um movimento social, formado da necessidade de reunir as mulheres para falar sobre as demandas da vida como: a violência, as condições da vida doméstica, trabalho e outras questões relacionadas à vida na periferia. Dona Neide, sua presidente até hoje, e outras mulheres atuantes no bairro começaram a reunir mulheres para essas conversas. Um exercício de retirar da invisibilidade experiências que podiam ser partilhadas, mas se encontravam em uma dimensão absolutamente privada da vida, mas que quando contadas se tornam possíveis de serem vistas. Esse processo de dar visibilidade às questões comuns às mulheres é um ato político. Nesse sentido, o simples ato de partilha de experiências pode realizar uma transformação importante no sentido de que as mulheres repensem seu lugar social e possam transformar elementos desse mundo privado em novas experiências. (PAOLI, 1991; BERGAMIN, 2001111). Além disso, muitas reinvindicações provenientes dessas reuniões foram levadas aos diversos âmbitos e instâncias das gestões públicas para a conquista de melhorias das condições da vida no bairro para seus moradores.

Dona Neide é uma fonte inesgotável de histórias dos moradores da região, especialmente das mulheres, que lhes confidenciam experiências que só se contam na

110 Os empréstimos só são feitos parcialmente em moeda social se o morador concordar, isso porque

pode fazer a moeda circular nas suas compras cotidianas.

111 Na minha dissertação de mestrado trabalhei esse tema do trabalho feminino e as confluências entre as

intimidade, mas que em algum momento precisam ser partilhadas para que o sofrimento possa ser elaborado de alguma maneira. E o bairro é fonte inesgotável de histórias, de tragédias individuais que quando contadas podem ter solução, alguma solução. E a Casa da Mulher tem sido esse lugar confortável para muitas mulheres que puderam, e podem até hoje, buscar algum apoio às suas questões – o que para quem mora na periferia de São Paulo, muitas vezes, não há como resolver ou como lidar com os momentos dramáticos da vida.

Nossos entrevistados, moradores dessa parte da Zona Sul, considerada como um dos lugares de maior violência da cidade de São Paulo, guardam marcas. A violência afeta a todos. Muitos perderam irmãos, parentes e amigos assassinados, o que de alguma maneira torna essa uma experiência comum. Tratar dessas marcas não deveria ser o supérfluo, é questão central, mas difícil de serem consideradas como objeto de política social. E, assim, como sair incólume de uma experiência de violência? Essa população nos mostra que tratar as agruras da vida com descaso, como se a vida fosse assim mesmo para quem não tem muitos recursos (nem financeiros, nem psicológicos) para enfrentá-las não é algo trivial. Frente à morte violenta, o desprezo da invisibilidade é humilhante.

Olhar a humilhação social pode nos auxiliar novamente a tratar de questões que se referem à vida na periferia de São Paulo. Muitas das mulheres atendidas na casa da União Popular de Mulheres têm em comum essa experiência de humilhação política, como nos conta GONÇALVES FILHO (2007). O mundo da necessidade parece se apresentar sem disfarces em experiências de violência, violência doméstica, abuso sexual de crianças, situações análogas à escravidão (!).112A atuação da “Casa da Mulher” junto a essas mulheres não se limita ao programa de atendimento aos idosos

112 Não consigo dar outro nome a quem vai morar na casa de outra pessoa como agregada, nos termos de

Schwarz (1997), e se torna empregada da casa, engravida do filho da patroa aos 17 anos e tem seu filho “dado” para outra família – como nos contou uma entrevistada, numa das histórias que vão nos mostrando esse mundo da necessidade, da impossibilidade de superação das desgraças que aconteceram por conta da violência com que as relações são estabelecidas no Brasil. E então vai-se carregando para o resto da vida a humilhação social sem tratamento adequado. Algumas das mulheres frequentam a Casa da Mulher por anos e não conseguem compartilhar seus horrores (ficam lá bordando, compartilhando as tardes, impossibilitadas de elaborar suas próprias experiências). Mas aqui voltamos às invisibilidades da cidade e à insuficiência das políticas sociais para lidar com elas.

da Secretaria de Assistência Social e a alguns trabalhos voluntários esporádicos de profissionais da área da saúde que podem fazer um atendimento mais especializado a essas mulheres. Contam também com o trabalho incansável de dona Neide e dos outros colaboradores, que é sempre pouco frente aos desafios colocados por essa dimensão da vida em São Paulo. A “Casa da Mulher” conta com duas psicólogas voluntárias que atendem algumas dessas mulheres.113

O Banco Sampaio pertence à Associação que atua no bairro em busca de uma vida com menos sofrimento cotidiano para as mulheres moradoras das proximidades. Os conflitos violentos trazem parâmetros importantes para a atuação do Banco na comunidade: formar alternativas reais que possam se constituir como caminhos factíveis para os jovens que buscam, entre outras coisas, certo reconhecimento social, trabalho e acesso à cidade. A inserção em uma atividade remunerada para os jovens vem entremeada de dificuldades e o tráfico de drogas e as violências decorrentes de uma vida ligada às práticas ilícitas são presenças constantes na vida de todos que crescem em bairros da periferia da cidade, marcados por índices de violências elevados.

Podemos notar, nas trajetórias dos jovens entrevistados, uma distinção ora muito clara e ora bastante borrada entre um mundo lícito, do trabalho, e um mundo ilícito, de pequenas e/ou grandes contravenções. Uma história contada por um de

113 Em visita ao Banco Comunitário Autogestão, também na Zona Sul de São Paulo, uma das quinze

psicólogas que atendem mediante valores populares na Associação onde o Banco está localizado, contava as experiências de violência que acabam se reproduzindo nas crianças. Elas chegam lá para atendimento indicadas pelas escolas da região, com um diagnóstico escolar de déficit de aprendizado. A psicóloga relatou casos de mães que torturam seus filhos, sem ao menos perceber que seus atos são violentos; aprenderam a lidar com a vida desta maneira e reproduzem esses padrões. Contou de uma mãe que obrigava a filha a comer a panela toda de macarrão preparada porque a criança tinha falado que estava com fome, depois de comer uma grande quantidade a criança vomitava e a mãe a obrigava a comer o vômito. Para a psicóloga, trata-se de um caso de tortura, e infelizmente essa mãe não percebia seus atos como violentos. GONÇALVES FILHO (in COSTA, 2004) nos fala da memória dessa humilhação ancestral, crônica; as crianças aprendem unicamente essa linguagem da violência e a reproduzem mais tarde. A impossibilidade da aprendizagem na escola mostra uma interrupção nos processos em direção à autonomia como sujeito. E, sem nos atentarmos para isso, não conseguiremos compreender as enormes dificuldades desses moradores em se apropriar politicamente dos movimentos sociais como modo de modificar a realidade.

nossos entrevistados nos mostra as fronteiras sempre tensas entre um mundo tido como correto e uma inserção bandida. Isso porque as clivagens de classe aparecem de forma clara nessa visão que se apresenta binária da vida social, como se só existissem as duas possibilidades de construir a vida, no direito ou fora dele. Isso acaba por revelar as diferenças existentes nas visões de mundo e formas de construir as experiências de quem não pertence à periferia, e para os jovens que cresceram ali nos anos 1990 – o flerte com o mundo do crime, dos ilícitos, é constante (FELTRAN, 2007). Muitas vezes, os ilícitos representam a possibilidade de se entrar no mundo do consumo, que é também sinônimo de inserção e aceitação social para essa faixa etária.

Em uma organização social do bairro, um jovem foi reconhecido pela amiga da diretora da instituição que fazia uma visita à entidade, como o assaltante que havia entrado em sua casa armado e apresentado uma conduta extremamente violenta com a dona da casa durante o assalto. O rapaz enfiou o revólver na sua boca para que ela parasse de gritar. E, segundo sua própria definição, ao contar a história para seu conhecido de infância, se afirmou bastante “noiado” e acabou por lhe arrancar alguns dentes com a arma, em um desfecho bastante violento para o assalto. Ele era procurado pela polícia e entrava na instituição por ter passado por lá quando garoto nos projetos sócio educativos da ONG. A proibição da diretora para que não mais pudesse entrar na instituição causou mal estar no nosso entrevistado, que conhecia o rapaz por causa da convivência na própria ONG, e levou-o a reflexões sobre a vida na periferia. Vítor começou a fazer considerações sobre a conduta das instituições de acolhimento de jovens em situações de risco. Se por um lado lhe deram oportunidades enormes de conhecer e se relacionar com uma gama de pessoas e experiências, por outro acabam mantendo as distâncias sociais, no fim contribuindo para a reprodução dessas desigualdades, já que as oportunidades de trabalho não perfazem mudanças efetivas (os cursos e treinamentos dados na entidade acabam sempre elaborados na lógica da reprodução da pobreza). Quem dirige esse tipo de entidade não tem interesse de que os jovens que saem de lá ocupem posições de comando como as suas, de que ganhem os mesmos salários de quem vem dos bairros mais abastados da cidade para fazer o trabalho de coordenação, nunca exercido por quem cresceu na comunidade, reflete nosso entrevistado. As oportunidades são dadas, mas não são as mesmas oportunidades de quem não nasceu ali.

Vítor está reivindicando que a política esteja entremeada em todas as camadas das relações sociais, não só nos lugares considerados “certos” por quem detém maior poder econômico e social. Uma crítica dura e elaborada com a convivência na Casa da Mulher, em que os projetos são pensados em outros moldes. Ao reivindicar um novo lugar para seu amigo de infância, mesmo que criminoso, busca afirmar que todos sejam sujeitos que possam ter acesso aos direitos igualmente, e que possam assim acessar soluções políticas (FELTRAN, 2007).

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As propostas políticas do Banco Comunitário encontram saídas que caminham no sentido da reconstituição de um movimento social, estabelecendo para si como tarefa uma luta política, nos termos de RANCIÈRE (1996a) É preciso causar o dano, estabelecendo o dissenso, para que se possa avançar e modificar os lugares sociais já estabelecidos por quem detém poder.

A política expõe as desigualdades, afirma RANCIÈRE (1996a), ao relacionar mundos então separados, e isso só é possível porque há uma igualdade de nascimento na democracia: somos todos seres falantes, junto com uma desigualdade no uso da palavra. É preciso reivindicar esse uso da palavra através do estabelecimento do dano para que um conflito estabeleça essa relação necessária entre mundos diversos. Isto é política: uma disputa pelo significado das coisas, uma disputa por poder disputar esses significados. É a afirmação de que há um mundo comum partilhado. Todo o resto ao qual estamos acostumados a nomear como política RANCIÈRE (1996a) chamará de polícia: “Ordem de distribuição dos corpos em comunidade”. A democracia existe onde essa ordem pode ser perturbada pelo litígio, por sujeitos indeterminados, que nem fazem parte dos aparatos estatais, nem se configuram como parte da sociedade – essa disputa por fazer parte configura o dissenso.

Quando Marx afirmava que o Estado servia aos interesses dominantes, isso era tido como escandaloso, diz RANCIÈRE (1996a), mas foi ficando evidente que o poder estatal está calcado na impossibilidade de fazer escolhas diferentes do que as exigidas pelo mercado mundial. Não há como contemplar a todos, então se faz o que

está sob este domínio do neoliberalismo, que prega suprir meramente o reino das necessidades, e fará sempre de forma insuficiente.

Aqui, infelizmente, o consenso se depara com um daqueles paradoxos que eu mencionava no começo: os atores sociais chamados a assumir suas responsabilidades para o tratamento concertado dos problemas são sobretudo convidados a verificar que a solução ‘mais razoável’ é na verdade a única solução possível, a única autorizada pelos dados da situação tais como os conhecem os Estados e seus especialistas. O consenso então não é nada mais que a supressão. Apresentam-na como um desapossamento do poder da autoridade estatal em proveito da iniciativa dos atores sociais. Apresentam-se eles próprios como Estados ‘modestos’, que renunciam a suas prerrogativas para deixar que se opere no núcleo da sociedade a adaptação ótima dos interesses e dos direitos (RANCIÈRE, 1996b, p. 379).

Como a política é o campo da ação, diz ARENDT (1995), que pode levar ao imprevisível, somente quando se terminam os processos históricos sabemos o que a ação provocou. Ao que parece, isso vai deixando um campo para um desmanche da política. Nada novo pode ser construído que não seja absolutamente vinculado ao “bom” funcionamento do Estado e da sociedade comprometido com as formas que essa pós-política tomou. Fazer um movimento que reivindica novas atuações dos atores, que possa fazer os atores perceberem sua estagnação frente às injustiças sociais demanda traçar também novas estratégias.

Denomino partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividades que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha (RANCIÈRE, 2005, p. 15).

Mas como fazer com que os indivíduos que não estão acostumados a uma ação no mundo público possam sair da sua cotidianidade de trabalho e geração de

renda ou de suas outras atividades, e possam acreditar que a periferia possui este potencial? Ao longo das últimas décadas, e em toda a construção do país, os moradores da periferia foram se acostumando a um lugar subalterno, as pessoas foram sendo humilhadas ancestralmente, como diz GONÇALVES FILHO (2007); como conquistar então novas formas de atuação social? Não é tarefa fácil. É tarefa para uma vida toda de militância, como dona Neide seguindo sua luta diária nas atividades incessantes da UPM. Ou Thiago ao refletir sobre a formação da Agência Solano Trindade a partir do projeto Economia Viva:

Com esse projeto [Economia Viva] o que a gente pensou? Nesse projeto vamos investir em duas coisas: em recursos materiais e recursos humanos. Todo mundo ganhando igual, todo mundo vai ganhar R$ 1.000,00, é um projeto de economia solidária então todos ganharão igual. O que não é essa a conclusão da economia solidária institucional e acadêmica, digamos assim. Um ganha R$ 4.000,00 e eu estou aqui fazendo o meu trabalho de analista de crédito e ganho R$ 670,00 por mês. (...) A gente parte desse pressuposto, dentro da economia solidária todo mundo deveria ganhar igual (Thiago, analista de crédito do Banco Sampaio, 23 anos).

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A atuação da União Popular de Mulheres em um dado momento se institucionaliza, como grande parte dos movimentos sociais no final da década de 1990 e início dos anos 2000. As ONGs se profissionalizam, o que significa dizer que começam a buscar recursos que possam financiar suas atividades que deixam de contar exclusivamente com um voluntariado. Esse processo de institucionalização dos movimentos sociais, associações e ONGs, pode ser percebido através das mudanças de atuação do Estado, nas mais diferentes esferas de poder, que param de executar diversos projetos sociais diretamente, terceirizando para essas entidades essa atuação114. Os membros mais ativos da União Popular de Mulheres começam a fazer

114 Esse processo de institucionalização das ONGs foi transformando os atores sociais, antes engajados

em reivindicar demandas, agora no lugar de gerenciadores dessas demandas e de seus recursos sempre contingenciados pela escassez.

Benzer Belgeler