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Na distinção entre encaixamento e hipotaxe, muitos autores têm postulado uma diferenciação entre orações que se integram estruturalmente em outra, por um lado, e aquelas que não estão sujeitas a essa integração sintática, considerando-se o aspecto organizacional do discurso. Isso significa que na subordinação temos diferença entre estrutura de encaixamento e estrutura de hipotaxe.

Assim, segundo Decat (1999, p. 26-27), pode-se distinguir:

(i) cláusulas dependentes que têm a ver com os fatos da gramática da língua, isto é, aquelas cuja dependência é determinada pela escolha do item lexical e desempenham um papel gramatical em constituência com um item lexical; (ii) cláusulas dependentes que representam opções organizacionais (de planejamento) para o usuário da língua e caracterizam, segundo Thompson (1984), as cláusulas interdependentes. (DECAT, 1999, p. 26-27)

Na oposição coordenação e subordinação, Decat (1993, p. 93) mostra as discussões de Van Valin (1984) que considera dois aspectos nesta oposição: o primeiro, que se relaciona à dependência na forma; e o segundo, que considera o encaixamento de uma estrutura em outra.

A questão da integração estrutural de uma oração em outra foi também considerada por Halliday e Hasan (1989), visando a estabelecer diferenças entre esse tipo de dependência que caracteriza uma cláusula encaixada (rankshifted) e a hipotaxe. A distinção feita por eles não é apenas entre tipos de dependência, mas entre dependência e integração estrutural. E essa última distinção pode apresentar uma melhor explicação para a questão das diferenças de dependência entre as orações, sendo, portanto, a integração estrutural um termo mais adequado para encaixamento (ou embedding), pois esse não se distingue da hipotaxe.

Nessa perspectiva, de acordo com Decat (1993, p. 104), há entre as orações subordinadas um tipo que é dependente de outra oração, mas não estruturalmente integrado nela, isto é, essa oração não estaria em constituência com um item lexical. Halliday e Matthiessen (2004) para definir uma oração como encaixada, consideram que a perda da identidade funcional como oração constitui a diferença em relação à oração hipotática. Para esses autores, ser dependente significa pressupor a existência de outra cláusula dentro da mesma sentença; entretanto a cláusula encaixada não perde seu estatuto oracional, operando, portanto, como um elemento da sentença.

Considerando-se esses estudos, há a evidência de que não existe um único fenômeno de subordinação e que existem tipos diferentes de interdependência entre as orações no enunciado, permitindo, de acordo com Decat (1993, p. 111-112), postular uma diferenciação entre as orações que se integram estruturalmente em outra, e aquelas que não estão sujeitas a essa integração sintática, considerando-se o aspecto organizacional do discurso. Portanto, na subordinação pode ser considerada a diferenciação entre estrutura de encaixamento e estrutura de hipotaxe. Assim, outra diferenciação entre encaixamento e hipotaxe, segundo Decat (1993, p. 113-114), pode ser entendida a partir da noção de unidade informacional dada por Chafe (1980), conforme será explicado a seguir. As unidades informacionais podem se caracterizar sintaticamente como constituindo uma única oração. A unidade informacional constitui-se de acordo com a quantidade de informação que a atenção do falante pode focalizar de uma única vez, isto é, a unidade de informação expressa o que está na memória de curto termo do falante. Assim, o tratamento da dependência entre as orações pode ser feito considerando-se a noção de unidades de informação. A unidade informacional pode ser expandida por meio de mecanismos variados, entre eles, as orações complemento. Assim, de acordo com essa caracterização, pode estabelecer-se a diferença entre encaixamento e hipotaxe ou entre integração estrutural e opção organizacional – e, considerando-se a noção de unidade informacional, pode-se, também, esclarecer a questão da independência das orações (DECAT, 1999).

Assim, uma oração encaixada pode fazer parte da mesma unidade informacional que é a estrutura em que ela se encaixa, sendo, então, dependente. A necessidade de completar o sentido de outra oração ou de parte dela pode ser uma decorrência natural daquilo que, em cada significação, constitui a unidade informacional. O fato de uma oração não poder se constituir por ela mesma com um enunciado completo decorre do fato de ela não ser uma unidade informacional. Assim, a construção hipotática constitui uma unidade informacional por si mesma e, portanto, é independente. E, se a cláusula estiver em constituência com um item lexical de outra cláusula, ela não constitui uma unidade informacional à parte, e está, pois encaixada.

Postulações quanto à subordinação são consideradas por Matthiessen e Thompson (1988 apud DECAT, 1993, p. 116-117), visando, principalmente, à maneira como as orações se combinam para formar o discurso coesivo. Esses autores, Matthiessen e Thompson (1988 apud DECAT, 1993), fundamentam-se na abordagem funcional e interpretam o encaixamento como uma relação parte-todo: a oração encaixada funciona como um sintagma e, portanto, pode desempenhar funções diversas, por exemplo, sujeito, complemento etc. Dessa maneira, o encaixamento não se refere apenas a uma estruturação sintática, mas significa que uma oração mudou hierarquicamente; além da carga informacional que comumente ela traz, estrategicamente, vem designada a desempenhar uma atribuição ou função na estrutura de outra oração. Devido a essa mudança, considera-se que houve uma perda de identidade funcional da oração, e por essa razão, o encaixamento não tem sido tratado como um tipo de combinação de orações, mas, segundo Halliday (1985, 2004), trata-se da combinação de orações por hipotaxe.

Entretanto, segundo Decat (1993), diferentemente das encaixadas, as orações hipotáticas, embora sejam interdependentes, uma não é parte da outra, pois os eventos linguísticos por ela transmitidos não estão numa relação parte-todo. Isso quer dizer que, ainda que duas orações combinadas expressem dois eventos, relacionados entre si por alguma circunstância, não se pode dizer que um evento é parte do outro; no entanto, ambos podem fazer parte do mesmo episódio linguístico.

Veja-se o exemplo de discurso relatado, pertencente ao corpus da presente pesquisa: (16) Cunha e Cintra (1985) afirmam que o subjuntivo é o modo normal das orações

subordinadas. (360, DM, UNESP, 2006 - 17)

Pode-se observar que, nesse exemplo de discurso relatado, as duas orações conectadas podem expressar dois eventos relacionados entre si e que o segundo evento: que o

subjuntivo é o modo normal das orações subordinadas é parte do primeiro evento: Cunha e Cintra (1985) afirmam que, e compõe a unidade de informação como um todo. Pode haver, portanto, uma relação parte-todo formando a organização estrutural do discurso relatado, que pode mostrar o fenômeno linguístico de orações interdependentes encaixadas, relacionado à carga semântica dos predicados.

As orações encaixadas, de acordo com Decat (1999, p. 35), exercem funções discursivas com status diferenciado daquele apresentado pelas orações que contribuem para a estruturação do discurso, constituindo-se, essas últimas, em opções do usuário para atender a intenções específicas. Há evidência de que existe relação entre a noção de dependência e a de unidade de informação, o que justifica a postulação de que a dependência originada da integração estrutural de uma cláusula em outra decorre do fato de que ambas constituem uma única unidade informacional. Ao desempenhar diferente função na estrutura de outra, a oração perde sua identidade funcional como oração, e, assim, a estrutura encaixada passa a fazer parte do mesmo conteúdo semântico da estrutura oracional em que se encaixa, integrando-se em um mesmo bloco de informação. Ser dependente, portanto significa estar em constituência com um item lexical. E essa constituência abrange o aspecto formal/sintático (a cláusula que é o argumento de verbo) e o aspecto semântico informacional, pois a oração encaixada completa a informação global da oração complexa, de que é parte constituinte.

Assim, pode-se dizer que as investigações de Decat (1993, 1999), por meio da utilização da noção de unidade de informação, permitem esclarecer não apenas o conceito de dependência entre as orações e explicar as diferenças entre encaixamento e hipotaxe. Podem representar uma explicação para a compreensão da estrutura do discurso relatado, caracterizada por integração não só estrutural como também semântico-informacional em outra oração.

Benzer Belgeler