Para a construção do referencial teórico-conceitual em relação as paisagens costeiras e os elementos que a compõem, utilizaremos os conceitos de MUEHE (2005). O referido autor trabalha com o uso e a ocupação do espaço costeiro, que é um tema que vem se destacando no cenário mundial e também brasileiro. Segundo Muehe,
Os constantes problemas resultantes das interferências, direta e/ou indireta, no balanço de sedimentos costeiros e do avanço da urbanização sobre algumas áreas que deveriam ser preservadas, mostram que ainda é longo o percurso entre a intenção e a realização por parte do poder público e de instâncias superiores. (MUEHE, 2005, p. 253)
Neste trabalho, a questão que foi abordada refere-se a inter-relacão entre o físico e o humano da paisagem costeira, no entanto, serão tecidas algumas conceituações de âmbito físico, na qual Muehe (2005) nos fornecer algumas denominações, tais como: feições costeiras brasileiras; variação absoluta e a variação relativa do nível do mar; o efeito estufa e a aceleração da taxa de elevação do nível do mar; conceito de praias (perfil praial e sua vulnerabilidade), a morfodinâmica da praia e dunas costeiras: origem e distribuição. Além disso, esse autor aborda as relações das paisagens costeiras e a ação antrópica, posto que as paisagens costeiras são áreas especialmente vulneráveis à ocupação humana, dada a natureza altamente instáveis e resultante da grande dinâmica da evolução de seus sistemas.
Essa dinâmica inerente aos ambientes costeiros vem sendo cada vez mais acentuada, o que aumenta a preocupação com a tendência atual de elevação do nível do mar em escala global, resultante do aquecimento global, e a conseqüente contração das calotas polares e geleiras. A preservação das paisagens costeiras requer um grande esforço mundial, visando a compreensão dos seus processos naturais e o monitoramento de eventuais mudanças causadas por impactos naturais e antrópicos. De acordo com Rossetti (2008), planejar a ocupação humana ao longo de áreas costeiras é fundamental para minimizar o impacto de possíveis catástrofes, tanto para o meio ambiente como para a sociedade.
Segundo os estudos de Ribeiro (1997), a dinâmica da paisagem em relação aos elementos naturais, principalmente os ligados a paisagem natural ou alterada
pelo homem, constituída de diversos componentes, é necessário para entender o funcionamento do todo e, compreender o mecanismo funcional de cada um dos componentes em relação aos demais. Em sua obra, o mesmo também faz muitas referências a ROSS (1990), quando se trata do papel primordial da Geografia. Ribeiro (1997) afirma que é “no trabalho de inventariar e analisar o quadro ambiental, que é antes de tudo um espaço, humanizado ou não, eminentemente geográfico”. E depois descreve sobre a dinâmica das paisagens e sua evolução.
Com relação à análise das paisagens, Cavalcanti (2007) desenvolveu métodos e técnicas de investigação direcionadas a análise da dinâmica natural, uso e ocupação do solo, impactos ambientais, planejamento ambiental, manejo e gestão, visando à organização do espaço, principalmente relacionada à zona costeira. O referido autor buscou resultados e alternativas aplicáveis em distintas áreas, incluindo a harmonia das relações da sociedade com o meio natural, permitindo uma convivência equilibrada e a garantia das condições ambientais necessárias à produção do potencial natural e socioeconômico; a proteção dos valores culturais e ampliação da conscientização da população, com indicação de meios, instrumentos e mecanismos adequados para a proteção do ambiente. Dentro desse contexto, a paisagem vai ser de grande relevância na análise e compreensão da organização do espaço geográfico, além também de elucidar a caracterização e os processos da dinâmica natural costeira e fazer um diagnóstico e, posteriormente, a avaliação dos impactos ambientais das unidades paisagísticas costeiras.
Moraes (1999) apresenta uma reflexão teórica sobre a análise da localização litorânea e algumas considerações sobre as tendências de ocupação do litoral brasileiro e faz uma investigação sobre as políticas públicas no país, enfocando as políticas urbanas federais, a estrutura do planejamento da União com respeito à zona costeira e um estudo de caso do Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC). A zona costeira brasileira é regulamentada por leis e por dois documentos que são voltados ao exercício do planejamento, cujo teor revela imediatamente a intenção da ação antrópica e suas reais aplicações. O primeiro documento é um subsídio para a elaboração do Plano da Ação Federal para a Zona Costeira do Brasil e o segundo são as propostas de modificação da metodologia utilizada no zoneamento costeiro.
Dessa forma, esses documentos visam a minimização da ação do homem na área costeira e suas modificações. Convém ressaltar a necessidade de se fazer uma
reflexão geográfica à gestão do ordenamento territorial num tipo de espaço dotado de alta peculiaridade como é o caso da zona costeira.
Dada a relevância ao planejamento e a gestão da zona costeira de um país, Vasconcelos (2005), trabalhou com as questões relacionadas à Gestão Integrada da Zona Costeira (GIZC), sempre fazendo um paralelo com as idéias do geógrafo Milton Santos (2008 p. 45), o qual nos ensina que “hoje a ação antrópica tem efeitos continuados, e cumulativos, graças ao modelo da vida adotado pela humanidade”. Com base na literatura de Vasconcelos (2005), pode-se perceber que há um descaso do poder público, o que notamos na ausência da participação mais efetiva da população local na elaboração técnica e no acompanhamento do plano diretor da cidade. Com isso, gera a despolitização das questões ambientais, visto que são geradas e continuadas pelo domínio hegemônico de uma elite econômica e política, pela renda da terra urbana em detrimento da coletividade. O que podemos observar neste contexto é que no centro dessas relações sociais está o meio ambiente, o qual atualmente se encontra bastante degradado. Essa medida de gerenciamento vem auxiliar essa área tão frágil como é a zona costeira, em especial o bairro de Ponta Negra.