Como aponta Naves30, “democratizar o acesso à Justiça signifi ca adotar pro- cedimentos que retirem, ou ao menos minimizem, os obstáculos porventura antepostos à efetiva prestação jurisdicional”. Sem dúvida há, ainda, muitos obstáculos ao acesso à Justiça conforme acima conceituado. Na presente seção focalizarei alguns dos principais obstáculos existentes fora do Poder Judiciário.
3.1. A opacidade do fenômeno jurídico
No meu entender, o primeiro obstáculo a um efetivo acesso à Justiça reside no que chamarei de opacidade do fenômeno jurídico.
Como já foi apontado por diversos autores, dentre os quais Eco31, há, na vida social, um profundo desconhecimento da juridicidade de que se reveste grande parte dos atos que nela são praticados. Assim é que as pessoas realizam, cotidianamente, uma variedade de atos que têm sentido e efeitos jurídicos, sem, contudo, se aperceberem desse fato, na grande maioria dos casos. Pode-se, as- sim, falar na existência da opacidade do jurídico, em nossa sociedade.
da Previdência Social em nosso país), e utilizados pelo INSS, internamente, em sede administrativa. Voltarei a essa questão na subseção 5.4.
29 Canotilho, apud NALINI, op. cit., p. 2.
30 NAVES, Nilson. Acesso à Justiça. Conferência de abertura proferida no “Seminário sobre Acesso à
Justiça”, realizado pelo Centro de Estudos Judiciários, em 24 e 25/04/2003, no Tribunal de Contas de
Minas Gerais, em Belo Horizonte, MG. R. CEJ, Brasília, n. 22, jul./set. 2003, p. 6. 31 ECO, Humberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
Certamente, esse desconhecimento por parte das pessoas de que grande parte dos atos que realizam é constituída de atos jurídicos varia, não apenas de pessoa para pessoa, segundo seu grau de instrução, de seu grau de sintonia ou alienação com relação ao que a cerca, e com sua forma de inserção na hierarquia social, mas, também, de país para país, segundo o grau de desenvolvimento social, econômico, político e cultural deste. A despeito de tal variação e de tal desconhecimento, ambos inarredáveis, não só se teoriza sobre os atos jurídicos, mas, também, se opera no processamento jurídico dos confl itos deles decorren- tes na vida social, como se as pessoas estivessem igualmente capacitadas para a celebração de qualquer ato jurídico e fossem, de fato, e não apenas formalmen- te, livres e iguais perante a lei.
Uma das consequências da opacidade do jurídico é o fato de as pessoas, em geral, não demonstrarem ter uma postura preventiva no que tange à pos- sibilidade de virem a atender a requisitos mínimos para comprovarem — e, consequentemente, poderem vir a exercer — determinados direitos de que são, efetivamente, titulares. Em minha atuação como juíza, muitas vezes me deparei com um exemplo claro disso: a união estável e a necessidade de sua comprova- ção para a obtenção de benefícios previdenciários.
Esta espécie de entidade familiar está constitucionalmente protegida (CRFB/1988, art. 226, § 3º) e é extremamente comum entre a população bra- sileira, contemporaneamente, sobretudo, embora não exclusivamente, entre as pessoas pertencentes aos segmentos menos favorecidos da sociedade. A despeito desse fato, as pessoas que adotam essa forma de confi guração familiar raramente se preocupam em reunir, durante a duração da mesma, um conjunto probatório mínimo de sua relação de companheirismo. Assim é que, com muita frequên- cia, a despeito de o casal ter convivido em união estável por um número consi- derável de anos, o companheiro supérstite não tem prova documental robusta de sua condição. Em decorrência disso, encontra obstáculos ao reconhecimento administrativo de seu pedido de pensão por morte previdenciária do falecido companheiro e acaba por ter de se valer de uma ação judicial para ter seu pedido de pensão por morte eventualmente acolhido.
Certamente, se as pessoas envolvidas tivessem uma mínima compreensão da importância da comprovação de seus direitos para os terem reconhecidos, tomariam algumas medidas bastante simples para assegurarem tal comprovação sem terem de recorrer à via judicial para tanto.
Ações desse tipo, decorrentes do que está aqui sendo chamado de opacidade do jurídico, poderiam e deveriam ser evitadas, mediante um esforço de cons- cientização das pessoas quanto a medidas que as mesmas poderiam tomar, ao
CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DO ACESSO EFETIVO À JUSTIÇA 61
longo de sua convivência, no sentido de evitar problemas futuros de comprova- ção da relação de companheirismo por parte do companheiro supérstite. Ações como estas sobrecarregam o Judiciário desnecessariamente, no meu entender, e se constituem em um obstáculo ao efetivo acesso à Justiça por parte de pessoas com questões cujo mérito, realmente, careceria de ser apreciado pelo Judiciário.
É, a meu ver, absolutamente urgente que os responsáveis pela formulação dos currículos mínimos de nosso sistema educacional fundamental e médio se deem conta da importância de neles serem incluídas noções básicas de Direito. Não me refi ro a noções teóricas de Direito, mas sim a algumas noções básicas quanto à relevância do Direito para o exercício dos direitos básicos da cidadania e para a vida prática das pessoas, de modo a conscientizá-las da juridicidade de grande parte dos atos que praticam. Afi nal, como diria Ihering32, “[o] direito não é uma pura teoria, mas uma força viva” e, ademais:
a força de um povo corresponde à força do seu sentimento jurídico. Cultivar o sentimento do direito na nação é portanto cultivar o vigor e a força do Estado. Por esta cultura não entendo, está claro, a cultura teórica da escola e do ensino, mas a realização prática dos princípios da Justiça em todas as relações da vida.
3.2. O desconhecimento da lei
Uma outra forma de desconhecimento por parte das pessoas que se confi gura em um obstáculo ao acesso à Justiça é o desconhecimento da lei. Claro está, como ressalta Nalini33, que “as pessoas não poderão usufruir da garantia de fazer valer seus direitos perante os tribunais, se não conhecem a lei nem o limite de seus direitos.”
Evidentemente, o desconhecimento da juridicidade dos atos da vida social é muito mais básico e profundo do que o desconhecimento das leis específi cas con- cernentes à regulação de tal ou qual conjunto de atos jurídicos. Não se deve, pois, confundir o desconhecimento da juridicidade com o desconhecimento da lei.
Os sistemas jurídicos existentes no mundo fazem uso da fi cção jurídica de que aqueles que estão em seu escopo de atuação conhecem as leis de sua terra (isto é, the law of the land). Esta fi cção é uma premissa necessária e ine- vitável, na qual os sistemas jurídicos se baseiam e sem a qual estes perderiam
32 IHERING, Rudolf von. A Luta pelo Direito. 10ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 1992, p. 1 e p. 66.