Como já foi assinalado, as causas que explicam o surgimento do dualismo no mercado de trabalho, para os autores institucionalistas, seriam basicamente duas. Em primeiro lugar, o interesse dos empresários na estabilização dos trabalhadores mais capacitados em determinadas funções. Em segundo lugar, a luta dos sindicatos por garantir postos e condições de trabalho para determinados grupos de trabalhadores (basicamente os trabalhadores do sexo masculino das indústrias tradicionais). O resultado disso é que parte da força de trabalho consegue estar em uma situação protegida da “incerteza”, passando a constituir um setor privilegiado no mercado de trabalho (composto basicamente por homens brancos), diferente do setor “residual”, constituído por mulheres, negros, jovens e imigrantes (Borderías e Carrasco, 1994: 69).
Baseando-se nos casos históricos dos EUA (revoltas operárias nos anos 30), França (maio de 68) e Itália (“Outono Quente”, 1969) e traçando paralelismos entre eles, Piore argumenta que o dualismo no mercado de trabalho é o resultado da mudança e da incerteza inerentes a toda atividade econômica. A questão está em como distribuir essa carga de incerteza. O que acontece, em cada um desses casos, é que um forte movimento operário tem como resultado uma ampliação do seu poder e o atendimento a uma série de reivindicações que, do ponto de vista dos empresários, passam a constituir uma diminuição da flexibilidade na administração de suas empresas. A partir daí, esses mesmos empresários adotam uma série de táticas, tais como a subcontratação, o trabalho a domicílio, o trabalho temporário, a relocalização industrial etc., que lhes permite recuperar a flexibilidade perdida. O resultado disso é a ampliação do “setor secundário” do mercado de trabalho (Toharia, 1999: 27).
A discussão sobre as “subculturas de classe” surge na tentativa de explicar porque certas categorias de trabalhadores são mais propensas que outras a ocupar os postos de trabalho disponíveis no setor secundário, compondo assim a “força de trabalho secundária”.
As diferenças de sexo, idade, raça, são vistas como categorias que, ainda que não tenham sido criadas pelo empresariado, são reforçadas e utilizadas para estabilizar e legitimar a estrutura econômica. A segmentação do mercado de trabalho obedeceria às estratégias dos empregadores, mas, por sua vez, os comportamentos
dos trabalhadores determinariam quem ocupa cada tipo de trabalho.
A hipótese de Piore é que as divisões do mercado de trabalho estão fortemente relacionadas com “as distinções que se fazem na literatura sociológica entre subculturas de classe média, classe trabalhadora e classe baixa” e, mais que isso, apóiam-se nessas distinções. Assinala que as características dessas subculturas variam de acordo ao ciclo de vida dos indivíduos, e o maior paralelismo que se encontra entre elas e os segmentos do mercado de trabalho se dá durante a vida adulta No modelo dos mercados duais de trabalho, haveria fundamentalmente três tipos de trabalhadores, relacionados a cada um dos três segmentos do mercado de trabalho (já que o setor primário se divide em segmento inferior e segmento superior). Em cada um deles a demanda por trabalho está definida pela tecnologia, e a oferta pelas subculturas de classe (Piore, 1999a:196-197; Piore, 1999b: 211).
A subcultura da classe trabalhadora (durante a idade adulta) se caracteriza por um estilo de vida estável e rotineiro. A vida gira em tono a uma unidade familiar ampliada e a um conjunto de relações com um grupo de companheiros que vem da infância e da adolescência; os indivíduos tendem a definir-se a si mesmos a seus papéis em função dessas relações. O trabalho é visto como um instrumento para obter a renda necessária à manutenção da família e à participação nas atividades do grupo de companheiros. A educação é um instrumento para conseguir o trabalho.
Essa subcultura seria coerente com as características do trabalho no segmento inferior do setor primário, que também se define como estável e rotineiro. A prioridade concedida à vida familiar permite à pessoa suprir a falta de interesse no trabalho; por outro lado esse interesse, se existisse, poderia “distrair o trabalhador das atividades familiares”.
A subcultura da classe média, por sua vez, tem as seguintes características: a divisão entre a família, o trabalho e a atividade educativa é mais difusa e imprecisa; as
obrigações familiares se reduzem ao núcleo familiar e não abarcam a família ampliada; isso diminui as possibilidades de conflitos entre a família e o trabalho.16 Tanto o
trabalho quanto a educação são considerados – ao menos idealmente – como fins que produzem satisfação em si mesmos, além de um meio de obtenção de renda. Os indivíduos passam por períodos mais prolongados de escolarização, anterior à sua entrada no mercado de trabalho, e sem relação imediata com a necessidade de obter um trabalho e renda. O círculo de amizades muitas vezes é composto por colegas de trabalho, com interesses profissionais comuns.
Essa subcultura estaria, portanto, bem adaptada para apoiar as pautas laborais do segmento superior do setor primário do mercado de trabalho: a família nuclear e as amizades profissionais facilitam a mobilidade geográfica e social e permitem trabalhos de tipo intelectual e mais consumidores de tempo.
A subcultura de classe baixa teria as seguintes características: os homens (sic) da classe baixa têm um conceito muito personalizado de si mesmos, separado e independente de uma rede de relações com a família e os amigos. Por tanto, suas relações tendem a ser voláteis, de curta duração e instáveis, e sua vida tende a estar caracterizada por um esforço por escapar da rotina mediante a ação e a aventura. O que aconteceria na classe baixa é uma prolongação, na etapa adulta, de um modo de conduta que, entre a classe trabalhadora, está ligada à adolescência. Essa subcultura, assim, parece estar adaptada às pautas de trabalho do setor secundário: é coerente com o emprego errático do mercado de trabalho secundário.
Os jovens da classe trabalhadora e da classe média, segundo Piore, passam
por um período de aventuras e busca de ação na adolescência e no princípio da etapa adulta, antes de se assentar na vida familiar rotineira, no emprego estável e, no caso da classe média, na preparação para uma carreira profissional. Durante esse período, têm características similares às dos trabalhadores das classes baixas: “não procuram,
e nem poderiam manter um compromisso com uma carreira. Os empregadores que buscam empregados de carreira, não os contratariam”. Por tanto, estão forçados, se
querem trabalhar, a aceitar os tipos de trabalho existentes no setor secundário, e,
dentro do limite de certas restrições sociais e geográficas, esses jovens tendem a compartilhar com os adultos da classe baixa muitos do empregos no setor secundário (Piore, 1999b: 218).
Por sua vez, a migração também seria um fenômeno fortemente relacionado com a existência da subcultura da classe baixa. Os sucessivos ciclos migratórios que caracterizam a história dos EUA, fortemente marcados por componentes étnicos, seja dos migrantes que procedem de comunidades agrícolas rurais da Europa, da América Latina ou do Sul dos EUA, explicariam, em grande medida, o prolongamento desses comportamentos típicos da adolescência durante a idade adulta. É como se a classe baixa não conseguisse completar o processo de transição que caracteriza a classe trabalhadora, seja porque não consegue um emprego estável, porque não se casa e não forma uma família, ou pela falta de um grupo de amigos de apoio que já teriam uma inserção mais estável no mercado de trabalho.17
Nos primeiros estágios de qualquer nova migração, a comunidade étnica está dominada pelo fluxo migratório, e esse fluxo impede a transição adulta a um ciclo de vida rotineiro. Mesmo quando já há uma segunda geração de pessoas nascidas no país, se o fluxo migratório continua, elas ainda são proporcionalmente poucas, e são os migrantes mais recentes – que ainda constituem a grande maioria – que tendem a determinar “o caráter da comunidade”. Só quando a parcela já estabilizada passa a ser proporcionalmente maior que os migrantes recentes é que esses começam a “predominar na atmosfera da comunidade étnica, cujos membros começam a passar em quantidades importantes de uma subcultura de classe baixa a uma subcultura de classe trabalhadora” (Piore, 1999b: 218).
A hipótese básica é portanto, que “...as dimensões da classe baixa e, portanto,
a oferta de trabalhadores para ocupar os postos de trabalho secundários, são uma função da taxa de imigração dos grupos étnicos e raciais e do número de membros da segunda e terceira geração desses grupos em relação à entrada de novos membros. A medida que a corrente de novos imigrantes diminui, tanto em quantidades absolutas
17 “Dado que os empregadores tendem a julgar as pessoas em função das características que dominam entre
os grupos étnicos aos que estão ligados, o fato de pertencer a um grupo étnico que tem fama de mudar muito de trabalho, devido a quantidade de migrantes que retornam ao seu lugar de origem, aumenta a dificuldade de ser aceito em um emprego estável” (Piore, 1999b: 218).
como em relação com a segunda e terceira geração, deveria haver uma diminuição da oferta de trabalhadores para os postos secundários e um aumento da oferta para os postos de trabalho do segmento inferior do mercado primário” (Piore, 1999b: 219).
A transição está relacionada com a formação de uma família e com a existência de postos de trabalho estáveis não apenas para o indivíduo, mas também para um número significativo de membros do seu grupo de companheiros, suficiente para que as normas dos grupos mudem e apóiem as mudanças dos estilos de vida do indivíduo. O processo de migração e a presença na comunidade de grandes quantidades de imigrantes recentes interrompe a transição porque impede a formação de uma família, o desenvolvimento de grupos de companheiros e a manutenção de um emprego estável (Piore, 1999b: 219).