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Os aspectos do “Ser-no-Mundo” estão implícitos no mundo enquanto “conjunto de relações significativas dentro do qual a pessoa existe”. Este, embora seja vivenciado como uma totalidade se apresenta ao homem sob três aspectos simultâneos, mas que mantem entre si diferenças: o mundo circundante, o mundo humano e o mundo próprio.

Com relação ao mundo circundante, ele é representado pela relação da pessoa com o ambiente, abrangendo “os condicionamentos aos quais se está sujeito por se viver concretamente num ambiente determinado” (p.37). Porém, mesmo que cotidianamente “sofra limitações e necessite muitas vezes adaptar-se a seu ambiente, o ser humano possui também a capacidade de transcendê-lo por meio da consciência das situações que vivencia” (p.37).

No que se refere ao ser humano, sua existência num mundo circundante não se assemelha a estar inserido numa caixa ou mesmo a “um animal preso numa jaula”; não está, simplesmente, restrito a um ambiente. Desse modo,

Mora ou habita no e o mundo, que para ele se abre como muitas possibilidades, não apenas por poder se locomover de um lado para o outro, mas também em virtude da consciência que possui das situações que já vivenciou, está vivenciando e ainda poderá vivenciar. Há, portanto, uma relação dialética entre o ser humano e o mundo circundante (p.37).

Nesse aspecto vale salientar que as referidas possibilidades propiciadas pelo mundo circundante da pessoa, muitas vezes, são desfavoráveis ao seu crescimento ou desenvolvimento enquanto pessoa. Inicialmente, quando nasce num ambiente onde a família, por falta de conhecimento, descuida desse lado - o humano. Por outro lado, esse descaso

possivelmente seja expandido na escola. Isto quando centra sua prática na transmissão de um conteúdo distante, tanto da realidade vivida pelo estudante quanto do seu Nível de Desenvolvimento Potencial (NDP), conceito desenvolvido por Vygotsky.

Esse conceito se refere ao nível de aprendizado que o estudante poderá alcançar em parceria com o docente e colegas mais experientes. Outros conceitos dentro da linha de pensamento vygotiskiana são o Nível de Desenvolvimento Real (NDR) e a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). O primeiro, compreendido como o conhecimento que já é efetivado, que já consta na estrutura cognitiva do estudante e o segundo representando o espaço entre estes dois níveis e corresponde exatamente o espaço de atuação da educação escolar (Gonsalves, 2012, p. 19-20).

Esta pesquisadora revela que os mencionados conceitos propiciaram enriquecer a discussão em torno do processo de construção do conhecimento pois este não se efetiva de modo passivo, mas, mediado por uma interação na qual o sujeito que aprende é ativo. Nesse processo, ao ser colocado diante de uma situação de aprendizagem, ele aciona seus “dispositivos internos” para captar “sinais do exterior”. Desse modo, “constrói suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo em que organiza seu mundo”. Nas palavras de Maturana e Varela (2001), “todo conhecer depende da estrutura daquele que conhece” (p. 40). Nesse sentido, quando as oportunidades de aprendizagem às quais o ser humano está exposto desconsideram estes aspectos, ou são incompatíveis com eles, ao invés de promover, bloqueia ou dificulta o seu aprendizado e, em consequência, o seu próprio desenvolvimento nos aspectos que lhe são inerentes enquanto “ser” humano.

Nesta linha de pensamento é perceptível a ambiguidade nas direções assumidas no processo de formação deste “ser”. Por um lado uma corrente que favorece, que impulsiona o desenvolvimento e, por outro uma corrente que dificulta, que bloqueia. Nessas direções é que se materializa o mundo humano, permeado por relações quer seja do homem com o seu entorno, o mundo circundante, quer seja com o outro humano. Esta última, porém, muitas vezes é fortemente marcada por relações de poder.

Silva (2010) afirma que o mundo humano está relacionado com “o encontro e convivência da pessoa com os seus semelhantes”. Assim, explica:

A relação do homem com outros seres humanos é fundamental em sua existência; desde o nascimento ele encontra–se em situações que incluem a presença de alguém. O existir é originalmente ser-com-o-outro, embora o compartilhar humano nem sempre seja vivenciado de fato. Os seres humanos tem a capacidade de compreender-se mutua e imediatamente, por serem fundamentalmente semelhantes entre si, embora a concretude do existir de

cada um apresente possibilidades distintas de perceber e compreender as situações (p. 37-38).

Diante disso é notável um aspecto intrínseco ao “ser”. Isso pode ser percebido na expressão que afirma que nem sempre o “compartilhar humano” é vivenciado de fato. Em decorrência da sua subjetividade, o ser, embora imerso em um meio sociocultural específico, por meio das interações que são estabelecidas, toma posição, faz escolhas e estas nem sempre convergem com outros do mesmo ambiente. Esse outro aparece com uma referência, mas, conforme argumenta Silva, enquanto no relacionamento com o “mundo circundante”, o ser humano normalmente procura adaptar-se “à materialidade do ambiente”, no encontro com o semelhante “ocorre uma relação de reciprocidade, na qual ambos influenciam-se mutuamente” (p. 38).

Contudo, o influenciar-se mutuamente não implica necessariamente em imitar o outro, mas também em eleger o outro como um referencial daquilo que não se quer ser. Um exemplo disso é a relação de dominação comum nas relações entre humanos. Algumas vezes, são constituídas relações nas quais uns subestimam o outro, provocando com isso uma relação desarmoniosa. Em face disso Silva (2010) afirma:

Só posso saber quem sou como ser humano e ser profissional, convivendo com meus semelhantes. Podem acontecer, e acontecem, situações em que um indivíduo procure dominar o outro, utilizando-se dele para atender às suas necessidades. Uma pessoa pode, também, deixar-se submeter à outra, ou às normas e regras de seu grupo social, simplesmente para não assumir a responsabilidade de suas decisões (p.38).

Aliás, é comum encontrarmos esse tipo de dominação em vários setores da sociedade, desde o da própria família até o ambiente macro, ou seja, nas relações socioeconômicas da sociedade, notadamente, no contexto político. Este último, muitas vezes, no campo governamental e nas políticas educacionais arquiteta políticas que, no fundo, propiciam certa alienação dos indivíduos no sentido de impedir que utilizem seu potencial humano para, de certa forma, tornar-se objeto de fácil manipulação e, consequentemente, dominação. Estas ações humanas de uma minoria privilegiada economicamente sobre uma maioria menos favorecida muitas vezes acaba gerando certo comodismo.

O comodismo gerado, que é intencional, parece se tornar confortável para essa maioria, que impedida de desenvolver-se em suas potencialidades humanas como o pensar, por exemplo, acaba por sentir-se aliviada no sentido de não ter que assumir responsabilidades e, ao invés disso, colocar sempre na responsabilidade de “outros” a condução dos destinos do

“mundo”. Algumas vezes, do seu próprio mundo no existir, quando não assume a responsabilidade por seus próprios atos e não gerencia adequadamente a sua vida. Critica severamente o governo exigindo sempre a ampliação de hospitais, de segurança, de penitenciárias, mas não consegue perceber que cada indivíduo, com as escolhas que faz em sua vida poderá está contribuindo ou para ampliar, ou para reduzir os problemas que emergem no mundo.

A relação do indivíduo consigo mesmo é apresentada por Silva (op. cit.) como a quarta categoria da Fenomenologia: o aspecto do Ser-no-Mundo. “O mundo próprio”, segundo ele ou esta forma de “ser” resulta ou se materializa “na relação do indivíduo consigo, ou, em outras palavras, no seu ser-si-mesmo, na consciência de si e no autoconhecimento” (p.38). Falando das situações que concretizam essa materialidade, afirma:

O ser humano vivencia, relacionando-se com o mundo circundante e com as pessoas, que lhe possibilitam a gradualmente atualizar as suas potencialidades, oferecendo-lhes as condições necessárias para ir descobrindo e reconhecendo quem é. Por outro lado, à medida que vou descobrindo quem sou, este autoconhecimento ou consciência de mim, também vai propiciando uma perspectiva, ou um modo peculiar de visualizar as situações que vivencio no mundo (p.38-39).

A citação acima mostra o processo dinâmico que constitui a formação humana permeada por relações em várias direções. Uma direção do indivíduo com o mundo exterior, do mundo exterior para seu interior, dele com o “outro” do seu entorno social e na direção de si mesmo. Desse modo, ele percebe-se como sujeito e também como objeto, percebe-se enquanto um “existente” no mundo, situa-se na “situação concreta” do momento, bem como visualiza suas diversas possibilidades. Assim sendo,

A consciência de si e o autoconhecimento implicam a autotranscendência, isto é, a capacidade do ser humano de transcender a situação imediata, ou, em outras palavras, a capacidade de ultrapassar o momento concretamente presente, o aqui e o agora, o espaço e o tempo. Pela autotranscendência, o sujeito traz o passado e o futuro para o instante atual de sua existência e se conhece como sujeito responsável por suas decisões e seus atos (p. 39). Considerando essa argumentação nos reportamos à forma como a educação escolar tem se operacionalizado no decorrer da história e, no seu âmbito, o ensino religioso. Sabemos que toda prática educativa envolve uma concepção de mundo, de homem e de conhecimento, entre outros elementos. Salientamos nesse ponto um questionamento ou preocupação acerca da influência ou do impacto que as praticas tradicionalmente desenvolvidas centrada na relação hierarquizada onde o professor é o centro que decide o conteúdo que vai ser trabalhado, muitas vezes, seguindo um livro didático ou um roteiro de temas/conteúdos definidos em um espaço distante daquele que é vivido pelos estudante.

A persistência desta prática cada vez mais abre um vazio entre o que se oferece na escola e o que o estudante deseja receber em termos de contribuição para a sua vida, para o seu existir. E, em se tratando da articulação de um processo que possibilite desencadear o autoconhecimento, a autotranscendência do indivíduo, conforme abordado acima esse vazio parece maior ainda. Talvez, em decorrência disso é que ouvimos tantas queixas de docentes afirmando “os alunos não querem nada”. A nossa preocupação consiste em saber se o que está sendo oferecido na escola de modo geral e, em particular no ensino religioso, encontra sintonia com o que o estudante espera. Caso isso não ocorra, esse vazio tende a se alargar continuamente.

Um aspecto importante enfatizado por Silva (2010) diz respeito ao fato de que:

é nessa capacidade de autotranscendência que se encontra a base da liberdade humana, pois, ao mesmo tempo permite ao ser humano tanto voltar-se ao passado como lançar-se para o futuro para refletir e avaliar seus próprios recursos e as potencialidades que possui para enfrentar, não apenas a situação imediata, mas para ir muito além dela. O sujeito dispõe em sua existência de uma ampla gama de possibilidades para escolher suas relações com o mundo; o ser-si-mesmo é esta possibilidade de escolher suas relações com o mundo; o ser-si-mesmo é esta possibilidade de si perceber abrindo caminho entre essas inúmeras variadas possibilidades. Portanto, o “mundo próprio” caracteriza pela significação que as experiências tem para o indivíduo, e pelo conhecimento de si e do mundo (p. 39).

Dada a relevância do Ser-si-Mesmo na materialização do existir é que, simultaneamente, se constrói um mundo próprio e, no conjunto, o mundo como um todo. Contudo, não se trata de mundos “fechados”, mas de mundos “abertos”, com diversas vias que podem ser percorridas. Porém, a escolha das vias vai depender das significações que possuem para cada indivíduo, em particular.

A quinta e última categoria da Fenomenologia abordada está relacionada com os conceitos de Temporalidade e Espacialidade.

Benzer Belgeler