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Minha primeira incursão à Santa Catarina foi no mesmo período em que estive no Rio de Janeiro, ou seja, julho de 2005. Neste momento, me detive na seleção de documentos escritos existentes no Núcleo de Estudos Negros (NEN), buscando localizar informações sobre o contexto da luta anti-racista no estado, suas origens e principais organizações. Assim como, localizar documentos produzidos por esta organização, que pudessem indicar o processo que culminou na projeção da Pedagogia Multirracial e Popular, e nas ações educativas para a sua implementação e discussão.

Na capital do estado de Santa Catarina, Florianópolis, permaneci por volta de quinze dias, sendo que metade deles foi direcionada para o trabalho de tese. Minha principal preocupação foi levantar o material escrito, tendo como fonte inicial a biblioteca do Núcleo de Estudos Negros (NEN), que concentra em seu acervo as melhores informações, que se pode encontrar na cidade sobre relações raciais, a história e a cultura dos africanos e seus descendentes. Assim, pude ter acesso a variados, mas ao mesmo tempo dispersos materiais constituídos por recortes de jornais, livros, monografias, dissertações e teses, que contribuem em situar a trajetória do Movimento

Negro local e nacional. Por outro lado, tive à disposição o acervo específico sobre o NEN, como atas e memórias de reuniões, relatórios de atividades que datam da década de 80. Nem todas estão totalmente de domínio público. Mas, o status de ser membro efetivo e fundador da entidade me facilitou o acesso.

A partir destes documentos escritos percebe-se a ênfase do NEN com o debate educacional. O que pode ser verificado a partir da trajetória histórica desta organização em Florianópolis, e as implicações de sua atuação no estado de Santa Catarina. Esta trajetória, que será mostrada no capítulo V, fornece elementos para compreender o contexto e as motivações no desenvolvimento de uma proposta pedagógica, cujo foco se situa no combate ao racismo e de elementos da história e da cultura negra no Brasil.

O segundo retorno se deu em julho e agosto de 2006, com o objetivo de colher, primeiramente, depoimentos dos militantes do movimento negro em Florianópolis, cujas trajetórias contribuíram na reconstituição da mobilização negra na capital. Como também, depoimentos dos integrantes do Núcleo de Estudos Negros (NEN), como preparação de minha primeira qualificação no doutorado realizado no Ceará, bem como, de subsídio para a preparação deste trabalho. Para reconstituir o processo organizativo do movimento negro catarinense, com especial atenção a capital do estado, entrevistei:

JERUSE ROMÃO – pedagoga, mestre em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina, ex- integrante e fundadora do NEN. Figura importante na década de 1980 na discussão das relações raciais no espaço da escola. Pioneira na preocupação com a produção de material didático dobre a história e cultura negra. Teve destacada atuação no legislativo catarinense na elaboração de políticas afirmativas voltadas para jovens negros. É

fellowda Ashoka33 na execução de

33 Organização não-governamental norte-americana, que investe no desenvolvimento de projetos

projetos com material didático afro-brasileiro.

VALMIR ARI BRITO, professor de educação física, mestre em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desde a década de 80 atuou em trazer para o debate público, a capoeira como importante legado africano em diversos tipos de grupos de capoeira. Com especial atenção ao Grupo Ajagunã de Palmares, cujo trabalho tem mostrado a relevância do ensino da capoeira como integrante da cultura negra no Brasil. É membro do NEN

VANDA DE OLIVEIRA GOMES PINEDO - Professora de educação física e integrante do Movimento Negro Unificado (MNU) em Santa Catarina. Teve destaque na estruturação do MNU em Santa Catarina. Em especial uma atuação marcante dentro do movimento sindical, com ênfase ao sindicato dos professores em educação, do município de Florianópolis.

ARILDA NANCI DOS PASSOS CERQUEIRA - Antropóloga, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Na década de 80 em diante, esteve à frente das principais discussões sobre o papel da mulher negra no contexto social brasileiro, assim como das preocupações na efetivação de políticas públicas para este setor. É Secretaria Executiva do Conselho

Estadual de Populações

Afrodescendente (CEPA) de Santa Catarina.

VERA LÚCIA FERMIANO – Formação em secretaria executiva. Esteve a frente, na década de 80, em organizações comunitários e de mulheres negras em Florianópolis. Foi Presidente do Conselho

Estadual da População

Afrodescendente (CEPA). Fundou várias organizações de mulheres negras e da Casa da Mulher

Catarina, ONG feminista.

Desenvolveu estudos e pesquisa sobre a saúde da mulher negra na capital, com enfoque na prevenção

as doenças sexualmente

transmissíveis. Bolsista da Fundação MacArthur34.

34 Organização filantrópica norte-americana que apóia projetos de pesquisa e intervenção na área da saúde

MÁRCIO JOSÉ. PEREIRA DE SOUZA – Professor de química, ativista do movimento negro catarinense e primeiro vereador negro de Florianópolis. Nos anos 80 integrou a Sociedade Cultural Antonieta de Barros, uma das primeiras entidades a retomar o combate à discriminação racial em Florianópolis. Membro do Grupo de

União e Consciência Negra

(GRUCON), núcleo UFSC e

fundador do NEN. Em 2004 é responsável por uma das primeiras leis que introduzem conteúdos afro nas escolas municipais de Florianópolis.

Para compreender outros aspectos da mobilização do MN catarinense, e a trajetória histórica que leva o Núcleo de Estudos Negros a formulação de uma pedagogia com recorte racial no estado de Santa Catarina, em sua sede entrevistei:

JOANA CÉLIA DOS PASSOS, pedagoga, mestre e doutoranda em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora Executiva e integrante do programa de educação do NEN. Em sua atuação no NEN traz importantes contribuições pedagógicas, teóricas e metodológicas, na área da formação de professores, na produção de material didático e na elaboração dos fundamentos da pedagogia multirracial e popular.

JOSÉ NILTON DE ALMEIDA filósofo pela Universidade Católica do Paraná, mestre e doutorando em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Nos anos 80 atua no Grupo de União e Consciência Negra em Londrina, posteriormente participa do nascente Partido dos Trabalhadores, também no Paraná. Integrante do NEN coordena desde 2004 o programa de educação da entidade, com atenção aos aspectos da organização político e pedagógica da pedagogia multirracial e popular.

ADILTON JOSÉ DE PAULA, educador social, assessor de planejamento estratégico e mestrando em gestão estratégica de pessoas na Universidade do Sul (UNISUL). Teve atuação importante quando a frente do programa de educação e coordenação do NEN, no inicio da década do século XXI. Traz como marca o debate acerca da organização da educação popular no Brasil como subsídio para a elaboração da pedagogia multirracial e popular.

JOÃO CARLOS NOGUEIRA, sociólogo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ex-coordenador geral do NEN, no período de 1994 a 2003. Integrou a SEPPIR (Secretaria especial de Promoção da Igualdade racial) como diretor. É até esse momento, assessor da Presidência da República. Na década de 80 se notabilizou pela articulação do movimento negro com o movimento sindical abrindo espaço para o debate das relações raciais no mercado de trabalho e pela consolidação do NEN como referência nacional na discussão sobre educação justiça e as relações raciais,

Benzer Belgeler