Com o decorrer do tempo, alguns fatores levaram os telejornais à perda de credibilidade. Na tentativa de atender às expectativas informativas de mais de 190 milhões de pessoas (em 2009, a população brasileira chegava a 191,8 milhões de pessoas, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE), o telejornalismo passou a atuar com a homogeneização da linguagem e a priorização de informações das grandes capitais, desrespeitando as culturas e fatores de interesses regionais e atuando com parcialidade tanto na seleção dos temas abordados quanto nas informações transmitidas.
Deve-se aqui esclarecer que a parcialidade dos telejornalismos é questionada até mesmo pelos profissionais dos telejornais. Um dos casos mais recentes é o de Rodrigo Vianna, ex-repórter especial da Rede Globo de Televisão em São Paulo, que, ao lado de outros jornalistas da emissora questionou a parcialidade da cobertura realizada pela Globo nos processos eleitorais. Vianna trabalhou na rede de 1995 a 2006. Por ter questionado a parcialidade da emissora, foi afastado da cobertura política e, em janeiro de 2007, teve seu contrato de trabalho cancelado.
Morán (1986), analisando os telejornais como um produto televisivo e, ao mesmo tempo, um bem social, ressalta os conceitos vistos nas teorias do jornalismo, ao corroborar que os critérios usados para a escolha dos temas que serão transformados em notícias, levam em conta fatores como o grau de interesse que o tema possa despertar quer seja por sua anormalidade, imprevisibilidade e/ou atualidade, pela proximidade tanto física quanto afetiva com o telespectador, entre outros, além de fatores como conjuntura e estrutura para produção. São os denominados valores-notícia na teoria do newsmaking.
O autor sublinha que alguns desses critérios podem ser priorizados em detrimento aos outros conforme os interesses e possibilidades da emissora. No caso, o que se tem visto no telejornalismo, é a hierarquização, (ou seja a ordem de importância dos fatores para escolha dos temas a serem abordados no jornalismo) priorizando como critérios a anormalidade e a imprevisibilidade na liderança dos fatores de escolha. Assim, o inusitado e o incomum passam a sobrepor qualquer outro fator de interesse para os temas. Com esses deslizes, o telejornalismo, apesar de ser para muitos a única fonte informativa, vem conseguindo, com essas várias contradições, perder parte de sua respeitabilidade.
Fatores que provocam reação uníssona ou que possibilitam um amplo desenvolvimento narrativo, como fatos pitorescos ou inusitados conferem caráter de noticiabilidade às ocorrências, com a espetacularização da programação, onde os conteúdos são simplificados até tornarem-se superficiais e inconsistentes e temas de maior relevância são substituídos por outros de maior apelo ao gosto do público, onde há priorização de pautas que enfatizavam a violência, o sexo, o insólito e o grotesco em todo o seu potencial.
reportagens diárias que inserem nessas pautas testemunhais e depoimentos que pouco colaboram para a compreensão do fato, mas que transmitem grande carga de emotividade, trazendo impacto passional e colaborando para a espetacularização do telejornalismo.
A espetacularização no jornalismo, entretanto, não é um fator recente, Martin- Barbero (1997), explica que o sensacionalismo descende da cultura popular e de sua transformação com a evolução para a sociedade de massas e o que a Escola de Frankfurt classifica como indústria cultural.
Leal Filho, no artigo As raízes da espetacularização da notícia (2005) aponta que um dos fatores para a espetacularização no telejornalismo é que, na TV, “o principal produto é o entretenimento e a sua prática contamina todas as demais esferas da programação não deixando escapar nem o jornalismo”.
O fato é que os meios de comunicação de massa vêm utilizando esses conflitos apenas como chamariz, sem que se aprofunde em suas circunstâncias, sem que se discuta o impacto desses problemas na sociedade ou sem que exerçam um papel de mediador no desenrolar e resolução desses tipos de conflitos, explorando-os apenas como espetáculo, ou como diz Morán (1986), oferecida como a “novela de cada dia”.
Os autores Sodré e Paiva (2002) apontam que estamos vivendo uma época televisiva onde impera a estética do grotesco, onde alguns programas da mídia, mesmo se autodenominando de jornalístico, assumem um papel populista de justiceiro e tentam crescer alguns pontos no IBOPE com imagens que perpetuam cenas de violência, segregação e fomentam o medo. Arendt (2000) mostra o paradoxo que há em relação à exposição de certos fatos, já que, para nossa percepção, é necessário que estes possam ser expostos em esfera pública já que nossa noção da realidade está diretamente relacionada à aparência, ou seja, se o fato não for exposto, não é real.
Contraditoriamente, certos fatos não suportam a exposição pública, por serem de fórum íntimo e estarem sujeitos à sobrevivência apenas em esfera privada. É o caso de certos escândalos políticos ou sexuais, que os próprios envolvidos só passam a acreditar realmente após o conhecimento público, porém é neste mesmo momento que tudo passa a ruir, por maior que tenha sido o período que o fato tenha sobrevivido até a exposição pública.
O sensacionalismo e a espetacularização no jornalismo têm sido temas de estudos e publicações como A Tirania da Comunicação de Ignácio Ramonet, Showrnalismo de José Arbex Jr, Jornalismo e Desinformação de Leão Serva, entre outros, que apontam a crescente tendência do jornalismo a privilegiar as catástrofes.
Atento a esse fato, Traquina (2001) contradiz a teoria do espelho, que considera o jornalismo como reflexo da realidade, e afirma que o jornalismo reconstrói a realidade, em vez de refleti-la, já que os limites entre o que é real nos noticiários e o que é espetáculo são bastante tênues.
Essa reconstrução opera inclusive na própria “produção” do jornalismo, que eleva a mídia e seus produtos jornalísticos ao papel de heróis ao enfrentar todas as adversidades e contratempos para oferecer ao seu público a verdade e a notícia. Nessa rede de mitos e fantasias outros heróis e bandidos são fabricados, sejam eles pessoas, máquinas ou instituições e sua durabilidade e popularidade estão condicionadas à criação de novos mitos, o que pode ocorrer quase que simultaneamente.
Com essa tentativa do jornalismo “sensacional” e “heróico” de capturar e transmitir o real, cria-se apenas mais distorção e fragmentação da realidade, onde a informação perde lugar para a ficção e o conhecimento para o entretenimento, com o abuso do grotesco na guerra pela concorrência.
A tendência a que essa simbiose entre real e ficção se torne um círculo vicioso é grande e, aparentemente, difícil de romper. Baitello Jr (1998) alerta para o risco de se explorar essa abordagem ficcional.
“Associadas estas aberrações a tendências regressivas de se enxergar o mercado como único deus ou demônio controlador do próprio mercado, pode- se ter como conseqüência a face mais explosiva e destrutiva do homo demens: a submissão a suas próprias ficções.”
Essa deformidade da realidade pode ser criada também sem a intencionalidade, apenas potencializando ou reduzindo a importância dos acontecimentos ou de detalhes desses fatos conforme aponta Serva (2001, p. 83).
“Um procedimento essencial ao jornalismo que necessariamente induz à incompreensão dos fatos que narra é a redução das notícias a paradigmas que
lhes são alheios, mas que permitem um certo nível imediato de compreensão pelo autor ou por aquele que ele supõe ser o seu leitor. Através desse procedimento, noticiários confusos aparecerão simplificados para o leitor, reduzindo conseqüentemente sua capacidade real de compreensão da totalidade do significado da notícia.”
Parte da culpa do atual quadro telejornalístico é atribuída ao próprio telespetactador. Profissionais da comunicação afirmam que essa exploração massiva e globalizada da violência e da vulgaridade está condicionada à ditadura do mercado midiático, que apenas atende ao gosto do público.
Baitello Jr (1998) cita que o próprio mercado é uma criação do homem, portanto, essa ditadura é apenas a colheita do que vem sendo plantado.
“Como toda criação social, também o mercado é uma relação comunicativa. Não é uma entidade autônoma, mas um ser de ficção, por assim dizer, inventado, alimentado pelas pessoas, pelas sociedades e pelas culturas que o criaram. Ora, se o mercado é uma relação ou uma rede complexa de relações comunicativas, será um exercício de pensamento mágico-mítico acreditar que ele em si possa regulamentar algo, já que sua intencionalidade reside na intencionalidade de seus participantes.”
A informação, encarada pela sociedade como um produto de consumo, tem características diferentes em sua aquisição, já que foi por muito tempo absorvida sem qualquer critério de triagem (e ainda é, por alguns grupos de cidadãos), já outros, mais críticos e seletivos, elaboram seus critérios de seleção mediante seus valores e buscam encontrar, nas diversas ofertas de produtos jornalísticos, algo que o satisfaça.
A abundância e saturação de notícias é outro fator de descrédito do jornalismo e mais especificamente do telejornalismo. O excesso de informação propiciado pela mídia, em um paradoxo, não traz em si conteúdo suficiente para a compreensão dos fatos.
Marcondes Filho (2000) relata que essa situação de obesidade informativa, onde o consumo é maior do que a necessidade, acarreta acumulação e saturação de informações e, consequentemente, faz com que elas se dissipem sem qualquer aproveitamento, ou gere estoque de informação dispensável, exatamente como no caso da alimentação exagerada e o excesso de peso desnecessário.
Marcondes Filho (2000) aponta como um dos fatores da obesidade informativa, a “auto-referência midiática”, onde os meios de comunicação falam de si, criando notícias no lugar de ir buscá-las no mundo exterior, que passa, muitas vezes, a impressão equivocada aos telespectadores de estarem bem informados e acompanhando tudo o que ocorre no mundo, quando, na verdade, estão “consumindo” apenas subprodutos do próprio meio midiático, que enfocam seus próprios produtos (como novelas, realities shows, humorísticos) e conferem grande destaque aos atores e personagens criados por ela mesma.
Nessa tentativa de adequar as informações jornalísticas ao interesse popular, os telejornais acabaram por substituir as pautas de cunho mais informativos e culturais por outras matérias que mais caberiam a programas de entretenimento do que jornalísticos, incluindo-se nesse processo de produção elementos de ficção.
Seria a criação de pseudonotícias já que não teria qualquer interesse da população e nem despertaria atenção se o evento não tivesse alcançado a mídia, muitas vezes sendo explorado simplesmente em virtude da plasticidade ou da aberração que as imagens do fato podem proporcionar.
Pseudonotícias, no jargão jornalístico, denomina notícias “plantadas” ou falsas e atualmente vem sendo usado também para discriminar notícias pouco relevantes e de interesse praticamente nulo.
A televisão, pela necessidade de exploração de imagem tem muito mais probabilidade de fazer uso de pseudoacontecimentos (acontecimentos “criados” pela mídia apenas para chamar a atenção do público), ou seja, de fatos que se transformam em notícias apenas pelo interesse dos meios de comunicação. Nesse contexto se insere, inclusive a exploração do nudismo e do erotismo exacerbado que tomou conta das telas e que inspira uma nova ditadura, a da beleza e do culto ao corpo, o que propicia a formação de outras pseudonotícias.
Esses pseudoacontecimentos, para serem usados como notícias, contam com elementos da dramaturgia em sua composição, como grandes conflitos, tragédias humanas, atos heróicos e demais situações onde o telespectador possa acompanhar o seu desenrolar, torcendo e vibrando com uma possível solução, como no caso dos realities shows, onde a
edição predispõe a criação de tipos humanos, que passam, posteriormente, a serem fontes para os telejornais.
Outros grandes problemas que vêm ocorrendo no telejornalismo dizem respeito justamente aos fatores de atualidade, objetividade e transparência, norteadores do fazer jornalístico. Na ânsia de prestar informações em tempo real, ou seja, no momento em que os fatos estão acontecendo, ou logo após a sua ocorrência e, dessa forma, atender ao quesito de atualidade, acabam gerando grandes equívocos, por não terem tempo para checarem as informações.
A busca pela objetividade acaba gerando superficialidade e fragmentação com notícias construídas sem qualquer contextualização, como colchas de retalhos, que, em alguns momentos, dependendo do repertório do público, impossibilita completamente a compreensão da notícia.
Quanto ao fator transparência, a ânsia de alguns telejornais de expor os fatos à população tem conseguido levar o jornalismo a deslizes com informações indevidas e exposições desnecessárias de intimidades ou julgamentos precipitados, considerando suposições como verdades.
Esses deslizes todos, cometidos na tentativa de atrair mais audiência, contraditoriamente, acabaram gerando opinião negativa em relação aos telejornais até mesmo afastando parte dos telespectadores.
Acompanhando o processo de competição dos veículos de comunicação pela audiência e a forte tentativa dos veículos de se aproximarem do público, os jornalistas norte-americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel (2001) passaram a estudar como a imprensa livre pode sobreviver por meio de um jornalismo mais voltado para a cidadania.
No livro Os elementos do jornalismo – O que os jornalistas devem saber e o público exigir, Kovach e Rosentiel retratam os resultados desses estudos, abordando, por meio da teoria e da cultura do jornalismo, nove elementos que devem nortear o fazer jornalístico:
1. Obrigação com a verdade. 2. Lealdade com os cidadãos.
3. Essência: disciplina da verificação.
4. Praticantes com independência de quem cobrem. 5. Ser monitor independente do poder.
6. Abrir espaço para a crítica e o compromisso público.
7. Apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante. 8. Apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional. 9. Jornalistas livres para trabalhar de acordo com sua consciência.
Esses preceitos, para os autores, seriam o ideal jornalístico, por oferecerem informações para as pessoas de forma a que “estas sejam livres e capazes de se autogovernar”. (KOVACH E ROSENSTIEL, 2001, p.55).
Na contramão desse processo, surgem algumas propostas de jornais e telejornais de focar temas de maior relevância e abordá-los de forma a contextualizar o público e informá-lo mais detalhadamente de assuntos que impactam em suas vidas e suas rotinas. Nesse contexto, surge a proposta da TV Cultura de promover um jornalismo público, que, como aponta Cunha Lima na introdução do Guia de Princípios do Jornalismo Público, (2004, p.7) “tem características peculiares e paradigmas diversos dos praticados pelo jornalismo das televisões comerciais e estatais” dentre essas características, ressalta buscar “menos a ideia do espetáculo do que a compreensão dos conteúdos”.
Os conceitos defendidos pelos autores são também norteadores do jornalismo público, que busca uma aproximação com a população não visando somente à audiência, mas levando em conta, principalmente, a necessidade de formar cidadãos, como será visto a seguir neste mesmo capítulo.