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2. LĠTERATÜR BĠLGĠLERĠ

2.4 Rötre

2.4.1 Rötre ÇeĢitleri

Com a promulgação da Emenda Constitucional n. 45, em 8 de dezembro de 2004, a repercussão geral restou consignada no §3º do art. 102 da Constituição da República, nos seguintes termos:

No recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus membros.

76MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 8ª edição. São Paulo. Saraiva, 2013, p. 960.

77Em 1990, segundo dados oficiais, os Recursos Extraordinários no Supremo Tribunal Federal representavam 66,44% da totalidade de processos distribuídos. Em: BRASIL. Supremo Tribunal Federal, Assessoria de Gestão

Estratégica do Supremo Tribunal Federal. Disponível em:

<http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica&pagina=REAIProcessoDistribuidoAnosAnte riores>. Acesso em: 23 de setembro de 2013.

A Lei N. 11.418, de 19 de dezembro de 2006, regulamentou referida norma de eficácia limitada, inserindo dois novos artigos no Código de Processo Civil, os artigos 543-A e 543-B.

A exigência da repercussão geral, no entanto, só se deu com a entrada em vigor da Emenda Regimental n. 21, de 30 de abril de 2007, que alterou o Regimento Interno do STF, estabelecendo “as normas necessárias à execução das disposições legais e constitucionais sobre o novo instituto”79.

Nesse contexto, o art. 543-A do CPC estabelece que: “O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso extraordinário, quando a questão constitucional nele versada não oferecer repercussão geral”.

A análise de tal dispositivo possibilita a delimitação da natureza jurídica do instituto da repercussão geral, que por tratar de matéria preliminar, prejudicial ao mérito do recurso, configura requisito de admissibilidade recursal80. Esta é a posição do Supremo Tribunal Federal81.

4.1.1 Competência para a apreciação da repercussão geral

A apreciação acerca da existência ou não da repercussão geral da questão posta a exame é de competência exclusiva do STF. O juízo a quo, pois, poderá se pronunciar unicamente quanto à existência da preliminar formal82, podendo inclusive negar seguimento ao recurso extraordinário em razão de sua ausência.

79BRASIL. Supremo Tribunal Federal, Gabinete da Presidência. Repercussão Geral. Março de 2010, p. 5.

Disponível em:

<http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/jurisprudenciaRepercussaoGeralRelatorio/anexo/RelatorioRG_Mar2010.pdf >. Acesso em: 20 de setembro de 2013.

80LUIZ GUILHERME MARINONI e DANIEL MITIDIERO definem a repercussão geral como requisito intrínseco de admissibilidade recursal, pois, relacionada à existência ou não do poder de recorrer ao STF. Em: MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. 3ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2013, p.39.

81BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Gabinete Extraordinário de Assuntos Institucionais. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. Posição: Dezembro de 2007, p. 1. Disponível em: <http://www.prr5.mpf.mp.br/nucrim/boletim/2008_07/doutrina/estudo_stf_repercussao_geral.pdf>. Acesso em: 20 de setembro de 2013.

82BRASIL. Supremo Tribunal Federal, Gabinete da Presidência. Repercussão Geral. Março de 2010, p. 5. Disponível

em:<http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/jurisprudenciaRepercussaoGeralRelatorio/anexo/RelatorioRG_Mar2010. pdf>. Acesso em: 20 de setembro de 2013.

Da forma como o instituto foi concebido, apenas no Supremo Tribunal Federal será feita a análise quanto à materialidade da repercussão geral, que somente poderá ser rejeitada pelo voto de, pelo menos, dois terços dos membros da Corte Maior, nos moldes do art. 102,§3º, da Constituição da República.

4.1.2 Relevância e transcendência da questão suscitada

A repercussão geral conjuga os elementos da relevância e transcendência. Preceitua o art. 543-A, §1º, do CPC, que “será considerada a existência, ou não, de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos da causa”.

A utilização de conceitos jurídicos indeterminados para a caracterização da repercussão geral não pode, no entanto, significar discricionariedade arbitrária por parte do órgão julgador. O binômio relevância e transcendência deve ser avaliado em concreto, mediante averiguação de casos já decididos pela Suprema Corte.

Nesse sentido, Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero elucidam:

Com efeito, a partir de uma paulatina e natural formação de catálogo de casos pelos julgamentos do Supremo Tribunal Federal permite-se o controle em face da própria atividade jurisdicional da Corte, objetivando-se cada vez mais o manejo dos conceitos de relevância e transcendência ínsitos à ideia de repercussão geral83.

Desse modo, exemplos do que seriam questões relevantes e transcendentes podem ser observados a partir dos assuntos com repercussão geral já reconhecida pelo STF. Questões envolvendo direito do consumidor84, casos que gravitem em torno de concessões de

83MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. 3ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2013, p.42.

84BRASIL. Supremo Tribunal Federal – STF. Recurso Extraordinário 561.574/PE. Repercussão geral reconhecida em 17 de dezembro de 2007. Recorrente: Telemar Norte Leste S/A. Recorrido: Leonardo de Paiva Pinheiro. Relator: Min. Marco Aurélio – Tribunal Pleno. Disponível em: < http://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/14769497/recurso-extraordinario-re-561574-pe-stf>. Acesso em: 03 de agosto de 2013.

benefícios previdenciários85 ou de cobrança de contribuições especiais, como a de iluminação pública86, são arquétipos de temas expressivos para a unidade da ordem constitucional.

A exigência da repercussão geral para o conhecimento do recurso extraordinário representa, assim, meio de promoção de seleção de causas capazes de contribuir para a “persecução da unidade do Direito no Estado Constitucional brasileiro”87.

Neste desiderato, o art. 543-A, §3º, do CPC, estabelece que a repercussão geral estará presente sempre que o recurso impugnar decisão contrária a súmula ou jurisprudência dominante do STF. O dispositivo prestigia a força normativa do texto constitucional, bem como a importância das decisões proferidas pela Corte Maior. Como bem observam Ingo Wolfgang Sarlet, Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero:

A não observância das decisões do STF obviamente debilita a força normativa da Constituição, o que já indica, desde logo, a relevância e a transcendência da questão levantada no recurso extraordinário interposto reclamando a adequação da decisão ao posicionamento do STF. Importa que a Constituição seja concretizada [...]88.

Como se pode perceber, há, de maneira explícita, objetivação de preceitos típicos de causas subjetivas, na medida em que se possibilita sejam analisadas pelo STF apenas as questões de relevância transcendente, evitando quantidade excessiva e repetitiva de recursos na Corte Constitucional e livrando o Supremo da caracterização de mera instância recursal.

Nesse sentido, a tabela a seguir demonstra a gradativa diminuição no número recursos extraordinários (RE) encaminhados ao STF, a partir da exigência da demonstração de repercussão geral, pela parte recorrente, em abril de 2007:

85BRASIL. Supremo Tribunal Federal – STF. Recurso Extraordinário 575.089/RS. Repercussão geral reconhecida em 26 de abril de 2004. DJ de 10 de setembro de 2008. Recorrente: Reni Nunes Machado. Recorrido: Instituto Nacional do Seguro Social - INSS. Relator: Min. Ricardo Lewandowski – Tribunal Pleno. Disponível em: <http://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/14718481/recurso-extraordinario-re-575089-rs>. Acesso em: 03 de agosto de 2013.

86BRASIL. Supremo Tribunal Federal – STF. Recurso Extraordinário 573.675/SC. Repercussão geral reconhecida em 22 de março de 2007. DJ de 25 de março de 2009. Recorrente: Ministério Público do Estado de Santa Catarina. Recorrido: Município de São José. Relator: Min. Ricardo Lewandowski – Tribunal Pleno. Disponível em: <http://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/4130830/recurso-extraordinario-re-573675-sc>. Acesso em: 03 de agosto de 2013.

87MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. 3ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2013, p.40.

88SARLET, Ingo Wolfgang; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de direito constitucional. 2ª edição. São Paulo. Revista dos Tribunais, 2013, p. 926.

4.1.3 A repercussão geral em processos com idêntica controvérsia

O Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal traz em seu bojo regulamentação específica para os casos em que haja multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica controvérsia, observado o disposto no Código de Processo Civil.

Nessa seara, em se tratando de recursos múltiplos, caberá ao tribunal ou a turma de origem selecionar um ou mais recursos representativos da altercação posta à análise. Tais recursos paradigmas devem ser encaminhados ao STF para exame, restando sobrestados os demais até o pronunciamento definitivo da Suprema Corte (art. 543-B, §1º, do CPC).

Haverá, no caso, julgamento por amostragem. Desse modo, caso o STF entenda pela ausência da repercussão geral nos recursos-modelo, todos os demais reputar-se-ão automaticamente não admitidos. Caso contrário, reconhecida a repercussão geral, os recursos sobrestados serão apreciados pelo juízo de origem, que poderá declará-los prejudicados, restando mantido o acórdão pelo Supremo, ou retratar-se, em havendo provimento do recurso paradigma (art. 543-B, §§2º e 3º, do CPC).

Nesse âmbito, Fredie Didier Jr. e Leonardo da Cunha expõem a essência objetiva de tal expediente:

É possível concluir, sem receio, que o incidente para a apuração da repercussão geral por amostragem é um procedimento de caráter objetivo, semelhante ao procedimento da ADIN, ADC e ADPF, e de profundo interesse público, pois se trata de exame de uma questão que diz respeito a um sem-número de pessoas, resultando Tabela 1 – Percentagem de RE em relação aos processos distribuídos – 2006 a 2013.

Ano Processos Distribuídos RE Distribuídos %RE/Total Distribuído

2013* 27.528 3.805 13,82% 2012 46.392 6.042 13,02% 2011 38.109 6.388 16,76% 2010 41.014 6.735 16,42% 2009 42.729 8.348 19,54% 2008 66.873 21.531 32,20% 2007 112.938 49.708 44,01% 2006 116.216 54.575 46,95%

Fonte: Estatísticas do STF (2013). Assessoria de Gestão Estratégica do Supremo Tribunal Federal. *Data de atualização: 02/09/2013

na criação de uma norma jurídica de caráter geral pelo STF. É mais uma demonstração do fenômeno de “objetivação” do controle difuso de constitucionalidade das leis [...]89.

O processamento de recursos múltiplos que envolvam a mesma ratio decidendi representa, assim, manifesta intenção do legislador em conferir viés objetivo às decisões do Supremo em recursos extraordinários, caracterizando, por isso, mais um meio de abstrativizar eventual controle difuso de constitucionalidade em sede recursal no STF.

Benzer Belgeler