• Sonuç bulunamadı

Em matéria sob o título “Houve um somatório de erros, diz IPT” (22/01/07), Vahan Agopyan, presidente Instituto de Pesquisas Tecnológicas-IPT, dizia ter suposições sobre as causas do acidente. Contudo, negava-se a apontá-las. Quanto à possibilidade de as chuvas terem provocado a ocorrência afirmava que poderiam ser mencionadas, mas insistia na convergência de outros fatores, sem indicar quais. Acrescentava que não havia data para a emissão de laudo definitivo a respeito (SPINELLI, 2007b)

Material jornalístico fragmentado, informações episódicas. A prática informativa trabalhava um relatório de acontecimentos colhidos e formulados a partir de declarações. A utilização de notícia com viés marcadamente editorial é encontrada no texto “Empreiteiras enfrentam “hiperconcorrência” (23/01/07).

O mercado onde atuam as empreiteiras responsáveis pelas obras da linha 4 do metrô vem exigindo das empresas um forte enxugamento de custos, demissões em massa e a convivência em um ambiente de "hipercompetição" por verbas cada vez mais escassas. Nos últimos 20 anos, os investimentos em obras públicas realizados pelo Estado de São Paulo diminuíram, apesar do crescimento da economia no período e do aumento da demanda da população por mais bens e serviços.

Até meados dos anos 90, as empreiteiras eram um dos segmentos mais poderosos da economia. Hoje, sobrevivem buscando obras fora do Brasil ou se aliando em consórcios como o da linha 4 atrás de uma rentabilidade média de 6% ao ano - percentual considerado baixo para uma atividade que envolve grandes investimentos.

Na média, o governo paulista investiu R$ 2,8 bilhões ao ano em obras de infra-estrutura ao longo da década de 90. Entre 2000 e 2006, a média anual caiu para R$ 2,4 bilhões, segundo dados da Apeop (Associação Paulista dos Empresários de Obras Públicas). No Plano Plurianual de Investimentos 2004-2007 do Estado, apenas 17 de 214 programas apresentados eram de interesse do setor da construção civil. Em recursos diretos, o gasto previsto representava só 2,35% do total dos desembolsos em todas as áreas.

"Hoje, as obras públicas são um zero à esquerda para a maioria das empresas. Quando existem, provocam uma concorrência predatória e a tendência é ter mais "loucos" no mercado atrás de qualquer coisa", afirma Fernando Pio, da Alston, empresa francesa que deve fornecer os vagões do metrô para a linha 4.

Na área de saneamento básico, onde a Alston também atua, o faturamento no ano passado, de 29 milhões previstos, atingiu apenas 12 milhões.

Segundo Eduardo Capobianco, do Sinduscon, que reúne as empresas do setor de construção civil, a redução dos ganhos das empresas veio acompanhada de um aumento das exigências do setor público na execução de novas obras.

"Trabalhamos hoje com um risco muito maior devido a essas exigências e com um nível de rentabilidade e negócios muito menor", afirma.

Capobianco qualifica como "fatalidade" o acidente na linha 4 e sustenta que o mercado de empreiteiras hoje é "muito mais transparente" do que há alguns anos, principalmente antes da existência da Lei de Licitações, de 1993.

Para a economista Ana Maria Castelo, da GVConsult e especialista na área de construção civil, o mercado de empreiteiras passou "por uma concentração muito forte" que deve continuar.

"Tendem a permanecer no mercado somente as grandes empresas e as pequenas, que prestam serviços para as maiores. As médias estão desaparecendo", afirma (CANZIAN, 2007a, grifos nossos).

O texto cumpre com os requisitos essenciais a editorial, à exceção de que é apresentado como ato informativo. Sua proximidade com o editorial se dá em função de que, como aquele, apresenta as seguintes características: topicalidade, pois trata de tema bem definido; condensabilidade, ao expor poucas idéias dando

maior ênfase às afirmações que às demonstrações, e plasticidade ao se apresentar como não-dogmático (MELO, 1994). Pela plasticidade como não-dogmatismo idéias anteriormente defendidas poderão ser revistas, desde que fatos novos “contrastem” objetivamente com o que fora dito. Reside aí o ponto nevrálgico: os fatos seriam objetivos e imperativos, teriam consistência e essência próprias, “obrigando” o pensador a pensar segundo o que determinam. Isso permite a criação de universos opinativos pontuais. Inseridos ou não em notícias. Esgotados nos limites de cada texto e substituíveis a cada edição quando necessário. Sempre e a partir do suposto tropismo dos acontecimentos, que seriam os ordenadores virtuais da mutação opinativa.

Esse processo trabalha a ilusão. A plasticidade permite a criação de uma espécie de gramática opinativa, paralela e ajustável ao que se deseje, sem, no entanto, admitir-se que se deseja. É outra manifestação de duplipensar. Assume naturalidade no locus impresso como se os fatos, em sua apenas aparente lógica seqüencial, estivessem efetivamente guiando a mudança de opinião. Passada ao mundo, essa logicidade torna-se um cerne frente aos leitores: a mudança de opinião é expressão de bom senso, que se atém aos fatos e não poderia ser diferente. Estes, como coisas objetivas, atraem a razão da mente que os analisa. E, ao ser

dominada pela nebulosa seqüência dos fatos, que mudam, a opinião também

deve/pode mudar.

Sutilmente esconde-se o processo em que fatos de mundo foram selecionados para servir como fatos de jornal, o que significa sua condução a uma nova realidade: agora são símbolos, embora, como símbolos, aparentem objetividade. Contudo, os fatos de mundo, agora fatos de jornal, foram buscados e, portanto, são manifestações subjetivas de quem os buscou e valorou. Apostos ao mundo “tornam-se” fatos de mundo, substitutivos da realidade de onde foram gerados. Funcionais ao empreendimento, são metamorfoseados em artefatos pseudo-objetivos e apresentados como condutores da opinião aditada à notícia ou ao editorial.

Esse universo paralelo busca induzir a crença de que a opinião advém mesmo dos fatos e não o contrário – e é essa a intenção de quem os lucubrou, mas não o diz. Assim, como é fato (de jornal) que as empresas estão “enfrentando dificuldades”, se busca estabelecer esse mundo jornalístico de dificuldades empresariais como sendo o mundo mesmo. A flexão enganadora, que verte fato de

mundo a fato de jornal, e fato de jornal a fato de mundo, dá sustentação à sua própria e gasosa formulação. Existe porque foi dito que existe, e quem fez a afirmação finge acreditar naquilo que disse. E assim, “tudo que acontece, acontece na cabeça. E o que acontece em todas as mentes, de fato acontece” (ORWELL, 1975, p. 258).

No fim, o Partido anunciaria que dois e dois são cinco, e todos teriam que acreditar. Era inevitável que o proclamasse mais cedo ou mais tarde: exigia-o a lógica de sua posição. Sua filosofia negava tacitamente não apenas a validez da experiência como a própria existência da realidade externa. (ORWELL, 1975, p. 78).

A notícia sobre as dificuldades das empresas está voltada para validação de uma afirmativa de “bom senso”, agregada a um fato de jornal: havia turbulência no mercado das empreiteiras. E a crise, por implicação, seria oriunda da omissão estatal. Contraditando a notícia veio do mundo real a nota abaixo, publicada na seção Painel do Leitor (25/01/07):

Metrô "As declarações veiculadas no texto "Empreiteiras enfrentam

"hiperconcorrência" [...] fornecidas pelo senhor Fernando Pio - dono de uma empresa de consultoria que atua como representante comercial da área de irrigação e saneamento da Alstom - não refletem a posição da empresa sobre o assunto. O senhor Pio não está autorizado a falar em nome da companhia, já que não pertence ao seu quadro de executivos. Boa parte dos negócios da Alstom no Brasil, em torno de R$ 1,5 bilhão, é proveniente de contratos com o setor público, fato que, por si só, desqualifica as declarações prestadas pelo senhor Pio. Outro fato a destacar é que a Alstom é exclusivamente uma fornecedora de equipamentos e pouco tem a ver com a "hiperconcorrência" verificada entre as empresas associadas à Apeop, entidade autora do estudo que dá sustentação à reportagem” (DOMINGUES, 2007).

Apesar da declaração da Alston, e mantendo-se a coerência do raciocínio expresso na notícia, está dito que “hoje, as obras públicas são um zero à esquerda para a maioria das empresas. Quando existem, provocam uma concorrência predatória [...]” (CANZIAN, 2007a). Dentro dessa lógica, o último parágrafo da matéria não deixa dúvidas quanto a essa instabilidade: "Tendem a permanecer no mercado somente as grandes empresas e as pequenas, que prestam serviços para as maiores. As médias estão desaparecendo" (CANZIAN, 2007a). O discurso,

porém, traz em sua positividade a negação do seu próprio conteúdo: o processo de aniquilamento do capital pelo próprio capital em atitude predatória confessa, e isso não tem qualquer relação com o Estado. Advém da própria autofagia do capital. Marx afirma que a concorrência entre os capitalistas propicia a que o processo de concentração tenha prolongamento na concentração dos capitais já existentes, colocando-se o segundo movimento em articulação com o primeiro (TEIXEIRA, 1995). Trata-se de processo em que o capital maior engloba o menor, em rota expansiva. A explicação marxiana é clara quanto ao processo de expropriação do capital pelo capital:

Essa dispersão do capital global da sociedade em muitos capitais individuais ou a repulsão recíproca entre as suas frações é oposta por sua atração. Essa já não é concentração simples, idêntica à acumulação. É concentração de capitais já constituídos, supressão de sua autonomia individual, expropriação de capitalista por capitalista, transformação de muitos capitais menores em poucos capitais maiores. [...] É a centralização propriamente dita, distinguindo-se da acumulação e da concentração. (MARX, 1983a, p. 196).

As empresas foram expostas como dependentes e vítimas do Estado. Como resultado dessa omissão “sobrevivem” buscando obras fora do país. Pratica- se inversão da realidade. A força expansiva do capital passa a ser mostrada como reflexo de calvário econômico que somente “alguns loucos”, numa espécie de insânia apostolar, ousariam sofrer para continuar pregando o seu credo. Quanto à causa do acidente a FOLHA reforçou, pela voz de intelectual orgânico, Capobianco, a explicação simplista: fora uma fatalidade. Não o questionou tecnicamente, não o sondou sobre falhas na construção e responsabilidade das construtoras.

A plasticidade editorial foi aplicada, na mesma edição em que se deplorava o calvário das construtoras, com matéria “A agonia do Metrô” (23/01/07). Sua publicação revela o lado dúbio do jornal, que numa matéria assume a defesa do capital, mas acata paralelamente opinião discordante e voltada para criticar o mercado e sua invasão do público. O repórter especial Mário César Carvalho expunha, com linguagem que bem se enquadraria como editorial, opinião oposta ao que haviam dito os empresários.

O Metrô já foi uma ilha de excelência cercada por uma cidade fétida. Por mais que a ruína urbana avance, havia sempre o metrô para servir de abrigo às pretensões primeiro-mundistas da cidade de São Paulo. Ali, tudo é diferente do caos rotineiro: não há sujeira no chão, não há pichação nas paredes e, como num filme dos anos 50, todos

são mais cordiais.

Essa imagem foi ferida de morte pelo túnel que desabou há 11 dias. Desastres são eventos imprevisíveis, mas todos os dados sugerem a existência de uma abundância de sinais de que havia uma tragédia em curso na obra da linha 4.

A pergunta que não quer calar é a mais óbvia de todas: por que o Metrô não fez nada diante da cascata de erros que prenunciava o desastre, como sugere o presidente do IPT?

Tenho dois palpites sobre a suposta negligência da empresa. Sob o governo de Geraldo Alckmin (PSDB), a administração pública do Estado foi tomada por uma fé cega nas soluções de mercado. Só uma crença simplória como essa pode explicar como uma obra de R$ 1,8 bilhão era fiscalizada pelas próprias empreiteiras. É o que os engenheiros chamam de "autogestão da qualidade". Em português, esse processo tem outro nome: chama-se promiscuidade. Seria um reducionismo brutal acreditar que só o PSDB endossa propostas desse gênero - o descrédito no Estado é hoje uma fé generalizada.

O problema de tucanos como Alckmin é que parecem ser mais crentes que os próprios criadores do credo. Meu segundo palpite para a suposta negligência do Metrô é que a própria empresa passou por um desmonte técnico. O raciocínio por trás do desmonte parece lógico: se o mercado se compromete a entregar a obra pronta, por que gastar com engenheiros caros?

O mais perturbador, na minha opinião, é o silêncio do Metrô diante das interrogações que surgiram após o acidente. O sindicato dos metroviários diz que havia só quatro engenheiros para fiscalizar a obra, e o Metrô silencia. Engenheiros apontam que não eram quatro, mas 20, e o Metrô segue em silêncio. Especialistas dizem que o Metrô optou pela técnica menos segura, e a companhia continua impávida em seu mutismo, como se não tivesse nada a ver com a tragédia.

O governador José Serra (PSDB) optou por uma posição confortável ao atribuir a culpa do acidente às empreiteiras. É o equivalente à ordem "prendam os suspeitos de sempre" dos filmes policiais. Se é para entender minimamente as causas do desmoronamento da estação Pinheiros, o governo deveria dar uma espiada no modo como as empresas públicas ou de economia mista gerenciam os seus negócios (CARVALHO, 2007, grifos nossos).

Adotando texto assertivo o jornalista listou as falhas que a reportagem não vinha encontrando. Desvelou o aparelhamento do Estado pela iniciativa privada a partir da gestão de Alckmin e sua “fé cega” nas soluções de mercado. Desnudou a promiscuidade da auto-fiscalização das obras pelos construtores e chamou o governador José Serra a se pronunciar. Traçou, com notável poder de síntese, todo o quadro que a FOLHA não se permitia enunciar. Ou o fazia de forma benigna, sem

assumir postura de embate com o tucanato. O redator, de alguma maneira, terminou por assumir o papel de ombudsman, mesmo sem assim o desejar. O texto, porém, cumpre percurso metalingüístico que vai além do conteúdo em si: favorece a

FOLHA, pois vale como afirmativa de que sua Direção permite o contencioso interna corpore, dissimulando sua ambivalência. A passagem abriga outra realidade não

enunciada: a frágil constituição da sociedade civil brasileira, a qual permite que atores hegemônicos, como o jornal, tragam a si a representação da sociedade e se apresentem com seus atributos. A plasticidade forma o íntimo de todo o processo. E isso é admitido sem meias palavras por Frias Filho:

É muito mais útil que a sociedade tenha um jornal que é sensível às mudanças que ocorrem a cada dia, muito mais útil que os leitores tenham um jornal que se modifica à medida que a disposição deles, leitores, vai se modificando, do que ter um jornal fossilizado32 [...] Eu

acho que jornal não é partido político, jornal não é grupo teórico, não é escola ideológica. Eu acho que jornal tem que ser movido pela conjuntura mesmo. E a Folha faz isso. O nosso compromisso é com os nossos leitores. Quando esses leitores tinham uma atitude politicamente neutra33, quando eles tinham uma atitude até de

endossar o regime, a Folha tinha uma atitude correspondente nessa linha e, quando os leitores se deslocaram para uma posição mais crítica, mais reivindicante, a Folha se desloca também. Eu acho que se por um lado isso pode ser visto como oportunismo, por outro lado eu posso chamar de fidelidade ao grupo social para quem a gente trabalha e a quem a gente está servindo (FRIAS FILHO, 1984, p. 35- 36).

Com estas palavras fetichizam-se os leitores como ente vivificado, pluriclassista, a guiar o desempenho do Grupo Folha, afastando-se do jornal quaisquer indícios de manipulação, uma vez que seria amorfo e dirigido a distância pelos que o adquirem. Resulta na negação do jornalismo liberal, que em seus postulados históricos se apresenta como ator proativo. Sob a argumentação de que o fetiche leitorado endossava o regime também assim o fez; alegando a neutralidade do leitor calou-se ante a ditadura e quando a sociedade levantou-se pelas Diretas-já, acompanhou-a. O claro reducionismo, em sua candura formal de fidelidade ao leitor social é, ao invés, elaborado dizer ideológico. A condição do leitor social, fetichizado ao longo do tempo histórico e emitindo comportamentos inusitadamente sincrônicos

32 Alusão ao concorrente Estado de S. Paulo.

33 As declarações, feitas à Revista Lua Nova, tomavam como referencial o período ditatorial, na fase

para orientar o jornal aparenta mais fabulação que realidade lícita. Como a FOLHA trabalha a partir do jornalismo de mercado, suposição mais válida seria ter o leitorado naquela conta, quando o jornal lhes enviava mensagens compatíveis com o regime, não com o império da sociedade civil. A mensagem de mercado, contudo, é suporte à ideologia e o mercado, por esse efeito, precisa ser trabalhado para que assim continue, não se percebendo seus integrantes como sujeitos. Oculta-se, porém, a condição de que ninguém “é” molecular ou coletivamente mercado; nem mesmo o próprio mercado o é. Pois não é coisa dada e posta, imutável e objetiva.

O mercado é criação tomada a partir da condição do consumidor coletivo. Antes disso, contudo, é composto por pessoas com projetos de vida, emoções, desejos, tensões, sentimentos e inserção histórica em processo de luta de classe, mesmo que disso não tenham consciência. Entender uma coletividade unicamente como mercado é retirar-lhe todo o potencial humano e político de sociedade civil, para inseri-la num organograma empresarial e administrativo.

Isso é bastante cômodo e justificador de quaisquer comportamentos, permitindo o oportunismo informativo e a plasticidade do jornal ante a ditadura e depois dela34. Colocando o leitorado como ente emissor, cujas atitudes coletivas seriam regentes do comportamento da FOLHA, justificava-se sua dubiedade. A valer a afirmação de o jornal seria pautado pelo atendimento ao que adviria do social teria sido plausível o acionamento do Datafolha em sondagem de opinião quanto ao acidente do Metrô, suas causas e possíveis culpados a fim de que, a partir disso, se orientasse a cobertura. Tal não ocorreu. A opinião pública não agendou o jornal. Noticiário difuso, incompletudes, nada mudava na cobertura. As ambigüidades informativas tiveram continuação com a matéria “Bird desmente Alckmin sobre Metrô” (27/01/07):

O diretor do Bird (Banco Mundial) para o projeto da linha 4 do metrô de São Paulo, Jorge Rebelo, negou ontem que o banco tenha "exigido" ou "sugerido" ao governo paulista a contratação das obras da linha 4 por meio do modelo "turn key" (preço fechado). A declaração contradiz afirmação do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na segunda-feira, questionado sobre as responsabilidades pelo acidente, Alckmin defendeu a contratação das empreiteiras, na

34 Quanto à ditadura, um dos efeitos da ação ditatorial é gerar temor social, que se manifesta em

atitude de aparente indiferença, quando, ao contrário, é expressão de temor ao Poder e fictícia aceitação do “regime”, não motivo para sua coonestação jornalística mediante “acompanhamento” da sociedade.

sua gestão, pelo "turn key”. Alckmin disse que o modelo foi adotado por "exigência do Banco Mundial".

Mais tarde, disse não saber se fora exigência ou recomendação do banco. "Turn key" (chave na mão, em tradução livre) é uma operação em que a empresa contratada fica obrigada a entregar a obra em condições de pleno funcionamento. Preço do serviço e prazo para entrega são definidos no processo licitatório.

O governo fica isento de pagamento por qualquer gasto extra. Porém, a empresa contratada tem autonomia para repassar tarefas a outras empreiteiras (e reduzir custos com isso) e fica responsável pela fiscalização de seu próprio serviço. Em e-mail, Rebelo rechaçou que o Bird tenha "exigido" ou mesmo "sugerido" ao Estado ou à direção do Metrô a adoção do método "turn key". Afirmou que foi uma decisão conjunta.

"O tipo de contrato usado em cada processo de licitação é definido em comum acordo entre o banco e o prestatário [aquele que toma o empréstimo, no caso o governo de São Paulo] durante a preparação e negociação do empréstimo", disse.

"No caso do projeto da linha 4 do metrô, que vinha sendo estudado há mais de dez anos pelo Metrô em todos os aspectos, o contrato tipo "turn key" foi julgado o mais apropriado por todos os envolvidos", disse.

A Folha não conseguiu contato ontem com Alckmin. As obras da linha 4 são realizadas pelo consórcio Via Amarela, formado pelas empresas CBPO Engenharia (subsidiária da Odebrecht), Queiroz Galvão, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. Segundo o site do Bird, as obras da linha 4 estão orçadas em cerca de R$ 2 bilhões. O projeto é financiado pelo Estado (58%), pelo Bird (22,5%) e por investimentos privados internacionais (19,5%) (AMATO, 2007).

Aparentemente, o propósito da matéria seria estabelecer um confronto entre Alckmin e o diretor do Bird, como se isso representasse ganho informativo. Ao invés, resultaria apenas na manutenção do jornalismo declaratório, passando a impressão de que algo de novo acontecera pelo simples fato de que alguém se manifestar a respeito. No caso, a questão do turn key. De forma paralela à circunstância de que Alckmin não fora “contatado”35 é possível encontrar outro aspecto, decorrente de inação investigativa: a “necessidade de acontecimentos”. Na falta de investigação jornalística, construiu-se situação conflitante entre Bird e

35 Atores privilegiados na cena jornalística como políticos, grandes artistas, personalidades midiáticas

em geral costumam evadir-se do palco dos acontecimentos quando em situação de escândalo em

Benzer Belgeler