3. KARİYER SORUNLARININ ÇÖZÜMÜNDE KULLANILAN STRATEJİLER . 81
3.1.5. Rol Çatışmasını Çözme Stratejisi
A Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos é criada em 1977, em Belém, durante a ditadura militar. Tem como missão “valorizar e defender os direitos humanos na perspectiva de uma sociedade justa e igualitária” (SDDH, 2011, s/p).
A SDDH é uma entidade com abrangência estadual, além da sede em Belém, tem outros dois núcleos, um na cidade de Marabá, o mais antigo criado em 1987, e outro na cidade de Altamira. Sua estrutura de gestão compreende uma Diretoria executiva formada por três pessoas, um Conselho Fiscal, um Conselho de Direitos Humanos e uma coordenação ampliada formada pela diretoria executiva, a Coordenação de Projetos, os Coordenadores dos Núcleos de Marabá e Altamira e os coordenadores dos programas. (SDDH, 2011, s/p).
Do ponto de vista de sua atuação, a entidade organiza-se em quatro programas que são: o Programa Centro de Atendimento a Vítimas de Violência (CEAV)100; o Programa de Apoio e Proteção a Testemunhas, Vítimas e Familiares de Vítimas da Violência (PROVITA)101; o Programa de Acesso a Justiça (PAJ) e; o Programa Comunicação e Formação.
A equipe da SDDH é formada atualmente por 44 pessoas, entre técnicos, estagiários e coordenadores102. As ações da SDDH são orientadas para o atendimento, a assessoria e a mobilização da população paraense, reivindicando o acesso pleno à justiça e a garantia de direitos por parte dessa população. A luta contra a impunidade é outro ponto de pauta da ação
100 A entidade desenvolve as ações do CEAV desde o ano de 2003, através de convênio com a Secretaria
Estadual de Justiça e Direitos Humanos e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SDDH, 2011, s/p).
101Iniciado em 1999 é desenvolvido em parceria com a Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos
(SEJUDH) (SDDH, 2011, s/p).
da instituição, principalmente em casos com potencial pedagógico junto à sociedade103. (SDDH, 2011, s/p).
Detendo-se em seu surgimento que ocorre em plena ditadura militar, há consenso entre os entrevistados de que foi decorrência direta do sentimento de indignação com as violações aos direitos humanos praticadas pelo regime militar. Tendo como estopim um conflito agrário ocorrido na Fazenda Capaz, município de Paragominas no Pará, onde posseiros assassinaram o fazendeiro e seus dois filhos, todos norte-americanos. Os posseiros foram presos, e, a fim de garantir sua defesa, articulou-se um grupo de pessoas104, entre advogados e lideranças políticas que assumiram o caso, conseguindo a absolvição dos posseiros. Este grupo de pessoas era formado em boa parte por ex-presos políticos e militantes dos direitos humanos, incomodados com o que se vivia no país. O sucesso da operação convence o grupo da viabilidade de uma ação organizada para enfrentar os desmandos da ditadura e fazer a defesa dos Direitos Humanos, o que propiciou a criação da SDDH (SDDH, 2007).
Vivia-se o governo do General Ernesto Geisel (1974 a 1979), já sob o fim do milagre
econômico brasileiro e, frente ao crescimento da oposição nas eleições de 1974, em que o próprio governo ditatorial já propunha a abertura política como visto nos capítulos anteriores deste trabalho.
A criação da SDDH é, portanto, apontada como uma aglutinação de forças democráticas no contexto do regime militar, atuando em defesa dos direitos humanos; um contingente amplo de sujeitos na sociedade paraense em torno da luta pela redemocratização do estado brasileiro, como aponta um depoimento:
essa característica ela é muito interessante, porque ela vai de católicos e protestantes e evangélicos, até a comunistas, passando por social democrata, democrata, enfim...mas o certo é que ela tinha um leque de pessoas que eu digo que eram do bem que lutavam contra a violação dos direitos humanos e pela democratização do Estado brasileiro105.
103 A entidade participa dos seguintes conselhos de direitos: Conselho Estadual de Justiça e Direitos Humanos
(CEJUDH); Conselho Deliberativo do PROVITA (CONDEL); Conselho Estadual de Segurança Pública (CONSEP); Conselho Municipal de Direitos Humanos (CMDH); Conselho Consultivo (PPCAAM) e Coordenação Estadual do Programa de proteção de defensores direitos humanos ameaçados (PPEDDH). Além disso, atua nas seguintes redes: Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH); Fórum da Amazônia Oriental (FAOR); Associação Brasileira de ONGs (ABONG); Processo de Articulação e diálogo (PAD); Rede Nacional de Educação Jurídica Popular; Fórum das Rádios Comunitárias; Fórum Contra a Criminalização de Movimentos Sociais, Plataforma Dhesca, Comitê Dorothy e Fórum de Entidades Gestoras do PROVITA. (SDDH, 2011, s/p).
104 Dentre os quais são citados: Paulo Fonteles, Iza Cunha, Humberto Cunha, Hecilda Veiga, Padre Bruno Sechi,
Padre Davi Laredo, além de apoiadores como Ruy Barata, Raimundo Jinkings, Sá Pereira e Edmundo Parente, entre outros (SDDH, 2007).
Assim, entende-se que a criação da SDDH vai se constituir, ela própria, em uma estratégia dos movimentos sociais que faziam resistência à ditadura. Frente ao contexto de exceção por que se passava, a SDDH expressou uma forma de reação da sociedade ou dos segmentos que faziam a resistência política, assumindo as bandeiras mais caras à sociedade e inteiramente violadas pelos governos militares: a liberdade de expressão, os direitos humanos, a violação dos diversos tipos de direitos e liberdades, como a tortura e a morte dos que se opunham ao regime. Tratava-se neste contexto de repressão de ter instrumentos que pudessem fazer o enfrentamento, como observa o depoimento abaixo:
na verdade um cenário bastante complicado da questão da ditadura militar, de violação de direitos de todos os tipos e de bastante impunidade mesmo, e também pela questão do aparato, porque na sociedade civil, qual o instrumento? Então era uma fragilidade de instrumentos que pudessem combater, somar forças106.
Observa-se que não se falava de estratégias conscientemente, e sim de uma reação frente ao contexto, daí que há diversas referências ao caráter voluntarista e, de certa forma, amador da intervenção institucional nestes primeiros anos, mais do que criar uma entidade, o horizonte utópico era juntar as forças manifestadamente contra a ditadura militar. Exatamente por isso, é comum em todas as falas dos entrevistados, a menção ao perfil militante das pessoas que comporão a entidade neste nascedouro, aspecto que será elemento de polêmica para o futuro, mas que será bastante valorizado na entidade neste momento, e sob o qual a mesma pôde se instituir, como aponta o depoimento:
o trabalho na verdade era todo voluntário nesse momento, uns dois anos depois passou a ter um funcionário que era uma secretária, as outras pessoas todas trabalhavam voluntariamente (...) às vezes nem estavam no espaço da SDDH, mas faziam as petições, os habeas corpus, as coisas jurídicas todas, cada um no seu canto, na sua casa, no seu escritório, da forma que achasse que era melhor, na verdade naquele momento as pessoas que idealizaram, nunca imaginaram que a SDDH fosse se tornar o que hoje ela é, tanto de ponto de vista político, quanto de atuação107.
Outro aspecto interessante a ser registrado acerca deste surgimento, é que se identificava a criação da SDDH como um espaço para que o próprio movimento começasse a organizar suas segmentações e lutas, como se a SDDH atuasse como um guarda-chuva, na medida que sua institucionalidade permitia abrigar os diversos movimentos.
106 Entrevista com Técnica da SDDH. 107Entrevista com Técnica da SDDH.
Feitas estas considerações, as estratégias institucionais implementadas pela SDDH, no contexto de gênese, pode analiticamente ser assim identificada:
a) contribuir para aglutinar sob a bandeira da defesa dos Direitos Humanos e pela redemocratização do estado brasileiro, as forças políticas presentes naquele momento no contraponto à ditadura;
b) dotar da institucionalidade possível a luta existente contra a ditadura, inclusive permitindo a militância de clandestinos, ex-presos políticos e outros frente às violações cometidas;
c) constituir, a partir desta institucionalidade, um espaço de enfrentamento à ditadura, que no caso da SDDH assentou-se sobre dois aspectos principais, um era a luta via questão jurídica, e o outro a luta via denúncia pública do regime, tentando alcançar o grande público a fim de visibilizar as violações cometidas: as ações jurídicas e um jornal impresso vão dar concretude a essa estratégia.
Os depoimentos a seguir, corroboram as observações feitas acima acerca das estratégias construídas pela entidade no período de sua formação histórica:
pela aglutinação de forças, a gente fazia as coisas em conjunto, nem tudo, porque nem todos os grupos aceitavam, então tinha que aglutinar forças onde era possível, então o pessoal do campo sempre teve uma organização, tinha o pessoal do campo e da cidade, mas, eu não sei dizer se havia sim a construção de uma estratégia, eu acho que chegava muito em cima do que era possível fazer, do que era preciso fazer e era possível fazer, e onde a gente conseguia envolver também as emoções, então isso era muito importante do que só a racionalidade108.
era a defesa dos direitos humanos, combate a violência, intransigência com tortura e violência policial, a SDDH acabou sendo uma voz para isso porque a gente tinha um jornal, e o jornal foi extremamente importante, eu acho que uma das estratégias definidas mesmo, que teve sucesso foi a criação do Jornal Resistência, essa eu sei que foi uma estratégia que era pra dar eco à voz da SDDH e dos demais movimentos que existiam109.
eu acho que as pessoas começaram a reunir, e como elas viram que essa intervenção na fazenda Capaz foi muito legal, então eles resolveram ter uma organização que pudesse, aqui no Pará, fazer frente e denunciar essa situação da ditadura, o alvo realmente era a ditadura militar, e logicamente os latifundiários, coronéis que imperavam aqui. Acho que a principal estratégia da SDDH nesses primeiros anos foi a questão da comunicação, foi o Jornal Resistência, todo mundo fala isso, tinha intervenção política nos espaços, de ser solidário em algumas lutas, mas o que uniu a entidade nos primeiros anos foi certamente o Resistência110.
108 Entrevista com ex-Gestor da SDDH. 109 Entrevista com ex-Gestor da SDDH. 110 Entrevista com Gestor da SDDH.
Guardando relação com as referidas estratégias, as ações serão principalmente as intervenções jurídicas diante das violações de direitos, como o cerceamento da liberdade física, atuando junto às prisões ilegais, por exemplo; denúncia pública das arbitrariedades cometidas pelo estado militar, principalmente através do Jornal Resistência111, como também, a visibilização das ações de resistência popular.
A predominância dessas ações jurídicas vai dar origem ao que futuramente será chamado Núcleo Jurídico da entidade. À época, caracterizado pela atuação esporádica e voluntária de advogados comprometidos com as aspirações do movimento popular, pautou sua ação na “assessoria à camada mais pobre da população paraense, atuando principalmente em casos que tivessem a capacidade de desenvolver um caráter pedagógico, além de lutar contra a impunidade” (SDDH, 1999. p. 4). Sobressaem-se processos de crimes contra policiais civis e militares (torturas, lesões corporais, abuso de autoridade), processos visando resguardar os direitos de posseiros e assessoria aos sindicatos de trabalhadores rurais.
Observa-se que diferente da FASE, que por processos advindos de influências internas e externas, conformará uma nova atuação, em consonância com as forças democráticas que vão se fortalecer no país, conforme se apontou nas análises de Netto (1994) e Sader (1988), a SDDH já nasce com um perfil de atuação notadamente alinhado ao campo de forças democrático-populares. Inclusive, congregando em sua fundação, militantes dos partidos políticos clandestinos, presos políticos, entre outros.
Nesse sentido, a posição assumida pela entidade é claramente de um posicionamento político aliado às forças do trabalho e em crítica ao capital, tomando como mote os direitos humanos.
Em que pese às diferenças havidas entre as duas entidades, e em que pese os limites da presente pesquisa, remetendo-se a análise de Netto (2000) quando conceitua como esquerda o conjunto de movimentos e ideias endereçadas ao projeto de transformação social em benefício das classes oprimidas e exploradas, infere-se que estas duas entidades esboçaram uma proximidade com estas ideias. Daí pode-se dizer que, muitas das bandeiras políticas, e a natureza de suas estratégias e ações tiveram neste contexto da ditadura, e mesmo na dinâmica de redemocratização que se seguiu, uma relação com os projetos societários de transformação, como o investimento no processo organizativo e na formação, ainda que o mote principal tenha sido a luta contra o Estado autoritário. Enfim, esta configuração das entidades se
111 Criado em 1978, o Jornal vai funcionar regularmente até 1983, e “no editorial da primeira edição a publicação
assume que tem um lado. E se coloca a serviço de todos os oprimidos e democratas que lutam pelo Estado de direito” (FERREIRA, 2007, p. 25).
manterá em seus fundamentos principais até a década de 1980, quando a partir da segunda metade, haverá novas movimentações, como veremos na próxima seção.