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ROBOT DĠNAMĠĞĠNĠN HESAPLANMASI

6.3 Çapak Alma Robotunun Dinamik Analizi

No dia seguinte à tentativa de suicídio, eu estava em casa, na hora do almoço, e com a TV ligada no programa jornalístico de maior audiência do Piauí. Os apresentadores anunciaram que haveria uma entrevista com o Presidente da FMS de Teresina sobre a saúde oferecida aos cidadãos da Capital. A conversação com o repórter foi realizada a partir de uma externa ao vivo em frente à prefeitura. Em meio às perguntas, o jornalista convidou o gestor para acompanhar uma reportagem sobre um CAPS que se encontrava passando por sérios problemas. Ao escutar tal anúncio, interrompi meu almoço, e para minha surpresa, era o serviço deste trabalho. As articulações midiáticas realizadas pelos trabalhadores tiveram efeito. O principal responsável pela FMS havia sido convidado para falar sobre um apagão energético sofrido pelo único Hospital de Urgência de Teresina (HUT) e oferecer explicações sobre a falha de 04 geradores existentes no estabelecimento; no entanto, foi surpreendido por uma segunda reportagem que denunciava as problemáticas pelas quais o CAPS atravessava.

A equipe do noticiário se dirigiu ao CAPS para fazer a matéria e foi proibida de entrar pelos porteiros para fazer imagens e entrevistas. Mesmo depois de muita insistência, nenhum funcionário da gestão quis receber os repórteres. No início da reportagem, foram veiculadas fotografias, que devem ter sido feitas por trabalhadores ou por sujeitos que frequentavam o

serviço, para apresentar o problema das fossas sépticas, o acúmulo de objetos que produzia vulnerabilidade para a proliferação do mosquito da dengue e o fato de existir um só banheiro para homens e mulheres. As fotos mostravam o vazamento da caixa de gordura e os objetos que propiciavam o acúmulo de água a céu aberto. Ainda foi veiculada uma imagem de um caminhão realizando um serviço de esvaziamento das fossas. Os jornalistas ficaram do lado de fora e entrevistaram alguns familiares e usuários. Um destes declarou: “A gente almoça no meio da podridão das fossas que arrombaram aí dentro” Um familiar apontou algo mais sério como consequência da redução de banheiros: “Aconteceu violência: um estupro, um estupro. O rapaz violentou ela e aí, quando o pessoal do trabalho foi saber, já tinha acontecido.”, denunciou um pai que tinha uma filha que frequentava o CAPS há seis anos. Outra familiar entrevistada: “Eu estou levando minha sogra de volta por conta que não pode ficar ninguém aí. Só os médicos estão atendendo. Tudo por conta das fossas que estão estouradas e já faz um bom tempo que está assim.” De volta ao link ao vivo, um jornalista perguntou ao presidente, visivelmente constrangido e acuado, o que poderia ser feito diante do quadro de “precariedade total” e este argumentou: “Essa é uma situação realmente difícil. Nós estamos esperando todas as emendas parlamentares que foram colocadas para que nós possamos substituir os seis CAPS que são em prédios alugados para que a gente possa dar uma atenção melhor a população de Teresina. Nesse momento nós temos 06 prédios alugados para estes 06 caps. Aqui, acolá, nós temos essas dificuldades. Nesse momento, realmente, essa fossa rompeu, essa casa não está ligada à rede de esgoto e nós temos que parar a ação do CAPS para esvaziar totalmente a fossa e retomar as atividades e já imaginando a construção dos 06 CAPS que não tem data ainda para começar.” O repórter emenda mais uma pergunta: “O que pode ser feito? Não há um trabalho de manutenção nessas casas?” Como resposta: “Deveria ter e agora temos de fazer um inquérito porque que a FMS criou esta dificuldade para nós. O prefeito vive dizendo para gente tomar conta de todos os imóveis, de todos os aparelhos. Agora, nós, trabalhadores, gestores, secretários, temos de trabalhar para oferecer o melhor para a população de Teresina.” Mais uma: “E o que pode ser feito agora para aquela pessoas, presidente?” Deu como resposta: “Precisamos desviar o atendimento dessas pessoas para outros CAPS da cidade, porque, no momento, não temos como atender ali por causa do odor, que é desagradável, e.... Como da reforma que vai ser feita nos próximos 07 dias, aí teremos a resolução para o problema e que não é definitivo.” O jornalista questionou se existiria algum prazo para a construção dos novos CAPS e recebeu uma resposta evasiva: “Não tem prazo, porque nós estamos aguardando a liberação das verbas, ou seja, da liberação das verbas que todos os deputados fizeram; e vocês sabem que nós temos um corte de 4 bilhões para o

Ministério da Saúde para o ano de 2014, de maneira que é uma dificuldade para o Brasil inteiro e para o Piauí, em particular”. Despedem-se e o quadro finaliza com a fala da âncora do jornal: “o jeito é aguardar!”. Além da TV, os outros canais midiáticos ecoaram o que vivíamos no CAPS, tais como, portais eletrônicos e emissoras de rádio.

Ao ver na TV uma materialização do agenciamento político dos trabalhadores, fiquei animado e com a esperança de que o problema seria resolvido com brevidade e de que os usuários, com quem tanto me vinculei afetivamente ao longo dos meses, não ficariam desassistidos. Embora já se soubesse, através de inúmeras comunicações e de uma vistoria feita por engenheiro civil da prefeitura, que não havia a menor condição do serviço lá continuar, o desejo meu, forjado no encontro com trabalhadores e usuários, era que o serviço fosse transferido de prédio com celeridade. No entanto, nos dias que se seguiram, o que eu acompanhei, não só nos sete dias propostos pelo presidente na entrevista, mas arrastando-se durante um mês, foram várias tentativas paliativas de fazer com que o CAPS continuasse naquela localidade. Primeiro, vi operários de construção civil fazendo algo bastante controverso para um serviço de saúde: a construção de um escoamento para que os excrementos da cozinha atravessassem o pátio do prédio em direção à rua. Com dois dias de serviço, viu-se a impossibilidade deste procedimento, pois a produção de dejetos era enorme. Decidiram então fazer uma escavação numa área ao lado do pátio para instalação de um sumidouro para captar toda a água servida; tentaram abrir três grandes buracos em três lugares diferentes na casa e se depararam em todas as tentativas com a questão estrutural que gerava todo o problema. Em uma manhã, ao passar pela porta do CAPS, um trabalhador me chama: “Emanoel, vem cá! Vem ver aqui!” Eu me aproximo para onde tem dois pedreiros cavando um enorme buraco e o trabalhador que me chamou apontando para o fundo da cavidade: “Está vendo?! Os caras cavaram aqui, ó! E com 1,0 metros, já encontraram água brotando! Não tem condições! Foi assim em todos os buracos que fizeram! Daí, não adianta fazer o que eles (FMS) sempre fazem, que é mandar aqueles caminhões virem aqui esvaziar as fossas!” Ao conversar com um trabalhador que mora nas proximidades, descobri que a região onde ficava o bairro, em sua origem, era formada por uma lagoa e por terrenos alagadiços. Todas as casas foram construídas numa espécie de aterro e o bairro não tinha esgotamento sanitário público, o que faziam com que as residências só fizessem uso de fossas. Nas semanas anteriores, por seguidas vezes, a FMS enviava uma empresa imunizadora para remover os excrementos das fossas; entretanto, elas estavam sempre cheias em função do encharcamento natural do solo, além da demanda de sujeitos que frequentavam. Desse modo, a estrutura física do CAPS não tinha como suportar a quantidade de pessoas que recebia diariamente. Em uma conversa com

um técnico, fui informado que as várias tentativas de reformar o prédio, apesar de terem certeza de que a situação era irreversível, indicava que a gestão queria protelar a questão em função de que o aluguel do estabelecimento era alto e, mesmo o CAPS sendo removido de lá, ele iria continuar sendo pago em virtude do contrato de locação ainda se encontrar em vigência.

Em outra conversa que tive com um trabalhador da própria FMS, fui informado que não existe nenhum projeto junto ao Ministério da Saúde para a construção das sedes próprias do CAPSs de Teresina, o que põe em contradição a fala do Presidente quando afirmou que estão trabalhando nesse sentido. Os sete dias prometidos pelo gestor para a solução do problema não foram suficientes logicamente. Como o problema era estrutural, necessário se fazia a mudança de sede. Iniciou-se um longo processo de falta de assistência. O território onde ficava o CAPS era distante dos demais serviços dessa natureza no município; muitos usuários não puderam ir para os outros CAPS’s da cidade e, quando alguns se dirigiam, não eram bem acolhidos segundo relato dos trabalhadores: “Os outros CAPS’s não querem receber os usuários daqui. Isso aqui é um Sistema Universal, ninguém pode negar cuidar dos usuários. Eles ficavam pedindo que nossos funcionários fossem para lá trabalhar também, perguntavam pela medicação deles, exigindo que fosse fornecida pelo nosso CAPS”, trouxe- me o técnico que havia propiciado a incômoda visita da Vigilância Sanitária.

A proibição da entrada para os repórteres remeteu aos tempos do manicômio como uma instituição fechada, em que ninguém tinha acesso ao que se vivia e se fazia nas dependências do hospital psiquiátrico. Uma ordem déspota e autoritária impediu a entrada dos repórteres para a denúncia social das sérias problemáticas.

Os resultados dos vetores de gestão caracterizada pela tecnocracia e pelo histórico de abandono da saúde mental foram alardeados na TV, indicando o peso dessas linhas na configuração dos serviços substitutivos de Teresina. A perspectiva de redução de gastos públicos e de gerenciamento de interesses econômicos surgiu em toda problemática instalada no serviço, principalmente nas inúmeras tentativas de reforma para fazer com que o CAPS continuasse naquela localidade em função da vigência do contrato de locação, mesmo com a edificação não suportando a natureza das atividades (YAMAMOTO, 2003). Um mês depois do término da minha estada no CAPS, em conversa com um aluno que residiu na região, fiquei sabendo que a sede alugada pertencia a pessoas de um grupo político teresinense ligado à prefeitura, indicando um gerenciamento de interesses em um mercado de aluguéis.

Outra adversidade encontrada nesta passagem residiu na negação de acolhimento por parte dos demais CAPS’s do município para os usuários do CAPS deste trabalho. Apesar do

Presidente da FMS indicar que este procedimento deveria ocorrer, o que se viu foi uma desassistência, um descumprimento de princípios básicos do SUS. Questão que deixou muitos usuários em situação de sofrimento, como veremos a seguir.

Benzer Belgeler