Segundo a definição de Tófoli (2010, p.16),
As retomadas são ações de ocupação de áreas para usos voltados para os interesses indígenas, pautada na ideia de retorno aos locais dos quais foram expropriados no passado e considerados importantes para a memória do grupo, seja por motivos ritualísticos ou para a realização de atividades produtivas ou moradia.
Apesar de cada retomada ser um processo único, é possível identificar algumas etapas comuns nas situações vivenciadas pelos vários povos. A primeira etapa é o
planejamento. A necessidade de realização vem de uma demanda coletiva da comunidade,
mas o local escolhido é mantido em sigilo, sendo do conhecimento de poucas pessoas, até para não comprometer a ação. Pessoas de outras localidades, com experiência em processos de retomada, podem prestar alguma assistência. A etapa seguinte é a de concentração, que ocorre um pouco antes da retomada. Nela os envolvidos estão apreensivos, uma vez que a retomada em si é imprevisível e consiste em uma atividade perigosa. Por isso, geralmente a
concentração é um momento de oração ou da prática de algum ritual (TÓFOLI, 2010, p.150- 151).
Após a concentração, dá-se a retomada. O espaço vai sendo ocupado, obstáculos físicos são derrubados e a área começa a ser delimitada, sendo a participação masculina importante nesses momentos iniciais. Aos poucos, outras pessoas somam-se à ocupação e então se faz necessário montar uma estrutura mínima que garanta a permanência do grupo no local, providenciando-se alimentos e adotando-se medidas de segurança mínimas. Essa
preparação do lugar para a estadia das pessoas é fundamental, pois a retomada “é um
momento de ruptura, em que as pessoas iniciam o processo de despojamento da vida cotidiana, pois a retomada afetará o dia a dia de todos os envolvidos” (TÓFOLI, 2010, p.151). Empós, vem a reordenação do espaço, que varia de acordo com o objetivo comunitário, pode- se preparar a terra para o plantio ou improvisar salas de aula, por exemplo (TÓFOLI, 2010, p.152).
A retomada vai além da conquista de espaços para a comunidade, ela representa o fortalecimento do indivíduo e também do grupo, que compartilha uma experiência de subversão da ordem posta.
[...] o compartilhamento de experiências, em situação de exceção, envolta em dificuldades e potenciais perigos, tende a levar os indivíduos ao fortalecimento do sentimento de integração ao grupo e ao espaço, além da sensação de empoderamento como coletividade (TÓFOLI, 2010, p.157).
A coesão do grupo é importante, pois a retomada requer muita disposição dos envolvidos e equilíbrio para lidar com as tensões e com os conflitos diretos com posseiros, autoridades policiais e judiciárias, os quais podem durar um longo período.
Quando os conflitos cessam, o grupo volta-se para a consolidação da retomada e do controle da área pelos indígenas. Uma nova rotina vai sendo estabelecida e o espaço ressignificado.
A experiência de viver na retomada imprime marcas nas consciências individuais e na percepção da coletividade que se dá em torno de um espaço determinado. Assim, podemos analogamente afirmar que o espaço, ao ser alterado pelo esforço coletivo, é por este ato consagrado, pois, através de tal processo, ele passa a adquirir um novo status (TÓFOLI, 2010, p.155).
Tófoli (2010, p.37) oferece vários exemplos concretos de retomadas no Nordeste, como as realizadas pelos Kiriri, Pataxó e Pataxó Hã-hã-hãe, na Bahia; e os Xukuru, em Pernambuco. Contudo, a pesquisadora concentra-se nas retomadas do povo indígena Tapeba,
habitante do município de Caucaia, Estado do Ceará, que iam ocorrendo em paralelo ao processo de demarcação da FUNAI.
A área indígena Tapeba sempre foi alvo de disputas por fazendeiros locais, que constantemente faziam os indígenas mudarem de residência. A partir da segunda metade do século XX, os espaços disponíveis foram reduzidos também em virtude da crescente urbanização e industrialização, bem como da construção e ampliação de rodovias (TÓFOLI, 2010, p.88-89). Entre a década de 1980 e os anos 2000 foram retomadas as localidades de Sobradinho, Lagoa I, Lagoa II, Lameirão, Vila dos Cacos, Jandaiguaba, Trilho, Ponte e Capoeira, totalizando uma área de 431,2 hectares, nos quais foram construídas oito escolas, dois postos de saúde, sete campos de futebol, igrejas, locais de reuniões e plantios coletivos, além de inúmeras roças familiares (TÓFOLI, 2010, p.147)41.
No Relatório da CNV também constam alguns exemplos de processos de retomada. A CNV apurou que muitos povos indígenas removidos à força de suas terras buscaram voltar para os seus territórios tradicionais. Em 1957, por exemplo, os Krenak foram transferidos pelo SPI de suas terras no município de Resplendor, Minas Gerais, para o município de Águas Formosas, no mesmo Estado, sem nenhum planejamento, a fim de liberar as terras para colonização. Diante das péssimas condições de vida no novo lugar, os indígenas retornaram a pé, de carro e de trem para Resplendor, em uma viagem que durou três meses e cinco dias (BRASIL. CNV, 2014, p.210). O mesmo aconteceu com os Mamaindê, Negarotê, Alantesu e Wasusu, transferidos para a Reserva Nambikwara, criada em 1968 para retirar indígenas da região do Vale do Guaporé, em Rondônia, para a implantação de projetos agropecuários. Não conseguindo adaptar-se, boa parte desses povos retornou ao Vale do Guaporé e os que permaneceram na reserva continuavam a ocupar tradicionalmente o vale, praticando a caça, a pesca e a agricultura (BRASIL. CNV, 2014, p.222).
Como se vê, muitos povos têm utilizado esse meio de resistência à espoliação de seus territórios. As retomadas, sejam as que são combatidas de forma violenta ou as que são toleradas, são formas legítimas de ocupação tradicional e demonstram que essa ocupação dá- se de maneira dinâmica e não estática, fato que deve ser considerado pelo intérprete quando da aplicação do direito à terra.