• Sonuç bulunamadı

Como dissemos no primeiro capítulo, entendemos a retórica não como mero ornamento capaz de “florear” o discurso e fortalecer a capacidade de persuasão do orador, mas sim como um instrumento para situar o ser humano de modo mais adequado no mundo.

Considerando que, como demonstramos no início desse trabalho, a retórica se coloca em posição diametralmente oposta à ontologia, a sua visão acerca da verdade está relacionada à sua capacidade de conhecimento, ou seja, a sua ideia do que seja verdadeiro ou falso, toma como premissa a constante mudança da realidade e a transcendentalidade do conhecimento. Ao passo que a ontologia parte da certeza de que o conhecimento é imanente e imutável.

Tais fundamentos levam à conclusão para a ontologia, que a linguagem é mero instrumento para a descoberta da verdade. Esta existe em si mesma, para uns, ou revela-se em sua aparência, para outros.

Já para os retóricos, a crença na existência de uma verdade é a grande ilusão dos humanos, a linguagem não é o meio, é o fim, ou melhor, é a única forma de contato com o mundo circundante, uma vez que este é construído pela própria linguagem.

Sobre este tema, Adeodato afirma:

[…] verdade e justiça únicas, corretas, são ilusões altamente funcionais e que os acordos precários da linguagem não apenas constituem a máxima garantia possível, eles são os únicos. Além de serem temporários, autodefinidos e circunstanciais, referentes a promessas que são frequentemente descumpridas em suas tentativas de controlar o futuro, esses acordos são tudo o que pode ser chamado de racionalidade jurídica.67

Assim, podemos dizer que a retórica tem como premissa básica o princípio da autoreferência do discurso, ou seja, a linguagem não tem outro fundamento externo, senão a si própria.

Por tal razão, dizemos que a verdade retórica é linguística e, como tal, circunstancial e mutável, tanto quanto a linguagem.

Em sendo a verdade fruto de um ato comunicativo, a sua formação se dá no âmbito do discurso, em que orador e ouvinte, integrantes de um dado sistema de referência, dono de um código próprio compartilhado pelos seus componentes, chegam a um consenso acerca de um determinado evento, considerando-o um fato verdadeiro.

Com isso, não se quer dizer que a verdade seja subjetiva, no sentido de ser singular a cada indivíduo. Na verdade, o maior ou menor grau de “realidade” ou verdade de um relato está intimamente relacionado com a aquiescência/concordância do maior número de seres humanos integrantes de um mesmo sistema, em relação àquele ou, em outras       

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palavras,a veracidade de um fato é dado no âmbito do controle público da linguagem.

Para bem compreender o que vem a ser a verdade retórica, há que se pôr em relevo a importância do sistema de referência em que o discurso se desenvolve. Tal sistema serve de circunscrição espaço-temporal de construção da verdade.

Utilizando-se de uma das expressões cunhadas por Leônidas Hegenberg e bem utilizada por Fabiana Del Padre Tomé, cada sistema de referência tem o seu “saber de”, o qual se distingue dos demais sistemas e o torna singular. Tal singularidade permite que um só evento possa ser alvo de distintas interpretações e, por conseguinte, base para construção de diversos fatos.68

Ainda no dizer desta jovem doutrinadora: “Não havendo sistema de referência, o conhecimento é desconhecimento, pois sem a indicação do modelo dentro do qual determinada proposição se aloja, não há como examinar a sua veracidade.”69

Como bem diz o já citado autor pernambucano:

A linguagem transforma em “realidade” fantasmas, bruxas, previsões do futuro e meteorologia; faz de Plutão um planeta ou não, cria quasares pulsando e buracos negros; a linguagem jurídica faz de uma ação crime ou não e de um audiobook um CD de músicas, mesmo que este não contenha qualquer nota musical com o fito de provocar a incidência tributária. A

      

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Utilizamo-nos aqui da distinção entre evento, como sendo meros acontecimentosdespidos de qualquer relato linguístico e fatos, que são relatos sobre tal evento. Partindo da premissa que a realidade é construída pela linguagem, os eventos são inatingíveis. Só temos acesso aos fatos.

linguagem faz tudo em seus acordos, imposições, falácias.70

Sob essa ótica, a verdade de um fato se constrói por meio de um relato o qual, por refletir a crença da maioria de uma comunidade, se denomina como relato vencedor. Nesse molde, a invencibilidade momentânea do discurso o torna verdadeiro.

Todavia, como se disse acima, o consenso obtido dentro de um sistema de referência se transmuda com o tempo, em virtude de incontáveis fatores: sociais, econômicos, políticos e jurídicos.

Em outras palavras, o êxito de um discurso vincula-se também a circunstâncias de tempo e de espaço, nos quais ele foi construído.

Destarte, a verdade retórica é sinônimo da verdade por consenso, bastante criticada pelos ferrenhos defensores do princípio da segurança jurídica. A respeito destas críticas, a professora Fabiana Tomé assim se posiciona:

Não obstante argumentos no sentido de que a adoção dessa corrente filosófica (verdade por consenso) acarretaria grande insegurança, por transformar a convicção comunitária da verdade em critério de certeza, entendemos que, sendo visto o consenso, base para identificação da verdade, como algo constituído pelo sistema em que se insere, essa teoria é perfeitamente aplicável. Isso porque o próprio sistema estabelece o que é consenso, como e quando se opera, eliminando instabilidades na determinação da verdade consensual.71        70 ADEODATO, 2011, p. 19. 71 TOMÉ, 2005, p. 14.

Apesar de concordar com as palavras desta jovem doutrinadora, no que diz respeito à aplicabilidade da teoria comentada, não vejo como a instabilidade do sistema possa ser eliminada, isto seria um ideal e como tal, por essência, inalcançável. Todos os seus mecanismos se prestam, tal como um termostato, a tentar manter constantes as condições “normais” do referido sistema. Porém, diferentemente dos sistemas elétricos regulados por tal aparelho, o sistema linguístico tem por matéria prima básica as palavras, que são substancialmente polissêmicas, ambíguas e vagas.

Assim sendo, muda o sistema, mudam os participantes, mudam as circunstâncias, mudam os pontos de intersecção que geram o consenso, tudo isso leva à superposição de relatos, passando este último a ser o vencedor e, por conseguinte, o temporariamente verdadeiro.

Benzer Belgeler