A história da Comissão Científica de Exploração não foi um episódio isolado. Em meados do século XIX, estava em curso, no Brasil, um projeto científico e cultural alicerçado em torno do regime monárquico, ansioso por fortalecer-se internamente e projetar, além-fronteiras, a imagem de um país promissor.
Os principais expoentes da nossa cultura letrada empenhava-se na busca das origens
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Segundo Antonio Paim (1981), a princípio no Brasil os intelectuais foram influenciados pelo espiritualismo eclético, tendo como importante representação local, o Senador Pompeu, influenciando seus continuadores. Já no final do século XIX o positivismo é que deu a tônica do pensamento cientificista na época, influenciando os saberes produzidos na conjuntura da sociedade moderna. Nesse mesmo sentido, ao compreender as especificidades da produção do Senador Pompeu, interessa ler a dissertação de Manoel Fernandes de Sousa Neto, que demonstrou a trajetória e as influências científicas difundidas por Pompeu. Senador Pompeu: um geógrafo do poder no Império do Brasil. 1997. Dissertação (Mestrado em Geografia). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH/USP. Universidade de São Paulo – USP, São Paulo, 1997.
da brasilidade, no autoconhecimento da história e do território, enquanto a ciência ocupava-se em descrever, catalogar e classificar os recursos da natureza, as riquezas do solo e do subsolo, as populações, o desenvolvimento moral e material. O progresso estava na ordem do dia. Porto Alegre (2003, p. 7).
Assim como percebemos na epígrafe retirada do texto de Porto Alegre (2003), a Comissão Científica de Exploração fez parte do elenco de eventos relacionados à busca das origens do povo brasileiro.
Realizou-se em meados do século XIX, datação anterior ao período da análise da pesquisa. Consideramos que na história da formação da Geografia do Ceará, relatar a existência da primeira experiência científica realizada somente por brasileiros, passando pelo Ceará foi um fato relevante.
A Comissão Científica inseriu-se no contexto inicial da formação dos estudos geográficos, produzidos pelos pioneiros e estudiosos desbravadores do interior das províncias do Brasil.
A primeira grande fase de formação da Geografia cearense pôde ser definida a partir do século XIX, perdurando até o ano de 1887, data da criação do Instituto do Ceará. Não existia distinção clara entre geografia e história, como já foi visto. Era uma simbiose entre as duas ciências em construção, fato este revelado nos primeiros artigos publicados pela Revista do Instituto do Ceará que, claramente, apresentam a preocupação em investigar e criar uma identidade para a delimitação do território cearense.
O primeiro momento dessa periodização foi similar ao que ocorreu na construção da historiografia local, conforme retratou Diatahy Menezes (2002, p. 293), ao explicar que “o Ceará nasceu para a elaboração de sua História, sobretudo na década de 1850 a 1860”. E por que não dizer, iniciou a produção de sua geografia que já se encontrava difusa pelas crônicas históricas elaboradas pelos intelectuais do Ceará, mas ainda não tinha identidade definida?
Assim como a geografia, em âmbito mundial, a geografia local foi sendo constituída a partir da formação de banco de dados sobre o quadro físico-territorial. Para esse propósito, tivemos a imprescindível colaboração tanto de naturalistas quanto dos resultados de pesquisas produzidas pela
Comissão Científica que por aqui passou. A Comissão foi dividida em sete seções: a geológica, zoológica, botânica, astronômica e geográfica, etnográfica e a de descrição de viagem, chefiada pelo naturalista Dr. Francisco Freire Allemão Cysneiro. (ABREU, 1919, p. 199). No início trabalharam juntos, mas em alguns momentos, preferiram criar grupos para otimizar o trabalho.
Mais uma prova da existência dessas pesquisas e suas contribuições para o conhecimento local foi a elaboração do livro “Ensaio Estatístico da Província do Ceará”, publicado nos anos de 1863 e 1864, produzido por Thomás Pompeu de Souza Brasil que teve acesso aos pesquisadores e aos resultados dos trabalhos de campo realizados pela Comissão3.
Portanto, confirmamos a tese que as Comissões Científicas foram eventos primordiais na produção das primeiras informações sobre o conhecimento local, sistematizadas por intelectuais que aliaram a informação ao poder político, a despeito do que foi produzido pelo Senador Pompeu. Vejamos com atenção o que disse Souza Neto sobre a relação estabelecida entre este intelectual e os resultados produzidos pelos pesquisadores da comissão:
Em outras palavras, aquele que escreveu sobre o Ensaio, informou e teve acesso às informações levantadas pelos homens da comissão científica. É evidente, conseguiu mais de uns que de outros, mas presumimos que foi por intermédio deles que obteve a possibilidade de fazer o que não conseguiria sozinho – coletar as informações de que necessitava, só possíveis com pesquisa feita in loco. Desprovido de interlocutores com os quais pudesse discutir suas ideias, foi os homens da comissão que encontrou seus melhores pares. E a interlocução é uma das características da
3 Para confirmação deste fato temos a análise de Souza Neto que afirmou só ter sido possível
a finalização do livro “Ensaio Estatístico da Província do Ceará” após a finalização dos trabalhos da Comissão Científica de Exploração, apelidada de “expedições das borboletas”, tendo em vista as inúmeras citações e fontes referentes aos membros da comissão: “Capanema, Coutinho e Macedo, na seção de geologia; Freire Alemão, na parte de botânica; Manuel Lagos, na seção de zoologia; Gabaglia e Gonçalves Dias, em vários outros momentos da obra, como por exemplo na que falou da Gruta de Ubajara”. (1997, p.69). Outra comprovação apontada pelo pesquisador foram as cinqüenta e duas correspondências realizadas entre Tomaz Pompeu e os membros da Comissão, e quando da chegada destes no Ceará foram recebidos na residência de Pompeu em 1859, conforme Braga (1982, p.8) e Souza Neto (idem, ibidem).
escrita de Pompeu, posto que ele cita suas fontes e discute com elas. (1997, p. 71).
Apesar das contribuições deixadas aos intelectuais das provinciais estudadas, em sua maioria, as informações colhidas convergiram para o Museu Nacional, situado no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, e ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB.
Essas contribuições colaboraram no processo rumo à institucionalização dos saberes geográficos retratados por Paiva (2002, p.75) em sua obra, destacando a escolha do Ceará como a primeira província a ser explorada:
A idéia da criação da Comissão Científica de Exploração nasceu na sociedade Palestra Scientífica e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; de imediato, ela mereceu o apoio do Imperador. A lei nº 884, de 01 de outubro de 1857, fixando despesa e orçando a receita para o exercício financeiro de 1857-1858, em seu §1º do Artigo 17 autorizou o Governo a nomear uma comissão de engenheiros e naturalistas para explorar o interior de algumas províncias. O Ceará foi escolhido para abrigar os trabalhos iniciais da Commissão Scientífica de Exploração, presidida por Francisco Freire Alemão, que foi nomeado pelo Imperador em 07 de março de 1857.
A escolha do Ceará como ponto inicial da rota realizada pela Comissão Científica não foi feita de forma aleatória. Conforme Sylvio Fróes Abreu, em seu artigo, na Revista do Instituto do Ceará, 1919. Explicou que a escolha pelo Ceará não ocorreu somente por suas riquezas naturais, mas pelas curiosidades que se encerram em suas montanhas e flora. Lembrou ainda, que não foi a toa que naturalistas como George Gardner (George) e Agassiz (João Luiz Rodolpho) já tivera visitado a província do Ceará.
Não foi intenção dessa pesquisa detalhar todas as contribuições produzidas pela Comissão, mas deixar evidente, a importância desse primeiro evento direcionado para formação de conhecimentos sobre o território do Brasil, inclusa a província do Ceará, que na época estava em formação de seus limites. Dentre as contribuições, destacamos as resultantes da presença de vários Naturalistas participantes da Comissão Científica, também conhecida
como “comissão das Borboletas”4. Levou três anos para ser preparada. Iniciou
em 1859, presidida por Francisco Freire Alemão que conforme Porto Alegre (2003, p.8) foi a
[...] primeira expedição científica formada unicamente por brasileiros, iniciava seus trabalhos de campo, partindo do Rio de Janeiro para percorrer o Ceará e os limites das províncias vizinhas. Os “científicos”, como eram chamados por onde passavam, esquadrinharam a província de norte a sul, litoral, serra e sertão. Caminharam em várias direções, ora em conjunto, ora dividindo-se em pequenos grupos, durante dois anos e cinco meses.
O principal objetivo foi “conhecer o território e suas riquezas, coletar material para o Museu Nacional e promover pesquisa científica no país”, assim relatou Braga (1962) e Porto Alegre (2003). Afirmaram seus analistas que a expedição foi alvo de críticas, divergências políticas, desentendimentos entre os membros e conflitos com os grupos locais, em decorrência de vários fatores. Dentre estes fatores citaram os exagerados objetivos da Comissão que não foram atingidos: a falta de infra-estrutura, recursos e equipamentos que tiveram de ser trazidos da Europa; a falta de experiência de seus componentes, com exceção de Freire Alemão, experiente naturalista botânico; o sofrimento passado em meio a situações adversas no sertão cearense e outras paragens vizinhas, além de doenças adquiridas. Ainda, contam os pesquisadores do tema, a falta de sagacidade e curiosidade cientifica necessária para tal missão, acabando por atrair inúmeras distrações e passatempos dos participantes da Comissão que os desencaminharam de seus propósitos científicos.
Os críticos alegavam que a Comissão era desperdício de recursos públicos. Outros problemas ocorridos foram decorrentes das expectativas geradas em torno da Comissão. Os moradores da região queriam que descobrissem ouro, prata e minas de pedras preciosas. Estes não entenderam que a Comissão era muito mais científica e de exploração do quadro natural do que a descoberta de metais preciosos. Além do mais, a falta de recursos para
4 “Comissão das borboletas ou comissão deflorada foram os apelidos recebidos pela expedição
desenvolver tarefa de tal monta prejudicou o andamento das investigações, assim relataram Renato Braga (1962) e Octávio Domingues (1963).
O copioso material colhido pelos científicos sobre a flora e fauna, com exceção da geologia, pois o material foi perdido em naufrágio, resultou em vastas colaborações guardadas, na maior parte, no Museu Nacional brasileiro. Significou assim, um momento fundamental na formação da ciência nacional e de diversas áreas específicas do saber, dentre elas a Geografia. Outro ponto em destaque foi, a medida que coletavam amostras das espécimes, criaram metodologias de pesquisa com instruções referentes à realidade brasileira e sertaneja, informações dos relatórios dos científicos presentes no livro de Renato Braga (1962).
Nos diários escritos por Francisco Freire Alemão, o naturalista detalha todos os momentos vividos e impressões retiradas dos lugares por onde passou. A primeira viagem ocorreu em 1859, no percurso da vila de Fortaleza à vila do Crato, no sul do Ceará. Passando por Aracati e Icó. Longa rota realizada a cavalo, com poucos recursos e muita coragem. Lembram que o caminho era feito sobre areais e terras de barro batido. O sol forte e a escassez de água, além dos perigos do relevo dificultavam a dinâmica da Comissão. Silva Filho (2006, p.09), responsável pelo prefácio e esclarecimentos sobre os diários de Freire Alemão em seus dois volumes, detalhou, na advertência do segundo livro, as rotas seguidas pelo naturalista:
Francisco Freire Alemão (1797-1874), médico e naturalista fluminense, é considerado o maior botânico brasileiro do século XIX. Convidado para presidir a Comissão Científica de Exploração (criada pelo governo imperial em 1856) e chefiar sua seção botânica, ele percorreu terras do Ceará em duas ocasiões: a primeira, entre março de 1859 e junho de 1860, incluiu no longo itinerário Pacatuba, Aquiraz, Aracati, os vales do Jaguaribe e do Salgado, Icó, Crato e demais localidades do Cariri, o sertão central e o retorno a Fortaleza; a segunda, entre setembro de 1860 e julho de 1861, demandou a porção setentrional da província, notadamente a serra da Ibiapaba, passando por diversas vilas e cidades como Ipu, São Benedito, Viçosa, Sobral, Canindé, entre outras.
Estes foram os caminhos por onde passou a expedição científica, que ao lermos o diário de Freire Alemão, percebemos a descrição das minúcias
que ele observou. Nelas estão contidas características da geografia física, da paisagem, da flora e fauna, com relatos sobre o comportamento e dizeres do povo, da forma de tratamento, da hospitalidade5 do povo do Ceará, sobretudo,
da zona rural. Além das crenças, gastronomia, produção agrícola, rotina diária das refeições e do trabalho. A higiene e o aparecimento de doenças que não se conhecia, e ainda a carência da vida no sertão. Outras observações, feitas por Freire Alemão tratam das particularidades da organização do espaço e peculiaridades da vida familiar. Assim, Freire Alemão descreveu o seu contato com uma das famílias que recebeu a Comitiva (2006, p.52-53):
O sítio está sobre um terreno raso a perder de vista. Há ao lado da ribeira alguns pés de buriti, palmeiras que pela primeira vez vi, e foi isso o que me levou lá, digo, aos canaviais. O homem planta também mandioca, mas só para o gasto; e somente vende o excedente, e isto nas areias secas, e nada mais. Deu-nos [para] almoço fritada de carne seca, farofa, paçoca, isto é, carne socada com farinha, café, digo, água suja de café, e grude e beijus de massa. O almoço nos mandou pôr dentro na casa no jantar, mas ninguém da família apareceu. (Nós tínhamos visto várias senhoras e meninas andarem lá dentro, deitadas na rede na saleta de fora; elas andavam pela sala de dentro e passavam pelo corredor, olhando sempre curiosas para fora.)
Também ele nunca se sentou à mesa, nem à ceia, nem agora ao almoço; estava em pé em roda, servindo, mandando e conversando.
Mas, logo que prontos nos fomos despedir dele, se apresentaram as senhoras, a saber: a mulher e outra, que talvez era sogra, e uma menina, e nos despedimos delas.
Eram tantos detalhes para observar, mas seu olhar atento e sua crítica acurada, nada deixou escapar. Um dos pontos que mais incomodava a Comitiva, sobretudo a Freire Alemão, dizia respeito à falta de água limpa para beber e banhar-se. O forte calor sempre acompanhava a Comissão, e nem sempre a água era abundante para satisfazer a higiene e a sede.
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Sobre a hospitalidade do cearense, Silva Filho (2006, p.29) explica que “[...] o exercício da hospitalidade constituía menos demonstração de afabilidade que necessidade cotidiana a que se viam obrigados todos os habitantes da área rural. Daí a assiduidade de alpendres tanto para fornecer à habitação uma zona de sombra que amainasse o calor tropical quanto para receber hóspedes e transeuntes ocasionais, malgrado a rusticidade das acomodações”.
Em diversos trechos do diário, chamou atenção para a má qualidade da água que os sertanejos eram obrigados a beber e, por certo, a única a oferecer. Daí ter denominado o café oferecido, de “água suja de café”, não se sabe pela água ou pela qualidade do pó de café. O fato é que apesar de todas as dificuldades enfrentadas, por onde passaram foram recebidos, por alguns desconfiados e por outros que se ofereciam. Dos caminhos da vila de Cascavel, assim descreveu (2006, p.54):
O caminho a seguirmos logo tirado a linha, bordado de matos dos dois lados e arenoso, é bonito; antes das seis horas chegamos ao rio Choró, por uma suave descida chegamos ao vale do rio que, pelo lado por onde entramos, apresentava uma campina rara com moitas de carnaúbas e de cactos de uma forma elegante, de sorte a fazer-nos parar para contemplar o lindo panorama que se nos oferecia: o rio corria embaixo murmurando sobre um leito pedregoso, ou formando duma greda dura, era largo de algumas braças e de fundo desigual, mas não excedendo os joelhos dos cavalos.
O diário de Freire Alemão permaneceu inédito até ser publicado pelo Museu do Ceará, a cargo dos pesquisadores Darcy Damasceno e Waldir da Cunha, conforme Silva Filho, responsável pela realização dos prefácios da obra, produzida em dois volumes.
A importância dos escritos do naturalista em seu diário foi oferecer um conjunto apreciável de informações sobre a geografia do Ceará oitocentista, com os aspectos físicos, a flora, a fauna já retratados, bem como da descrição da vida social do povo cearense no século XIX. Vestígios de um Ceará em formação que podem servir de comparativo com dados mais atuais ou elementos para compreensão do presente por meio do passado.
O Ceará foi uma das províncias visitadas e esquadrinhadas por muitos naturalistas, além da presença da Comissão Cientifica de Exploração, tanto cearenses quanto estrangeiros que por aqui aportaram ou, simplesmente, passaram. Pelas características das atividades desenvolvidas pelos naturalistas e as missões que deveriam cumprir foi possível identificar algumas das contribuições produzidas para formação da Geografia do Ceará.