A primeira implicação do uso do códice diz respeito à mudança sobre a noção de livro. Tal mudança ocorreu em razão do códice dar suporte a uma maior quantidade de texto em relação ao livro em forma de rolo. O fato é que no volumen - o livro em forma de rolo - em razão de sua estrutura material, a quantidade de texto apresentada era limitada. Em muitos casos, um único rolo não era suficiente para o conteúdo integral de uma obra, o que gerava subdivisões, em dois ou mais livros (rolos). Em razão desta limitação, grande parte dos leitores não lia as obras integralmente, uma vez que não entravam em contato com todos os rolos (livros) que constituíam uma obra. Assim, a leitura ficava fragmentada no que se refere à unidade do texto. Com a utilização do
códice esse quadro se modificou. A estrutura material do novo suporte permitia a disposição de uma maior quantidade de texto em um único suporte. Assim, uma obra inteira passava a caber em um só livro. Desse modo, a idéia de leitura completa, para falar como Cavallo (2002), ganhou novo estatuto. Os leitores passaram a ler as obras integralmente e, além disso, a própria noção de leitura completa passou a definir-se como a leitura de um códice do começo ao fim. Em outros termos,
O códice, reunindo num único suporte-livro uma série de unidades textuais orgânicas (uma ou mais obras de um mesmo autor, um conjunto de escritos de mesma natureza) ou não-orgânicas (obras diversas, a ponto de formar a que foi chamada uma “biblioteca sem biblioteca”), determinava uma profunda transformação na noção de livro e de leitura completa, visto que a primeira, não mais imediatamente associável à idéia de uma obra, vinha a coincidir com um objeto-livro no qual era possível colocar escritos; quanto à noção de leitura completa, esta passou a compreender, desde então, o conteúdo inteiro de um códice, mesmo que este, como era habitual, contivesse várias obras (CAVALLO, 2002, p.94).
Essa nova noção, oriunda da forma assumida pelo texto em sua nova materialidade, demandou, segundo Cavallo (2002), a aplicação de dispositivos editoriais nos textos, cuja função era a de “marcar as distribuições no interior de um escrito ou a separar com nitidez textos diversos, ainda mais se fossem heterogêneos” (CAVALLO, 2002, p.94). Dito de outra forma, os dispositivos serviam, entre outras coisas, para demarcar o início e/ou o fim dos textos no interior de um mesmo códice.
Além disso, na leitura de um códice uma das mãos do leitor ficava livre, pois o leitor podia segurá-lo com apenas uma delas, fato que lhe possibilitava escrever enquanto lia, isto é, fazer anotações, glosas e comentários nas margens do texto ou em outros materiais.
Sobre as maneiras de ler no códice, é preciso que se leve em conta, além do próprio suporte (de sua estrutura, da forma assumida pelos textos) o contexto de sua afirmação e difusão pela Europa, pois este contexto diz muito sobre as práticas que o envolveram. Desse modo, é importante, primeiramente, que se tenha em mente o retrocesso cultural romano, a partir do qual, a leitura circunscreveu-se às instituições eclesiásticas. Conforme Parkes (2002) neste período surgiu uma nova atitude em relação ao escrito e a própria leitura. Na Alta Idade Média - período subseqüente à queda do Império Romano e o inicial do medievo – a leitura oral, audível, manteve-se apenas nas
práticas litúrgicas. Isto significa que a maneira silenciosa de ler ganhou espaço e se tornou prática comum entre os membros da Igreja, os mesmos que outrora a haviam negado.
Entre as razões para os homens de fé ler silenciosamente, pesou o fato de considerarem-na mais adequada para o entendimento/compreensão do texto. Segundo Parkes (2002), a opção pela leitura silenciosa ocorreu por questões de ordem prática, assim como pela mudança de atitude em relação ao escrito. As concepções divergentes, de emblemáticos pensadores, retratam o fato:
[...] Enquanto no século IV, Santo Agostinho considerava as letras sinais que representavam os sons e estes sinais das coisas sobre as quais pensamos, já no século VII, Isidoro de Sevilha considerava as letras sinais sem sons, os quais tinham o poder de nos transmitir de forma silenciosa (sine voce) as falas daqueles que estão ausentes. As letras em si mesmas eram sinais de coisas. E a escrita passa a ser, daí em diante, uma linguagem visível capaz de transmitir algo de forma direta para a mente por intermédio do olho (PARKES, 2002, p.106).
Durante a Idade Média, paralelamente a afirmação da leitura silenciosa como se pode perceber nas palavras acima que retratam a concepção de Isidoro de Sevilha, novos dispositivos e formas de estruturar os textos foram criadas. Entre elas, a mais notória talvez seja a introdução de intervalos entre as palavras. Dito de outro modo foi incorporado à cópia dos textos a separação entre as palavras que o compunham. Os responsáveis por tal inovação foram, segundo Parkes (2002), alguns copistas irlandeses. Os textos em latim por eles copiados eram lidos com dificuldade por aqueles que não tinham o latim como língua materna. Desse modo, o fim da cópia dos textos com as palavras unidas visava facilitar o acesso desses leitores ao sentido do texto. Da mesma forma, segundo Parkes (2002), o uso da pontuação foi repensado com o mesmo objetivo. Daí em diante outras mudanças foram introduzidas nos textos até culminarem na principal delas: a invenção da impressão.
Até este ponto, tentei apresentar, de um ponto de vista histórico, dois dos mais utilizados suportes de textos: o livro em forma de rolo e o livro encadernado. Daqui em diante, passo a retratar uma história que nos parece um pouco mais familiar, pois, o objeto enfocado é, justamente, o suporte de textos mais utilizado até os dias atuais. Foram aproximadamente quinze séculos desde o aparecimento do códice até a invenção
da prensa tipográfica. A seguir apresento alguns flashes dessa nova etapa da história da leitura e de seus suportes.