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MACAPABA: Equinócio Solar, Viagens Fantásticas ao Meio do Mundo8 - (Cláudio Russo, Carlinhos Detran, J. Veloso, Gilson Dr., Kid e Marquinhos)

É manhã

Brilho de fogo9 sob o sol do novo dia

Meu talismã, a minha fonte de energia Oh deusa do meu samba, a flor de Macapá No manto azul da fantasia

Me faz mais forte, extremo Norte A luz solar, ilumina meu interior Vou viajar na Linha do Equador Emana ao meio do mundo a beleza A força da Mãe Natureza, é Macapaba10

O rio beijando o mar, encontro das águas Marejando meu olhar

Quem foi meu Deus que fez do barro poema Quem fez meu Criador se orgulhar

Os Cunanis, Aristés, Maracás11,

Foram dez, foram mais, pelo Amapá Um dia, navegando em rios de Tupã A viagem fantasia, dos filhos de Canaã A mágica da terra, a cobiça atraiu Ibéria se enleva no Brasil

A mão de Ianejar12

Na Fortaleza pela proteção da vida Em São José de Macapá.

Brilha Mairi13 a minha estrela preferida

Herança moura em Mazagão

8 Letra (canção) do enredo da Escola de Samba Beija-flor, do Rio de Janeiro, campeã em 2008

fazendo homenageando ao Amapá, mais particularmente a Macapá, que na época completava 250 anos de criação. Conforme a comissão diretora da escola a “meta principal é apresentar uma redescoberta do Brasil, porque foi ali que os colonizadores chegaram primeiro e não nas praias do Leste”. (Fonte: Secretaria de Turismo do governo do Amapá)

9 É um tipo de beija-flor raro, considerado o maior e mais bonito das espécies existentes no Brasil

e que encontra em terras amapaense.

10 Na língua indígena significa terra das “bacabas” (palmeira nativa da Amazônia). 11 Antigas comunidades indígenas que viveram no Amapá.

12 Divindade indígena que teria criado os primeiros índios Waiãpi. 13 Provavelmente significando a Fortaleza de São José de Macapá.

Retiro meu chapéu de bamba e assim O Marabaixo ao Marco Zero cai no samba Soam tambores no tocar do tamborim. [...]

A base histórica dessa “mágica terra” do Amapá, expressada na canção, está relacionada aos dois ciclos de navegação do século XV com a presença de portugueses e espanhóis e no século XVI ampliando-se com os franceses, ingleses, irlandeses e holandeses. Segundo Picanço (1981) em 1499 os espanhóis, sob as ordens de Castela e Aragão, os reis católicos da Espanha, percorreram terras amapaenses, conforme documentado em carta escrita pelo navegador Américo Vespúcio:

Resumidamente diz o Florentino, nessa carta, que, por encargo do referido rei, partiu de Cádiz em 18 de maio de 1499, com duas caravelas para ir realizar descobertas do lado do ocidente, pelo que se dirigiu às Canárias onde fêz provisão do necessário para a viagem. Partindo da ilha Gomera rumo ao sudoeste, ao cabo de 24 dias de navegação avistaram terra que estava distante de Cádiz 1300 léguas. [...] Observaram então um fenômeno por êles nunca visto, tal como aquêle de poderem beber água doce a 25 léguas da terra. [...] Navegando para o sul, deparou-se-lhes a foz de dois grandíssimos rios [...]. Eram êsses dois rios que dulcificavam o mar por serem caudalosos. Magnaghi (Américo Vespucci, estudo crítico) esclarece que Vespucci se refere ao estuário do Amazonas e sudoeste da ilha Caviana14 [..] o outro grande estuário fica à direita da ilha dos porcos.

[...]. (Fonte: “Informações sobre a história do Amapá”, Estácio Vidal Picanço, 1981, grifos nossos)

No ano seguinte, em janeiro de 1500, outro navegador espanhol, Vicente Pinzon percorre o rio Oiapoque, que por muito tempo ficou conhecido com o nome desse navegador e que mais tarde foi o elemento “chave” para o embate entre Brasil e França na célebre questão de fronteira. Assim sendo, afirma o referido autor, que o Brasil teria sido descoberto pelo Amapá.

14 As duas ilhas estavam localizadas em áreas hoje pertencentes ao Pará e Amapá,

1.1 – Amapá: ocupação e conquista na fase pré-territorial

Minha gente de Andaluzia, bonita Sabe quem nos espera lá fora? O tempo E se a gente não for na geleira do tempo Como vamos contar nossa história?

(“Planeta Amapari“ - Zé Miguel/ Val Milhomem / Joãozinho Gomes,1996)

Amapá é uma palavra cujos significados se ligam as nações indígenas que habitavam a hoje região norte do Brasil, no período do descobrimento. Na língua indígena (Nuaruaque), Amapá é uma espécie de árvore (Parahancornia Amapá) da família das apocináceas. Essa árvore dá um leite e um fruto saboroso, também utilizado na medicina popular dos povos da floresta. Na língua tupi, a palavra Amapá significa “o lugar da chuva”; “terra que acaba – ilha”.

A história do Amapá está ligada à história do Pará, visto que a região pertencia a Capitania do Grão-Pará e era considerada como um importante ponto estratégico de defesa do território português na América.

De acordo com Santos (1994, p. 13), desde os tempos pré-coloniais, sempre houve alguma movimentação entre as populações das áreas que viriam a constituir o Amapá. Mas é a partir do século XVII que os portugueses iniciaram a conquista da Amazônia, devido principalmente à presença de um grande número de índios da nação Tucuju15, que passaram então a denominar “Terra

dos Tucujus ou Tucujulândia”, a região compreendida entre o rio Jari e a margem esquerda do Amazonas, desde o Paru até foz.

Ainda no século XVII, os franceses tentam a primeira investida em solo amapaense quando são expulsos da ilha de São Luís, no Maranhão, em 1615 e se estabelecem na ilha oceânica de Maracá, no Amapá. Mais tarde, sob o comando de Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardiere, fazem a primeira tentativa de colonizar a Amazônia, fundando a Colônia de Sinamari, que vem suceder a de Conamana por volta de 1628, esta ficava a cinquenta léguas do Rio Oiapoque e a mais de cem da embocadura do Amazonas. Em 1633, para consolidar sua posição no continente sul americano, os franceses fundam a

Companhia Francesa do Cabo Norte e a cidade de Caiena, com isso procurando ampliar cada vez mais as suas ações colonizadoras na região

Figura 1 – Mapa da região amapaense no século XVII.

Fonte: “Informações sobre a história do Amapá”, Estácio Vidal Picanço, 1981.

Portugal, por sua vez, cria a Companhia do Cabo do Norte como estratégia geopolítica de ocupação do território litigioso. Tendo como fronteira, em sua parte setentrional, o rio Oiapoque ou Vicente Pinzon, “constrói uma fortificação, enviando seus missionários para percorrerem a região dos lagos e do Araguari, com a pretensão colonizadora até aos confrontos da Serra do Tumucumaque” (PICANÇO, 1981, p. 19).

Conforme observação de Picanço (1981, p. 88), em 1676, recuperados das sucessivas perdas do seu território, principalmente em função da invasão holandesa e inglesa em 1655 e 1667 respectivamente, “os franceses tomam novos rumos sobre a pretensiosa França Equinocial”. Sob as ordens do Marques Pierre de Ferroles, encarregado de reconhecer a costa até a Fortaleza de Cumaú, os franceses conquistaram o Forte Orange, construído e defendido pelos portugueses, na margem esquerda do Oiapoque. Prosseguindo rumo ao sul, os franceses chegam até o Forte do Araguari, localizado no rio que lhe emprestou o nome. Ferroles intima o comandante dessa fortificação, com o pretexto de estarem em terras e domínio francês e não português. O comandante

lusitano contradiz a posição francesa, informando que as terras são de domínio de Portugal, em virtude de uma doação feita a Bento Maciel Parente, definindo que “os limites das possessões portuguesas eram no rio do Cabo Orange, chamado pelos portugueses rio Vicente Pinzon e pelos franceses de Oyapoc”. (PICANÇO,1981, p. 88)

Desse modo, o referido autor afirma que, somente por volta de 1688 é que de fato começa a fixação portuguesa na região, com a chegada de uma guarnição para a Fortaleza de Santo Antônio16. Porém, após a assinatura do

Tratado Provincial em 1700, a guarnição foi obrigada a abandonar a referida área visto que o acordo determinava a neutralidade dessa área, mesmo que colonos portugueses ou franceses se estabelecessem na região.

Esse Tratado Provincial foi ratificado em 1701, ficando pendente a questão de limites, mas os franceses não o respeitaram e continuaram incursionando pela região. Os portugueses, por sua vez, protestaram e anularam os dois acordos, ao mesmo tempo em que apelavam a sua aliada Inglaterra, para que interviesse, visando a uma solução negociada da questão. Esse intento lusitano resultou, então, no Tratado de Ultrecht, que estabeleceu o rio Oiapoque como limite entre o Brasil e a Guiana Francesa. Sobre esse fato argumenta Santos (1994, p. 14) que a assinatura do Tratado de Ultrecht, “embora correto e justo foi entendido por segmentos da sociedade francesa como condescendente, vindo influenciar os governantes da Guiana Francesa, que não respeitariam esse acordo, determinando incursões na área”.

Santos (1994) mostra ainda que, garantido aos portugueses o domínio sobre as terras situadas entre os rios Amazonas e Oiapoque, os mesmos voltaram a se estabelecer na região com objetivo principal de realizar uma ocupação efetiva, inclusive posicionando em Macapá um destacamento militar. Por falta de recursos financeiros e pelo descaso da coroa portuguesa em relação à região, pouco foi possível avançar na ocupação.

Como a invasão estrangeira era iminente, autoridades portuguesas resolveram construir uma fortificação imponente na região de Macapá (Fortaleza

16 Localizava-se à margem esquerda do rio Amazonas, na antiga Província do Tucujus, cerca de

quinze quilômetros ao sul de Macapá. A sua planta é atribuída ao missionário jesuíta e matemático Aluízio Conrado Pfeill, e, sob a invocação de Santo Antônio, foi denominado de Forte de Santo Antônio do Macapá. Mais tarde, em 1764 é substituído pela Fortaleza de São José de Macapá. (Fonte: “Informações sobre a história do Amapá”, Estácio Vidal Picanço, 1981)

de São José de Macapá), que seria um dos pontos de referência para salvaguardar o território. Quanto à Fortaleza, Picanço (1981, p. 64) entende que a decisão para construí-la corrobora o “importante feito lusitano na sua tarefa de descobrir, povoar e defender seus descobrimentos e conquistas com tenacidade incomparável na história da Amazônia, nos primórdios coloniais até nossa emancipação política”.

Em termos gerais, mesmo com a presença dos portugueses na região, em 1797 a França volta a reclamar a posse de parte das terras situadas entre os rios Araguari e Oiapoque. Sustentado pelo forte poderio militar, o imperador Napoleão Bonaparte determinou que “o limite entre o Brasil e a Guiana seria pelo rio Calçoene e, ao mesmo tempo, anulou os tratados anteriores, impondo outros, como sendo o rio Araguari o limite entre as duas nações” (SANTOS,1994, p. 23).

Com a invasão francesa a Portugal, a família real portuguesa foge para o Brasil em 1808 e, como represália, em 1809, Caiena foi ocupada por tropas luso-brasileiras com apoio naval inglês. Essa ocupação durou sete anos e, após a deposição de Napoleão, foram reiniciados os entendimentos diplomáticos entre Portugal e França para devolução da Guiana Francesa, ficando definido, em 1817, na Convenção de Paris, “que essas duas nações deveriam tomar providências para fixação definitiva àquele limite (SANTOS,1994, p. 23).

O governo francês, após a independência do Brasil, voltou a reclamar a posse de terras situadas entre os rios Araguari e Oiapoque. Aproveitando-se da Cabanagem, que exigiu a redução da vigilância brasileira na região, os franceses estabeleceram, em 1835, uma guarnição militar na margem de um lago no hoje município de Amapá. O governo de Caiena, mandante da ocupação, comunicou o fato ao presidente da Província do Grão-Pará, o qual apenas formalmente protestou, seguindo orientações do governo central, que mais uma vez buscava a via diplomática para solucionar a questão. De acordo com Santos (1994), a chancelaria brasileira, em 1836, tentou convencer o governo francês da ilegalidade do estabelecimento de uma fortificação na área, sem obter êxito. Diante da insistência dos franceses em permanecer na área e o temor do governo do Brasil, de avanços destes rumo ao sul, foi instalada a Colônia Militar de D. Pedro II, à margem esquerda do rio Araguari, entre seus afluentes,

Aporema e Tracajatuba.

A repercussão da invasão francesa chegou à capital do Império, Rio de Janeiro, revoltando parte da população que, “em represália, boicotou produtos originários da França, causando consideráveis prejuízos aos exportadores desse país, pelo fato de ser o Brasil um grande consumidor de seus produtos” (SANTOS, 1994, p. 33). Esse boicote econômico acabou forçando o governo francês a reavaliar seu posicionamento, tanto que em 1841, retirou suas tropas da região, que um ano mais tarde voltou a ser neutralizada, sendo administrada por um representante brasileiro e outro francês, respectivamente subordinados aos dirigentes do Grão-Pará e Guiana Francesa. A aparente tranquilidade com o acordo de neutralidade sobre a região preocupava o governo brasileiro, que voltou a insistir numa solução diplomática e definitiva para a questão fronteiriça. Tanto prova que, em 1855, enviou a Paris o conselheiro Paulino José Soares de Sousa, visconde do Uruguai, com o objetivo de resolver a questão, porém não obteve êxito, pois a França não mudou de atitude, mesmo com o representante brasileiro propondo o rio Calçoene como o limite entre as duas nações na América do Sul. Nesse sentido, é possível inferir que, apesar de distante em relação ao governo central, a região contestada despertava mais interesse do Brasil, pois:

A ocupação do território pelo Brasil era muito concreta. Em Amapá já havia brasileiros em 1836. Quando foi desativado o posto francês, eles criaram um pequeno povoado na margem esquerda do rio. Em 1849 eram 23 habitantes; em 1857, 158. Em 1847, Procópio Rola e Lira Lobato, de Macapá, era criadores de gado na fazenda Nazaré, no Aporema. Ainda em 1857 em Cunani havia 40 brasileiros e um francês de passagem, e em Caciporé moravam 80 pessoas, dos quais alguns crioulos de Caiena. (SARNEY e COSTA, 2004, p. 135)

Ainda sobre esse aspecto, Picanço (1981, p. 130) afirma que, é interessante também registrar o trabalho realizado pelo médico gaúcho Joaquim Caetano da Silva, sócio de várias sociedades científicas, cônsul-geral do Brasil na Holanda, que desde 1850 se dedicou a estudar a questão do Oiapoque e da fronteira com a Guiana Francesa. Assim, efetuou a leitura, em 1851, no “Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de uma primeira memória sobre a questão – Memórias sobre os limites do Brasil com Guiana Francesa - conforme apresentado no Art. 8 do Tratado de Utrecht”. Joaquim Caetano da Silva continuou aprimorando seu trabalho, até que apresentou à “Sociedade de

Geografia de Paris, em fevereiro de 1858, a versão daquelas memórias com o título de L ’Oyapock et l’ Amazone” (PICANÇO, 1981, p. 130).

Apesar de todas as negociações diplomáticas entre Portugal/Brasil e a França, desde o Tratado de Utrecht (1713-1715), para uma solução das questões fronteiriças no extremo norte (Amapá e Guiana Francesa), tornava-se iminente que a disputa pela região poderia sair do campo diplomático, para um conflito armado entre brasileiros e franceses pela posse do território contestado, o que de fato acaba acontecendo.

1.2 – O Contestado franco-brasileiro: a disputa pela região.

Amapá é o único estado do Brasil que se tornou brasileiro pela vontade de ser brasileiro. Aqui a história se contorceu, houve enfrentamento e sangue. Surgiram heróis e mártires.

(Sarney e Costa, 1999, p. 13)

Os conflitos do Contestado franco-brasileiro em si foram definidores da área territorial atual do Amapá, além de constituir heranças históricas materializadas a partir das relações sociais produzidas pelos atores sociais. Esse processo de construção territorial possui dimensão cultural, portanto simbólica, materializada no espaço e nas relações sociais produzidas por meio dos embates narrados em episódios que mesmo pouco conhecidos, se mantêm vivos pelos recursos da memória. Desse modo é instigante conhecer a história do Contestado franco-brasileiro porque, como já mencionado anteriormente, pouco se sabe desse episódio na longínqua fronteira do norte do Brasil.

A região do Contestado franco-brasileiro compreendia áreas dos hoje municípios de Oiapoque, Calçoene e Amapá e pertencia ao Brasil desde abril de 1713, a partir do tratado assinado na cidade holandesa de Utrecht, no qual o governo francês desistia da referida região em favor de Portugal, então colonizador do Brasil. Assim determinava o art. VIII desse tratado:

A fim de prevenir toda a ocasião de discórdia, que poderia haver entre os vassalos da Coroa de França e os da Coroa de Portugal, Sua Majestade Cristianíssima desistirá para sempre, como presentemente desiste por este Tratado pelos termos mais fortes... qualquer direito e pretensão que pode, ou poderá ter sobre a propriedade das Terras chamada do Cabo do Norte, e Situadas entre o Rio das Amazonas e o de Japoc ou de Vicente Pinzón, sem reservar, ou reter porção alguma

das ditas terras, para que elas sejam possuídas daqui em diante por Sua Majestade Portuguesa. (RIO BRANCO, 2008, p.170)

Figura 2 – Mapa da região do Contestado franco-brasileiro.

Fonte: “Informações sobre a história do Amapá”, Estácio Vidal Picanço, 1981.

Aproximadamente um século mais tarde, em junho de 1815, por resolução do Congresso de Viena, um dos objetivos era estabelecer os limites no norte do Brasil, Portugal devolvia à França, a Guiana até o Oiapoque, limite reconhecido pelo tratado de Utrecht, e os dois países comprometiam-se em fixar definitivamente a fronteira, veja-se no art. 107 da referida resolução:

Sua alteza Real, o Príncipe Regente do Reino de Portugal e do Brasil, para manifestar, de maneira incontestável, a sua consideração particular para Sua Majestade Cristianíssima, se obriga a restituir a Sua dita Majestade a Guiana Francesa até o rio Oiapoque,... A época da entrega desta Colônia a Sua Majestade Cristianíssima será determinada assim que as circunstâncias o permitirem, por uma Convenção particular entre as duas Cortes; e proceder-se-á amigavelmente, com a maior brevidade, à fixação definitiva dos limites das Guianas Portuguesa e Francesa. (RIO BRANCO. In: PICANÇO, 1981, p. 50).

Das decisões serem tomadas, conforme o art. 107, anteriormente mencionado, apenas a devolução da Guiana Francesa, por parte de Portugal/Brasil, se concretizou. Desse modo as questões do limite no extremo norte do Brasil continuam sem uma decisão definitiva. Sobre esse aspecto, argumenta Silva (2010) que:

Em Utrecht, tanto para Portugal quanto para a própria França, o ponto de partida dos limites era o rio do Cabo Orange. Portugal nunca alterou esta convicção. Mas a França mudou de opinião. Mostra ter-se enganado em Utrecht contra seus próprios interesses e produz argumentos que tende a mostrar que o verdadeiro limite estipulado em Utrecht é um pequeno rio completamente ao Noroeste do Cabo Norte. (SILVA, 2010, p. 131)

Após a separação do Brasil de Portugal, a situação do limite com a Guiana Francesa tornava-se cada vez mais difícil e perigosa visto que em 1824 “Perdido com informações tão obstinadas quanto errôneas, o Governo Francês ordenara a ocupação do território cuja propriedade, lhe asseguravam, era da França” (SILVA, 2010, p. 145). Vale ressaltar que para o Governo Francês o verdadeiro limite apresentado no Utrecht não era o rio Oiapoque, mas sim o rio Araguari.

Figura 3 - Mapa da região entre os rios Oiapoque e Araguari.

Fonte: “Informações sobre a história do Amapá”, Estácio Vidal Picanço, 1981.

Finalmente, em 1857, brasileiros e franceses resolveram fazer um levantamento conjunto na região. Entretanto, segundo Picanço (1981), somente o representante brasileiro apareceu para os trabalhos, que se iniciaram em outubro de 1861, já que o representante francês e sua equipe não fizeram sua

parte. No relatório apresentado, constava a exploração científica da costa, do Maracá ao Oiapoque, do Caciporé, do Cunani, do Calçoene, do Maiacaré e do Amapá (município). Em junho de 1862 foi assinada declaração conjunta, estabelecendo jurisdição das cortes de cada país sobre a região já denominada de Contestado.

Conforme acordo político na época, a região contestada ficou como área neutralizada, portanto tanto brasileiros quanto franceses tinham livre acesso, sendo que, para institucionalizar a questão, foram designados dois representantes - um brasileiro, morando em Belém, e outro francês, morando em Caiena. O local-sede do Contestado era então a Vila do Espírito Santo do Amapá atual cidade de Amapá.

Pelo seu isolamento e pelas riquezas naturais, a partir da segunda metade do século XIX, Picanço (1981, p. 98) afirma que a região atraiu “escravos fugitivos, criminosos, desertores e aventureiros, estrangeiros e brasileiros, que se espalharam pela área, garimpando e fundando vários povoados, entre esses a Vila de Cunani, pelo francês Prosper Chatonem”. Em 1885, o também francês Jules Gros (escritor e geógrafo que vivia em Vanves, uma pequena cidade ao sul de Paris), com o apoio de seus habitantes, “que somavam pouco mais de 600 pessoas, proclamou a República da Guiana Independente, mais conhecida como República do Cunani, cujo território compreendia toda a região em litígio”. A proclamação desse “Estado” no continente sul americano teve certa

Benzer Belgeler