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30.09.2013 31.12.2012 Kısa Vadeli Ticari Borçlar

12. ÇALIŞANLARA SAĞLANAN FAYDALAR (devamı)

O amor, que tanto inspira os poetas e que tanto as mulheres querem, enseja a ideia de que de dois se possa fazer Um. “Foi mesmo essa a primeira história da psicanálise: uma histó- ria de amor que deu lugar ao conceito de transferência. Lacan comenta que Freud o descreve como sendo o fundamento e a base do mundo.” Entretanto, o próprio Freud constrói diversas teorias sobre o amor, culminando com a teoria das pulsões, após sua junção dos termos amor, sexo e morte, Para Lacan, em sua teoria do gozo, o amor é considerado uma resposta, mas não uma solução. “Por ser temporal, o amor é, simultaneamente, consciência da morte e tentativa de fazer do instante uma eternidade. [...] Não nos livra da morte, mas nos faz vê-la cara a ca- ra.”144 A perda da sexualidade natural - devido a inscrição do sujeito na linguagem, faz surgir o amor como suplência; ele vem em socorro da relação sexual que não há. O engano do amor é justamente procurar o encaixe, a complementaridade.

Entre o sexo perdido e o amor inventado está a palavra. Se o ser falante ope- ra o sexual com as palavras é porque a sexualidade não é de nenhum modo natural. A sexualidade está capturada nas palavras. Para aqueles que não creem no efeito da palavra, e ainda assim se dizem psicanalistas, Lacan ad- verte: “As pulsões são o eco no corpo, do fato de que há um dizer.” Para nós, psicanalistas, que trabalhamos com a palavra, ele propõe um ato analítico em

143 ŽIŽEK, Slavoj. “Do Che vuoi? à Fantasia: Lacan com De Olhos Bem Fechados.” Disponível em: http://naturezaemclose.blogspot.com/2009/03/do-che-vuoi-fantasia-lacan-com-de-olhos_4816.html

(acesso em 20/03/2010). O texto original, “From Che vuoi? to Fantasy: Lacan with Eyes Wide Shut”, está dispo- nível em: http://www.lacan.com/zizkubrick.htm (acesso em 21/03/2010). “De Olhos Bem Fechados” é o título em português para o filme de Stanley Kubrick, “Eyes Wide Shut”.

144 Octavio Paz, citado por Remor, Carlos A.; et all, Disponível em:

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2673500.xml&template=3898.dwt&edition=13246

que o desejo possa passar ao amor sem reduzir-se às insígnias de um ideal narcísico.”145

Lacan define que amar é dar o que não se tem, o que deve ser complementado por “... para alguém que não quer”. Amar é dar o que não se tem a alguém que não quer. Isso se con- firma pelas diversas situações do cotidiano que desvelam o traumático da posição de ser ama- do. “Ser amado me faz sentir diretamente a fissura entre o que eu sou como um ser determi- nado e o insondável X em mim que causa amor”146. Isso nos é confirmado quando alguém nos declara inesperadamente sua paixão por nós – o que nos chega primeiramente como algo in- trusivo, obsceno. O roteirista do filme “21 Gramas”, Guillermo Arriaga, apreende de forma intensa essa violência de ser amado, e Žižek147 recorta e analisa a seguinte cena:

Paul, que está morrendo devido a um enfraquecimento do coração, docemente decla- ra seu amor a Cristina, que está traumatizada devido à morte recente de seu marido e de dois filhos jovens; quando eles se encontram uma outra vez, Cristina explode em uma reclamação sobre a natureza violenta da declaração de amor:

“Você sabe, você me deixou pensando o dia todo. Eu não pude falar com ninguém por meses e eu mal lhe conheço e já preciso falar com você... E isto é algo que quanto mais eu penso menos eu entendo: por que, diabos, você me disse que gostava de mim? Responda-me, porque eu não gosto de maneira nenhuma de você dizendo isso. Você não pode ir até uma mulher e dizer a ela que você gosta dela. V-o-c-ê-n-ã-o-p-o-d-e. Você não sabe o que ela pas- sou, o que ela sente. Eu não sou casada, você sabe. Eu não sou tudo nesse mundo. Eu tão somente não sou tudo.” (Guillermo Arriaga, 21 Grams, London: Faber and Faber 2003, p. 107.)

Neste momento, Cristina ergue suas mãos e desesperadamente começa a beijá-lo na boca; assim, não é que ela não goste dele e não o deseje sexualmente. O problema para ela foi, ao contrário, é que ela queria isso – o sentido de sua reclamação foi: que direito tem ele de inflamar seu desejo?

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REMOR, Carlos A. et all. Disponível em:

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2673500.xml&template=3898.dwt&edition=13246

146 ŽIŽEK, Slavoj. “Do Che vuoi? à Fantasia: Lacan com De Olhos Bem Fechados.” Op. Cit. 147 Ibidem.

Como podemos evitar ser exposto tão diretamente a esse aterrorizante abismo do Ou- tro, a esse impacto causado pelo encontro com o desejo do Outro? Para Lacan a resposta ao enigma do desejo do Outro é a fantasia. É a fantasia quem nos ensina como desejar, isto é, ela nos permite saber que desejamos tal objeto. “Fantasia não significa que, quando eu desejo uma torta de morango e não posso obtê-la, eu fantasie come-la; o problema é antes, como eu sei, em primeiro lugar, que desejo uma torta de morango? É isso que a fantasia me conta.”148 Mas, Lacan acrescenta que o desejo encenado na fantasia não é do próprio sujeito, mas do desejo daqueles que o cercam e com quem ele interage. A pergunta original do desejo não é diretamente “O que eu quero?”, mas “O que os outros querem de mim? O que eles vêem em mim? O que eu sou para os outros?” A fantasia conta o que eu sou para os meus outros. E mais, a fantasia tem também a função de nos proteger de sermos esmagados pelo Real nu e cru. O que vivenciamos como “realidade” é estruturado pela fantasia, assim a própria realida- de pode funcionar como uma fuga do encontro com o Real. Assim, temos na oposição entre sonho e realidade que “a fantasia está do lado da realidade, e é nos sonhos que encontramos o Real traumático – não é que os sonhos sejam para aqueles que não podem suportar a realida- de, é a própria realidade que é para aqueles que não podem enfrentar (o Real que se anuncia em) seus sonhos.”149 Essa ambigüidade fundamental da noção de fantasia – tela protetora do encontro com o Real, mas também provedora das coordenadas mais fundamentais da capaci- dade de desejar do sujeito – mostra que, fundamentalmente, ela não pode ser subjetivada, e que ela tem que permanecer reprimida para ser operativa.

Na neurose, o uso da lógica positiva a falta (objeto a); a neurose dá uma significação frente à castração, à falta do Outro; há articulação possível entre significante e gozo.

S ◊ a Lógica da fantasia

As fantasias criam uma linguagem própria; não constituem a realidade objetiva, mas mostram quem é o sujeito, como ele vê a realidade, como se coloca frente ao outro. Para man- ter essa solução de compromisso o neurótico obsessivo se vale do desejo impossível, enquan- to que na neurose histérica a solução vai se localizar no desejo insatisfeito. O desejo do neuró-

148 Ibidem. 149 Ibidem.

tico está do lado do desejo inconsciente – este é totalmente vinculado à lei, à metáfora paterna – ao Édipo; está articulado à questão Que queres? (Che vuoi?) - que é sustentada pela fantasi- a, que constitui a principal resposta do sujeito à questão do desejo.

No seminário Mais, ainda, cap. VII, Lacan (1972-73, 1985) apresenta a tese de que a mulher é aquilo que tem relação com Outro ( ).Mas o Outro não é signo de amor. Como já mencionado, o gozo do Outro ( ), não significa gozar de um Outro, mas do corpo do Outro que o simboliza. O corpo (e não o organismo) é o grande Outro. E corpo, para Lacan, equiva- le a sujeito (sempre sujeito do inconsciente).

Para a afirmação de que o gozo do Outro não é signo do amor, Lacan se inspira no poema em prosa “A Uma Razão”, de Rimbaud, onde cada versículo termina com "Um novo amor”. Lacan (1972-73, 1985, p. 26) pontua que aí o amor é o signo de que se troca de razão, “e é por isso que o poeta se dirige a essa razão. Mudamos de razão, quer dizer, mudamos de discurso”. O gozo do Outro, o do Outro sexo e do corpo que o simboliza, não é signo do a- mor. Mas o amor é um signo. Amor é o signo de que trocamos de discurso, de que se troca de razão. Em que sentido? Gerbase (in SILVA, org., 2007, p. 71) diz que “um sujeito enamora- do, apaixonado, muda de razão, ou como diz o senso comum, perde a razão; não é o mesmo depois de uma paixão”. Temos então, num primeiro sentido o imaginário, o laço entre duas pessoas. Mas, “tomaria outro sentido que chamamos simbólico e que é a relação do amor ao saber, que também chamamos de laço social, e que Freud chamou de transferência. Então, o amor é o signo de que se muda de razão pode querer dizer que a transferência é o signo de que se muda de discurso” (GERBASE, in SILVA, org., 2007, p. 71).

Dado que todo discurso tem pontos de fuga, de furos – no sentido do tonel das danai- des, deixam escapar – que dão sustentação real a cada um deles, é “que um discurso adquire seu sentido, ou seja, pelo fato de seus efeitos serem impossíveis de calcular”. No texto “Intro- dução à edição alemã [...]”, in Outros Escritos (2003), Lacan afirma que o cúmulo do sentido, que é perceptível, é o enigma; e o signo só tem alcance por ter que ser decifrado. Para se deci- frar é preciso que a sequencia dos signos ganhe sentido. Mas, apesar do valor que tem o esta- lão do sentido, “chegar a ele não o impede de fazer furo. Uma mensagem decifrada pode con- tinuar a ser um enigma” (LACAN, Outro Escritos, 2008, p. 550).

“Amor, desejo e gozo são signos que andam juntos, são signos dos discursos” (GER- BASE, in SILVA, org., 2007, p. 71). Como podemos ler estes signos no discurso apresentado na obra que Marguerite Porete nos apresenta? Como se dá aí o gozo de Deus para quem busca somente o amor divino?

Benzer Belgeler