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ÇALIŞAN PROFİLİ

O eixo “Promoção e Difusão Cultural” objetivou induzir uma formação de plateia para artistas locais de todas as linguagens artísticas (teatro, dança, música, literatura, artes visuais, audiovisual, além da cultura tradicional popular). Tal fenômeno aconteceria a partir da ampliação de possibilidades de consumo cultural pela população cearense.

O intuito deste eixo evidencia a vontade do Estado na indução da construção de um habitus cultural na população, visto o interesse em aproximar os sujeitos que vivem à margem do consumo cultural de práticas artísticas variadas legitimadas pelo Estado. Ao mesmo tempo, demonstra uma certa preocupação da secretaria em promover uma estruturação do campo artístico nos municípios do interior e em bairros de Fortaleza, localizados na periferia da produção cultural hegemônica do estado.

A visibilidade artística das localidades tomou palco no Circo Cultura em

Movimento, carro-chefe entre os instrumentos de difusão cultural do Programa “Cultura em Movimento: SECULT Itinerante”. O circo viajou cerca de 38 cidades do Ceará e 25 bairros de Fortaleza, permanecendo nas cidades e bairros por um período de 3 dias e abrindo espaço para atrações culturais locais153, como também de artistas e grupos convidados pela pasta estadual de cultura (SECULT, 2006).

153 Os artistas interessados em participar do Circo Cultura em Movimento precisavam realizar sua inscrição e

127 Na impossibilidade de o Circo visitar todos municípios do estado, o Ônibus

Cultura em Movimento, originalmente idealizado para funcionar como “escritório itinerante” para cadastro de profissionais da cultura, funcionou também como agitador da programação do órgão nas cidades em que o Circo não visitou. Ao final, o veículo visitou 182 municípios, 3 bairros de Fortaleza, e cadastrou cerca de 20 mil profissionais (SECULT, 2006).

O caso do Circo é um exemplo emblemático para pensarmos as críticas realizadas ao caráter itinerante das práticas de descentralização da SECULT. Na perspectiva de alguns agentes, a itinerância não garantia uma prática de manifestação e fruição artística duradoura às localidades pelas quais passava. Tal crítica buscava desconstruir, portanto, a noção encampada pela gestão de que o fomento de um habitus da prática e do consumo cultural nos espaços ocupados garantiria perenidade. Tais apontamentos foram textualizados pelo Jocélio Leal, em sua coluna no jornal O Povo, acerca da presença do Programa “Cultura em Movimento: SECULT Itinerante” que, em março de 2006, chegava à capital do Ceará. Nessa perspectiva, o colunista questionava: “Importante que as atividades consigam ir além do caráter próprio dos formatos itinerantes. Quando o circo for embora o que vai ficar nos bairros?154”.

Figura 2 – Circo e Ônibus do Projeto “Cultura em Movimento: SECULT Itinerante”

Fonte: Vídeo Institucional “Cultura em Movimento: SECULT Itinerante”.

A SECULT também levou Exposições de Artes Visuais para os municípios do interior e para os bairros da periferia de Fortaleza. O projeto circulou em 25 cidades e apresentou três exposições: “Pedras que Cantam”, exposição realizada em conjunto por 25

154 AVENIDA paulista na Dom Manuel. Jornal O Povo. Fortaleza, 20 de março de 2006. Disponível em: <

http://www.opovo.com.br/app/colunas/verticals/a/2006/03/20/noticiasverticalsa,577616/avenidapaulistanadomm anuel.shtml>, acesso em 10 Jun 2016.

128 fotógrafos cearenses155; “Trajetórias”, exposição das xilogravuras do artista cearense Aldemir Martins e do polonês, radicado no Ceará, Maciej Babinski156; e “Ceará, Terra da Luz”, exposição que contou com 50 imagens de fotógrafos cearenses contemporâneos157. Além destas três exposições, mais três montagens foram expostas apenas na região do Cariri: “Mar infinito”, exposição montada em Juazeiro do Norte com os registros fotográficos de Gentil Barreira e as xilogravuras de Francisco de Almeida; “95 anos do Theatro José de Alencar”, montada no Crato, a exposição contou com fotografias e objetos que narravam a memória do Theatro; e “Infinito Cariri”, instalada em Juazeiro do Norte, a exposição realizou a mostra de 21 artistas da região cearense (SECULT, 2006; LEITÃO, 2014).

A montagem das exposições nos municípios é um exemplo da tentativa da secretaria em estruturar nos cidadãos das localidades visitadas um habitus cultural específico, aqui, no caso, a prática de visitar e assistir exposições. Tal reflexão pode ser exemplificada na fala de Dodora Guimarães, Coordenadora do Núcleo de Artes Visuais do programa “Cultura em Movimento: SECULT Itinerante”: “[...] em muitos destes lugares, eu estou certa de que foi nós que inauguramos esse hábito de se ver exposição158”.

Na capital, o projeto montou 16 exposições em 12 bairros, fruto de obras de artistas cearenses contemplados no “Edital de Incentivo às Artes”, passando pelo acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS) e também a partir de trabalhos das oficinas de fotografia e artes plásticas promovidos pela secretaria.

Outro segmento de ação do eixo de “Promoção e Difusão Cultural”, preocupado com o reconhecimento e fortalecimento dos bens imateriais e a preservação da memória cultural do povo cearense, regulamentou, em 27 de agosto de 2003, a Lei nº 13.351 que garante o registro dos Mestres da Cultura Tradicional Popular. Este mecanismo legal compreende a seleção via edital de 12 mestres, pessoas com conhecimento e técnicas necessárias para garantir a produção e preservação das manifestações culturais tradicionais. Uma vez selecionados, os mestres são congratulados com um diploma de “Tesouro Vivo” e são inscritos em livro específico, além de um auxílio financeiro que pode ser temporário ou permanente.

155 Os municípios que receberam a exposição foram: Limoeiro do Norte, Quixeramobim, Eusébio, Icó,

Maranguape, Tauá e Irauçuba.

156 Os municípios que receberam a exposição foram: Aurora, Ipueiras, Guaiúba, Jijoca, Várzea Alegre, Viçosa do

Ceará.

157 Os municípios que receberam a exposição foram: Acaraú, Baturité, Beberibe, Canindé, Iguatu, Pacajus, Ipu,

Independência.

158 Depoimento retirado do vídeo institucional que narra as experiências e ações desenvolvidas no bojo do

129 Além do reconhecimento, a ação encampada pela pasta estadual de cultura objetivou uma interlocução dos “tesouros vivos” com segmentos da população mais jovem. Nesse sentido, as solenidades, como é o caso do I Encontro dos Mestres dos Mundos, ocorrido no Vale do Jaguaribe, aconteciam em escolas, com a promoção de conversas entre alunos, professores, mestres e convidados.

Como já sinalizado, muitas das atividades aconteceram em bairros de Fortaleza de forma concomitante às ações executadas nos municípios do interior do estado. Entre o período de fevereiro a setembro de 2006, a SECULT propôs o projeto “SECULT nos Bairros”, uma espécie de Projeto SECULT Itinerante na capital. O intuito da pasta era percorrer com uma programação 50 bairros da cidade. As atividades foram desde encontros e oficinas que buscavam resgatar a memória dos bairros, passando pelas visitas guiadas que tinham como intuito levar os bolsistas do Projeto Talentos da Cultura, residentes em locais de certa vulnerabilidade, aos equipamentos culturais de referência existentes na cidade, até a realização de Cinema nos Bairros, visando suprir a ausência de salas de cinema nas periferias (LEITÃO, 2014).

É interessante, nessa perspectiva, pensar que as práticas descentralizadoras evidenciavam não simplesmente a desigualdade de acesso aos bens culturais entre capital e demais cidades, mas também a desigualdade que permeia a geografia da própria cidade de Fortaleza.

Benzer Belgeler