5. TARTIŞMA, SONUÇLAR VE ÖNERİLER
5.2. Çalışmanın Temel Bulguları
O fundo de emancipação foi um dispositivo legal criado pelo governo imperial por força da Lei do Ventre Livre em 1871, para garantir a liberdade de quantos escravos fosse possível, anualmente. Para a distribuição dos recursos financeiros destinados às alforrias, o governo tomava como base a estatística da população escrava das províncias, municípios e freguesias.
33 “Regulamento é o conjunto de regras ou disposições estabelecidas para que se executem as leis, por
elas se determinando as medidas e meios ou se instituindo as providências para que se tornem efetivas as determinações legislativas.” SILVA, 2008, p. 1192.
34 “Art. 23. Serão anualmente libertados em cada Província do Império tantos escravos quantos
corresponderem à quota anualmente disponível destinada para a emancipação. § 1°. O fundo de emancipação compõe-se:
1°. Da taxa de escravos.
2°. Dos impostos gerais sobre transmissão de propriedade dos escravos.
3º. Do produto de seis loterias anuais, isentas de impostos, e da décima parte das que forem concedidas de ora em diante para correrem na capital do Império.
4°. Das multas impostas em virtude desta lei.
5°. Das quotas que sejam marcadas no orçamento geral e nos provinciais e municipais. 6°. De subscrições, doações e legados com esse destino.
§ 2°. As quotas marcadas nos orçamentos provinciais e municipais assim como nas subscrições, doações e legados com destino local serão aplicadas à emancipação nas Províncias, Comarcas, Municípios e Freguesias designadas.”
35 “Art.27. § 1º. Na libertação por famílias, preferirão:
I. Os cônjuges que forem escravos de diferentes senhores;
II. Os cônjuges que tiverem filhos, nascidos livres em virtude da lei e menores de 8 anos; III. Os cônjuges que tiverem filhos livres menores de 21 anos;
IV. Os cônjuges com filhos menores escravos; V. As mães com filhos menores escravos; VI. Os cônjuges sem filhos menores. § 2º. Na libertação por indivíduos preferirão: I. A mãe ou o pai com filhos livres.”
Para os escravos interessados em conquistar a liberdade por esse meio, a Lei fazia algumas restrições. Os cativos alforriados por seus senhores, sob condição, os indiciados em crime, mencionados na Lei de 10 de junho de 1833, os pronunciados em sumário de culpa, os condenados, os fugitivos, os habituados à embriaguez e os que estivessem em um litígio de liberdade, mesmo classificados, seriam preteridos na ordem de emancipação.36
A classificação daqueles que seriam libertos era feita por uma junta composta pelo presidente da câmara, do promotor público e do coletor. A Lei dizia ainda que se houvesse reclamações, as mesmas deveriam ser prestadas perante o juiz de órfão, no prazo de um mês após a conclusão dos trabalhos da junta. Essas reclamações poderiam ser tanto dos senhores quanto dos escravos, mediante um curador.
Entre os documentos reunidos para essa pesquisa foram localizados alguns que fazem referência a esse tipo de questão. Em 1877, Maria Benedita de Macedo, moradora na cidade de Mariana, apresenta uma reclamação contra a classificação realizada em favor de uma escrava de sua propriedade, chamada Leonor, com idade de 50 anos. Maria Benedita acusa a junta responsável pela classificação de ter aceitado indevidamente o pedido de Leonor, só porque ela apresentou pecúlio. A proprietária possuía também outra escrava chamada Delfina, mãe de duas crianças menores, e estava insatisfeita porque sua pretensão era que a família, mãe e filhos, fosse beneficiada pela Lei. Desse modo, pedia que fosse reformada a classificação de Leonor, e para isso recorreu ao artigo 27 do Decreto n° 5.135 de 13 de novembro de 1872, que oferecia prioridade às famílias no momento da classificação. A reclamação apresentada por Maria Benedita foi aceita, e a cativa Delfina juntamente com os menores foram então os favorecidos.37
Eram também recorrentes as discordâncias sobre o preço da indenização a ser paga pela liberdade do escravo. O artigo 40 também do Decreto n° 5.135 orientava que a avaliação do cativo levaria em conta idade, saúde e profissão, mas às vezes havia divergências sobre o valor estipulado, e nesse caso era necessário o arbitramento. O coletor das rendas do município de Mariana, Coronel Manoel de Lanna Starling, no ano de 1877, fez uma intimação ao proprietário Joaquim Martins da Silva, com o intuito de se fazer um acordo sobre o valor da indenização da cativa Adriana, juntamente com sua
36 Decreto n° 5.135, 1872, Art. 32. Disponível em:
<http://www2.camara.gov.br/legislacao/publicacoes/doimperio>. Acesso em: 15 mar. 2009.
filha Maria. O artigo 3738 do Decreto n° 5.135 de 1872 foi mencionado pelo coletor das rendas, fornecendo apoio legal para a questão.39 Vários documentos envolvendo a liberdade de escravos fazem referência tanto à Lei do Ventre Livre quanto ao mencionado Decreto, e os gastos referentes a esse tipo de questão eram pagos por recursos do próprio fundo de emancipação.
Os artigos da Lei do Ventre Livre e do referido Decreto forneciam as diretrizes sobre a arrecadação de recursos e o modo como seriam distribuídos pelas províncias e municípios, mas a aplicação do fundo de emancipação não apresentou resultados satisfatórios na primeira década de vigência da Lei. Robert Conrad, em pesquisa realizada sobre os últimos anos da escravidão brasileira, aponta para a ineficiência de aplicação dos recursos para as alforrias, e as razões alegadas pelas autoridades eram diversas, entre elas estavam as queixas de que os funcionários relutavam em trabalhar mais, sem ter aumento da remuneração. De acordo com Conrad:
Em maio de 1876, quase cinco anos depois da Lei Rio Branco ter sido aprovada, o governo anunciou, por fim, que os primeiros 1.503 escravos, cerca de 1 em cada mil registrado, haviam sido libertados pelo fundo, esperando-se que mais 2.500 fossem libertados brevemente. Em meados de 1877, apenas mais 755 tinham sido libertados pelo fundo, perfazendo um total de apenas 2.258 escravos durante um período de quase seis anos. Mais de 6 mil contos haviam sido reunidos no fundo durante 5 anos fiscais, mas menos de 1.295 contos tinham sido aplicados diretamente na libertação de escravos (CONRAD, 1975, p. 138).
Somente no início da década de 1880, quando os movimentos abolicionistas ganharam mais impulso, é que o fundo passou a ser mais usado em prol da liberdade. Segundo dados apresentados pelo autor, a região centro-sul possuía os preços mais elevado de cativos. Na Província Mineira, o custo médio de libertação pelo fundo era de 909$000, sendo o valor mais elevado dentre todas as regiões do Império (CONRAD, 1975, p. 363).
Os documentos de nossa amostragem que tratam de classificação de escravos para a liberdade através do fundo de emancipação em Mariana apresentam valores que variam de 500$000 a 1:500$000. A idade, a saúde e a ocupação do cativo eram
38 “Concluída a classificação do modo acima prescrito, o coletor ou o empregado fiscal de que fala o Art.
28 promoverá, nas comarcas gerais, ante o juízo municipal, salva a alçada para o julgamento final, e, nas comarcas especiais ante o juízo de direito, o arbitramento da indenização, se esta não houver sido declarada pelo senhor, ou, se declarada, não houver sido julgada razoável, pelo mesmo agente fiscal, ou se não houver avaliação judicial que o dispense.”
consideradas no momento da classificação, e o valor da indenização a ser paga ao proprietário estava diretamente relacionado às condições físicas do escravo a ser beneficiado. Para a década de 1870, só foram encontrados dois documentos referentes a acordos de indenização, os demais são todos da década de 1880. Os processos de tal natureza, localizados no decorrer desta pesquisa, são reduzidos, o que não permite tecer qualquer conclusão, mas de todo modo podem ser compreendidos como indícios de que, no decorrer da década de 1870, o fundo de emancipação pouco foi utilizado em Mariana, e de que somente na década seguinte houve um acréscimo no número de cativos realmente libertos com os recursos arrecadados para esse fim. Para uma melhor compreensão sobre a utilização dos recursos financeiros aplicados nas alforrias, seria necessária uma consulta mais detida à documentação diretamente relacionada ao fundo de emancipação de Mariana.