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Caracterização

Conforme relatório do projeto Lixo e Cidadania: Combate à Fome Associado à Inclusão Social dos Catadores e a Erradicação de Lixões, a antiga área de descarte do lixo de Natal, é limitada pelos quatro bairros mais pobres e violentos do Município: Guarapes, com 9.344 habitantes; Felipe Camarão, com 51.007 habitantes, Planalto, com 15.910 habitantes, Cidade Nova, com 15.946 habitantes (SEMURB, 2003 apud FUNDAÇÃO ZERBINI, 2003). Toda esta área localiza-se entre as coordenadas 5º49’20” a 5º52’00” de latitude sul e 35º13’20” a 35º16’49” de longitude oeste, situando-se entre a ZPA 4 e ZPA 1, que são dunas de Proteção Ambiental na Zona Oeste da Capital, totalizando 34 hectares, tendo a Avenida Central, pertencente ao bairro de Cidade Nova, como principal via de acesso. Por essa razão, a maioria das referências ao aterro de lixo, faz menção a sua localização como sendo no bairro de Cidade Nova.

A área é composta geologicamente por tabuleiros arenosos pertencentes à Formação Guarapes/Grupo Barreiras e Paleodunas da Formação Potengí, compostos por extensos cordões de dunas. A disposição de resíduos nessa área se processou por cerca de 29 anos, com o aterramento de aproximadamente 6.117.000 (seis milhões e setecentos e dezessete mil toneladas) de resíduos até o ano de 2003, formando uma camada de lixo que varia de 10 a 35 metros de altura, o qual recebia cerca de 1.598 toneladas de resíduos sólidos por dia, sendo estes dispostos sem nenhum tipo de tratamento em uma área já saturada.

Fotografia 1 – Mapa da Região Metropolitana de Natal

Fotografia 2 – Vista geral do Lixão de Cidade Nova (maio de 2003)

CASA DE OFÍCIOS ÁREA RECUPERADA OFICINA GALPÃO BALANÇA ESTEIRA ÁREA ATIVA

Segundo o já mencionado relatório, as atividades de catação desenvolvidas no aterro tinham uma estreita ligação com a atividade comercial desenvolvida nos seus arredores. Contava ela com uma diversidade de pontos que comercializavam materiais recicláveis retirados do aterro, além de outros tipos de comércio, tais como: venda da lenha e do carvão produzido no aterro, catação e venda de matéria orgânica e frete de material. Conforme estudos de Sérgio Pinheiro, na época em que presidiu a Urbana, havia uma estreita ligação entre as atividades no aterro e as comunidades a sua volta, uma vez que 60,15% dos catadores tinha uma renda mensal média superior a R$ 120,00 (cento e vinte reais) e que 91,46% deles morava nos bairros anteriormente mencionados, que circundavam o local onde se situava o aterro de lixo.

No ano de 1998, a União Federal ajuizou uma Ação Civil Pública, que tramitou na 5ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio Grande do Norte, sob o n. 98.392-4, contra o Município de Natal-RN, contra o Município de Parnamirim e contra a Companhia de Serviços Urbanos de Natal (URBANA), requerendo, dentre outras exigências, a construção de um aterro sanitário e o fechamento do aterro de lixo de Cidade Nova. Dentre as razões apontadas destacava-se: o fato do lixão se encontrar próximo às pistas do Aeroporto Internacional Augusto Severo, infringindo desta forma as disposições normativas concernentes ao meio ambiente e aos limites de segurança no entorno dos aeroportos e em razão da falta de tratamento adequado ao lixo que ali era depositado, que resultava em uma agressão ao meio ambiente, traduzida mais diretamente pela infiltração de resíduos no solo, que contaminavam os lençóis freáticos, bem como pela diminuição da salubridade e da qualidade de vida na área.

Em considerando essas razões que perduraram quase três décadas (29 anos), em 21 de outubro de 1999, o Juízo da 5ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio Grande do Norte sentenciou a referida Ação Civil Pública, condenando o Município de Natal-RN, dentre outros, a construir um aterro sanitário que observasse as normas técnicas pertinentes, que respeitasse o limite de 20 km de distância do Aeroporto Internacional Augusto Severo, e, determinou ainda, o prazo de um ano, a contar de dois de janeiro de 2000, para que o novo aterro sanitário fosse construído e entrasse em funcionamento, além da interdição oficial dos lixões utilizados pelo município. Apesar da referida determinação judicial, o aterro de lixo de Cidade Nova só veio a ser fechado em 02 de agosto de 2004.

No decorrer da referida Ação Civil Pública, ficou provado por meio de Laudo Técnico que o aterro de lixo de Cidade Nova não tinha condições de funcionamento, uma vez que não tinha as mínimas medidas necessárias de proteção ao meio ambiente e à saúde pública, conforme revela o trecho da sentença, ora transcrito:

Apesar do Município de Natal e da Urbana ora alegarem que o lixo desta cidade tem o seu destino final em ‘aterro controlado’ (v.g. fls.100), sendo feito um ‘tratamento sério’ (v.g. fls.101), ora argumentarem que o depósito dos resíduos é feito em um ‘aterro sanitário’ (v.g. fls.540), a verdade exposta nos autos é que existe um grande ‘LIXÃO’ no bairro de Cidade Nova, não havendo, pois, as mínimas medidas necessárias a proteção ao meio ambiente e à saúde pública. As respostas dos expertos, contidas no laudo pericial, são bem reveladoras da realidade existente [...]. (BRASIL. Ação civil pública, n. 98.392-4, 1998).

É importante observar que, ao analisar a documentação acostada aos autos da referida Ação Civil Pública, denota-se que o fato que realmente moveu a União Federal a ajuizar a referida Ação Civil Pública foi o problema relativo à segurança do tráfego aéreo, em razão dos altos índices de colisões que estavam existindo entre urubus, quero-quero, bacuraus, corujas, gaviões e outros pássaros com aeronaves, nas imediações do Aeródromo Augusto Severo; em segundo plano, denota-se a preocupação com o meio ambiente, mas em nenhum momento se aborda diretamente o problema social daquelas populações que sobreviviam do lixo nos aterros.

Com a determinação judicial de fechamento do Lixão de Cidade Nova foi dado início a construção do aterro sanitário da Região Metropolitana de Natal, para exploração dos serviços públicos de tratamento e destinação de resíduos sólidos urbanos, por meio de concessão pública com prazo de vinte anos. Em dezembro de 2002, foi celebrado convênio entre os Municípios de Natal e Ceará Mirim para implantação do Aterro. Em 24 de julho de 2004 foi inaugurado o aterro sanitário em Massaranduba, município de Ceará Mirim, a 30 km de Natal.

De acordo com os dados da Fundação Zerbini, o aterro de lixo de Cidade Nova foi fechado em 02 de agosto de 2004, ficando funcionando apenas uma estação de transbordo. Foi destinado ainda àquele local a podação de árvores recolhida na cidade de Natal, onde um grupo catadores faz o reaproveitamento do material, visando à produção e à comercialização de carvão e lenha que são vendidos nos arredores. É importante ressaltar que, até o momento do fechamento do referido aterro, ainda se encontravam trabalhando e vivendo naquele local, cerca de 356 catadores que faziam a separação de resíduos sólidos (materiais recicláveis), trabalhando ainda de forma insalubre, em meio a animais e sem qualquer equipamento de proteção especial.

Benzer Belgeler