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A verticalização no Brasil surge do desejo de novos ícones de progresso e desenvolvimento econômico, e apesar de não nascer do bojo das discussões do movimento moderno brasileiro, é através da nova linguagem arquitetônica que irá consolidar sua imagem enquanto tipo arquitetônico e reafirmar a condição de metrópole em formação dos grandes centros urbanos nacionais, como Rio de Janeiro e São Paulo. O aparecimento do edifício alto e o processo a este vinculado, no Brasil, relaciona-se a dois fatores interdependentes, o primeiro deles de ordem econômica – a possibilidade de multiplicação do solo urbano – e, o segundo, de ordem simbólica – a expressão de modernidade e progresso de uma grande metrópole.

Os primeiros edifícios altos no Brasil surgem na década de 1920: Edifício Martinelli (1924- 29), com 25 andares, no Centro de São Paulo; e o Edifício A Noite (1929), no Rio de Janeiro, com 24 pavimentos; ambos destinados ao comércio e serviços. Diferem da experiência americana por serem construídos em cimento armado, e apesar de contemporâneos apresentam linguagens distintas, sendo o primeiro de gosto eclético e o segundo alinhado à geometria do Art Decó.

Edifício Martinelli, São Paulo, 1924-9; Edifício A Noite, Rio de Janeiro, 1925. figura31.

Fonte: Google Images .

Atique (2005, p.39) afirma que o edifício de apartamentos nos grandes centros também na década de 1920, foi inicialmente rejeitado pela sociedade, pois era associada ao coletivismo e à moradia em cortiços verticais.

41 Galesi, por sua vez, comenta que nestes anos, enquanto a verticalização terciária correspondia à intensificação de um aproveitamento comercial já concentrado nas áreas centrais, a moradia vertical representava uma verdadeira revolução em relação às formas de habitação até então predominantes. O estilo empregado na forma dos edifícios multifamiliares construídos nas décadas de 1920 e início dos anos de 1930 visavam a aceitação e conquista de um público burguês ainda resistente à moradia em altura, portanto, carregavam a mesma ordem formal e decorativa dos palacetes ecléticos, características valorizadas no universo comum da sociedade.

Construídos em concreto armado, carregados de ornamentos ecléticos e com disposição em planta semelhante à encontrada na casa, assumindo uma “mesma postura patriarcal e escravocrata, [as residências estavam] apenas dispostas umas sobre as outras, e não lado a lado como era tradicional, necessitando agora da ajuda do elevador” (VERÍSSIMO; BITTAR, 1999, p. 72).

Era necessário e primordial conferir aos apartamentos exclusividade e luxo, já que esta modalidade de moradia causava repulsa nas elites, que condenavam os cortiços, estalagens, casas de cômodos e todo agrupamento coletivo de espaços de morar. (VILLA, 2006)

Palacete Riachuelo, 1925; Edifício São Luiz, 1944, de Jacque Pilon. figura32.

Fonte: Google Images .

Nos anos de 1930, explica Galesi, com o emprego do concreto armado, o edifício alto consolida-se como opção de moradia vertical para a classe média, e, assim como Villa (2006) afirma que a contribuição de arquitetos modernistas como Rino Levi, Gregori Warchavchik, Álvaro Vital Brasil, entre outros, foi crucial na aceitação deste novo modelo, pois, por meio do de diversas estratégias, conseguiam conciliar aproveitamento do solo, eficiência construtiva e qualidade espacial em alguns edifícios exemplares.

42 Rino Levi: Edifício Columbus, 1930; Edifício Higienópolis, 1935; Edifício Sarti, 1937. figura33.

Fonte: Portal Vitruvius .

Alvaro Vital Brazil: Edifício Esther, 1936; Gregori Warchavchik: Edifício Mina Klabin, figura34.

1935-9. Fonte: Google Images .

Segundo Villa (2006), a partir das décadas de 1940, mas principalmente nos anos 1950 e 1960, definiu-se um tipo de edifício alto residencial no qual a imagem de habitação promíscua seria definitivamente abandonada. A linguagem moderna, com fachadas desprovidas de ornamentos e caracterizadas por jogos cromáticos oriundos dos sistemas de aberturas e de filtros solares; plantas livres; pilotis que permitiam um rico tratamento da plantá térreas, quase sempre marcadas por densa vegetação e pela justaposição entre espaços públicos e privados, ofuscaram as antigas formas ecléticas dos edifícios dos anos

43 1920 e 1930. Um caso exemplar, de como as classes média e alta passam a aceitar esta forma de moradia, sob a égide de uma linguagem moderna, é o aristocrático bairro de Higienópolis na região central de São Paulo, originalmente ocupado por vilas ecléticas, é verticalizado a partir da segunda metade dos anos 1940.

Adolf Franz Heep: Edifício Lausanne, 1953; Vilanova Artigas: Edifício Louveira, 1946; figura35.

Fonte: Portal Vitruvius .

Rio de Janeiro, Copacabana na década de 50. Fonte: Google Images figura36.

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Esta situação se dá praticamente em todos os grandes centros urbanos, como Recife, aonde, desde a década de 1950, vê-se um processo semelhante. Veríssimo e Bittar (1999) afirmam que é nesta década que os programas de financiamento vão possibilitar a aquisição

44 da casa-própria em todo o Brasil e a proliferação de edifícios residenciais cresce em ritmo acelerado e dimensionamento espacial mínimo, visando o máximo lucro por parte dos empreendedores.

Acácio Gil Borsói: Edifício Califórnia, 1953; Delfim Amorim: Edifício Acaiaca, 1957. figura37.

Fonte: Google Images .

Assim como vimos no âmbito internacional, a consolidação do edifício residencial em altura a partir dos anos 1950 se manifesta no que diz respeito à sua forma, predominantemente por meio do prisma retangular ou quadrangular. Será somente a partir do final dos anos 1970 que a forma deste tipo de edifícios adquire, em muitos casos, maior complexidade, marcada por uma diversidade de materiais, soluções volumétricas como, escalonamentos, adições e subtrações. Espalhados pelas cidades brasileiras ilustram exemplos dessa transformação os edifícios Vila Mariana (1976), de Wandenkolk Tinoco, no Recife; Edifício Le Corbusier (1986-92), de Éolo Maia em Belo Horizonte; Quinta do Marquês e São Paulo, projetados e construídos nos anos 1980 por Aflalo e Gasperinni na cidade de São Paulo; assim como os edifícios de Carlos Bratke: Burity e Equinox da década de 80 e Rodésia dos anos 1990 nesta mesma cidade.

É certo que este breve percurso deixa inúmeras lacunas e simplifica um processo de conhecimento específico da forma em edifícios altos residenciais no Brasil, no entanto, fornece bases para a análise dos edifícios construídos na cidade de João Pessoa, que tem participado do processo de verticalização desde o final da década de 1950, quando iniciativas financeiras como FSH e BNH possibilitaram a aquisição da casa própria e gradativamente as classes média e alta passaram a aceitar o edifício de apartamentos como

45 novo tipo do morar moderno. Trataremos sobre a forma destes edifícios mais adiante, sabendo que os primeiros exemplares tinham como ponto de partida o prisma retangular moderno e que, de acordo com Chaves (2008), entre as décadas de 1970 e 1980 este modelo seria desenvolvido apoiado sobre um novo repertório formal.

Wandenkolk Tinoco: Edifício Villa Mariana, 1976; Edifício Villa da Praia, 1977, Recife. figura38.

Fonte: Portal Vitruvius .

Eolo Maia: Edifício Le Corbusier, Belo Horizonte, 1984-92. figura39.

46 Aflalo & Gasperinni: Edifício Quinta do Marquês e Edifício São Paulo, 1980. figura40.

Fonte: DINIZ, 2011. .

Carlos Bratke: Edifício Burity, 1980, São Paulo; Edifício Equinox e Edifício Rodésia, figura41.

1990, São Paulo. Fonte: DINIZ, 2011 .

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CAPÍTULO 2.

Benzer Belgeler