Comandado pela arcebispo espiritano, Mons. Marcel Lefebvre, tinha como secretário geral, e um o verdadeiro motor do grupo, D. Geraldo de Proença Sigaud,391
arcebispo de Diamantina392. É D. Sigaud quem assina a circular que é reproduzida abaixo, onde o grupo se apresenta, mas não com o nome de Coetus Internationalis Patrum. Na circular aparecem os nomes dos cardeais que apoiavam formalmente a iniciativa, numa clara intenção de dar-lhe maior legitimidade e de atrair novos membros para o grupo. Este apresenta-se modestamente como um grupo de estudo, à luz da doutrina tradicional da Igreja: “Un gruppo di Padri Conciliari di diverse nazioni si riunisce, ogni martedi alle ore 17, Via del Sant’Uffizio, 25, alla Curia Generalizia dell’Ordine di Sant Agostino. Scopo di tali adunanze è lo studio comune, con il concorso di teologi, degli Schemi sottomessi alla discussione dei Padri, nella luce della dottrina tradizionale della Chiesa, secondo l’insegnamento dei Sommi Pontefici. Queste riunioni se tengono sotto l’alto e favorevole patrocinio delle LL. EE. Rrme. i Signori Cardinali Ruffini, Siri, Santos, Larraona, Browne. La presente umile lettera vorrebbe essere anche un invito a V. Ecc. che voglia onorare le nostre adunanze colla sua ambita presenza. Dev.mo nel Signore, Geraldo de Proença Sigaud, Arc. di Diamantina (Brasile), Segretario del Grupo”.
Dom Helder, em uma de suas circulares, depois de resenhar os muitos contatos e iniciativas daquele dia, em favor do esquema XIII, comenta:
“Enquanto isso, é curioso, outro brasileiro – Dom Sigaud – com certeza, com a mesma sinceridade e o mesmo amor à Igreja, reúne Bispos do mundo inteiro para combater ‘as idéias progressistas’.”393
389 BROUCKER, Joseph de, Dom Helder Camara. Les conversions d’un Évêque. Paris: Seuil, 1977, pp. 152-
153.
390 O estudo mais completo sobre o Coetus e outros grupos que se formaram durante o Concílio
encontra-se na tese de GÓMEZ DE ARTECHE y Catalina, S., Grupos “extra aulam” en el II Concilio Vaticano y y influencia, 3 vols. Em 9 t. p. 2585. Tese de doutorado inédita. Biblioteca de la Facultad de Derecho de la Universidad de Valladolid. Uma boa síntese encontra-se em ALBERIGO, História II, 188-192
391 CO III, 149, 10-10-1964.
392 PERRIN, Luc, “Il ‘Coetus Internationalis Patrum’ e la minoranza conciliare”, in FATTORI, Maria
Teresa e A. MELLONI, L’evento e le decisioni, o. cit. pp. 173-188
Se Dom Sigaud destacava-se pelo empenho em organizar as atividades do Coetus, como seu secretário, seu outro fiel companheiro no episcopado brasileiro, D. Antônio de Castro Mayer, aplicava-se ao estudo dos esquemas e a rebater, o mais das vezes, as propostas e argumentos da corrente majoritária no Concílio. Antigo reitor do Seminário Central do Ipiranga em São Paulo, bispo da diocese de Campos - RJ, editor do semanário “Catolicismo”, porta-voz do integrismo teológico-pastoral, o responsável por trinta intervenções, apresentadas na Aula Conciliar ou depositadas, por escrito, na Secretaria do Concílio394. Muitas delas vinham assinadas por outros membros do Coetus ou apenas
simpatizantes de suas posições. Mas nem por isso, deixava Dom Sigaud de intervir, mesmo se numa cadência três vezes do que Castro Mayer. Ao todo, apresentou dez intervenções,
395
Ambos os bispos estavam muito ligados ao movimento leigo TFP (Tradição, Família e Propriedade), e ao seu fundador, Dr. Plínio Correia de Oliveira396. A TFP
brasileira prestou apoio logístico aos dois bispos brasileiros na primeira sessão397 e ao Coetus
Internationalis Patrum, após a sua constituição, a partir do dia 22 de outubro de 1963398. Alguns outros brasileiros, entre os quais se encontravam D. José Maurício da Rocha, bispo
394 As trinta intervenções encontram-se assim distribuídas: quatro, na I Sessão: AS I/2, 695-97; AS
I/3, 312-13; AS I/3, 445-46- XXV; AS I/3, 772-75, à qual deve-se acrescentar uma quinta, desgarrada e recuperada nas Atas da Secretaria Geral: AS: AS VI/2 393 (Periodus II – 1963); oito, na II Sessão: AS II/2, 721-23; AS II/3, 438-41; AS II/4, 631-33 – LXIII; AS II/5, 124-25; AS II/5, 288-90; AS II/5, 365; AS II/5, 784-85; AS II/6, 109-12; dez, na III Sessão: AS III/2, 109-11; AS III/2, 485-86 LXXXVII; AS III/3, 161-62; AS III/3, 449-50; AS III/3, 545; AS III/4, 295-96; AS III/4, 562-63; AS III/5, 247-48; AS III/5, 339-41 CVII; AS III/7, 223-26; sete, na IV e última Sessão: AS IV/1, 712-14; AS IV/2, 371-73 CXXXIV; AS IV/2, 1029-34; AS IV/3, 181; AS IV/3, 422; AS IV/4, 478; AS IV/5, 295-99.
395 Das dez intervenções, uma foi na I Sessão do Concílio: AS I/3, 224-29-XXIII; três na II Sessão:
AS II/2, 34-36 – XL; AS II/2, 366-369 – XLIV; AS II/6, 112-13; duas na III Sessão: AS III/1, 678-80; AS III/3, 648-57; três na IV Sessão: AS IV/2, 47-50 CXXXIII; AS IV/2, 130-32; AS IV/4, 482-88 e uma que foi parar nas Atas da Secretaria Geral do Concílio: AS VI/2, 503-04;
396 Sobre Plínio Correia de Oliveira acaba de ser publicada uma biografia em italiano: MATTEI
Roberto de, Il Crociato del secolo XX - Plinio Corrêa de Oliveira, Piemme, Casale Monferrato, 1996, que informa sobre o traslado de Plínio a Roma, durante toda a primeira sessão conciliar, acompanhado de um grupo da TFP: “Erano venuti a Roma, tra gli altri, il prof. Fernando Furquim de Almeida, il giovane principe D. Bertrand de Orléans Bragança, Luiz Nazareno da Assumpção, Paulo Brito, Fabio Xavier da Silveira. Quest’ultimo aveva viaggiato antecipatamente per nave portando con sé venti bauli di materiale di propaganda cattolica, tra i quali copie in diverse lingue di Rivoluzione e Contro-Rivoluzione del dottor Plinio e Problemi dell’Apostolato Moderno di mons. de Castro Mayer.”, MATTEI, 270, nota 32.
397 “Durante la prima sessione del Concilio, Plínio Corrêa de Oliveira installò a Roma un segretariato
che segui attivamente i lavori dell’assemblea e offrì un servizio costante sopratutto ai due prelati brasiliani a lui vicini [D. Geraldo Proença Sigaud e D. Antônio de Castro Mayer]. Attorno a loro si formò presto uno schieramento di vescovi e di teologi conservatori, tra i quali mons. Luigi Carli, mons. Marcel Lefebvre e un grupo di docenti dell’Università Lateranense, comme mons. Antonio Piolanti e mons. Dino Staffa. Essi si riunivano il martedì sera presso la Curia Generalizia degli Agostiniani per esaminare, con l’aiuto di teologi, gli schemi di volta in volta presentati in assemblea.” MATTEI, 271
398 “Più tardi, il 22 ottobre del 1963, presso un istituto religioso di via del S. Uffìzzio si tene la prima
reunione del gruppo che assumerà il nome di Coetus Internationalis Patrum. I vescovi partecipanti all’incontro, circa una trentina, stabilirono di ritrovarsi con regolarità. Segretario venne nominato mons. Geraldo de Proença Sigaud, a sua volta assistito dall’efficiente ufficio di segretaria messo a dispozioni dai membri della TFP presente a Roma.”
de Bragança Paulista, SP, D. Carlos Eduardo Sabóia Bandeira de Mello, bispo de Palmas, PR, Luiz Gonzaga da Cunha Marelim, bispo de Caxias, MA, D. José Nepote-Fus, missionário da Consolata e prelado do território do Rio Branco (hoje estado de Roraima); Giocondo Maria Grotti, dos Servos de Maria, prelado do Acre-Purus (AC), estavam próximos ao Coetus, que não conseguiu porém ampliar sua posição no interior do Episcopado brasileiro como um todo. Internacionalmente, o Coetus contava com o combativo Luigi M. Carli, bispo de Segni na Itália, terra natal do Secretário do Concílio, Pericle Felici, o que facilitava o acesso do grupo a esta importante instância conciliar. Podia ainda contar com importantes simpatias e mesmo apoio na pessoa do Cardeal Siri, na Comissão de Coordenação do Concílio e com o Cardeal Ruffini no Conselho de Presidência.
Se o Coetus em torno a determinadas questões alcançou um eco bastante significativo, como no pedido de condenação do comunismo pelo Concílio, na medida porém em que radicalizou suas posições, terminou por isolar-se. O exemplo mais palpável, encontra-se na sua recomendação, em carta de 03-12-65 aos padres conciliares, para que rejeitassem o inteiro esquema 13, votando non placet ad integrum Schematis XIII, cum iam non sit possibie obtinere partiales modificationes, vista a impossibilidade de se introduzirem modificações parciais. Os pontos principais indicados para se rejeitar em bloco o esquema foram: [...] a omissão da palavra “comunismo” na parte em que se fala do ateísmo; a insuficiência da doutrina sobre os fins do matrimônio; a não alcançada supressão do inciso sobre a objeção de consciência; a discordância com a indiscriminada condenação da guerra total.399” Em
que pese o apelo, dos 2.373 padres presentes, 2.111 votaram placet, 251 non placet e 11 anularam seu voto. Na sessão pública do dia 07-12-65, antes da sua promulgação por Paulo VI, o texto da Gaudium et Spes recebeu apenas 75 non placet, dentre os 2.309 padres conciliares, mostrando o grande isolamento da corrente intransigente capitaneada pelo Coetus Internationalis Patrum. Sua articulação continuou porém ativa no pós-concílio, comandando a resistência à sua aplicação tanto no campo litúrgico, quanto no da doutrina social da Igreja, da liberdade religiosa e do ecumenismo ou no do exercício da colegialidade episcopal400.
Comentando esta votação, D. Helder não se sente inteiramente feliz: “Terminou, na Basílica, a votação do Esquema XIII: ele já não existe... Cedeu, gloriosamente, lugar à “Constituição pastoral sobre a presença da Igreja no mundo”. O ROC (estado maior da
399 KLOP V, 420-421
400 MENOZZI, Daniele, “El anticoncilio (1966-1984)” in G. ALBERIGO/J. P. JOSSUA, La Recepción
oposição ao espírito do Vaticano II) explorando o medo dos Bispos norte-americanos em relação ao que lhes parecia condenação total da guerra, o que aos Bispos dos USA parece irrealismo e fazer o jogo do comunismo), anunciara a queda do Esquema e seu envio ao Sínodo dos Bispos...
Aprovação daquelas... Quando se refugiavam na esperança de que o Santo Padre adiasse a promulgação, dez minutos depois da votação final, já chegava do Santo Padre o aviso do que deseja a promulgação da nova Constituição na sessão de encerramento do Concílio. “A alegria de ontem só não foi completa porque, além do cuidado fraterno com os amargurados (vi o sofrimento no rosto de Dom Sigaud!) [...] Fiquei rezando o tempo todo pelo ROC. Vai ser demais para uma sessão só, a sessão histórica de hoje:
- promulgação do decreto sobre o ministério e a vida dos sacerdotes; - promulgação da declaração sobre liberdade religiosa;
- promulgação da Constituição pastoral sobre presença da Igreja no mundo; - levantamento simultâneo das excomunhões - em Roma e em Constantinopla, por Paulo VI e o Patriarca Atenagoras - que entre si trocaram as Igrejas católica e ortodoxa...
A maior revista ilustrada da Alemanha - a super- Manchete de lá - publicou, em página dupla, com várias fotografias, a maior das quais é a minha, um artigo cujo titulo me afligiu: O DOC contra o ROC. Pessoalmente, não sou contra ninguém”401.