BÖLÜM 2: ÇALIŞMA YAŞAMINDA VE YÖNETİMDE KADIN KATILIMI 30
2.2. Çalışma Yaşamında Kadın Katılımı
López Cerezo (1999) considera que os estudos CTS nos países ibero-americanos ainda estão subdesenvolvidos e, o mais importante, que não se trata de imitar as iniciativas e reflexões dos outros países, e sim desenvolver uma metodologia própria que adapte o aparato cultural CTS a sua realidade. Na América Latina (AL) não é diferente.
Na AL os estudos CTS têm suas particularidades. O próprio contexto de desenvolvimento científico-tecnológico, caracterizado por baixo investimento em C&T, grande dependência do Estado, reduzida participação das empresas e baixo número de pedidos de patente remete a uma situação totalmente adversa a que encontramos nos países desenvolvidos (VACCAREZZA, 1998; MAZOCCO, 2009). Dessa forma, a ciência e a tecnologia a ser ‘pensada’ e ‘debatida’ nessa região é diferente daquelas dos países desenvolvidos.
Vaccarezza (1998) assinala que a origem do movimento CTS na AL se encontra na reflexão da ciência e da tecnologia como uma competência das políticas públicas. Segundo ele, a partir da década de 1950, as atividades em C&T na América Latina se desenvolveram em duas frentes, ambas apoiadas pelo Estado, mas seguindo lógicas diferentes: a ciência acadêmica e a atividade tecnológica. Nos anos 1980, a abertura das economias latino-americanas ao comércio e à competitividade internacional poderia afetar a atividade tecnológica de duas maneiras: ou a competitividade exigiria que as empresas locais se abastecessem de conhecimentos novos para poderem competir, ou a homogeneização tecnológica maior poderia fazer com que a transferência internacional de tecnologia se convertesse em elemento chave para a competitividade.
Dagnino (2008) coloca como referência do surgimento dos estudos CTS na América Latina os primeiros trabalhos do Pensamento Latino-americano em Ciência,
Tecnologia e Sociedade (PLACTS3), no clima de intensa discussão sobre "Ciencia y Técnica" da segunda metade da década de 1960 na Argentina. O PLACTS apontava a escassa demanda social por conhecimento científico e tecnológico como a causa fundamental da debilidade dos sistemas de C&T, além de ressaltar que o problema não era a falta de capacidade para desenvolver “boa ciência”, nem uma característica relacionada à herança ibérica ou indígena. Havia duas posições extremas: a da independência científica e tecnológica e a da transferência de tecnologia, esta última apoiada pelos tecnocratas que viam na transferência de tecnologia uma opção mais conveniente do que o fortalecimento da capacidade de pesquisa (básica) do país.
A semelhança da situação concreta que enfrentavam os países da região – a de uma industrialização por substituição de importações que apresentava um crescente gargalo tecnológico – contribuiu para o fortalecimento e disseminação do PLACTS para os outros países latino-americanos. Especificamente no Brasil, em função do projeto dos governos militares de desenvolvimento do país rumo a sua consolidação como grande potência (que demandava um elevado grau de autonomia tecnológica a ser construído em longo prazo) ocorreu um considerável apoio à pesquisa científica (principalmente nas ciências duras) e à pós-graduação. Neste contexto foram fundadas algumas universidades brasileiras – UFSCar, UNICAMP – e desenvolveu-se ainda mais o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), todos altamente centrados na formação em engenharia. O apoio à pesquisa suscitou uma reflexão sobre a forma como se deviam alocar os recursos governamentais que teve como referência as idéias do PLACTS (DAGNINO, 2008).
Segundo Vaccarezza (1998), a pesquisa latino-americana em C&T possui duplo
status periférico: tanto em relação à sua posição relativamente marginal na comunidade
científica internacional quanto à sua adequação ao “contexto de aplicação” do conhecimento, demarcado pelas possibilidades e expectativas de sua utilização – inovação e produção de capital. Dentro desse contexto, a posição do Estado e a ‘importação’ de modelos de políticas públicas foram fundamentais para o desenvolvimento de um pensamento próprio sobre política científica. Baseado no rechaço à importação de modelos ou ‘receitas’ aprovados em outros contextos científico-tecnológicos, levou à idéia de que o desenvolvimento não é um processo
3 Esta expressão é sugerida em Dagnino, Thomas e Davyt (1996) para denotar o conjunto das
contribuições de cientistas sociais latino-americanos, em especial dos argentinos Herrera, Sabato e Varsawsky.
linear, cumulativo e imitável. O Estado assumiu o papel de criador e regulador de políticas que impulsionassem as inter-relações entre os centros de produção de conhecimento, as empresas e o governo, orientando o desenvolvimento de C&T na direção das demandas sociais.
Ainda segundo o mesmo autor, mesmo tomando para si uma visão mecanicista, em que os interesses, hábitos e sentidos dos atores sociais envolvidos não foram levados em conta, o pensamento latino-americano sobre as políticas de C&T se constituiu “legitimamente autônomo da região, refutando a transferência acrítica e descontextualizada de idéias, marcos conceituais, crenças, formatos institucionais e costumes administrativos dos países centrais para os periféricos” (VACCAREZZA, 1998).
Na década de 1990, Vaccarezza (1998) aponta algumas mudanças no movimento CTS na América Latina, tais como:
a) o conceito CTS se converte em marca de identidade para pesquisadores em diferentes campos de pesquisa;
b) caráter mais acadêmico do trabalho intelectual em CTS, inclusive com órgãos específicos de publicação;
c) vinculada à anterior, está o caráter mais profissional e especializado dos pesquisadores atuais em CTS. O que no início foi uma reflexão dos cientistas naturais sobre sua atividade e seu comprometimento em ações de intervenção na política e gestão de C&T, hoje está em grande medida nas mãos de cientistas sociais que elegeram a C&T como campo de especialização;
d) se o pensamento dos anos 1970 se ordenava em torno da construção de projetos nacionais de desenvolvimento, nos anos 1990 se limitou a promover a competitividade internacional das unidades produtivas;
e) uma dependência intelectual maior das correntes internacionais de pensamento CTS;
f) diminuição de propostas sobre o papel da C&T na resolução dos problemas da região.
Vaccarezza (1998) também aponta as principais problemáticas abordadas pelos estudos CTS na América Latina: problemas de política científica e tecnológica; gestão de tecnologia; os processos de inovação e a mudança técnica na empresa; o desenvolvimento das disciplinas e das comunidades científicas; vinculação entre ciência
e produção; comércio internacional de tecnologias; prospecção tecnológica e impactos sociais da mudança tecnológica.
Finalmente, devido à variedade de objetivos e problemas de análise, Vaccarezza salienta a multidisciplinaridade do campo de estudos CTS, ressaltando que, em sua visão, ela ainda não é generalizada. Diz ainda que na América Latina a conformação de um campo de conhecimentos foi mais forte que a formação de um movimento social baseado nas idéias CTS. Passamos da ‘militância’ – ocorrida mais fortemente nos países originários de CTS - para a formação de especialistas. No entanto ainda prevalece a formação ‘administrativa’, enfatizando as questões gerenciais sobre C&T. Os atores políticos do sistema (Estado, partidos políticos, movimentos sociais, etc.) continuam ausentes na interpretação latino-americana de CTS. Mas para Vaccarezza, a grande falta é a democratização do conhecimento, carência que talvez se explique pela formação insípida dos indivíduos em relação à C&T, caracterizada pelo forte vínculo à compreensão dos conteúdos estáticos da ciência e não em entender sua dinâmica de produção (VACCAREZZA, 1998).