• Sonuç bulunamadı

No mundo contemporâneo, o fenômeno da globalização possibilita-nos visualizar como a religião passou a ser uma problemática de destaque no nosso cotidiano. A eclosão de Novos Movimentos Religiosos, por exemplo, é uma das questões que tem movimentado o cenário religioso da “pós-modernidade”. Conforme análise de Neide Miele18 (2007, p.

218), apesar da efervescência desses movimentos produzir o sentido de que a “nossa civilização nunca esteve tão tomada pelo fenômeno religioso”, o fato é que “a religião nunca deixou de estar presente na vida dos seres humanos, de suas culturas, de suas crenças e lutas, seja em tempo de paz ou de guerra, em tempos de calmaria ou de revoluções” (MIELE, 2007, p. 218). Conforme Orlandi (1987, p. 09), “os vários discursos da cultura ocidental são atravessados pelo discurso religioso: o pedagógico, o jurídico, o acadêmico, o das minorias, o das „alternativas‟, etc.”, ORLANDI, 1987, p. 9). Desse modo, o discurso religioso é “onipresente em nossa cultura”.

No que diz respeito ao cenário brasileiro, a religião tem assumido uma posição de grande relevância. O Brasil é, consensualmente, um país que se destaca pela religiosidade

17

Tratar um documento histórico como monumento é manter uma desvinculação com o fazer histórico tradicional. Conforme Foucault, nesse modo de fazer histórico, os historiadores “identificam descrevem e analisam estruturas, sem jamais se terem perguntado se não deixavam escapar a viva, frágil e fremente „história‟ (FOUCAULT, 2000b, p. 13). Diferentemente, o modo contemporâneo com que a história analisa os objetos discursivos é um fazer histórico que não os desvincula das condições sócio- históricas em que esses documentos ganharam existência.

18

Para uma breve retrospectiva sobre os modos como o objeto religião foi discursivizado ver Religião: Múltiplos territórios, artigo inserido no livro intitulado Religião: Múltiplos territórios, (2007), organizado pela pesquisadora Neide Miele.

e pluralidade religiosa. Conforme Cruz (2004, p. 9), a “pluralidade e vitalidade religiosa” se firmam como um traço identitário da religiosidade brasileira. Entendemos que essa nuança é uma consequência do modo como se deu a formação do povo brasileiro. A sua condição de “lugar” a ser explorado propiciou a sua constituição enquanto país que acolhe, em seus limites, diferentes etnias. O perfil religioso brasileiro reflete, pois, o “caldeirão” cultural por meio do qual ele foi e continua a se constituir enquanto nação. A heterogeneidade dos traços identitários que constituem a religiosidade brasileira tem sido um campo fértil para pesquisas, em diferentes campos do saber, por pesquisadores brasileiros como, Sandra Jaqueline Stoll, Eduardo Giumbelli, Maria L. Cavalcante, Bernardo Lewgoy, Renato Ortiz e, também, estrangeiros, como é o caso de Roger Bastide; Marion Aubrée; François Laplantine, dentre outros.

Há no Brasil uma diversidade de fontes documentais que podem funcionar como uma constatação do lugar que a religião e a religiosidade ocupam, em terras brasileiras. Sem negar o valor dessas diferentes fontes, aqui tomamos como eixo principal de observação a Constituição brasileira, a partir desse documento outros foram criados. Todos, de alguma forma, contribuem para a compreensão da principal marca por meio da qual se constitui o perfil religioso brasileiro: sua pluralidade religiosa. Estendemos nosso olhar sobre a temática da religião, tomando, como referência principal, o texto constitucional porque entendemos que a formação de leis tem como objetivo regular o exercício das práticas sociais e garantir os direitos individuais. Desse modo, sempre que uma lei é sancionada é sinal de que, em algum aspecto, o exercício de uma certa prática não está funcionando de forma que respeite os direitos do cidadão. Assim, os enunciados- lei funcionam como marcas e denunciam os modos de existência e de funcionamento de uma dada nação, em seus diferentes setores. Consideramos, portanto, que o texto constitucional pode, no caso do Brasil, fornecer dados de como a questão da religiosidade brasileira é um discurso cuja existência e funcionamento é regulado tanto por leis gerais, a Constituição, quanto por regras específicas, posta em circulação pela própria instituição religiosa.

O primeiro aspecto, que nos chama atenção, quanto à temática da religião, no texto constitucional, é o fato de que, apesar de a separação entre a Igreja e o Estado19 ter-se dado com a implantação do regime republicano, a referência a Deus tem seu lugar garantido na

19

Constituição. Este enunciado ao emergir no preâmbulo do texto constitucional, em meio ao conjunto das leis que regem o país, parece funcionar igualmente como “lei” que sanciona a existência e a ação divina como reguladora e condutora primeira da ação humana dos brasileiros. É importante notar que, a exceção do Estado do Acre, todos os estados brasileiros registraram, a exemplo da Constituição Federativa, a referência a Deus no texto da Constituição Estadual. A questão da existência do enunciado “sob a proteção de Deus”, nesse gênero discursivo, tem sido alvo de análise, tanto no campo jurídico, quanto no campo religioso. A problemática gira em torno de compreender se o enunciado tem ou não valor normativo e se, por este motivo, ele fere ou não os direitos dos cidadãos que não assumem a posição de teístas. Entendemos que a permanência e a circulação desse enunciado nos textos constitucionais, Federativos ou Estaduais, embora não se configure como lei, têm como função demarcar e sedimentar o lugar que o divino ocupa e/ou deve ocupar na vida do povo brasileiro, já que se trata de um texto com função reguladora. A alusão à figura divina no texto constitucional produz, portanto, uma imagem do Brasil enquanto nação eminentemente constituída de religiosidade.

Outro aspecto que este documento aborda é a problemática do exercício da religião, desde os primórdios de formação da nação brasileira. Ao instituir a lei de liberdade religiosa, a constituição republicana de 1891 confirma oficialmente a formação de um país que se marca por uma pluralidade religiosa, cujo exercício deve ser garantido por lei, uma vez que, o fundamentalismo religioso é, também, um traço constitutivo da religiosidade brasileira. Como efeito da Lei de liberdade de Religião e de culto, deu-se a separação Igreja-Estado, o catolicismo romano, religião hegemônica do país, teve o seu espaço de atuação dividido com outras crenças religiosas. Acobertadas por lei, essas religiões saem do anonimato e ganham publicidade. O exercício público dessas outras religiosidades, apesar de constitucionalmente regularizadas, não se dá de forma pacífica. Contrariando as leis Constitucionais, vamos assistir, no final do século XIX e início do século XX, a grupos religiosos serem perseguidos, como foi o caso do Espiritismo e de religiões de origem afro-brasileiras. Sobre a perseguição ao Espiritismo entre o período de 1890 a 1950, tem-se como fonte documental a dissertação de mestrado do sociólogo Emerson Giumbelli, publicada em livro sob o título: O cuidado dos mortos: uma história da condenação e

legitimação do Espiritismo. Histórias de perseguição a crenças religiosas, a exemplo de

O que mostra valores de verdades dominantes que atuam produzindo preconceitos religiosos e atitudes discriminatórias a partir de valores religiosos outros.

Outro problema regulamentado por lei constitucional é a questão do ensino religioso no Brasil. Durante todo o período colonial, o ensino religioso esteve sob o domínio da religião Católica e foi ministrado em seminários e colégios católicos pelos Jesuítas, até a expulsão destes pelo Marques de Pombal. Durante o Império, foi instituído o ensino público, no entanto, predominou o ensino religioso de caráter doutrinário, ainda, sob o domínio da Igreja Católica. Com a primeira Constituição Republicana, o ensino religioso passa a ser de caráter laico, entretanto, continuou sendo ministrado por dirigentes católicos. Com a constituição de 1934, o ensino religioso passa a ser de “matrícula facultativa e ministrado de acordo com os princípios da confissão religiosa do aprendiz”. Essa situação permaneceu até a constituição de 1988. Tomando como referência a constituição, os legisladores criaram, em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) que aprovou um ensino religioso, cujo custo operacional foi transferido para as igrejas responsáveis pela atividade. Até então de caráter confessional, o ensino religioso muda sua feição a partir da LDBEN de nº 9.475, em 1997. Esta sanciona um ensino que, embora facultativo, assegurou legalmente o respeito à diversidade religiosa e transferiu para os sistemas de ensino as normas sobre a seleção dos conteúdos e da habilitação e admissão dos ministrantes. Outra mudança no perfil do ensino religioso no Brasil veio com a criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Com ele, o ensino religioso assume a feição há muito esperada: os conteúdos a serem ministrados contemplam a pluralidade religiosa, desde as diferentes tradições religiosas até os novos movimentos religiosos, além do mais, o novo profissional de educação religiosa deve ser conhecedor dessa diversidade.

Desse modo, surge a necessidade da preparação de novos profissionais para atender a demanda do mercado de trabalho, no campo do ensino religioso público e privado. Em atendimento a essa nova realidade proposta pelos PCNs do ensino religioso no Brasil, é instituído, em um espaço universitário público:a Universidade Federal da Paraíba-UFPB, o primeiro curso de graduação em Ciências das Religiões do Brasil. O curso, conforme o projeto pedagógico que lhe deu origem, tem o objetivo de capacitar o profissional em Ciências das Religiões, denominado de religiólogo, para atuar na disciplina denominada ensino religioso na rede pública e privada. O religiólogo tem como função estudar “tanto o

fenômeno religioso, enquanto dimensão ontológica do ser humano, quanto nas relações que este estabelece com a sociedade”. Desse modo, o fenômeno religioso ganha, assim, um lugar próprio na academia.

A entrada do fenômeno religioso na academia, por meio do Curso de graduação em Ciências da Religiões, vem confirmar a preocupação da educação em lidar com um traço cultural brasileiro da pluraridade religiosa. O objetivo é garantir o direito do cidadão de professar a religião de sua preferência, promover a compreensão dos diferentes credos religiosos; do exercício da tolerância, e do estímulo ao convívio pacífico com as diferenças religiosas.

A preocupação com a problemática da aceitação da pluralidade religiosa brasileira é uma temática que ganhou, em nossa época, uma grande importância. Outra prova atualíssima da movimentação contra a existência e permanência de grupos de religiosos que pregam a intolerância religiosa, em nosso país, foi a criação recente do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro 2008). Este fato denuncia o quanto a Lei constitucional, que garante a liberdade de Religião e culto, permanece bastante atualizada. Entendemos que se os diferentes fundamentalismos religiosos persistem, é sinal de que o respeito às minorias religiosas, ainda é uma utopia e, por este motivo, o exercício religioso necessita permanecer regulamentado por leis. A busca dos seres humanos por respostas para as anomalias da vida humana, as diferenças sociais, as mortes (prematuras ou não-prematuras), as desigualdades de aptidões, intelectuais e morais, ainda continua, constituindo-se em caminho que conduz à religiosidade.

No item seguinte, procuraremos mostrar como a doutrina Espírita, em meio às diferentes religiosidades presentes na cultura brasileira, constrói um lugar em meio a essa diversidade religiosa, (de)marcando a sua posição, no cenário religioso da contemporaneide como um domínio de saber/poder que busca construir respostas para esses questionamentos.

Benzer Belgeler