A notícia é um dos gêneros mais comuns da esfera jornalística, sendo muitas vezes interpretada como detentora do discurso jornalístico como um todo (SOUSA, 2004). Considerando os meios de circulação dos textos jornalísticos, bem como a importância social dada a estes, podemos também ver a notícia como um dos gêneros mais comuns da sociedade. Deparamo-nos em diversos momentos do dia a dia com notícias em diferentes suportes de informação de massa, bastante comuns e de fácil acesso à maioria da população, como é o caso das notícias veiculadas por meio impresso, como em jornais ou revistas, por meio eletrônico, como na TV ou no rádio, ou ainda por meio digital, como as notícias divulgadas nos, cada vez mais numerosos, portais jornalísticos.
Nesse sentido, aparentemente, lidamos com um objeto de análise tão diverso quanto são os meios de comunicação em que ele circula, haja vista ainda que existem diferenças notórias entre os textos rotulados com o nome de notícia, se consideramos, por exemplo, a
37 página ou a seção do veículo de comunicação em que ele se encontra. Este aspecto determina ainda vários fatores, como os possíveis temas a serem tratados na notícia, se político, ou esportivo, ou policial, ou de coluna social etc., que já direciona a notícia, por exemplo, a um público específico.
O Manual de Redação da Folha de São Paulo (1992) define notícia como um texto que faz um registro puro dos fatos, sem a expressão de opinião. Nessa definição, a exatidão é apresentada como o elemento-chave da notícia, embora o manual reconheça que vários fatos descritos com exatidão possam ser justapostos tendenciosamente, bem como admita que a supressão ou a inserção de informações no texto possam alterar o significado da notícia.
Na definição de lide, parte constituinte do texto noticioso, o referido manual o apresenta a partir do sentido literal do vocábulo, que consiste numa forma aportuguesada do vocábulo inglês “lead”, que significa conduzir, liderar. Quanto à caracterização funcional, esse é o termo utilizado no jornalismo para resumir a função do primeiro parágrafo, que tem a dupla missão de introduzir e prender a atenção do leitor no texto. Segundo o Manual de Redação da Folha de São Paulo (1992), há dois tipos básicos de lide. O primeiro é o do tipo noticioso, e responde às questões consideradas como principais em torno de um fato: o quê, quem, quando, como, onde e por quê. O segundo é o não-factual, e, portanto, lança mão de outros artifícios para atingir a função de prender a atenção do leitor.
Do ponto de vista discursivo, a definição de notícia é ambígua (VAN DIJK, 1990 [1988]). Temos, por um lado, uma definição comum geral que concebe notícia como “informação nova”, incluindo até mesmo informações cotidianas encaradas como novidades, como quando damos informações sobre algo ou alguém para outra pessoa. Por outro lado, existem duas acepções, uma relacionada aos meios de comunicação de massa, entendida como os informes, veiculados no rádio, na TV ou no jornal impresso, e outra que se confunde com o próprio veículo de informação, como programas de rádio ou TV que contêm informações jornalísticas.
Portanto, da forma que é entendida por Van Dijk (1990 [1988]), a noção de notícia engloba, inicialmente, três situações distintas:
38 2. programas de televisão ou de rádio com informações jornalísticas;
3. informes jornalísticos, a partir de textos divulgados no rádio, na televisão ou no jornal impresso, em que são veiculadas informações novas sobre eventos recentes. A apresentação de acepções mais amplas para notícia serve como um esclarecimento inicial para o leitor de que a noção de notícia adotada no estudo de Van Dijk (1990 [1988]), embora se assemelhe a essa definição mais geral, é diferente. Nesse sentido, o autor esclarece que a notícia da qual trata em seu estudo é aquela apontada no terceiro item, em que é entendida como informação recente veiculada pelos meios jornalísticos, e rotulada, desde então, como o “discurso jornalístico” ou “discurso noticioso”5
.
Sousa (2004), que é um autor da área de Jornalismo e de Comunicação Social, define notícia ao mesmo tempo em que propõe uma “teoria do jornalismo” para o seu estudo, partindo do pressuposto de que as notícias jornalísticas existem e produzem efeitos. Assim, a “teoria do jornalismo”, segundo o autor, deve centrar-se no produto jornalístico, que é a notícia jornalística, “explicando como surge, como se difunde e quais os efeitos que gera” (p. 03).
De um modo geral, a teoria do jornalismo consubstancializa-se como uma teoria da notícia, buscando responder a duas questões centrais: Por que é que as notícias são como são e por que é que temos as notícias que temos? E quais os efeitos que as notícias geram? Para Sousa (2004), a notícia é o resultado pretendido do processo jornalístico de produção de informação, e por isso o autor entende que ela seja “o fenômeno que deve ser explicado e previsto pela teoria do jornalismo e, portanto, qualquer teoria do jornalismo deve esforçar-se por delimitar o conceito de notícia” (p. 04).
5Da forma como é entendida em Van Dijk, a noção de “notícia”, ou ainda “discurso noticioso”, não corresponde
exatamente ao que entendemos em nosso trabalho por gênero notícia. O que é analisado pelo autor em seu estudo é o “discurso noticioso”, sobretudo aqueles divulgados por meio de textos em jornais impressos, porque a proposta é a de se fazer um estudo crítico do discurso [jornalístico]. Porém, embora não haja uma correspondência entre “discurso noticioso” e “gênero notícia”, ainda que a análise de gêneros envolva o discurso e o discurso até certo ponto analise o gênero, o texto (que participa do gênero notícia) é o material empírico analisado em ambas as pesquisas. Em todo caso, as definições, metodologias e resultados de Van Dijk (1990 [1988]) auxiliaram sobremaneira no desenvolvimento de nosso trabalho.
39 Depois de apresentar e justificar a teoria do jornalismo proposta por ele, Sousa (2004) afirma que o conceito de notícia tem duas dimensões, uma tática e outra estratégica. Segundo o autor:
a dimensão táctica esgota-se na teoria dos géneros jornalísticos. Nessa dimensão, distingue-se notícia de outros géneros, como a entrevista ou a reportagem. Todavia, a dimensão estratégica encara a notícia como todo o enunciado jornalístico. Esta opção é aquela que interessa à teoria do jornalismo enquanto teoria que procura explicar as formas e os conteúdos do produto jornalístico. (p. 04)
Na concepção de Sousa, a dimensão tática da notícia se esgota na teoria dos gêneros, pelo fato de esta distinguir a notícia de outros gêneros do âmbito jornalístico, ao passo que a dimensão estratégica vê a notícia como todo o enunciado jornalístico, entendendo-o como produto de formas e conteúdos, e por isso é a dimensão abordada em sua teoria. Sousa (2004) define notícia, afirmando que a definição complementa aquela já feita em Sousa (2000; 2002):
pode dizer-se que uma notícia é um artefacto linguístico que representa determinados aspectos da realidade, resulta de um processo de construção onde interagem factores de natureza pessoal, social, ideológica, histórica e do meio físico e tecnológico, é difundida por meios jornalísticos e comporta informação com sentido compreensível num determinado momento histórico e num determinado meio sócio-cultural, embora a atribuição última de sentido dependa do consumidor da notícia. (p. 4)
Nesse sentido, notícia é entendida como artefato linguístico, que é resultado de um processo de construção pessoal, social, ideológico, histórico, físico, tecnológico, difundido pelos meios jornalísticos, apresentando informações relacionadas ao momento histórico e social com sentido parcialmente atribuído pelo leitor. Por esta definição apresentada por Sousa (2004), percebemos que, mesmo que o autor diferencie o seu estudo de outros que estejam “limitados” à notícia enquanto gênero, ele a concebe como gênero. Ainda que a sua análise não esteja voltada especialmente para a caracterização e explicação do funcionamento do gênero notícia, quando esse autor apresenta a definição de notícia como “um artefato linguístico que representa determinados aspectos da realidade” (p. 04), sendo o resultado de uma interação comunicativa, que é situada no tempo, e na qual interagem fatores de ordem social, ideológica, histórica etc., ele define e caracteriza a notícia enquanto gênero.
Sousa (2004) afirma que a notícia se esgota no seu consumo, pelo fato de ser nesse momento que produz efeitos e passa a fazer parte dos referentes da realidade, de modo que “a
40 construção de sentido para uma notícia depende da interação perceptiva, cognoscitiva e até afetiva que os sujeitos com ela estabelecem” (p. 6). Assim, o autor apresenta dois resultados, que, segundo ele, são alcançados pelas pesquisas realizadas no campo dos estudos jornalísticos:
(1) a notícia jornalística é o produto da interacção histórica e presente (sincrética) de forças pessoais, sociais (organizacionais e extra-organizacionais), ideológicas, culturais, históricas e do meio físico e dos dispositivos tecnológicos que intervêm na sua produção e através dos quais são difundidas; e (2) que as notícias têm efeitos cognitivos, afectivos e comportamentais sobre as pessoas e, através delas, sobre as sociedades, as ideologias, as culturas e as civilizações. (SOUSA, 2004, p. 16, grifos do autor)
Pelos resultados apresentados, a notícia jornalística é vista tanto como produto da interação de sujeitos sociais (que, por serem sociais, são situados ideológica, cultural, histórica, física e tecnologicamente na produção e difusão dessas notícias) como pelos efeitos produzidos através dela nos sujeitos e na sociedade em geral. Esses efeitos surtem mudanças nos planos cognitivos, afetivos e comportamentais dos sujeitos, e a partir disso, por meio das pessoas, afetam a sociedade, as ideologias, as culturas e as civilizações.
Considerando o que apresenta sobre notícia, Sousa (2004, p. 16) propõe uma Teoria Multifatorial da Notícia, partindo de um pressuposto matemático. Isso, segundo seu ponto de vista, permite identificar, delimitar, agrupar, sistematizar e sintetizar, a partir de três equações multifatoriais interligadas num sistema, tanto “(1) os macrovetores estruturantes das notícias, ou seja, as forças em que se integram todos os microfatores que geram e conformam as notícias”, como “(2) os macrovetores estruturantes dos efeitos das notícias, ou seja, os macro- efeitos, onde se podem integrar todas as modificações observáveis que as notícias provocam ou podem provocar nas pessoas e através destas nas sociedades e nas civilizações”.
As equações matemáticas, na verdade, têm mais a função de mostrar como a notícia é o resultado da soma de vários fatores interligados, como aqueles enumerados no parágrafo anterior. Na aplicação da teoria, o autor faz uma interpretação das notícias com base nesses fatores, mostrando a partir do texto as relações entre eles. Dessa forma, as equações matemáticas propostas como elementares nesta teoria ficam apenas no plano teórico e não se aplicam efetivamente na análise dos textos.
41 Diferentemente de Sousa (2004), que demonstra entender como limitada a abordagem da notícia como gênero, simplesmente pelo fato de esta fazer a distinção entre o gênero notícia e os outros gêneros produzidos pelo meio jornalístico, defendemos que a abordagem da notícia enquanto gênero não é limitada. A abordagem de estudos de gêneros da qual partimos não está centrada apenas na forma e/ou função dos produtos linguísticos das práticas retóricas dos sujeitos. Estes, apesar de apresentarem recorrências que nos fazem entender que participam de um ou de outro gênero, estão relacionados às práticas sociais e, nesse sentido, são definidos e determinados por elas.
Contudo, pode haver limitação se o gênero for abordado de forma isolada, sem que seja feita a relação existente e necessária dele com o meio social e com os sujeitos que o produzem e o colocam em circulação. No capítulo 3, destacamos as definições teóricas de gênero que embasam este trabalho, em que discutimos sobre o fato de que produzimos gêneros para agir socialmente, o que nos permite concluir que os gêneros realizam ações sociais, mas essas ações são definidas e determinadas pelas práticas sociais, que governam a comunicação.
Na configuração textual da notícia, há todo um trabalho que objetiva impor o efeito de sentido de verdade. Isso se faz por meio de estratégias que buscam ocultar o ponto de vista e as avaliações do enunciador jornalista, segundo Cavalcante (2006). Para a autora, os jornalistas sabem o que deve se tornar notícia, logo, é feita uma seleção em que se avalia o que parece ser interessante e significativo para determinada sociedade ou grupo social. Assim, a relevância eleita desde a escolha do fato noticioso acompanha todo o processo de produção, na elaboração do material da notícia, “a forma que este deve ser apresentado aos leitores, que elementos precisam ser enfatizados ou esquecidos” (p. 154).
Cavalcante (2006) afirma que o esquema de produção da notícia não segue a ordem cronológica dos acontecimentos, pelo fato de que a ordem de apresentação das informações está atrelada à sua importância e/ou relevância, visão compartilhada por outros autores, como Van Dijk (1985; 1990 [1988], 1992). Logo, o texto inicialmente apresenta o que é entendido como elementos essenciais da informação, as respostas às perguntas: Quem? O quê? Quando? Onde? Porque? e Como?, que marcam o início e caracterizam a linguagem jornalística.
42 Porém, mesmo que a forma (ou estrutura composicional) dos gêneros apresente recorrência, em uns mais e em outros menos, essa recorrência não corresponde a um esquema fixo, tendo em vista que os gêneros apresentam diferenças quando consideramos, por exemplo, os lugares sociais em que eles circulam. Nesse sentido, a notícia do jornal impresso pode apresentar mais recorrentemente o esquema apresentado acima, mas as condições de produção da notícia no jornal impresso são distintas das condições de produção da notícia na internet. Discutimos mais detalhadamente sobre a estrutura da notícia (impressa e da web) na seção 1.2.