A medida de avaliação da expressão emocional mais utilizada em investigações é a face (Rosenberg & Ekman, 2002). Esta tem sido alvo de estudos alargados e diferenciados ao longo dos anos. Os conhecimentos científicos atuais sobre a expressão facial da emoção devem-se a estudiosos como Bell, Darwin, Duchenne, Schlosberg, Landis, Tomkis, Ekman, Fridja, Izard, entre outros (Freitas-Magalhães, 2011; 2012).
Os primeiros estudos acerca da expressão facial centraram-se na fisionomia. Foi Darwin que, em 1872, deu os primeiros passos sobre a compreensão da evolução das expressões faciais, desde o carater inato das expressões faciais até à interação das
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expressões faciais e processos psicológicos. (Freitas-Magalhães, 2011). Este autor centrou-se nas caraterísticas da face e na musculatura e tentou relacionar diferentes expressões com diferentes emoções, considerando as primeiras como formas de comunicar (Izard, 1996). Na obra “In the Expressions of Emotion in Man and Animals”, Darwin tentou explicar o porquê de certas expressões faciais ocorrerem em determinadas emoções (Keltner & Ekman, 2002). Após as suas observações, o autor concluiu que as expressões faciais do homem de cariz inato tinham como função a sua sobrevivência (Turner, 2003).
O estudo sobre a expressão facial também evoluiu de forma muito significativa com as pesquisas de Ekman e Friesen, influenciadas pela teorética de Tomkins, que considerava a face como uma fonte essencial no estudo da conduta humana. Apesar dos contributos de outros investigadores, até então a expressão não era considerada uma área com relevância na ciência psicológica. Após a comprovação da universalidade da expressão facial da emoção, Ekman e Friesen debruçaram-se sobre o mapeamento da face humana, criando métodos e técnicas de medida científicos para avaliação dos movimentos faciais. Assim, por volta dos anos 70, os autores desenvolveram um sistema de verificação dos movimentos musculares através das unidades de ação (UA), o Facial Action Coding System (FACS1). Com o desenvolvimento da tecnologia e o aumento dos conhecimentos, foram sendo criados outros sistemas que permitem identificar e reconhecer determinadas emoções e medir o significado dos movimentos faciais tais como o Maximally Descriptive Facial Movement Coding System (MAX), o Identifying Affect Expression by Holistic Judgment (AFFEX), o Facial Affect Scoring Technique (FAST), o Facial Expression Coding System (FACES), o FACS Affect Interpretation Dictionary (FACSAID) e o BabyFACS (Freitas-Magalhães, 2011).
1 O Facial Action Coding System (FACS) (1978) ou Código de Anotação da Ação Facial consiste num sistema de compreensão anatómica que permite a medição de todos os movimentos faciais visíveis. É composto por 44 unidades de ação (na versão original Action Units– AUs). Este sistema permite ainda codificar a intensidade da ação facial numa escala de cinco pontos. Não há correspondência entre o grupo de músculos e as unidades de ação, já que o movimento muscular faz-se para diferentes áreas, produzindo diferentes ações (Freitas-Magalhães, 2011).
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O desenvolvimento de técnicas de neuroimagiologia e das metodologias experimentais das neurociências cognitivas, também permitiram um aumento de conhecimento das estruturas cerebrais relacionadas com as emoções. Este campo de investigação, que passou a designar-se de neurociências dos afetos (ou “affective neuroscience”), conduziu a diversos estudos de neuroimagiologia, que possibilitaram perceber quais as estruturas implicadas nas emoções básicas e noutras mais complexas com uma forte conotação social como o embaraço, a culpabilidade ou a empatia (Besche-Richard & Bungener, 2008).
Atualmente continua a verificar-se o desenvolvimento de investigações direcionadas ao estudo da emoção e da expressão facial e as suas implicações e aplicações nos diferentes contextos sociais (Freitas-Magalhães, 2011).
Existem diferentes instrumentos de avaliação da expressão emocional, sendo que, o método de pesquisa escolhido deve ser apropriado à questão abordada. As abordagens mais utilizadas no estudo do comportamento facial são três, sendo que duas delas englobam métodos de medição específicos (sistemas eletrofisiológicos e sistemas de codificação objetivos) e a terceira é efetuada através do julgamento do observador (Rosenberg & Ekman, 2002).
Se num determinado estudo se pretende analisar uma questão relacionada com a estrutura facial, deve recorrer-se a um método que forneça uma medição o mais direta e objetiva possível do comportamento facial. A escolha entre a eletromiografia (EMG) e um sistema de codificação objetivo aqui é determinada pelo tempo, despesas, pertinência, e disponibilidade de equipamentos e especialização. Por outro lado, se o estudo se baseia na informação facial disponível para os outros, então deve-se utilizar um método de julgamento, respeitando a validade ecológica dos dados (Wagner, 1997).
A EMG constitui a forma mais objetiva de medição do comportamento facial. A EMG facial envolve a colocação de elétrodos de superfície sobre pequenos músculos ou grupos musculares envolvidos na mudança da aparência facial, que detetam os
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potenciais de ação e a força de contração dos músculos. Num estudo sobre a emoção com recurso à EMG, Schwartz e colegas (1976, cit. in Wagner, 1997) verificaram alterações em diversos músculos faciais (e.g., frontal, depressor e masséter) que não eram aparentemente visíveis quando os indivíduos avaliados imaginavam cenas agradáveis e desagradáveis.
A desvantagem da utilização da EMG é o facto de se tratar de um método intrusivo, pois os elétrodos podem alterar os movimentos faciais, e invasor, visto que, ao chamar a atenção do sujeito para a face, também é suscetível de modificar o seu comportamento facial. A acrescentar, é um método relativamente caro, pode ser pouco fiável e pode resultar numa taxa relativamente elevada de desgaste para o indivíduo devido, por exemplo, a avarias mecânicas ou elétricas do sistema de gravação (Wagner, 1997).
Os sistemas de codificação objetivos baseiam-se essencialmente na identificação e medição das unidades visíveis do comportamento facial. Este tipo de abordagem distingue-se dos métodos de julgamento visto ser descritiva e não interpretativa (embora envolva julgamentos/decisões efetuadas pelos observadores). Estes sistemas têm sido amplamente utilizados em inúmeras pesquisas que envolvem a medição e codificação do movimento facial (Wagner, 1997).
Os métodos de julgamento são utilizados de forma recorrente nas investigações sobre o comportamento facial e são essencialmente necessários quando o objetivo é determinar o uso que os indivíduos fazem do comportamento facial para inferir os estados emocionais ou características de outros (Wagner, 1997).
Os estudos de julgamento podem ser de dois tipos principais. O primeiro envolve juízos categóricos e pode utilmente ser subdividido de acordo com as categorias de resposta. Esta abordagem é conhecida como o “método de escolha forçada”. Ao observador é mostrada uma série de estímulos, geralmente um de cada vez, aos quais têm de ser atribuídos uma única categoria de resposta. A categoria neutra ou “não sei”
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às vezes pode ser permitida. Também utilizado, mas de forma menos frequente, é o “método de resposta livre”, em que os observadores são autorizados a escolher livremente os rótulos a aplicar. Este método permite ao observador avaliar as propriedades mostradas nas faces estímulo. As propriedades de avaliação são geralmente fornecidas pelo pesquisador, baseada em noções teóricas (Wagner, 1997).
Segundo Ekman, Friesen e Ellsworth (1982), existem critérios específicos para a escolha da circunstância em que deve ocorrer o estímulo num estudo de julgamento. Assim, de uma forma geral, os autores defendem que a circunstância deve ser relevante para a emoção, que os componentes do estímulo devem ser claros, mensuráveis e evidentes para os observadores e que, se forem utilizados estímulos artificiais, deve ser feita uma tentativa para estimar a generalização para as emoções ocorridas naturalmente.
Relativamente à seleção da amostra de participantes, os mesmos autores sublinham que asnormas devem ser as mesmas adotadas pela Psicologia Experimental Humana, que enfatiza que os estudos que incluem muitos participantes são mais confiáveis do que aqueles que utilizam apenas alguns. Contudo, salientam que cada estudo deve ser adaptado à realidade a que se refere para se respeitar a validade ecológica do mesmo. A seleção das emoções, das palavras emocionais, do tipo de linguagem e das categorias constituem uma questão fundamental para a aplicação dos estudos de julgamento. Ekman e colaboradores (1982) recomendam ao investigador utilizar uma amostra representativa das emoções e categorias de resposta ou respostas livres se se justificar. Deve também ter-se em consideração a coexistência de emoções combinadas na face, que podem influenciar a resposta do observador. Quando a pesquisa envolve questões sobre o vocabulário emocional ou implica categorias de resposta, é necessário uma atenção particular pois o uso limitado de categorias (i.e. a escolha forçada de resposta) pode determinar as conclusões formuladas. No entanto, a utilização de um vocabulário emocional pré-selecionado na tarefa permite um processo económico de comparação.
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Grande parte das evidências encontradas sobre as expressões faciais universais tem sido conseguida através de estudos de julgamento, essencialmente com a utilização de métodos de escolha forçada, por vezes com apenas duas ou três opções de resposta disponíveis (Ekman & Friesen, 1971). Contudo, os investigadores têm-se debatido com diversos problemas relacionados com a seleção das categorias de resposta, essencialmente nos estudos sobre a universalidade. Uma das dificuldades reside no facto de, a seleção de categorias conduzir o observador para o tipo de resposta que é necessária. Outro entrave apontado é que, as categorias limitam as opções dos observadores. A dificuldade que surge nos estudos de livre escolha é comum a qualquer método de investigação e está relacionada com a sumarização dos resultados e a validade das respostas obtidas. Geralmente, para se evitar este conflito, os investigadores optam pelos métodos de escolha forçada.
Rusell (1994) alerta para a forma como os estímulos devem ser apresentados. Para além da escolha seletiva entre estímulos estáticos versus dinâmicos, o investigador deve também considerar e evitar, se possível, os efeitos do contexto. Para o autor, o princípio básico é que “todos os julgamentos são relativos”. Em quase todos os estudos de julgamento sobre expressões faciais, os estímulos são apresentados dentro de um contexto de outros estímulos, o que pode contaminar as respostas dadas pelo observador. Assim, deve haver um equilíbrio na ordem de apresentação dos estímulos, de modo a que, pelo menos o contexto imediato de cada julgamento seja diferente.
2.6. Síntese conclusiva
O presente capítulo permitiu-nos constatar que existem diversas teorias desenvolvidas em torno do conceito de emoção, parecendo não haver um consenso entre os investigadores relativamente à sua definição. Isto deve-se essencialmente ao facto de se tratar de um conceito tão complexo, abrangente e multidimensional.
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Desde os estádios mais precoces, as emoções operam com o objetivo de garantir a segurança física e psicológica do ser humano, permitindo o desenvolvimento de relações ao nível da interação social. Uma das formas privilegiadas de transmitir emoções é através da expressão facial. A face possibilita um fácil e rápido acesso à informação emocional, desempenhado assim um papel fundamental na comunicação (Aguiar, 2008).
As expressões faciais da emoção constituem guias essenciais para a compreensão das experiências dos que nos rodeiam e para orientar o nosso comportamento e interação social de forma adaptativa (Marsh et al., 2007). A capacidade de reconhecer emoções faciais é fundamental na medida que constitui uma importante capacidade social e potencia o sujeito a responder de forma empática e adequada e a compreender como as suas ações afetam os outros (Montagne et al., 2005). Esta capacidade está dependente de diversas variáveis (e.g., sexo, idade e inteligência) e da existência de alterações clínicas, como as lesões cerebrais e as PEA, que alteram a capacidade de reconhecimento emocional.
Tendo em consideração a importância do reconhecimento da expressão facial da emoção e dos sinais emocionais abundantes nos contextos de interação, é importante considerar todas as lacunas e défices que possam existir e que vão afetar a comunicação e a relação entre os indivíduos. Deste modo, doravante, centramo-nos na relação existente entre o reconhecimento emocional e as PEA e nas lacunas mais significativas que estes indivíduos apresentam a este nível.
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